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Protestos na França em 2026 e o que está por trás deles

Os protestos deste fim de semana na França deixaram a prefeitura de Limoges em parte destruída pelo fogo, lojas saqueadas em várias cidades e mais de meio milhão de pessoas nas ruas num único sábado. Tudo isso tem a ver com o bolso dos franceses e com um governo que não tem maioria no Parlamento, e é sobre isso que eu quero conversar aqui.

No sábado, 17 de outubro, o Ministério do Interior contou cerca de 550 mil pessoas nas manifestações do país inteiro, enquanto a Confederação Geral do Trabalho (CGT), uma das maiores centrais sindicais francesas, falou em 800 mil. Os dois lados costumam divergir nessa conta, e a Al Jazeera, que acompanhou o ato em Paris, registrou que a grande maioria dos manifestantes seguiu a marcha em paz, mesmo com 110 mil pessoas só na capital, segundo as autoridades (fonte) (fonte).

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A violência ficou concentrada em alguns pontos, mas foi pesada. Grupos de encapuzados invadiram as prefeituras de Marselha e Lille e queimaram um escritório de turismo em Lyon. Em Limoges o fogo atingiu o telhado da prefeitura, um prédio inaugurado em 1883, e a torre desabou durante a noite. Em Bordeaux, uma multidão mascarada invadiu a residência do prefeito, que disse que até 100 lojas foram saqueadas na cidade (fonte) (fonte).

Segundo o ministro do Interior, quase 1.800 pessoas foram detidas em todo o país, 855 só em Paris, um recorde segundo a polícia, e mais de 500 policiais ficaram feridos só nesse dia. Um manifestante também morreu em Paris, depois de sofrer uma parada cardíaca durante o ato. O governo do presidente Emmanuel Macron atribui a violência à extrema esquerda, e o primeiro-ministro Sébastien Lecornu disse que grupos radicais desse campo organizaram os ataques e que delinquentes se juntaram pra saquear (fonte) (fonte).

Um detalhe importante de mencionar é que a violência dessas semanas não veio só de um lado. Num balanço divulgado antes do ato de sábado, Lecornu havia falado em 937 policiais e gendarmes (a força policial de caráter militar da França) feridos desde o começo dos protestos. Do lado dos jovens, um adolescente de 15 anos perdeu a mão esquerda por causa de uma granada atordoante da polícia, aquela que faz barulho e clarão pra dispersar a multidão. Já o Ministério da Justiça informou, num balanço de 9 de outubro, que 86% das 6.877 pessoas colocadas sob custódia policial desde o início do movimento, em setembro, eram menores de idade (fonte) (fonte).

O motivo de haver tanto menor de idade nessa história é que tudo começou numa revolta de estudantes. Em meados de setembro, num liceu (a escola de ensino médio francesa) de Créteil, na periferia de Paris, os alunos fizeram um bloqueio reclamando da falta de professores, de prédios deteriorados, de salas superlotadas e do calor dentro delas. Entraram na pauta também a insatisfação com o Parcoursup, a plataforma nacional que distribui as vagas nas universidades, e a proibição do celular nas escolas. Em poucos dias o movimento chegou a outros liceus da região de Paris e de outras cidades, e no dia 1º de outubro o Ministério da Educação contava 1.207 liceus afetados, cerca de metade dos liceus públicos do país. Esse tipo de revolta puxada por jovens apareceu em outros lugares recentemente (já escrevemos sobre os protestos da Geração Z no Nepal aqui) (fonte) (fonte).

O governo respondeu abrindo conversas com representantes de estudantes, professores e pais e retirou uma taxa de matrícula que pretendia cobrar no BTS, um curso técnico superior. O sociólogo Paolo Stuppia, professor do Sciences Po (uma instituição de ensino superior de ciência política em Paris), lembra que é comum estudantes da periferia começarem por uma pauta própria e outros liceus aderirem depois, mas aponta como novidade a entrada de alunos de escolas particulares nos bloqueios. Ele chama a atenção também pro calendário, porque num movimento de estudantes uma pausa de duas semanas nas aulas dificulta retomar a mobilização depois (fonte) (fonte).

O ato do dia 17, porém, já estava marcado antes de a revolta estudantil ganhar força, e a pauta original era o custo de vida e o preço dos combustíveis. Quem puxou a convocação foram sindicatos e antigos integrantes dos coletes amarelos (gilets jaunes, em francês), um movimento de 2018 que a gente vai ver daqui a pouco. Com a onda das escolas, a data virou ponto de encontro entre os estudantes e os movimentos que já protestavam contra a alta dos preços (fonte) (fonte).

As críticas ao que está acontecendo vêm de lados diferentes. O governo, junto com partidos de direita acusa Jean-Luc Mélenchon, líder do França Insubmissa, um partido da esquerda radical, de explorar os jovens, e Lecornu criticou os líderes políticos que usam essa raiva pra fazer a própria campanha eleitoral. Mélenchon responde que o partido apoia o movimento, mas não organiza os protestos. Os sindicatos, por sua vez, criticam a resposta do governo, que anunciou 3.000 professores substitutos, porque veem a medida como um remendo temporário, já que o substituto disponível nem sempre cobre a matéria ou a região que precisa. E existe a crítica à atuação da polícia, já que o Ministério da Educação contabilizou 248 estudantes feridos, o maior número já registrado pela pasta, e Stuppia chegou a dizer que a repressão policial é a mais intensa desde maio de 1968 (fonte) (fonte).

Esse hábito de ir pra rua vem de longe na França. Quando os estudantes subiram na coluna da Praça da Bastilha, em 8 de outubro, escolheram um lugar com peso, porque ali ficava a fortaleza tomada pela população de Paris em 14 de julho de 1789 (já contamos a história da Revolução Francesa e de outras duas revoltas da mesma época aqui). Mélenchon escreveu nas redes que a Bastilha tinha sido retomada. Foi nas assembleias daquele período, aliás, que nasceu a divisão entre esquerda e direita (já escrevemos sobre isso aqui). Stuppia compara o momento atual com maio de 1968, quando uma revolta de estudantes virou greve geral e levou o general De Gaulle a convocar eleições antecipadas em junho (fonte).

Mais perto de nós, as periferias francesas também já explodiram em 2005, depois da morte de dois jovens que se esconderam da polícia numa subestação elétrica, e em 2023, depois que um policial matou o adolescente Nahel, de 17 anos, num controle de trânsito. Nessa segunda vez, mais de 1.300 pessoas foram presas em poucas noites. Essas revoltas tiveram outra origem, a relação da polícia com os jovens das periferias, mas mostram que protesto com confronto e juventude à frente já aconteceu mais de uma vez na França recente (fonte) (fonte).

O antecedente mais parecido com o de agora, porém, é o dos coletes amarelos. Eles nasceram em novembro de 2018 por causa de um aumento de imposto sobre os combustíveis. O movimento veio sobretudo de áreas rurais e dos arredores das grandes cidades, onde o carro é indispensável pra trabalhar, de modo que cada centavo a mais no litro sai direto da renda de quem mora lá. O governo cancelou o aumento em dezembro, só que a revolta ia além do imposto. Um estudo publicado na revista Frontiers in Political Science por Michael Carpenter e Benjamin Perrier, da Universidade de Victoria, no Canadá, trata o imposto como a gota d’água. Para eles, a origem do movimento está na austeridade, no custo de vida em alta e na sensação de que as decisões eram tomadas de cima pra baixo. Os autores lembram ainda que só cerca de 19% da arrecadação do imposto foi pro fundo de transição ecológica que o governo havia prometido (fonte).

O custo de vida de hoje tem um ingrediente a mais, que é uma guerra bem longe dali pressionando o mercado de energia. Os Estados Unidos e Israel atacaram o Irã em 28 de fevereiro, e o Irã respondeu restringindo drasticamente a navegação pelo Estreito de Ormuz, uma passagem vital para o petróleo e o gás do Golfo Pérsico, por onde passa cerca de um quarto do petróleo transportado por mar no mundo. O preço do petróleo sobe quando a oferta cai desse jeito (já escrevemos sobre os choques do petróleo e o Estreito de Ormuz aqui e sobre como a OPEP e o mercado definem o preço do petróleo aqui). Na França, o Instituto Nacional de Estatística e Estudos Econômicos (Insee) registrou inflação de 3,1% em setembro, bem acima dos 2,4% de agosto, com a energia 21,3% mais cara do que um ano antes. Não dá pra atribuir esses números inteiramente à guerra, mas eles mostram a pressão sobre o bolso (fonte) (fonte).

Ainda sobre o bolso do francês, os números oficiais contam duas histórias que parecem contraditórias. O poder de compra agregado das famílias, que olha a renda de todo mundo junto, subiu cerca de 13% entre 2017 e 2024. Já o salário médio real, descontada a inflação, estava cerca de 3% abaixo do início de 2017 no terceiro trimestre de 2025, segundo um relatório da Assembleia Nacional com dados do Banco da França. A renda total cresceu, mas o salário médio de quem trabalha perdeu valor, e isso ajuda a entender por que uma melhora no número geral não foi sentida por todo mundo. Em 2026, com o PIB (tudo o que o país produz num ano) parado no segundo trimestre, o poder de compra por unidade de consumo (medida que ajusta a renda ao tamanho da família) caiu 0,6%, segundo o Insee (fonte) (fonte).

O outro lado dessa história é um Estado apertado. A dívida pública francesa chegou a 119% do PIB no fim de junho, segundo o Insee, e a Al Jazeera registra que o custo de o governo se financiar está no nível mais alto em mais de 20 anos (fonte) (fonte).

Um detalhe importante é como essa dívida pesa no orçamento. A Cour des comptes, que é o tribunal de contas francês, explicou ao Senado em 30 de junho que o problema piora porque a dívida antiga vai sendo renovada com juros bem mais altos. O título de dez anos pagou em média 3,35% ao ano em 2025, contra juros zerados em 2021. Com isso, os juros chegam a 2,5% do PIB em 2026, quase metade do déficit, que o governo prevê em 5,4% do PIB pra este ano (déficit é quando o Estado gasta mais do que arrecada num ano e a diferença vira dívida). A Corte também lembra que a guerra no Irã e a desaceleração da economia reduzem a arrecadação (fonte) (fonte) (fonte).

Juntando as duas pontas, o bolso apertado da população e o Estado sem folga pra responder, fica mais fácil entender uma fala do pesquisador Bruno Cautrès, de um centro de pesquisas políticas de Paris, à Al Jazeera. Segundo ele, os franceses estão se perguntando pra onde o país está indo e como vão sair dessa crise orçamentária. O estudante que reclama da falta de professor e o motorista que reclama do diesel falam de problemas diferentes, mas os dois cobram respostas do mesmo Estado (fonte).

Pra gente entender como o governo chegou tão enfraquecido até aqui, precisa voltar um pouco na Previdência, que foi o grande tema das ruas em 2023. Macron foi reeleito presidente em abril de 2022, mas logo depois o grupo dele perdeu a maioria na Assembleia Nacional (a câmara baixa do Parlamento), porque fez 245 cadeiras, abaixo das 289 necessárias numa casa de 577 deputados. Mesmo assim, em 2023 o governo elevou a idade mínima de aposentadoria de 62 pra 64 anos, uma reforma que ele havia prometido fazer. A mobilização contra a medida bateu recordes, com 1,28 milhão de pessoas nas ruas em 7 de março segundo o Ministério do Interior e 3,5 milhões segundo a CGT (fonte) (fonte) (fonte).

Sem maioria garantida, o governo percebeu que perderia a votação no Parlamento e usou o artigo 49.3 da Constituição. Esse artigo permite ao governo aprovar sem votação no plenário um projeto de lei de financiamento da Seguridade Social (a parte do orçamento que cobre saúde, aposentadorias e benefícios familiares), como era o caso. A exceção é se os deputados apresentarem em até 24 horas uma moção de censura, que é um voto pra derrubar o governo. A decisão provocou revolta tanto entre os deputados, que vaiaram a primeira-ministra, quanto nas ruas (fonte) (fonte) (fonte) (fonte).

O jogo mudou em 2024. Em 9 de junho, o partido de Macron perdeu feio as eleições europeias pra Reunião Nacional, o partido de direita de Marine Le Pen, que fez 31,5% dos votos contra 15,2%, e ele reagiu dissolvendo a Assembleia Nacional, o que encerra o mandato dos deputados. Com isso convocou eleições antecipadas. O resultado foi um plenário dividido em três blocos, com a esquerda unida em primeiro, o grupo de Macron em segundo e a Reunião Nacional em terceiro, e nenhum deles chegou aos 289 votos necessários pra ter maioria (fonte) (fonte).

Com a Assembleia dividida desse jeito, os primeiros-ministros passaram a cair um atrás do outro. O primeiro foi Michel Barnier, derrubado por uma moção de censura em 4 de dezembro de 2024, com 331 votos, algo que só tinha acontecido uma vez antes, em 1962. Em seguida, François Bayrou perdeu um voto de confiança em setembro de 2025, depois de propor cortes de gastos, e Macron nomeou Lecornu no dia seguinte. A Associated Press classificou esse ritmo de trocas como um recorde na história da Quinta República, que é o regime em vigor na França desde 1958. Isso se explica pelo desenho do sistema francês, em que o presidente e o primeiro-ministro dividem o poder. Só o primeiro-ministro depende da confiança dos deputados pra continuar no cargo, embora na prática ele responda muito ao presidente (já escrevemos sobre esse sistema, o semipresidencialismo, aqui) (fonte) (fonte) (fonte).

Pra sobreviver, Lecornu cedeu na Previdência e suspendeu a reforma de 2023 até depois da eleição presidencial de 2027. Com isso, os socialistas, que são um partido de centro-esquerda, decidiram não apoiar as moções de censura apresentadas pela esquerda radical e pela direita, e elas ficaram abaixo dos 289 votos necessários. Em fevereiro de 2026 ele aprovou o orçamento do ano usando de novo o 49.3, e outras moções de censura fracassaram. Por isso a reforma, que foi o centro das ruas em 2023, não é o centro da pauta de agora, só que a suspensão foi parte do preço que o governo pagou pra ter orçamento (fonte) (fonte) (fonte).

Tudo isso acontece a cerca de seis meses da eleição presidencial, cujo primeiro turno está marcado para 18 de abril de 2027. Macron não pode se candidatar de novo, porque a Constituição proíbe mais de dois mandatos seguidos, então a disputa está aberta (fonte).

Marine Le Pen, que lidera as pesquisas, foi condenada por desvio de dinheiro público do Parlamento Europeu. Em julho de 2026 o tribunal de apelação manteve a condenação, mas fixou a inelegibilidade (a proibição de se candidatar) em 45 meses, dos quais 30 com sursis (ou seja, suspensos), e considerou cumpridos os 15 meses restantes. Com isso ela segue podendo concorrer, e anunciou a candidatura naquele mesmo dia. Ela recorreu à Corte de Cassação, a última instância, que disse poder decidir até o início de abril de 2027, só duas semanas antes da votação. Se ela fosse barrada, o substituto natural seria Jordan Bardella, presidente da Reunião Nacional (fonte) (fonte).

Numa pesquisa do instituto Ifop, feita entre 25 e 29 de setembro e divulgada pelo Euronews em 11 de outubro, Le Pen aparece na frente no primeiro turno, com cerca de um terço das intenções de voto, contra 15% do ex-primeiro-ministro de Macron, Édouard Philippe, e 14% de Mélenchon. Os percentuais variam conforme os candidatos incluídos na simulação. No segundo turno, o cenário mais citado é Le Pen contra Philippe, embora outras simulações coloquem Le Pen contra Mélenchon (fonte).

Daqui pra frente, o governo precisa aprovar o orçamento de 2027 num Parlamento sem maioria, com a meta de reduzir o déficit pra 5% do PIB. A CGT já convocou greves em todo o país pra 5 de novembro, contra os orçamentos do Estado e da Seguridade Social. Como vimos com o Stuppia, uma pausa de duas semanas nas aulas pode esfriar o movimento dos estudantes, e nesse caso quem carrega a mobilização são os sindicatos e a discussão do orçamento (fonte) (fonte) (fonte).

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