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Quem é dono das terras raras do Brasil?

Durante a campanha eleitoral deste ano, as terras raras apareceram nos discursos dos dois lados do espectro político, de quem defende a soberania sobre os recursos do país a quem defende uma aproximação maior com os Estados Unidos, e esse é um tema que custa caro para todo mundo, porque quem fala em soberania precisa explicar por que a única mina em operação sempre teve dono estrangeiro, e quem defende a parceria com os americanos precisa explicar como o minério do subsolo continuará sendo da União. Foi nesse clima que, no dia 3 de setembro, a americana USA Rare Earth concluiu a compra da Serra Verde, mineradora de Minaçu, em Goiás, que é a única do Brasil a produzir terras raras em escala comercial. Treze dias depois, em 16 de setembro, o governo sancionou a lei que institui uma política nacional para minerais críticos e cria um conselho com competência para homologar (isto é, dar o aval formal) determinadas operações de empresas titulares de direitos minerários desses minerais, como as mudanças de controle, ou seja, decidir se quem manda numa mineradora pode mudar de mãos, e o decreto que detalha o funcionamento do conselho saiu no mesmo dia.

Juridicamente, o minério no subsolo é da União. Só que a única mina que produz sempre teve dono estrangeiro, quase metade dos pedidos para pesquisar novas áreas vem de empresas com capital de fora e o refino desse material no mundo está quase todo na China. Meio confuso, não acha?

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Terras raras são um grupo de elementos químicos usados sobretudo em ímãs potentes, que ficam dentro de motores de carro elétrico, turbinas eólicas e equipamentos militares. O nome engana, porque, nas palavras de Simon Rosental no livro do Centro de Tecnologia Mineral (CETEM), elas não são nem “terras” e muito menos “raras”, e o difícil mesmo é separar e refinar esses elementos, que aparecem misturados e são quimicamente muito parecidos entre si. Nessa etapa a China respondeu, em 2024, por cerca de 91% do refino mundial das terras raras usadas em ímãs (neodímio, praseodímio, disprósio e térbio), segundo a Agência Internacional de Energia (International Energy Agency, IEA), resultado, segundo o Centro de Gestão e Estudos Estratégicos (CGEE), de décadas de política industrial. A cadeia tem etapas separadas, porque depois da mina vem o concentrado (o material já separado da rocha, mas com os elementos ainda misturados), depois a separação em cada elemento, depois os metais e as ligas e só então os ímãs, e a China domina também a fabricação desses ímãs (fonte, p. 817, fonte, p. 9, 10 e 16, fonte, p. 26 e 33, fonte).

Entre esses elementos, o disprósio e o térbio, as chamadas terras raras pesadas, ajudam o ímã a resistir ao calor e estão entre os mais difíceis de obter em escala comercial fora da China. Em abril de 2025, a China endureceu os controles de exportação sobre sete elementos de terras raras médias e pesadas, entre eles o disprósio e o térbio, e sobre produtos relacionados, e desde então os Estados Unidos e seus aliados aceleraram a busca por fontes fora do país, o que ajuda a explicar o interesse crescente pelo Brasil (fonte, p. 18 e 27, fonte, fonte, fonte).

Pela Constituição, o minério que está no chão pertence à União, que autoriza a pesquisa e concede o direito de lavra, de modo que quem recebe a concessão passa a ser dono apenas do que extrair. A empresa precisa ser constituída sob as leis brasileiras e ter sede e administração no país, só que, desde a Emenda Constitucional 6, de 1995, a Constituição deixou de exigir que o capital seja brasileiro, e por isso uma companhia controlada por investidores estrangeiros pode obter direitos minerários, desde que cumpra os requisitos legais. Ao comentar a venda da Serra Verde, o diretor-geral da Agência Nacional de Mineração (ANM) destacou que a empresa segue constituída pela lei brasileira e com sede no país, mesmo com controle americano (fonte, fonte, fonte).

O Brasil tem a segunda maior reserva de terras raras do mundo, atrás da China, segundo o Serviço Geológico dos Estados Unidos (U.S. Geological Survey, USGS). Reserva é a parte de um depósito cuja extração é viável nas condições de preço, tecnologia e regras de hoje, e por isso ter minério no subsolo está longe de significar produção em escala. O Brasil extraiu em 2025 cerca de 2.000 toneladas (em óxido de terras raras equivalente, a unidade que o USGS usa), contra 270.000 da China, e ainda não tem separação química em escala comercial, só iniciativas em escala-piloto, tanto que o CGEE, com dados da IEA, atribui ao país 0% do refino mundial em 2024. O país, porém, já produziu compostos de terras raras, de menor valor, a partir da monazita (um mineral das areias do litoral), e a usina de São Paulo, que funcionou por mais de quatro décadas, foi desativada em 1992, quando, segundo Simon Rosental, ex-diretor industrial da Nuclemon, a cidade já tinha crescido em volta da fábrica e os subprodutos radioativos tornaram a convivência incompatível. A produção de compostos só foi retomada em 2004, em Caldas (MG), enquanto a China, desde o fim dos anos 1980, oferecia o produto a preços bem inferiores (fonte, fonte, p. 23 e 32, fonte, p. 89, fonte, p. 818, 832 e 839, fonte).

Quem está atrás desse minério aparece nos pedidos de autorização para pesquisar. Uma análise da Associated Press e da Repórter Brasil sobre os registros da ANM até junho de 2026 mostrou que 42% dos pedidos de pesquisa de terras raras vieram de subsidiárias de mineradoras estrangeiras ou de empresas com capital de fora, e nenhum de empresa chinesa (já falamos sobre a disputa entre EUA e China pelo investimento no Brasil aqui). Esses pedidos são só o primeiro passo, e entre ele e a produção comercial costumam passar de cinco a dez anos. Nos cinco projetos mais avançados do país o capital predominante também é de fora, e o relatório que o Centro Brasileiro de Relações Internacionais (CEBRI) fez para o Ministério de Minas e Energia (MME) liga isso ao custo do dinheiro no Brasil, já que juro alto e câmbio instável deixam o capital local menos disposto a bancar projetos caros e arriscados (já escrevemos sobre o que o juro alto trava na economia aqui) (fonte, fonte, fonte, p. 87, 88 e 93).

A única que passou dessa fase foi a Serra Verde, que começou a produzir comercialmente em 2024 um carbonato misto de terras raras (MREC, na sigla em inglês), um produto já processado que reúne vários elementos, ainda sem separá-los individualmente. O fundo Denham Capital diz ter descoberto o depósito há mais de 15 anos e, segundo a USA Rare Earth, o desenvolvimento da mina de Pela Ema, em Minaçu, envolveu mais de US$ 1,1 bilhão em investimentos, com a expectativa de que ela responda por mais da metade da oferta de terras raras pesadas fora da China. A empresa que opera a mina é brasileira, mas o grupo que a controla, o SVRE Holdings, é registrado nas Ilhas Virgens Britânicas (território britânico no Caribe) e pertencia a fundos de private equity (fundos que compram participação em empresas fechadas para depois revendê-las), como o próprio Denham e a Vision Blue, de modo que, como resumiu o Poder360, essa mina nunca foi brasileira, no sentido de que, embora esteja no Brasil e seja operada por uma empresa constituída no país, seu controle nunca esteve com investidores brasileiros (fonte, p. 12 e 90, fonte, fonte, fonte, fonte, fonte).

Quem comprou foi a USA Rare Earth, empresa americana listada na Nasdaq, com sede em Oklahoma, que está montando uma cadeia que vai da mina ao ímã. O acordo de compra, de cerca de US$ 2,8 bilhões, foi assinado em abril e a aquisição foi concluída em 3 de setembro. O governo americano também apoia a compradora. Em janeiro, ela anunciou uma carta de intenção com o Departamento de Comércio (U.S. Department of Commerce), e os acordos definitivos foram assinados em 3 de junho, com até US$ 277 milhões em recursos federais e até US$ 1,3 bilhão em empréstimos garantidos pelo Departamento, tomados junto ao Federal Financing Bank (corporação pública federal, supervisionada pelo secretário do Tesouro, que empresta a quem tem garantia do governo). Esse dinheiro, liberado conforme metas, financia projetos nos Estados Unidos, como a mina de Round Top, no Texas, e a fábrica de ímãs de Stillwater, e não a compra da Serra Verde. Em contrapartida, o governo já recebeu 16,1 milhões de ações da empresa e um warrant (direito de comprar até 17,6 milhões de ações a um preço combinado), e passou a deter participação acionária nela, e até 30 de junho a companhia informava não ter recebido desembolsos nem sacado os empréstimos (fonte, fonte, fonte, fonte).

O apoio à própria Serra Verde veio por outro caminho. A Corporação Financeira de Desenvolvimento Internacional dos EUA (U.S. International Development Finance Corporation, DFC), agência do governo americano que financia projetos no exterior, tem um contrato de financiamento de até US$ 565 milhões com a mineradora e também recebeu contrapartida na venda, porque detinha warrants da Serra Verde, convertidos em parte do pagamento (fonte).

Até aqui, o que a mina produzia seguia em boa parte para a China, porque, quando ela foi montada, não existia outro lugar para processar esse material, e a Serra Verde assinou contratos de dez anos com companhias chinesas, que depois encurtou para terminarem no fim de 2026. Junto com o anúncio da venda, veio um contrato de 15 anos para vender toda a produção da fase inicial a uma empresa criada para isso e capitalizada por agências do governo americano e por investidores privados, com preços mínimos garantidos para as terras raras magnéticas, e esse contrato é de compra do que a mina produzir, e não de compra da mina (fonte, fonte, fonte).

Do lado brasileiro, a compra não precisou de aval prévio da ANM, porque ninguém estava transferindo o título minerário (o documento que dá à empresa o direito de minerar uma área) e o que mudava era só quem controlava a empresa que o detém. O Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), que cuida da concorrência, abriu em maio uma apuração para saber se a operação deveria ter sido notificada a ele, e o partido Rede foi ao Supremo Tribunal Federal pedir a suspensão da troca de controle, mas a venda foi concluída em setembro (fonte, fonte, fonte).

Foi nesse vácuo que o Congresso aprovou o marco legal dos minerais críticos (o conjunto de regras do setor), sancionado em 16 de setembro como a Lei 15.506/2026, que cria o Conselho Nacional para Industrialização de Minerais Críticos e Estratégicos, o Cimce, ligado à Presidência da República. A lei não proíbe o capital estrangeiro, e o que ela cria é um mecanismo de triagem e homologação para determinadas operações, entre elas mudanças de controle de empresas titulares de direitos minerários, situações que envolvam participação relevante ou influência significativa de empresas estrangeiras e contratos internacionais de fornecimento que possam afetar a segurança econômica ou geopolítica do país. O decreto do mesmo dia detalhou o funcionamento do conselho e deu ao seu comitê executivo, coordenado pelo Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), a decisão sobre os casos concretos, podendo aprovar a operação, com ou sem condições, ou negar o aval. A intenção, dita pelo presidente Lula em agosto, é que o processamento aconteça no Brasil, e por isso a lei prevê também crédito fiscal, disputado em procedimento concorrencial, para quem investir em beneficiamento e transformação mineral no país, e autoriza um fundo garantidor de natureza privada, com participação da União (fonte, art. 3º, 9º, 17 e 18, fonte).

Um detalhe importante de mencionar é que a venda da Serra Verde terminou antes de a lei existir, e a lei não prevê expressamente como tratar operações concluídas antes de entrar em vigor. A lei remete os detalhes a regulamento e, junto com o decreto, ainda não diz o que caracteriza uma participação relevante de empresa estrangeira nem dá prazo para o conselho decidir cada caso, e os advogados apontam que isso dá a ele ampla liberdade para decidir caso a caso (fonte, art. 3º, § 2º e 41, fonte, fonte).

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