Você provavelmente sabe que o Vietnã teve uma guerra brutal com os Estados Unidos. Mas o que quase ninguém conta é o que aconteceu depois. Em 1986 o país estava quebrado, com inflação de 700% ao ano e gente passando fome no campo. Hoje é o 32º maior PIB do mundo, segunda maior exportadora de smartphones do planeta e tirou 40 milhões de pessoas da pobreza em menos de quarenta anos. Tudo isso sem petróleo, sem ser democracia e partindo praticamente do zero.

1986
O ponto de virada se chama “Đổi Mới” que em vietnamita quer dizer alguma coisa como “renovação”. Em 1986, depois de um período de colapso econômico com inflação de 700%, agricultores passando fome e uma economia mantida em pé por 4 milhões de dólares por dia em ajuda soviética, o Vietnã lançou uma campanha de renovação política e econômica chamada Doi Moi. A ideia central era abrir a economia, deixar de depender do planejamento central soviético e atrair investimento estrangeiro. Tudo isso sem abandonar o controle do Partido Comunista. Um capitalismo sob tutela, na prática. (fonte)
A reforma começou pelo lugar mais sensível, que era o campo. As fazendas coletivas foram dissolvidas e as famílias receberam o direito de uso da terra. Com isso, a produção de arroz disparou e o país, que importava comida, virou um dos maiores exportadores do mundo desse grão. Em paralelo, o governo desvalorizou a moeda, cortou o déficit fiscal, liberalizou os preços e começou a permitir que empresas privadas existissem de verdade. Os subsídios às empresas estatais foram reduzidos e o foco passou a ser exportação. Entre 1986 e 2005, a participação da agricultura no PIB caiu de 38% para 19%, enquanto a indústria saltou de 2% para 38%. (fonte)
Abertura
Aqui a história fica mais geopolítica. O Vietnã passou os anos 90 fazendo uma costura diplomática quase obsessiva. Entrou na ASEAN em 1995, normalizou relações com os Estados Unidos no mesmo ano, assinou acordo bilateral de comércio com os americanos em 2000 e entrou na OMC em 2007. Esse último ponto foi o divisor de águas. O Vietnã hoje tem 17 acordos de livre comércio bilaterais e plurilaterais, com mais três em negociação. Os acordos cobrem 53 países que representam 87% do PIB mundial e cortaram a tarifa média aplicada a manufaturados de 16,6% para 1,1%. (fonte)
O resultado dessa abertura é absurdo quando a gente coloca em números. O fluxo total de comércio passou de 19% do PIB em 1988 para 184% em 2022, fazendo do Vietnã a economia mais dependente de comércio da Ásia depois de Singapura. A participação do país no comércio mundial subiu de 0,1% em 1996 para 1,5% em 2023. Pra comparar, o Brasil tem comércio em torno de 40% do PIB. (fonte)
A localização do Vietnã no mapa é um dos fatores que mais explica o interesse das multinacionais, especialmente a partir de 2018. Quando Donald Trump iniciou a guerra comercial com a China e os Estados Unidos começaram a taxar pesadamente produtos fabricados em território chinês, empresas do mundo inteiro precisaram encontrar uma alternativa rápida. O Vietnã estava do lado. Literalmente. Faz fronteira com a China ao norte, tem acesso ao Mar do Sul da China, portos funcionando e já tinha uma base industrial montada. Pra uma empresa que queria sair da China sem perder a proximidade com os fornecedores chineses de componentes, o Vietnã era a resposta mais óbvia. Esse movimento ficou conhecido como “China plus one”, a estratégia de manter parte da produção na China mas diversificar pelo menos uma parte pra outro país. O Vietnã foi o principal beneficiário dessa lógica na Ásia. (fonte)
Coreanos, japoneses e americanos
A coisa mais interessante do modelo vietnamita é como o país transformou capital estrangeiro em parque industrial real. O grande investidor não é nem chinês nem americano, é a Coreia do Sul. Até o fim de 2024, empresas coreanas tinham investido mais de 92 bilhões de dólares em mais de 10.100 projetos no Vietnã, o que representa cerca de 18% do estoque total de investimento direto estrangeiro registrado no país. (fonte)
E dentro desse pacote coreano tem uma empresa que muda tudo, a Samsung. Em 2024, as seis fábricas da Samsung no Vietnã registraram receita de 62,5 bilhões de dólares e exportações de 54,4 bilhões. A Samsung emprega cerca de 87 mil pessoas no Vietnã e até o fim de 2024 tinha investido cerca de 23,2 bilhões de dólares no país, sendo o maior investidor estrangeiro direto. A receita da Samsung no Vietnã equivaleu a 13% do PIB do país em 2024. Pra ter ideia do que significa, é como se uma única empresa estrangeira respondesse, sozinha, por mais de 13% de tudo que o Brasil produz. (fonte)
A Samsung não está sozinha. A indústria eletrônica do Vietnã virou um caso de sucesso na atração de investimento estrangeiro. Multinacionais como Samsung, Intel e LG estão sempre entre os maiores investidores. Empresas estrangeiras respondem por cerca de 98% das exportações de eletrônicos, que chegaram a 126,5 bilhões de dólares em 2024, ou um terço de toda a receita de exportação do país. A Foxconn e a Pegatron, taiwanesas, montaram clusters de fornecedores em Bac Giang e Hai Phong. A Intel tem uma das maiores plantas de teste e montagem de chips do mundo em Ho Chi Minh. (fonte)
O Japão entra nessa história por um caminho diferente. Em vez de megafábricas, os japoneses apostaram em projetos menores e mais sofisticados, com forte componente de assistência oficial ao desenvolvimento, o que no jargão internacional se chama ODA. O acúmulo de investimento japonês no Vietnã chegou a 74 bilhões de dólares, com foco em automobilística, infraestrutura e fornecedores industriais de médio porte. É um capital considerado de maior qualidade tecnológica, mas que gera menos empregos por dólar investido que o coreano. Já os Estados Unidos aparecem menos como investidor direto e mais como destino de exportação e como âncora diplomática. A normalização com Washington em 1995 foi o que abriu as portas do sistema financeiro internacional para o Vietnã e sinalizou ao resto do mundo que o país era um parceiro confiável. (fonte)
Parques industriais
Pra que tudo isso funcionasse, o governo vietnamita precisou criar a infraestrutura física. Aí entra o ponto que mais interessa quem analisa políticas públicas. Boa parte do investimento estrangeiro foi para mais de 300 zonas econômicas especiais espalhadas pelo país, a maioria parques industriais focados em manufatura e processamento. (fonte)
A lógica desses parques é parecida com a chinesa, mas com um detalhe importante. Para novos projetos em zonas industriais, zonas de alta tecnologia e regiões com situação socioeconômica desafiadora, o imposto de renda corporativo preferencial foi fixado em 10% por 15 anos. Além disso, o governo isenta importação de insumos, oferece aluguel de terra subsidiado e depreciação acelerada. Mas o que diferencia é a coordenação. O Yen Phong Industrial Park é só para alta tecnologia, eletrônicos e alimentos. Phong Dien Industrial Park é para vestuário e têxteis. Phu Ha Industrial Park é para vestuário e eletrônicos. Cada parque tem vocação definida, e quem investe sabe onde encontrar o tipo de fornecedor e o tipo de mão de obra que precisa. (fonte)
Educação básica
Agora chegamos na parte que pra mim é a mais importante e que costuma ficar de fora das análises. O Vietnã investiu pesado em educação básica e em formação técnica, e isso é o que sustenta o resto. O Vietnã alcançou educação primária universal no início dos anos 2000. (fonte)
A taxa bruta de matrícula no ensino superior, que era de 3% em 1995, chegou a cerca de 30% em 2019. Não é número de país rico, mas a velocidade do salto é o que importa. Em paralelo, o país construiu uma rede gigantesca de educação vocacional. Em dezembro de 2025, o parlamento aprovou uma nova Lei de Educação Vocacional que entrou em vigor em janeiro de 2026, ampliando os tipos de programa e tentando aproximar ainda mais a formação técnica do mercado. (fonte)
Essa relação entre qualificação e tipo de indústria é justamente o que explica boa parte do sucesso. Em estudos econométricos sobre as zonas econômicas especiais vietnamitas, os efeitos no mercado de trabalho variam muito conforme a escolaridade. A maioria dos empregos diretos criados pelas SEZs são ocupações industriais, como operadores de máquina, montadores e empacotadores, que exigem habilidades de nível médio. Indivíduos com ensino primário, secundário ou vocacional são os que mais se beneficiam. Ou seja, o Vietnã acertou o nível de qualificação da mão de obra com o tipo de indústria que estava atraindo. Não adianta ter um monte de doutor em filosofia se a fábrica que chega precisa de técnico em eletrônica. (fonte)
A Truong Hai Group, conglomerado vietnamita, criou inclusive uma faculdade vocacional dentro da Chu Lai Economic Zone para formar e contratar trabalhadores diretamente para a linha de produção. Isso é uma coisa que dá pra copiar e que a gente quase não vê no Brasil. As universidades coreanas e japonesas têm parcerias diretas com a Hanoi University of Science and Technology, que oferece o programa ELITECH com 32 cursos, sendo 19 inteiramente em inglês e sete em cooperação com universidades dos Estados Unidos, Reino Unido, Austrália, Alemanha e Japão. (fonte)
Os números do desenvolvimento
Agora os dados que importam pra ver se isso tudo vingou na vida das pessoas. O PIB per capita do Vietnã saltou de menos de 700 dólares em 1986 para quase 4.500 em 2023. A taxa de pobreza extrema, considerando renda inferior a 3,65 dólares por dia, despencou de 14% em 2010 para menos de 4% em 2023. A mortalidade infantil caiu de 32,6 por mil nascidos vivos em 1993 para 12,1 em 2023, e a expectativa de vida subiu de 70,5 anos em 1990 para 74,5 em 2023. Em 2023, 93% da população estava coberta pelo seguro nacional de saúde. (fonte)
A jornada do Vietnã, do baixo para o status de renda média, tirou 40 milhões de pessoas da pobreza entre 1993 e 2014. Nesse período a taxa de pobreza caiu de quase 60% para 14%. O crescimento per capita desde 1990 foi o segundo maior do mundo, perdendo só para a China, com média de 5,6% ao ano até 2017. (fonte)
Em 2025 o PIB real cresceu 8,02%, com inflação em 3,31% e déficit em torno de 3,8% do PIB. O comércio total passou de 930 bilhões de dólares com superávit de 20 bilhões. A indústria e a construção cresceram 8,95%, sendo a manufatura sozinha responsável por uma alta de 9,97%. O Vietnã recebeu 21,2 milhões de turistas internacionais em 2025, mostrando que o país não desacelerou. (fonte)
No IDH, a história é coerente com tudo isso. O IDH do Vietnã em 2023 ficou em 0,766, posicionando o país na categoria de Alto Desenvolvimento Humano, no 93º lugar entre 193 países. Entre 1990 e 2023, o IDH vietnamita passou de 0,499 para 0,766, uma melhora de 53,5%, uma das maiores acelerações do leste asiático no período. Quando você decompõe o índice, fica claro que o motor do salto foi educação e saúde, não só renda. O índice de educação chegou a 0,82, o mais alto dos três indicadores do país, mais alto até que o IDH em si. (fonte)
A correlação entre formação técnica e crescimento é justamente essa. O país conseguiu colocar gente formada para trabalhar em fábricas modernas, e isso puxou produtividade e renda em paralelo, em vez de criar uma elite educada desconectada de uma economia primária, que é um problema clássico de muitos países em desenvolvimento.
Vale dizer que nem tudo é perfeito. Quando o IDH do Vietnã é ajustado pela desigualdade, ele cai para 0,641, uma perda de 16,3% por causa de disparidades em saúde, educação e renda. A diferença entre vietnamitas da etnia Kinh, que é a majoritária, e as minorias étnicas é gigantesca. Em 2015, 50% da população das minorias étnicas estava abaixo da linha de pobreza, contra 10% dos Kinh. E a divisão entre norte e sul, entre zona urbana e zona rural, continua sendo uma das maiores fontes de desigualdade do país. Hanói e Ho Chi Minh City concentram renda, infraestrutura e oportunidade de forma desproporcional em relação ao interior. (fonte)
Tem outro problema estrutural que pesquisadores vietnamitas já identificaram. Pesquisa recente da RMIT University Vietnam mostra um persistente gap tecnológico entre empresas domésticas e empresas estrangeiras do mesmo setor, sinalizando transferência de tecnologia limitada. Em outras palavras, a Samsung produz no Vietnã, mas a tecnologia continua sendo basicamente coreana. As empresas locais montam, mas não desenvolvem. Apesar dos desembolsos recordes, apenas cerca de 14 a 15% das empresas locais estão integradas às cadeias de fornecimento das multinacionais. Isso significa que o país ainda é muito dependente do capital e da tecnologia estrangeiros pra sustentar o crescimento, o que é uma vulnerabilidade real no longo prazo. (fonte)
As empresas estatais são outro ponto crítico. O Partido Comunista nunca abriu mão do controle de setores estratégicos, e boa parte dessas empresas opera com ineficiência crônica, sustentada por subsídios e proteção regulatória. A corrupção é endêmica nesse ambiente. O Vietnã ocupa a posição 83 entre 180 países no Índice de Percepção de Corrupção da Transparência Internacional, número que coloca o país numa situação pior que o Brasil, que aparece na posição 107 mas com trajetória mais clara de reformas institucionais. O problema não é só moral. Corrupção e ineficiência estatal encarecem o custo de fazer negócio e afastam o tipo de investidor de maior valor agregado que o país precisa atrair pra subir na cadeia produtiva. (fonte)
E tem a questão que costuma ser ignorada nas análises econômicas, o regime. O Vietnã é um estado de partido único. Não há eleições livres, a imprensa é controlada pelo governo, a internet é censurada e ativistas, jornalistas e dissidentes são presos regularmente. A estabilidade política que atrai investidores é real, mas tem um preço que não aparece nos gráficos de PIB. O país está entre os mais repressivos do sudeste asiático em termos de liberdade de expressão e direitos civis, segundo organizações como a Freedom House e a Repórteres Sem Fronteiras. Pra quem analisa desenvolvimento econômico de forma honesta, isso precisa estar na conta. O crescimento vietnamita é inegável e notável. Mas foi construído num ambiente onde a população não tem voz política real sobre os rumos do país. (fonte)
Por isso o governo lançou em 2025 o que está sendo chamado de Doi Moi 2.0. A mudança mais fundamental é o deslocamento para fazer do setor privado o motor mais importante da economia vietnamita, algo que não foi feito ao longo da história recente do país desde o Doi Moi original. Exemplos de reforma incluem redução significativa do setor público, fusão de províncias, redução de 30% na burocracia, reinvestimento das economias em ciência, educação pública e infraestrutura, e desenvolvimento de 20 grandes empresas nacionais conectadas às cadeias globais de valor. A meta é alcançar status de alta renda até 2045. (fonte)
Leitura aprofundada
Vietnam Briefing, Economy 2025 (dados GSO)
IIETA, Human Development in Vietnam: A Systematic Review (estudo acadêmico)