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Como funciona o sistema político de Israel?

Se você acompanhou a notícia sobre a eleição em Israel e ficou sem entender por que o partido mais votado ainda não sabe se vai governar, a confusão é bem normal, porque as regras de lá são muito diferentes das nossas. Aqui no Brasil a gente está acostumado com uma lógica direta, em que o candidato mais votado assume o cargo. Em Israel o eleitor nem vota para primeiro-ministro, vota só em partidos para o Parlamento, e quem vai governar acaba sendo definido numa negociação que acontece depois da eleição.

Foi o que aconteceu agora. Israel foi às urnas em 27 de outubro e, mais de uma semana depois, ainda ninguém sabe quem vai governar o país. O Likud (הליכוד), partido do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, foi o mais votado, só que nem o grupo de partidos que o apoia nem a oposição chegou aos 61 deputados que formam a maioria no Parlamento, a metade mais um das 120 cadeiras. Agora o presidente Isaac Herzog está ouvindo os partidos, um por um, para decidir quem vai tentar montar o governo.

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Antes de entrar no funcionamento do sistema, vale responder uma dúvida que aparece muito, que é se Israel é mesmo a única democracia do Oriente Médio. Segundo o Democracy Index da Economist Intelligence Unit, braço de pesquisa da revista The Economist, sim. Israel é o único país da região classificado como democracia, ainda que imperfeita (flawed democracy), com nota 7,80 de 10 em 2024. A Freedom House, organização americana que mede direitos políticos e liberdades civis, também o classifica como “livre”, com 73 pontos de 100 em 2026, embora use critérios diferentes. Isso não quer dizer que Israel seja o único a fazer eleições, porque o Líbano também faz, só que a Freedom House o classifica como “parcialmente livre”. E a nota de Israel tem ressalvas, como a pressão política sobre o Judiciário, além de não incluir a Cisjordânia e a Faixa de Gaza, que a organização avalia à parte e classifica como “não livres” (fonte, fonte, fonte).

Quanto ao funcionamento, Israel é uma democracia parlamentar, o que significa que o eleitor vota só para o Parlamento e é o Parlamento que dá origem ao governo. Ele se chama Knesset (הכנסת), equivale ao nosso Congresso, só que com uma casa única, e tem 120 cadeiras. Israel também não tem estados com assembleias próprias, como o Brasil, então toda a representação nacional fica concentrada nele. O primeiro-ministro precisa ser deputado e só governa enquanto tiver a confiança da maioria dessa casa, que também pode derrubá-lo. O presidente tem um papel mais simbólico, com uma exceção importante depois das eleições, que é indicar quem tenta formar o governo (já escrevemos sobre um sistema que divide o poder entre presidente e primeiro-ministro, o semipresidencialismo, aqui). Essas regras estão nas Leis Básicas, que fazem o papel de Constituição, porque Israel nunca aprovou uma Constituição única e decidiu escrevê-la aos poucos, por capítulos (fonte, fonte, fonte).

Esse modelo, em que o Parlamento dá origem ao governo, já foi mudado uma vez. Em 1992 Israel aprovou a eleição direta do primeiro-ministro, usada em 1996 e 1999, e também numa eleição extra, só para o cargo, em 2001, com a ideia de dar mais estabilidade ao governo. Só que o eleitor passou a dividir o voto, escolhendo para primeiro-ministro o candidato de um partido grande e, para o Parlamento, um partido pequeno, e os dois maiores partidos, que somavam 76 cadeiras em 1992, caíram para 45 em 1999. Em março de 2001 Israel desistiu e voltou ao modelo em que o Parlamento escolhe o governo (fonte, fonte).

A forma de votar também é diferente da nossa. O país inteiro é um distrito eleitoral só, e o eleitor escolhe um partido ou uma aliança de partidos, sem poder votar em candidato nem mexer na ordem da lista, que é definida antes da eleição (a chamada lista fechada). As cadeiras são divididas pela porcentagem de votos de cada lista, só que existe uma cláusula de barreira (percentual mínimo de votos para entrar no Parlamento), que é de 3,25%. Esse sistema proporcional vem desde antes da independência, e a lógica dele é que a divisão das cadeiras seja o retrato dos votos, de modo que até grupos pequenos tenham representantes (fonte, fonte, fonte).

O resultado é um Parlamento cheio de partidos, porque é relativamente fácil para uma legenda pequena passar da barreira, e isso combina com uma sociedade formada por grupos bem diferentes entre si, como judeus seculares, ultraortodoxos, religiosos nacionalistas e cidadãos árabes, cada um querendo ter seus próprios representantes. Em abril de 2026 eram 13 bancadas (grupos de deputados do mesmo partido), e nenhum partido na história do país conseguiu sozinho a maioria das cadeiras, então todo governo é de coalizão (aliança de partidos que se unem para formar e sustentar um governo, em geral com mais de 60 deputados, embora também possa haver governos minoritários, como a gente vai ver mais adiante). As eleições antecipadas também são comuns, e entre 2019 e 2022 Israel chegou a votar cinco vezes em menos de quatro anos (fonte, fonte).

Com tantos partidos e nenhum com maioria, na prática eles se organizam em blocos (grupos de partidos que se alinham em torno de quem apoiam para primeiro-ministro), e a eleição de 27 de outubro mostra como isso funciona. De um lado ficou o bloco de Netanyahu, com partidos de direita e religiosos que já governavam juntos, e do outro a oposição, que reúne partidos judeus do centro e da esquerda e um partido de direita laico, também contrário a Netanyahu. Os partidos árabes ficam fora dos dois blocos. Essa divisão mostra como os partidos se distribuíram na eleição, e não necessariamente quem vai apoiar cada candidato na hora de formar o governo, como a gente vai ver daqui a pouco (fonte).

O Likud é o partido de Netanyahu, que foi primeiro-ministro de 1996 a 1999, de 2009 a 2021 e voltou ao cargo no fim de 2022. É nacionalista e de direita, e se apresenta como “nacional-liberal”, porque junta a defesa da terra e do povo judeus com livre mercado e respeito à lei. Foi o mais votado, com 27 cadeiras, e junto com os aliados chegou a 53, quando a maioria exige 61 (fonte, fonte).

Esses aliados são quatro partidos, e dois deles são ultraortodoxos (os chamados haredim). O Shas (שס) representa principalmente os sefarditas e os mizrahim, judeus com origem na Península Ibérica, no Oriente Médio e no norte da África, e o Judaísmo da Torá Unido (יהדות התורה), que junta os partidos Agudat Israel (אגודת ישראל) e Degel HaTorah (דגל התורה), representa os de origem europeia. O que une os dois é defender a comunidade ultraortodoxa, a começar pela dispensa do serviço militar para estudantes de yeshivas (escolas de estudo religioso judaico), que vem de 1948, quando o primeiro-ministro David Ben-Gurion dispensou cerca de 400 estudantes, e foi sendo ampliada desde então. Em 2024 a Suprema Corte decidiu que o governo não podia mais deixar de recrutá-los sem uma lei aprovada pelo Knesset, e em setembro de 2026 anulou também uma lei temporária que tentava protegê-los de prisão. Para esses partidos, preservar a dispensa é uma questão de identidade religiosa, enquanto para boa parte do restante da sociedade, onde o serviço militar é obrigatório para homens e mulheres judeus, ela representa uma desigualdade. É essa disputa que explica por que partidos com poucas cadeiras têm tanto peso nas negociações para formar o governo, em que os partidos costumam trocar apoio por ministérios e compromissos (fonte, fonte, fonte, fonte, fonte).

Os outros dois aliados são de extrema direita. O Otzma Yehudit (עוצמה יהודית), que quer dizer Poder Judaico, é o partido do ministro da Segurança Nacional, Itamar Ben-Gvir, e o Sionismo Religioso (הציונות הדתית) é o do ministro das Finanças, Bezalel Smotrich, e os dois defendem a chamada Grande Terra de Israel, com assentamentos e soberania israelense na Cisjordânia (fonte, fonte).

Do outro lado está o principal rival de Netanyahu, Gadi Eisenkot, ex-chefe do Estado-Maior das Forças Armadas, que lidera o Yashar (ישר), palavra que significa algo como reto ou honesto. É um partido de centro, voltado para segurança nacional e reformas no governo, e ficou com 21 cadeiras, a segunda maior bancada. Logo atrás vem o B’Yachad (ביחד), que quer dizer “juntos”, a união de dois ex-primeiros-ministros, Naftali Bennett e Yair Lapid, com 12 cadeiras. Completam a oposição os Democratas (הדמוקרטים), de esquerda, e o Yisrael Beytenu (ישראל ביתנו), de direita laica, e os quatro partidos somaram 48 cadeiras (fonte, fonte, fonte).

Por fim, os partidos árabes, que representam a minoria árabe do país, cerca de 20% da população, somaram 19 cadeiras, um recorde, com comparecimento de cerca de 77% nas localidades árabes e drusas, contra 53% em 2022, segundo o Instituto de Democracia de Israel. São a Lista Conjunta (הרשימה המשותפת), uma aliança de partidos laicos e nacionalistas, e o Ra’am (רע”ם), de linha religiosa, que em 2021 foi o primeiro partido árabe a entrar formalmente numa coalizão de governo, a de Bennett e Lapid (fonte, fonte, fonte).

Na conta final, nenhum dos dois blocos chega aos 61. O de Netanyahu fica com 53, e a oposição, com 48, só chegaria lá somando os 19 dos partidos árabes, o que daria 67. Só que participar de uma coalizão, apoiar um governo de fora e apenas recomendar um nome ao presidente são coisas diferentes, e é nessa diferença que está a discussão agora. A maior parte da oposição descarta ter os partidos árabes no governo depois do ataque do Hamas de 7 de outubro de 2023 (já escrevemos sobre o Hamas e Gaza aqui), mas em 4 de novembro o Ra’am anunciou que recomendaria Eisenkot ao presidente. Do lado de Netanyahu, o Judaísmo da Torá Unido decidiu não indicar nenhum candidato e deixou claro que o apoio a um futuro governo depende de uma lei que preserve a dispensa militar dos estudantes ultraortodoxos. O Degel HaTorah, que tem quatro das sete cadeiras do partido, já vinha rompido com Netanyahu justamente pela falta dessa lei (fonte, fonte, fonte, fonte).

Diante desse impasse, quem entra em cena é o presidente. A lei dá a ele sete dias, contados da publicação dos resultados, para ouvir os partidos, que dizem a quem recomendam a tarefa de formar o governo, e escolher um deputado que aceite tentar. Essas recomendações não obrigam os deputados a votar depois naquele candidato, e servem como um sinal de quem parece ter mais condições de reunir apoio. O presidente escolhe quem considera ter mais chance de reunir uma maioria, e não precisa ser o líder do partido mais votado, tanto que em 2021 Bennett virou primeiro-ministro à frente de um partido pequeno, num acordo de rodízio com Yair Lapid, cuja bancada tinha 17 deputados (fonte, fonte, fonte).

O deputado escolhido tem 28 dias para montar a coalizão e pode ganhar até 14 dias a mais. Se não conseguir, o presidente tem duas opções. Uma é entregar a tarefa a outro deputado, que terá 28 dias sem prorrogação, e a outra é avisar ao presidente do Knesset que não vê possibilidade de formar governo. Se o segundo indicado também fracassar, ou se o presidente fizer esse aviso, abre-se um prazo de 21 dias em que a maioria dos deputados, ou seja, pelo menos 61, pode pedir por escrito que um terceiro nome, que tenha concordado, receba a tarefa. Esse terceiro nome terá 14 dias. Se ninguém fizer o pedido ou se a terceira tentativa fracassar, o Parlamento é dissolvido e Israel vota de novo em até 90 dias (fonte).

Quando a coalizão sai, o escolhido apresenta ministros e plano de governo ao Knesset, que faz uma votação de confiança. O Knesset decide pela maioria dos que votam, sem contar as abstenções, então basta ter mais votos a favor do que contra. Num exemplo hipotético, um governo com 55 votos a favor e 45 contra é aprovado mesmo sem chegar aos 61, desde que os outros 20 deputados se abstenham ou não votem, e é assim que um governo minoritário consegue existir. Derrubar um governo também não é simples, porque a oposição precisa juntar 61 votos a favor de um governo alternativo, e não só contra o atual. Enquanto isso, o governo anterior segue exercendo as funções até a posse do novo, e por isso Netanyahu continua como primeiro-ministro de transição (fonte, fonte).

Até esta quinta-feira, 5 de novembro, Herzog ainda ouvia os partidos. Pela contagem do Times of Israel naquela manhã, Eisenkot tinha 56 recomendações, somando os 48 da oposição judaica e os 8 do Ra’am, e Netanyahu tinha 46, porque o Judaísmo da Torá Unido não recomendou ninguém. Por enquanto nenhum dos dois chega aos 61. A Lista Conjunta, com 11 cadeiras, ainda não estava na conta e seria ouvida à tarde. Parte da imprensa israelense considerava possível que ela também recomendasse Eisenkot, o que elevaria o número para 67, embora o partido ainda pudesse optar por não indicar ninguém. Como são só recomendações, esses números não são votos garantidos no Knesset. O prazo da lei para o presidente escolher um nome termina em 11 de novembro, e daí em diante os principais cenários discutidos são três. Um é um governo de união entre os dois, que Herzog já defendeu, embora Eisenkot tenha dito que não serve sob Netanyahu. Outro é um governo minoritário de Eisenkot, com os partidos árabes ajudando de fora a passar na votação de confiança, caminho que Avigdor Liberman, do Yisrael Beytenu, já disse que não aceita. O terceiro é uma nova eleição, no começo do ano que vem (fonte, fonte, fonte, fonte).

Leitura complementar

Para ver como os próprios israelenses avaliam a democracia do país, o Instituto de Democracia de Israel publica um índice anual com a série histórica das notas (The Israeli Democracy Index 2025). Quem quiser entender as propostas de reforma do sistema político pode ler, em inglês, a introdução do livro Reforming Israel’s Political System, de Gideon Rahat, Shlomit Barnea e Chen Friedberg, também publicado pelo instituto (introdução em PDF).

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