Como a China se desenvolveu, segundo o livro “O Poder da China”
Eu conheci o livro O Poder da China depois de assistir a um podcast do Market Makers com o Ricardo Geromel. Ali deu pra perceber que ele entende bem como funcionam os negócios na China. Geromel (autor) leva grupos de empresários brasileiros para fazer negócios e conhecer o parque industrial do país, e que faz o caminho inverso também, trazendo empresários chineses para fazer negócios aqui. Fui ler o livro (Editora Gente, 2019) e achei a visão dele sobre a China muito interessante. Neste texto eu trago os pontos que mais me chamaram atenção, incluindo os mais curiosos e polêmicos, como a China se desenvolveu segundo o autor e o que mudou desde que o livro foi escrito.
Geromel enquanto escrevia o livro morava em Xangai, escreveu sobre bilionários para a Forbes e conta que já recebeu mais de duzentas pessoas em missões na China. Ele avisa logo no começo que o livro foca no melhor da China e que quem quiser uma visão mais completa vai ter que procurar em outras obras. Como ele organiza essas missões de empresários, dá pra entender por que o olhar dele é tão voltado para as oportunidades de negócio. Pede também uma margem de segurança com qualquer dado chinês e lembra que a liberdade de expressão e de imprensa por lá é diferente da que a gente conhece. Eu li o resto do livro com esses avisos na cabeça.
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O ponto de partida dele é que no Brasil se sabe muito pouco sobre a China. Ele conta que na escola aprendeu uma única coisa sobre o país, a Guerra do Ópio, e ainda pelo lado dos britânicos. Pra compensar isso, ele abre o livro com um tripé de ferramentas para entender a economia chinesa, formado por escala, velocidade e governo, e eu vou seguir essa mesma ordem.
A escala é o tamanho da China, que tem cerca de 1,4 bilhão de habitantes, mais ou menos 20% da população do mundo. Por causa disso, o autor ensina a fazer uma regra de três antes de se espantar com qualquer número chinês. Um exemplo são os unicórnios, que são as empresas novas, ainda sem ações na bolsa, avaliadas em mais de 1 bilhão de dólares. Em 2019 a China tinha 202 delas e o Brasil, com uma economia e uma população cerca de sete vezes menores, teria uns 29 pela nossa conta, mas o autor consegue listar só uns dez (p. 31). A conclusão dele é que ou a China tem unicórnio demais, ou o Brasil tem de menos. É uma simplificação, já que isso depende também do tamanho do mercado de tecnologia e do capital de risco disponível em cada país. Só que o próprio autor diz que a escala é importante, mas é só o começo, e lembra que a Índia tem uma população parecida e ficou para trás. Por isso ele passa para a segunda ferramenta.
A segunda ferramenta é a velocidade, que para o autor é o ritmo em que as coisas mudam na China, algo que ele mesmo diz ser difícil de processar. O exemplo que ele dá é Pudong, o bairro de arranha-céus de Xangai que em 1990 não tinha nenhum prédio e, segundo ele, foi construído quase todo em apenas vinte anos. Outra comparação é que os Estados Unidos levaram 117 anos para multiplicar o PIB por 36, enquanto a China levou 30 (p. 37-38). Nas empresas novas a diferença também aparece, porque um estudo citado no livro mostra que uma startup levava em média quatro anos para virar unicórnio na China e sete nos Estados Unidos (p. 38). O próprio livro reconhece, mais à frente, que o fator “essencial e óbvio” do crescimento chinês desde 1980 é que a base era nove vezes menor (p. 95), e é bem mais fácil crescer rápido quando se parte de um ponto muito baixo.
Para o autor, parte dessa velocidade vem do jeito de trabalhar, e aqui entra o ponto mais polêmico do livro, o 996, o horário de várias empresas de tecnologia chinesas, das 9h da manhã às 9h da noite, seis dias por semana. O autor defende que isso ajuda a explicar a rapidez das empresas de lá, e Jack Ma, fundador do Alibaba, a gigante chinesa de comércio on-line, chegou a dizer que “Ser capaz de trabalhar 996 é uma grande bênção” (p. 46). Do outro lado, uma página criada no GitHub chamada 996.ICU, em que ICU é a sigla em inglês de UTI, numa referência ao risco de ir parar na terapia intensiva, juntou mais de 200 mil apoios. O próprio Geromel faz a ressalva de que isso vale para algumas empresas e não para o país inteiro, e diz que o assunto o preocupa (p. 48). Dois anos depois do livro, o Supremo Tribunal Popular declarou que impor o 996 viola a lei trabalhista, que limita a jornada a oito horas por dia e 44 por semana (fonte).
O terceiro pé do tripé é o governo, que o autor descreve como onipresente, tanto que para ele não dá para entender a China sem entender o governo chinês (p. 48). A cultura ele não coloca como um quarto pé, porque a vê como o metal usado para construir o tripé inteiro. E para entender o governo de hoje, ele diz que é preciso olhar para o passado, com a lente do “século da humilhação”, que é como os chineses chamam o período entre a Primeira Guerra do Ópio, em 1839, e a fundação da República Popular, em 1949. Para mostrar o tamanho dessa queda, o autor lembra de onde a China vinha. O nome do país em chinês, Zhongguo (中国), quer dizer “país do meio”, e ele liga esse nome a um período em que os chineses eram o povo mais rico do mundo, mas viviam fechados e tratavam os estrangeiros como bárbaros. Essa riqueza aparece nos números, já que a China chegou a 33% do PIB mundial em 1820, segundo estimativas históricas que ele cita (p. 51). Depois que os britânicos passaram a vender ópio em grande quantidade e as autoridades chinesas tentaram impedir, veio a Primeira Guerra do Ópio, que a China perdeu e que terminou com portos abertos a estrangeiros e Hong Kong cedida aos britânicos. Foram 110 anos assim, e em 1949 a participação chinesa no PIB mundial já tinha caído para menos de 4% (p. 265). Esse é o pano de fundo que os chineses carregam, e o autor conta que, quando mostra a participação atual da China na economia mundial, muitos respondem que o país está apenas voltando ao lugar a que sempre pertenceu.
A República Popular foi fundada por Mao Zedong, líder do Partido Comunista, depois de uma guerra civil contra os nacionalistas. O autor diz que Mao manteve o país independente, mas que a frente econômica foi um desastre. O Grande Salto para a Frente, no fim dos anos 1950, juntou a população rural em comunas e dezenas de milhões de pessoas morreram de fome (p. 271) (já escrevemos sobre isso aqui). Na Revolução Cultural, a partir de 1966, jovens chamados de guardas vermelhos humilhavam em público quem fosse acusado de ter ideias burguesas. Quando Mao morreu, em 1976, o autor resume que a China era, naquele momento, um país miserável.
Depois da morte de Mao, o jogo mudou quando Deng Xiaoping se consolidou como a principal liderança do país, a partir de 1978. Ele não culpou Mao publicamente pelos erros porque a imagem de Mao estava colada à do partido, e o autor conta que a maioria dos chineses responde que Mao foi 70-30, setenta por cento bom e trinta por cento ruim (p. 274). Ao contrário de Mao, que era um idealista romântico, Deng era um realista pragmático, e dele vem a frase mais famosa do pragmatismo chinês, “Não importa se o gato é preto ou branco. Desde que pegue o rato, é um bom gato”. O partido único continuou mandando, mas o mercado passou a ter espaço, e por isso muitos dizem que a China é um capitalismo com Estado forte. Na prática, as empresas privadas competem por consumidores e lucro, mas o governo continua com a mão no crédito e nos setores estratégicos, e dá tratamento favorável às estatais e às empresas vistas como campeãs nacionais, segundo o Departamento de Estado dos Estados Unidos (fonte).
O método de Deng era testar as reformas em regiões específicas e só depois expandir o que funcionava, o que o autor compara a uma sequência de MVPs, que em inglês são as primeiras versões simples de um produto, e fez da China um “laboratório de reformas”. As Zonas Econômicas Especiais, onde o investimento estrangeiro ficava concentrado, foram um desses experimentos, e Shenzhen foi a mais famosa delas (já escrevemos sobre isso aqui). Em 2001 a China entrou na Organização Mundial do Comércio, que define as regras do comércio entre os países, e isso facilitou a venda de produtos chineses para fora. Foi a fase que o autor chama de fábrica do mundo, e nela, segundo os dados que ele cita, o número de empresas privadas foi de 140 mil em 1992 para 6,6 milhões no fim de 2008 (p. 277-278).
O resultado social mais forte que o livro mostra é a queda da pobreza. Em 1980, mais de 88% dos chineses viviam abaixo da linha de pobreza extrema (p. 51), e o autor cita um estudo apresentado à ONU em que a taxa cai para menos de 2% em 2013 (p. 96-98). Ele lembra também que a maioria dos chineses de hoje foi criada por avós que passaram fome, e que isso molda a desconfiança e a obsessão por ter reservas guardadas. O Banco Mundial confirma a queda, mas lembra que 15,2% da população ainda vivia com menos de 8,30 dólares por dia em 2024, uma linha bem mais alta que a da pobreza extrema (fonte).
A demografia o livro trata só de passagem. O autor chama de bizarra a política do filho único, que durou mais de trinta anos e que ele apresenta como a reforma social mais importante de Deng. A política acabou em 2016, quando o limite passou a ser de dois filhos por casal, e em 2021 o governo anunciou que os casais poderiam ter três (fonte). Só que o envelhecimento já estava em andamento. A população da China caiu em 2025 pelo quarto ano seguido, e 23% dos chineses já têm 60 anos ou mais (fonte). Com menos gente entrando no mercado de trabalho e mais idosos dependendo de saúde e previdência, o país vai depender cada vez mais de aumentar a produtividade para continuar crescendo.
Depois de Deng, a China seguiu por mais de trinta anos nesse modelo de abertura econômica com partido único, até que Xi Jinping chegou ao comando do Partido Comunista em 2012 e à presidência em 2013. O livro o apresenta pela campanha anticorrupção chamada “tigres e moscas”, que pegou desde políticos do alto escalão até gente da base. Em 2017 o partido incluiu o pensamento de Xi, com o nome dele, na sua constituição, honra que o autor diz que só Mao tinha recebido, e em março de 2018 o parlamento eliminou o limite de dois mandatos, o que abriu a possibilidade de ele continuar na presidência sem prazo para sair (fonte).
Foi com Xi que o governo passou a apostar de vez na inovação. Segundo o autor, ele e a cúpula do partido perceberam que, para a renda continuar subindo, a China precisava deixar de ser só a fábrica do mundo e virar uma superpotência inovadora. O autor resume essa postura do governo com uma imagem. Na teoria clássica do capitalismo, Adam Smith descreve a mão invisível do mercado, a ideia de que cada um, buscando o próprio interesse, acaba ajudando os outros sem que ninguém precise mandar. Na China, segundo o autor, “a mão é muito visível, musculosa, vermelha, da cor do partido” (p. 52). Como exemplo, o governo proibiu as ofertas de criptomoedas, que eram uma forma de empresas captarem dinheiro vendendo moedas digitais novas ao público, depois que o Banco Central apontou que 90% delas eram fraudulentas (p. 52) e, logo em seguida, decidiu que a China seria líder em blockchain, a tecnologia de registro digital por trás das criptomoedas. Ou seja, a mão visível barra uma coisa e empurra outra. A partir daqui, os exemplos do livro mostram esse governo em ação, primeiro no dinheiro e na tecnologia e depois nas empresas e na educação.
O autor vai além e afirma que o maior investidor de capital de risco do mundo é o governo chinês. Capital de risco, ou venture capital, é o dinheiro que fundos colocam em empresas novas apostando que algumas vão dar muito certo. Nas palavras do livro, “quem entende de China sabe que o governo chinês é o maior VC do mundo” (p. 61). Ele cita 1.171 fundos públicos criados só no primeiro semestre de 2018 para investir mais de 5,9 trilhões de yuans, a moeda chinesa, o que dava 856 bilhões de dólares, nos quais o governo entra como sócio minoritário e deixa o trabalho pesado para empresários privados (p. 61-62). Esse valor é a meta anunciada, e não dinheiro já investido. Um levantamento do CSET, de Georgetown, mostra que no começo de 2020 os fundos desse tipo tinham levantado cerca de 43% da meta (fonte). Mesmo assim, esse dinheiro ajuda a entender por que as empresas novas chinesas conseguem crescer tão rápido.
Esse apoio aparece também no nível das cidades. O exemplo mais exagerado é Hangzhou, sede do Alibaba, que construiu uma região chamada Dream Town só para atrair empreendedores, com escritório de graça, visto preferencial, ajuda com moradia e investimento sem pedir participação em troca. Só que esse apoio tem outro lado. Em novembro de 2020, as bolsas de Xangai e Hong Kong suspenderam a abertura de capital da Ant Group, a empresa financeira do Alibaba, que levantaria cerca de 34,5 bilhões de dólares na maior oferta da história, depois que Jack Ma e outros executivos foram chamados para conversar com os reguladores. A bolsa de Xangai apontou mudanças no ambiente regulatório da tecnologia financeira, e no dia anterior o governo tinha divulgado uma proposta de regras mais duras para empréstimos on-line (fonte). O livro foi escrito antes disso e por isso mostra o governo mais como o sócio que empurra.
Outro ponto em que o autor enxerga vantagem chinesa é a inteligência artificial, e o argumento central dele é a quantidade de dados, porque quanto mais dados, melhor a inteligência artificial aprende. É uma simplificação, já que a qualidade dos dados, a capacidade de computação e os algoritmos também contam. A população é muito maior e as pessoas pagam quase tudo pelo celular, além de a privacidade ser encarada de um jeito diferente. O livro diz que o governo usa reconhecimento facial em mais de 170 milhões de câmeras em locais públicos (p. 78), e aqui vale uma correção, porque as estimativas da IHS Markit falavam em 170 milhões de câmeras de vigilância já instaladas e mais cerca de 450 milhões previstas até 2020, nem todas com reconhecimento facial (fonte).
A parte que mais incomoda nessa história, e que o livro trata de forma rápida, é o controle da informação. O autor lembra que no WeChat, o aplicativo que na China serve de WhatsApp e de carteira digital ao mesmo tempo, certos termos não são autorizados, e contrasta isso com a Apple, que recusou publicamente ajudar o FBI a abrir um iPhone, algo que ele diz não existir entre as grandes empresas chinesas. Em 2018 o governo escolheu as suas “campeãs nacionais” de inteligência artificial, e o preço de ter esse status é a cooperação ampla com as autoridades de segurança.
Boa parte desses dados vem dos pagamentos pelo celular. O autor chama a China de cashless society, ou seja, uma sociedade em que os pagamentos digitais se tornaram predominantes. Na explicação dele, os chineses pularam direto do dinheiro vivo para o celular porque nunca tiveram cartão de crédito em massa. O Alipay, da Ant, e o WeChat Pay dominam cerca de 90% do mercado de pagamentos móveis, que segundo o autor é setenta vezes maior que o americano (p. 157), e hoje até mendigos mostram o próprio QR code impresso pra você escanear, uma cena que o brasileiro passou a reconhecer por causa do Pix.
Dessa base de dados sai o ponto mais controverso da área, a nota de crédito da Ant, chamada Zhima Credit (芝麻信用). Ela vai de 350 a 950 e é calculada por um algoritmo que olha o histórico de pagamentos, as redes sociais e outros dados que, nas palavras do autor, ninguém sabe ao certo quais são, e mesmo assim mais de 200 milhões de pessoas toparam usar (p. 163). Quem tem nota alta consegue visto mais rápido e aluguel em melhores condições, e um serviço de namoro on-line até permite ver a nota dos possíveis pares, o que lembra o episódio da série Black Mirror, da Netflix. O autor diz também que a nota baixa pode custar o direito de pegar trens de alta velocidade (p. 164), e aqui vale uma correção. Segundo o pesquisador Rogier Creemers, em entrevista de 2018 ao instituto alemão MERICS, o Zhima é privado, ninguém é obrigado a ter e ele não é punitivo. As restrições mais duras vêm de listas negras do governo, parte do chamado crédito social, que é um sistema do próprio governo e não tem relação com a nota da Ant, como a do Supremo Tribunal Popular para quem descumpre sentenças judiciais (fonte).
O livro dá vários exemplos de empresas novas que cresceram muito rápido nesse ambiente. A Pinduoduo, que o autor descreve como o e-commerce de crescimento mais rápido da história, funciona com compra em grupo, em que o consumidor convida amigos e familiares para comprar junto e todos ganham desconto. A Luckin Coffee, concorrente direta da Starbucks, abriu mais de 2.370 lojas em apenas quinze meses (p. 223-224), mas em dezembro de 2020 a SEC, órgão que regula o mercado de capitais dos Estados Unidos, acusou a empresa de fraude contábil por inflar as vendas, e ela aceitou pagar uma multa de 180 milhões de dólares (fonte).
No hardware, a cidade que mais se destaca é Shenzhen, a mesma Zona Econômica Especial que apareceu lá atrás. O autor explica que é barato chegar lá com uma ideia, fazer um protótipo, testar e colocar no mercado em velocidade recorde, e estima que a cidade tenha cerca de 6 mil empresas de celulares e acessórios (p. 217-218). A força de Shenzhen está em ter tudo concentrado num mesmo lugar, e o exemplo que ele dá é Huaqiangbei, uma área com mais de vinte shoppings de eletrônicos onde dá pra encontrar inovadores, produtos prontos, matéria-prima e ideias para fabricar praticamente qualquer coisa (já escrevemos sobre isso aqui). Foi lá que nasceu o shanzhai (山寨), palavra que o Ocidente costuma traduzir como pirataria. Pro tecnólogo David Li, que o autor cita, é bem mais que isso, porque envolve remixar o produto, melhorar e fazer mais barato e mais rápido, como um relógio com cara de Apple Watch que roda Android e custa um quarto do preço.
A última peça do desenvolvimento que o livro destaca é a educação, que começa pelo keju (科举), o exame imperial que selecionava funcionários públicos por mérito e que foi abolido em 1905. Os candidatos ficavam trancados numa cela por alguns dias e há relatos de gente que morreu durante as provas, e o autor diz que esse legado ajuda a explicar a obsessão dos chineses pelo estudo. O herdeiro moderno do keju é o gaokao (高考), a prova nacional que ele apresenta como o único critério de entrada nas universidades. Na prática é a principal porta, e mesmo as vias especiais, como o plano Base Forte, que substituiu em 2020 a admissão independente, a seleção própria que as universidades de elite faziam, passam por ele (fonte). Nos dias da prova o país fica em silêncio, com buzinas proibidas e obras paradas. Quem não atinge a nota mínima perde a chance naquele ano, mas pode refazer a prova no seguinte, e entre os que falharam está Jack Ma, que só passou na terceira tentativa.
O livro mostra ainda que a educação virou mercado, e o autor destaca a TAL e a New Oriental, empresas de reforço escolar que ele chama de as duas maiores de educação do mundo. Em 2021 o governo mandou que esse tipo de empresa virasse entidade sem fins lucrativos e vetou aulas em fins de semana e feriados (fonte). Nas universidades, a mudança mais recente é o fechamento de cursos e a abertura de outros ligados à inteligência artificial (já escrevemos sobre isso aqui).
Com esse retrato, o livro abre para a posição da China no mundo. O autor lembra que, pela paridade do poder de compra, que é um cálculo que leva em conta o custo de vida em cada país, a economia chinesa já passou a americana em 2014, e que o FMI estimava, na época, a ultrapassagem em valores nominais até 2030 (p. 94). Essa disputa pelo primeiro lugar ajuda a explicar a rivalidade entre Estados Unidos e China hoje (já escrevemos sobre isso aqui).
Para o brasileiro, o trecho mais útil é o da China no Brasil. O autor lembra que ela é nossa maior parceira comercial desde 2009 e que, segundo o livro, 62% da soja exportada no mundo vai para lá (p. 104) (já escrevemos sobre isso aqui). O autor conta que nenhuma frase de um brasileiro fez tanto barulho na China quanto a do então candidato Jair Bolsonaro, “Chineses podem comprar no Brasil, só não podem comprar o Brasil” (p. 104-105). Na leitura dele, a primeira onda de investimentos chineses buscava segurança alimentar e a segunda chegou com tecnologia, como a compra da 99, aplicativo brasileiro de transporte, pela DiDi, e o dinheiro da Tencent, dona do WeChat, no Nubank. Os números mais recentes mostram o peso dessa relação. Em 2025 as exportações brasileiras bateram recorde, com cerca de 348,7 bilhões de dólares, e perto de 100 bilhões foram para a China, segundo o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (fonte).
O interesse chinês vai além do Brasil. Na África, o livro mostra o comércio com a China indo de 10 bilhões de dólares em 2000 para 170 bilhões em 2017 (p. 112). A principal crítica que o autor registra é a da “diplomacia da armadilha da dívida”, segundo a qual a China empresta para projetos que os bancos consideram arriscados demais, sabendo que muitos governos não vão conseguir pagar, e depois cobra apoio político. Isso se liga à Nova Rota da Seda, o plano chinês de investimentos em infraestrutura lançado em 2013, e o exemplo que o autor usa é o Sri Lanka, que teria cedido o controle de um porto por 99 anos por não conseguir pagar uma dívida de 8 bilhões de dólares (p. 119). Essa versão é contestada. O arrendamento do porto de Hambantota, em 2017, não foi uma troca de dívida por participação, e a dívida da construção ficou separada do contrato (fonte). Outra análise cita estimativa do Banco Mundial de que os empréstimos chineses respondiam por até 12% da dívida externa do país, e que o calote veio sobretudo de empréstimos caros contraídos em mercados internacionais (fonte).
Como o autor avisa que o livro foca no melhor da China, vale olhar para o que ficou de fora. Fiz uma busca no texto e não encontrei menção a Xinjiang, região do oeste do país, nem aos protestos de 1989 na praça da Paz Celestial, e a censura é reconhecida só de passagem, inclusive o bloqueio de Facebook e Google. Também não achei explicação do hukou, o sistema de registro domiciliar que vincula cada pessoa a uma localidade e faz com que quem sai do campo para trabalhar em Xangai ou Pequim não tenha o mesmo acesso a saúde e a escola dos moradores registrados (fonte). Outra ausência é o guanxi, a rede de relações pessoais e confiança que pesa nos negócios chineses (fonte), o que chama atenção num livro escrito por quem leva empresários para negociar por lá. Outra coisa que envelheceu é o ritmo de crescimento. O autor escreve que os 6,6% de 2018 eram o menor índice desde 1990 (p. 49), e o Banco Mundial projeta desaceleração para 4,4% em 2026, por causa do ajuste do setor imobiliário e do consumo ainda cauteloso das famílias (fonte).
O livro vale principalmente por mostrar como os chineses pensam e fazem negócios, com exemplos de empresas e cidades que o leitor brasileiro dificilmente conhece, e por ensinar a fazer a regra de três antes de se espantar com qualquer número. Como vários episódios aconteceram depois de 2019, quem procura uma análise crítica vai precisar complementar com outras leituras.
O livro pode ser comprado na Amazon (fonte).
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