Quem foi Woodrow Wilson, o acadêmico que redefiniu as fronteiras da Europa após a Primeira Guerra
Recentemente conversando sobre a Primeira Guerra Mundial, chegamos num ponto que sempre volta quando o assunto é o sistema internacional que vivemos hoje. A ONU, o discurso de autodeterminação dos povos, essa ideia de que cada nação tem direito a escolher seu próprio destino, tudo isso tem uma origem bem específica. Vem de um professor universitário americano que virou presidente e que, em janeiro de 1918, subiu na tribuna do Congresso dos Estados Unidos pra apresentar 14 pontos que prometiam reorganizar o mundo inteiro. Achei muito interessante voltar nesse episódio porque ele explica boa parte do vocabulário que a gente ainda usa em relações internacionais, mesmo mais de um século depois.
Thomas Woodrow Wilson nasceu na Virgínia em 1856, filho de um pastor presbiteriano, e cresceu no sul dos Estados Unidos durante a Guerra Civil e a Reconstrução. Ele era disléxico e só aprendeu a ler depois dos dez anos, o que não impediu que se tornasse um leitor voraz e um debatedor ativo ainda na faculdade em Princeton. Passou pela própria Princeton, tentou direito na Universidade da Virgínia, largou o curso, e no fim das contas foi fazer doutorado em ciência política na Johns Hopkins. É até hoje o único presidente americano com um doutorado formal, e ainda detém o recorde de mais títulos honorários recebidos por um presidente, trinta e três ao todo (Woodrow Wilson House).
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Esse fundo acadêmico explica muito do jeito como ele governou depois. Wilson não era um político de carreira. Foi professor em Bryn Mawr, depois na Wesleyan, e em 1890 chegou em Princeton como professor de direito e economia política. Ficou tão popular que virou o docente mais bem pago da instituição, e em 1902 assumiu a presidência da própria Princeton. Só foi entrar de fato na política em 1910, quando aceitou concorrer a governador de Nova Jersey (Miller Center). Dois anos depois já estava disputando a Casa Branca. É um percurso bem incomum, esse salto direto da sala de aula pro comando da maior potência emergente do mundo.
Quando a Primeira Guerra Mundial estourou em julho de 1914, colocando as Potências Centrais contra os Aliados, Wilson insistiu que os Estados Unidos ficariam de fora. A frase que ele usou virou famosa, os americanos deviam ser “imparciais tanto em pensamento quanto em ação”. A ideia era que os EUA pudessem servir como mediadores, negociar com os dois lados e eventualmente ajudar a costurar uma paz. Só que a realidade dessa neutralidade foi bem mais complicada do que o discurso.
A Marinha britânica impôs um bloqueio pesado à Alemanha e, pra manter Washington fora do conflito, Londres passou a comprar produtos americanos importantes como algodão a preços de antes da guerra. Wilson aceitou passivamente essa situação, o que na prática significava que os EUA acabavam alimentando o esforço de guerra britânico enquanto se diziam neutros. A Alemanha respondeu ao bloqueio lançando uma campanha submarina contra navios mercantes que se aproximavam das Ilhas Britânicas, e aí a coisa começou a apertar pro lado americano.
O momento que virou o jogo na opinião pública foi maio de 1915, quando um submarino alemão torpedeou o transatlântico britânico Lusitania. Morreram cerca de 1.200 pessoas, incluindo 128 americanos (Council on Foreign Relations). Wilson respondeu publicamente com uma frase que ficou marcada, dizendo que existe algo como um homem ser orgulhoso demais para lutar, e existe algo como uma nação estar tão certa de si que não precisa convencer os outros pela força. Foi uma resposta muito característica dele, com aquele tom moralista de professor. Só que o próprio Secretário de Estado, William Jennings Bryan, achou que Wilson estava pendendo demais pro lado britânico e pediu demissão em protesto em junho de 1915 (Departamento de Estado dos EUA).

Nos meses seguintes Wilson conseguiu arrancar da Alemanha um compromisso de restringir a guerra submarina, e por um tempo a situação se acalmou. Ele até se reelegeu em 1916 com o slogan “Ele nos manteve fora da guerra”. Mas em janeiro de 1917 os alemães decidiram fazer o oposto disso, lançaram a chamada guerra submarina irrestrita, atacando qualquer navio nos mares ao redor das Ilhas Britânicas. Os líderes alemães sabiam que provavelmente isso arrastaria os EUA pra guerra, só que apostavam em derrotar os Aliados antes que os americanos conseguissem se mobilizar.
O que terminou de decidir a entrada americana foi o Telegrama Zimmermann, um documento diplomático secreto interceptado pelos britânicos em que a Alemanha propunha ao México uma aliança militar contra os Estados Unidos, prometendo devolver ao México territórios como Texas, Novo México e Arizona em caso de vitória (Council on Foreign Relations). Quando isso vazou pra imprensa americana em fevereiro de 1917, a opinião pública virou de vez. Em 2 de abril, Wilson foi ao Congresso pedir declaração de guerra contra a Alemanha, com o argumento de que o mundo precisava ser “seguro para a democracia”. O Congresso aprovou quatro dias depois, e os EUA começaram a recrutar em massa, quase três milhões de homens ao longo da guerra.

Quando janeiro de 1918 chegou, a guerra ainda não tinha vencedor definido. A Alemanha controlava boa parte do território francês, a Rússia tinha acabado de sair do conflito depois da revolução bolchevique, e Lenin tinha publicado seu próprio decreto de paz, prometendo um mundo sem anexações nem indenizações (World War I Centennial). Wilson precisava responder a esse discurso bolchevique, precisava manter a moral dos aliados lá em cima e ainda tentar convencer a própria Rússia a continuar lutando ao lado dos Aliados. Foi nesse contexto que ele montou um grupo de cerca de cento e cinquenta especialistas em política e ciências sociais, apelidado de “The Inquiry”, pra desenhar as bases de uma paz futura (National Archives).
O resultado foi o discurso de 8 de janeiro de 1918, entregue ao Congresso americano. Metade dos 14 pontos tratava de questões territoriais específicas envolvendo os países em guerra, coisa como a evacuação da Rússia pelas tropas alemãs, a devolução da região da Alsácia-Lorena pra França e o redesenho das fronteiras dos Bálcãs. A outra metade era um conjunto de princípios gerais, tratados abertos ao invés de acordos secretos, liberdade de navegação nos mares, redução do comércio protecionista, redução de armamentos, e o ajuste das reivindicações coloniais levando em conta o interesse das próprias populações colonizadas (Departamento de Estado dos EUA). E o décimo quarto ponto, o que Wilson considerava o mais importante de todos, propunha a criação de uma associação geral de nações capaz de garantir a integridade territorial de todo mundo, grande ou pequeno.
Enquanto Wilson discursava, os soldados americanos começavam a chegar na França sob o comando do general John Pershing. Um detalhe interessante é que Wilson e Pershing rejeitaram uma proposta britânica e francesa que teria integrado os soldados americanos em unidades já existentes dos aliados. Os dois insistiram em manter uma Força Expedicionária Americana separada, o que dava aos Estados Unidos muito mais liberdade de ação, mas exigia montar do zero toda uma cadeia de comando e abastecimento em outro continente.
O jogo mudou de vez em março de 1918. A Rússia, agora sob os bolcheviques, assinou o Tratado de Brest-Litovsk, saindo oficialmente da guerra. Isso permitiu que a Alemanha transferisse enormes contingentes do front oriental pro ocidental. Sabendo que os americanos estavam chegando, os alemães lançaram a Ofensiva de Primavera, uma tentativa desesperada de romper as linhas aliadas antes que os reforços dos EUA chegassem em massa. Foi um banho de sangue, com centenas de milhares de baixas dos dois lados, e os alemães empurraram os britânicos e franceses de volta, chegando a cerca de 60 milhas de Paris (American Battle Monuments Commission).
No fim de 1917 havia só cerca de cento e setenta e cinco mil soldados americanos na Europa. Em meados de 1918 chegavam dez mil americanos por dia. Foi essa massa que virou a balança. Os aliados venceram os alemães em Belleau Wood e Château-Thierry, batalhas particularmente violentas onde os americanos aprenderam na marra o custo humano da guerra moderna, só em Belleau Wood foram quase dez mil baixas americanas em três semanas de combate (Britannica). A partir de agosto começou a chamada Ofensiva dos Cem Dias, empurrando o exército alemão exausto pra trás sem parar.
No fim de setembro os generais alemães já sabiam que a guerra estava perdida. O Kaiser Guilherme II nomeou um novo governo liderado pelo Príncipe Maximiliano de Baden, e a primeira coisa que Baden fez foi procurar Wilson pra pedir armistício. E aqui vem o detalhe importantíssimo, a Alemanha pediu especificamente que os Catorze Pontos servissem como base pra rendição (1914-1918-Online Encyclopedia). Ou seja, o discurso de janeiro tinha virado o documento diplomático mais poderoso do mundo em menos de dez meses. O armistício foi assinado em 11 de novembro de 1918. Ao fim da guerra, 116 mil americanos tinham morrido e outros 200 mil ficaram feridos.
Wilson embarcou pra Conferência de Paz de Paris em dezembro de 1918 como uma espécie de messias pra multidões europeias exaustas de quatro anos de guerra, sendo o primeiro presidente americano a viajar pra Europa no cargo. Só que na mesa de negociação ele encontrou dois interlocutores bem menos idealistas. O francês Georges Clemenceau queria a Alemanha pagando pesado pela guerra e enfraquecida militarmente por décadas, já que a França tinha sido o principal palco dos combates e sofrido as maiores perdas humanas do lado aliado. O britânico Lloyd George também puxava pra um acordo mais punitivo, em boa parte porque a opinião pública britânica exigia isso depois de tantos anos de guerra. Junto com o primeiro-ministro italiano Vittorio Emanuele Orlando, esses quatro ficaram conhecidos como os “Quatro Grandes” da conferência.

Wilson queria o oposto do que os europeus queriam, uma “paz sem vitória”, sem humilhação pro derrotado. Mas ele não tinha força pra impor essa visão sozinho e acabou cedendo em vários pontos pra conseguir manter viva a ideia da Liga das Nações, que era sua prioridade número um. Ele mesmo presidiu o comitê que redigiu o Pacto da Liga (National WWI Museum). O resultado foi um tratado que impôs à Alemanha a perda de territórios permanentes, o pagamento de reparações de guerra, a renúncia a todas as suas colônias ultramarinas e a ocupação militar da Renânia. Uma cláusula específica ainda nomeava a Alemanha como responsável pela guerra, o que gerou um ressentimento nacional que ecoaria por décadas.
Existe uma leitura mais recente da historiografia que contesta boa parte do que se costuma repetir sobre esse episódio. O historiador Trygve Throntveit argumenta que a autodeterminação nacional, no sentido de que cada grupo étnico teria direito a formar seu próprio Estado, nunca foi de fato um dos catorze pontos nem ocupou o centro do programa de paz de Wilson (JSTOR Daily). O que ele defendia de verdade era algo mais parecido com um internacionalismo integrador, com a Liga das Nações no centro do sistema, e não um mundo fragmentado em Estados-nação étnicos. Só que a expectativa que se formou ao redor do mundo, da Irlanda ao Egito, passando pela Índia e pela China, foi justamente essa, a de que cada povo teria seu momento de escolher o próprio destino. E quando o tratado saiu do papel, ficou claro que isso não valia pra quase ninguém fora da Europa. Todas as potências coloniais, com exceção da Alemanha derrotada, continuaram de pé, e os territórios do Império Otomano viraram mandatos britânicos e franceses. A entrega do território alemão da Península de Shandong, na China, pro Japão foi especialmente mal recebida, porque contradizia diretamente a promessa de autogoverno que Wilson tinha feito.
Na Europa central e oriental a história foi diferente, e é aí que os catorze pontos deixaram sua marca mais concreta. Com o colapso dos impérios russo, austro-húngaro e otomano, os negociadores em Versalhes tentaram redesenhar o mapa seguindo linhas étnicas, criando países novos com a expectativa de que isso reduzisse os conflitos entre nacionalidades que antes viviam sob o mesmo teto imperial (Facing History). Foi assim que surgiram a Polônia, a Tchecoslováquia, a Albânia e o que viria a ser a Iugoslávia, juntando sérvios, croatas e bósnios num único Estado. O problema de fundo, segundo a historiadora Margaret MacMillan, é que a região central da Europa tinha uma mistura tão densa de religiões, línguas e culturas que desenhar fronteiras que agradassem todo mundo ao mesmo tempo era praticamente impossível.
O resultado prático foi um mosaico de países novos cheios de minorias étnicas insatisfeitas dentro de suas próprias fronteiras, o que ajudou a alimentar tensões que voltariam com força total duas décadas depois. Essa aplicação incompleta e desigual da autodeterminação está entre os ingredientes que boa parte dos historiadores aponta como caminho pra instabilidade que levou à Segunda Guerra Mundial (Aspen Institute Central Europe). Boa parte dos conflitos étnicos que a gente ainda associa aos Bálcãs décadas depois, com a fragmentação da Iugoslávia nos anos 1990, tem raiz direta nesse desenho de fronteiras feito em 1919.
Enquanto isso, nos Estados Unidos, Wilson enfrentava resistência dentro de casa. O líder da bancada republicana no Senado, Henry Cabot Lodge, apresentou catorze reservas próprias ao tratado, exigindo principalmente que fosse limitado o alcance do Artigo X do pacto da Liga das Nações, aquele que obrigava todos os membros a defender militarmente a integridade territorial uns dos outros. Pra Lodge e boa parte dos republicanos, isso significava abrir mão da soberania do Congresso americano de decidir quando entrar numa guerra, deixando esse tipo de decisão praticamente automática, presa a compromissos assumidos lá fora. Wilson se recusou terminantemente a negociar qualquer um desses pontos, e amarrou o pacto da Liga ao próprio tratado, forçando os republicanos a aceitar ou rejeitar tudo junto. O Senado rejeitou o tratado duas vezes, em 1919 e em 1920, e os Estados Unidos nunca chegaram a fazer parte da própria Liga das Nações que Wilson tinha ajudado a criar.
Nesse meio tempo, em outubro de 1919, Wilson sofreu um derrame grave durante uma viagem de trem pelo país tentando convencer a opinião pública a pressionar o Senado. Ficou parcialmente paralisado e afastado das funções presidenciais por meses, período em que sua esposa Edith Wilson passou a filtrar praticamente todo o acesso ao presidente, decidindo o que chegava até ele e o que não chegava. Alguns historiadores chegam a chamar Edith de “a primeira mulher presidente dos Estados Unidos” por causa dessa influência. Mesmo com toda essa dificuldade, Wilson recebeu o Prêmio Nobel da Paz em 1919 pelo esforço de construir a Liga das Nações (Nobel Prize).
Achei muito boa a forma como o historiador Erez Manela descreve esse episódio, chamando de “momento wilsoniano” a onda de expectativa que percorreu o mundo colonizado logo depois do discurso de janeiro de 1918. Mesmo sem ter sido de fato aplicada fora da Europa, essa expectativa acabou plantando um vocabulário político que os movimentos anticoloniais das décadas seguintes usariam contra as próprias potências que participaram de Versalhes. A ideia de que um povo tem direito a se autogovernar, mesmo distorcida e aplicada pela metade, virou padrão de linguagem internacional, e é basicamente o argumento moral por trás de toda onda de descolonização que viria depois da Segunda Guerra (Britannica).
Na minha visão, o mais relevante nos catorze pontos não é o quanto foram cumpridos, porque foram cumpridos pela metade e de forma seletiva. O que importa é que eles inauguraram um jeito novo de falar sobre política internacional, deixando de lado os acordos secretos entre chancelarias e colocando o discurso do direito dos povos no centro da diplomacia. A Liga das Nações fracassou, mas virou o modelo que décadas depois seria retomado na criação da ONU.
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