Putin vai atacar a OTAN? Entenda a escalada da guerra na Ucrânia
Ando acompanhando as notícias sobre a guerra na Ucrânia praticamente todo santo dia, e ultimamente algo saiu do padrão. Saíram várias notícias e todas iam na mesma direção, a possibilidade real de Putin abrir uma frente de batalha direto contra um país da OTAN. Vou juntar aqui a decisão que o Kremlin parece ter tomado de escalar o conflito, o alerta que o secretário-geral da aliança andou repetindo sobre dois conflitos simultâneos, e o exercício militar que a Rússia e a Bielorrússia estão fazendo bem nesta semana, na fronteira mais frágil da OTAN, e a reação em cadeia que tudo isso já provocou em governos europeus só nesses últimos dias, e explicar por que essas peças, juntas, preocupam tanto quem acompanha a região.
A revista britânica The Economist publicou no fim de agosto uma reportagem baseada em fontes próximas ao Kremlin dizendo que, depois de semanas avaliando a situação durante o verão europeu, Putin já teria escolhido o caminho da escalada. Um aliado antigo dele contou à revista que o presidente russo provavelmente leu a visita recente de um enviado americano a Moscou como sinal de fraqueza dos Estados Unidos, a mesma leitura que ele fez da visita de Bill Burns, então diretor da CIA, em novembro de 2021, quando Burns foi pessoalmente avisar Putin pra não invadir a Ucrânia. Três meses depois, a invasão começou (fonte).
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O texto explica que Putin usa a linguagem da geopolítica, mas na prática é guiado pela lógica de sobrevivência de um sistema com tolerância alta a violência e nenhuma tolerância a fracasso. Segundo um interlocutor do próprio círculo dele, em algum momento da guerra Putin teria dito aos aliados mais próximos que “vão me enforcar” caso ele encerre o conflito sem cumprir nem o objetivo mínimo, que seria tomar toda a região do Donbass, no leste ucraniano (fonte).
O motivo de Putin estar encurralado tem nome e número. Segundo um levantamento do think tank americano Center for Strategic and International Studies, o CSIS, a Rússia acumulou cerca de 1,4 milhão de baixas entre mortos, feridos e desaparecidos desde fevereiro de 2022 até junho de 2026. E a proporção piorou ainda mais recentemente. No primeiro semestre de 2026, a Rússia já perdia quase oito soldados pra cada um perdido do lado ucraniano (fonte). Uma guerra que, no plano original do Kremlin, era pra durar semanas está perto de completar cinco anos sem que Putin tenha conquistado nem aquele mínimo que ele prometeu a si mesmo.
O que intriga até quem escreveu a reportagem da Economist é que não ficou claro o que essa escalada envolveria na prática. A aposta mais provável, segundo os próprios jornalistas, é que a Rússia intensifique a guerra híbrida (ações que misturam sabotagem, desinformação e ataques cibernéticos sem chegar a um confronto militar declarado) contra os países que apoiam a Ucrânia, com sabotagens nas rotas de suprimento que saem da Europa e, possivelmente, ataques a fábricas europeias que produzem material bélico pro esforço de guerra ucraniano. Os serviços de inteligência ocidentais, porém, avaliam que Putin ainda não quer um confronto militar direto com a OTAN. O Wall Street Journal informou, em agosto, que os Estados Unidos já têm indícios de que a Rússia está se preparando cedo pra uma possível mobilização militar e testando até onde vai a disposição da aliança de reagir (fonte).
A gente já tinha comentado por aqui como Washington avisou várias vezes o governo polonês que a Rússia estaria planejando uma provocação armada em solo polonês, que sairia de um de dois lugares possíveis, a Bielorrússia ou o exclave russo de Kaliningrado (já escrevemos sobre isso aqui).
Enquanto isso, o próprio secretário-geral da OTAN, Mark Rutte, vem repetindo um alerta há mais de um ano que voltou a ganhar força agora em setembro. Na conferência anual de chefes de missão da diplomacia alemã, em Berlim, Rutte disse que a Europa e o Indo-Pacífico estão cada vez mais interligados e que a aliança está se preparando pra possibilidade de dois conflitos de grande escala acontecerem ao mesmo tempo, um ataque russo à Europa e um avanço chinês sobre Taiwan (fonte).
A lógica por trás disso, segundo o próprio Rutte, é que se a China decidir se mover contra Taiwan, o presidente chinês Xi Jinping ligaria primeiro pro parceiro júnior dele em Moscou, pedindo que a Rússia mantenha a OTAN ocupada na Europa enquanto Pequim ataca a ilha. A gente já mostrou por aqui como a Marinha chinesa vem treinando justamente esse cenário contra Taiwan, com bastante detalhe, inclusive simulando o afundamento de um destróier americano no meio do deserto (já contamos essa história aqui).
E é bem nesse contexto que caem os exercícios militares que a Bielorrússia está fazendo agora, entre 15 e 18 de setembro, com apoio russo, a poucos quilômetros da Lituânia e da Polônia. O ministério da Defesa bielorrusso diz que são manobras defensivas, de proteção de fronteira e combate a drones, com batalhões blindados e mecanizados treinando perto dos campos de Hoża, Brzeski e Różański. O detalhe é o local escolhido, porque parte dessas manobras acontece bem em cima do chamado corredor de Suwałki, uma faixa de pouco mais de 100 quilômetros de fronteira entre a Polônia e a Lituânia que é a única ligação terrestre entre os países bálticos e o resto da OTAN, encaixada entre a Bielorrússia de um lado e o exclave russo de Kaliningrado do outro (fonte).
Essa não é a primeira vez que um exercício militar bielorrusso termina virando outra coisa. A invasão da Ucrânia em 2022 começou exatamente assim, com tropas russas concentradas na Bielorrússia sob o pretexto de um exercício conjunto chamado Allied Resolve, que reuniu as duas forças em cinco campos de treinamento perto das fronteiras com a Polônia e a Ucrânia, entre 10 e 20 de fevereiro daquele ano. O instituto sueco de relações internacionais SCEEUS documentou que os soldados russos simplesmente não voltaram pra casa quando o exercício acabou, ficaram por lá até a invasão começar dias depois (fonte).
O comando bielorrusso, dessa vez, nega qualquer intenção ofensiva e diz que o volume de tropas envolvido segue dentro dos limites que precisam ser declarados a outros países pelo Documento de Viena de 2011, o tratado que regula a transparência desse tipo de manobra na Europa. A OTAN, pelo lado oficial, segue com a mesma posição de sempre, a defesa coletiva dos 32 países membros (já contamos a história da OTAN aqui).
E o teste que o Wall Street Journal mencionou lá atrás já está em andamento. No dia 14 de setembro, o próprio Rutte chamou os ataques com drone perto da fronteira polonesa de sinal do desespero de Putin, depois que a Rússia lançou drones que atingiram até um trem de passageiros da linha Kiev-Varsóvia a apenas 2 quilômetros da fronteira polonesa (fonte).
Esse teste virou assunto nas principais capitais europeias essa semana. Hoje mesmo, 18 de setembro, o presidente francês Emmanuel Macron recebeu por quase quatro horas, no Palácio do Eliseu, os líderes de todos os partidos com representação no Parlamento francês pra tratar exatamente desse assunto, a Rússia, a Ucrânia e a segurança da Europa. Depois da reunião, Macron foi direto pras redes sociais responder perguntas de franceses sobre o tema, abrindo a conversa com um mapa mostrando o avanço russo no território ucraniano e lembrando que a guerra já matou um milhão de pessoas (fonte).
A mesma inquietação apareceu na Alemanha essa semana, que reativou um hospital subterrâneo construído em 1979, na cidade de Ulm, ainda da época da Guerra Fria, capaz de abrigar até 2 mil pessoas por 90 dias, enquanto o governo avalia se o sistema de saúde do país aguenta receber uma leva grande de feridos numa guerra contra a Rússia (fonte). Não é a primeira reação alemã nesse sentido nas últimas semanas, a gente já tinha contado por aqui como Berlim atribuiu à Rússia uma tentativa de atacar com drone um avião ucraniano no aeroporto de Leipzig/Halle e, em resposta, fechou o consulado russo em Bonn (já escrevemos sobre isso aqui).
A Finlândia fez parecido em dezembro passado, quando o parlamento aprovou às pressas uma lei preparando os hospitais do país pra cenário de guerra, com orçamento imediato de cerca de US$ 115 milhões (fonte). Faz sentido a Finlândia estar entre os primeiros a se mexer, já que foi o país que trouxe pra OTAN a fronteira terrestre mais longa com a Rússia, depois de abandonar décadas de neutralidade em 2023 (já contamos essa história aqui).
Até a neutra Suíça mudou de tom. O comandante do Exército suíço, Benedikt Roos, avisou publicamente no início de setembro que o país está na mira da Rússia (fonte).
O que chama atenção nesse momento é a sequência completa, a decisão de escalar que Putin parece ter tomado, os números de baixas que a guerra já acumulou, o exercício bielorrusso bem em cima do corredor mais frágil da aliança e, agora, capitais como Paris, Berlim, Helsinque e Berna reagindo praticamente na mesma semana, num momento em que a própria Europa já discutia se estava se armando rápido o suficiente (já escrevemos sobre essa corrida armamentista aqui).
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