O Catar (Qatar) e sua posição geopolítica
O Catar acabou arrastado este ano para uma guerra que não começou, a que Estados Unidos e Israel abriram contra o Irã em fevereiro. Um emirado pequeno, conhecido pela riqueza, pela Copa do Mundo de 2022 e por receber negociadores de todos os lados, passou a ser alvo de mísseis iranianos e virou peça central de uma crise mundial de gás (fonte). Bora entender como uma península pobre virou um dos maiores exportadores de gás do mundo e em por que um país desse tamanho, espremido entre a Arábia Saudita e o Irã, precisa de protetores e de clientes espalhados pelo mundo.
O Catar tem cerca de 11,6 mil quilômetros quadrados e mais de 3,3 milhões de habitantes, dos quais só uns 300 mil são cidadãos, e a maioria dos residentes é formada por estrangeiros. É um emirado, ou seja, uma monarquia hereditária chefiada por um emir, e não exatamente um reino (fonte) (fonte, p. 10) .
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Antes do petróleo, a península era pasto de tribos nômades vindas da Arábia Central, com algumas vilas de pesca e de mergulho atrás de pérolas. Os Al Thani, que depois viriam a governar, eram beduínos do centro da Arábia que se fixaram ali e viviam do mar e do comércio (fonte).
Nos anos 1760 a família Al Khalifa, que governa o Bahrein até hoje, fundou com outro clã uma cidade no litoral catari. Em 1783, junto com outras tribos, tomou a ilha do Bahrein, e a maior parte da família se mudou pra lá. Sem um governante forte na península, as tribos viviam em disputa, e os povoados ergueram muros, torres e pequenos fortes pra se proteger de ataques de beduínos. Por causa da presença dos Al Khalifa na península, o Bahrein passou a reivindicar o Catar em várias ocasiões (fonte) (fonte).
Quem passou a dar as cartas na região foi a Grã-Bretanha, por causa da Índia. Ela queria rotas seguras pros navios da Companhia das Índias Orientais e afastar outras potências do Golfo, e por isso fechou, em 1820, um tratado contra a pirataria com os xeques da região. O Bahrein assinou, e os britânicos e os bahreinitas presumiram que o Catar, visto como dependência dele, estava incluído. Em 1821 um navio da Companhia bombardeou Doha como punição pela suposta pirataria, destruiu a cidade e fez centenas de pessoas fugirem, e os moradores nem sabiam o motivo (fonte). Quando oficiais britânicos fizeram, em 1822, o primeiro levantamento da costa catari, encontraram Doha como grupos de casas apertados em volta de dois fortes, vários deles danificados pelo bombardeio (fonte).
A situação seguiu instável até que, em 1867 e 1868, uma série de ataques e saques atingiu a costa árabe, e os britânicos atribuíam a maioria ao governante do Bahrein, apoiado pelos governantes de Abu Dhabi e do Catar. Londres só interveio porque entre as vítimas havia súditos britânicos. Quando o governante do Bahrein passou a saquear até as cidades dos aliados, como Doha, a atual capital, e Al Wakrah, o coronel Lewis Pelly, representante britânico no Golfo, ameaçou usar canhoneiras e, como foi ignorado, bombardeou fortes no Bahrein, no Catar e em Abu Dhabi. Os governantes do Catar e de Abu Dhabi, cansados da tirania do Bahrein, aceitaram negociar se os britânicos os protegessem dele, e o governante bahreinita acabou capturado e substituído pelo irmão. Pelly fez questão de que Mohammed ibn Thani, governante das tribos catares, assinasse a declaração de manter a paz marítima (a promessa, imposta pelos britânicos aos xeques, de não guerrear pelo mar), e na prática esse foi o primeiro reconhecimento do Catar como algo separado do Bahrein, o que deu aos Al Thani a posição que eles mantêm até hoje. O tratado foi assinado em 12 de setembro de 1868 (fonte) (fonte) (fonte).
Os otomanos avançaram sobre a costa leste da Arábia em 1871, e o filho de Mohammed ibn Thani, Qasim, aceitou a soberania deles no ano seguinte, na esperança de usar esse apoio contra xeques rivais. A relação azedou e, em 1893, os otomanos sofreram uma derrota militar diante de Qasim (fonte). Mesmo assim mantiveram uma guarnição em Doha. Uma convenção anglo-otomana de 1913 previa a retirada dessa guarnição, mas nunca foi ratificada, e os otomanos só saíram em 1915, por razões estratégicas próprias, depois de se aliarem à Alemanha na Primeira Guerra (fonte) (já escrevemos sobre isso aqui). Em 1916 o governante, Abd Allah ibn Qasim, filho de Qasim, assinou com a Grã-Bretanha um tratado em que a Grã-Bretanha garantia a segurança do Catar e o Catar entregava o controle da política externa (mesma fonte). A proteção pesava, porque os sauditas, que tinham se reerguido no centro da Arábia, ameaçavam o Catar no começo do século XX, e só com ajuda britânica os Al Thani mantinham o poder (fonte) (já escrevemos sobre isso aqui).
O comércio de pérolas, que sustentava a península, desabou nos anos 1920, quando os japoneses criaram um jeito mais barato de cultivar pérolas, e a Grande Depressão dos anos 1930 e um embargo do Bahrein pioraram a situação. Famílias inteiras foram embora, e em 1949 o Catar tinha só uns 16 mil habitantes, segundo uma estimativa (fonte) (fonte) (fonte). Em 1935 o governante deu uma concessão de exploração de petróleo à Anglo-Persian Oil Company, e em troca a Grã-Bretanha fez promessas de ajuda mais específicas do que nos tratados anteriores. O petróleo foi achado em Dukhan em 1939, a guerra parou a produção entre 1942 e 1947, e as exportações começaram em 1949 (fonte).
Abd Allah ibn Qasim preparava o segundo filho, Hamad, pra sucedê-lo, mas Hamad morreu em 1948, e a disputa ficou entre o filho mais velho, Ali, e o neto Khalifa ibn Hamad, que era um adolescente. Logo que as exportações começaram, parentes ameaçaram pegar em armas por aumento de mesada, e o governante recorreu aos britânicos, prometendo abdicar e aceitando uma presença oficial britânica no país em troca de apoio a Ali como sucessor, em 1949 (fonte). A parte do governante Ali nos lucros do petróleo subiu de cerca de 1 milhão de dólares em 1950 pra 61 milhões em 1958, mas pouco chegou à população, e o que mais se sentiu foi a inflação nos preços de produtos básicos (fonte).
Nos anos 1950 o governo foi montado sob tutela britânica, e o primeiro orçamento foi feito por um conselheiro britânico, em 1953. Em 1961 o Catar entrou na Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep), grupo de países produtores que combinam quanto produzir pra tentar influenciar o preço, pra ter mais força na negociação com as petrolíferas estrangeiras (já escrevemos sobre isso aqui). Em 1960 Ali abdicou, mas em vez de entregar o poder ao sobrinho Khalifa, que tinha sido apontado herdeiro em 1948, passou pro próprio filho, Ahmad, que vivia boa parte do tempo fora do país, e com isso Khalifa, como vice, acabou tocando boa parte do governo (fonte) (fonte).
Em 1968 a Grã-Bretanha anunciou que ia retirar suas forças da região até 1971. Catar, Bahrein e os emirados da costa chegaram a discutir uma federação, mas Khalifa se opôs ao papel de sócio principal que o Bahrein queria, e o Catar se declarou independente em 3 de setembro de 1971 (fonte) (fonte, p. 1). Em 22 de fevereiro de 1972 Khalifa tirou do poder o primo Ahmad, com ajuda do filho Hamad, que tinha acabado de voltar da Grã-Bretanha e comandava algumas unidades militares, e com apoio tácito dos Al Thani e da Grã-Bretanha e apoio político, financeiro e militar da Arábia Saudita. Ahmad e a família tinham ficado com uma fatia enorme da renda do petróleo, e Khalifa cortou essas mesadas e passou a gastar mais em programas sociais, como moradia e saúde (fonte) (fonte, p. 6). Em 1977 o governo já tinha assumido todas as operações de petróleo, que antes eram de empresas estrangeiras (fonte).
Independente, o Catar seguia de perto a Arábia Saudita. As duas famílias governantes adotam o wahhabismo (corrente muito conservadora do islã sunita, predominante na Arábia Saudita), o Catar acompanhava Riad em muitos assuntos regionais, e em 1981 foi um dos seis fundadores do Conselho de Cooperação do Golfo (organização que reúne seis monarquias árabes da região, criada em plena guerra entre Irã e Iraque). No ano seguinte os dois países assinaram um acordo de defesa (fonte) (fonte, p. 12). Formalmente o país era independente desde 1971, mas, nas palavras de Guido Steinberg, pesquisador do instituto alemão Stiftung Wissenschaft und Politik (SWP), até meados dos anos 1990 ele foi pouco mais do que um protetorado saudita na prática, e as suas reservas de petróleo eram limitadas e iam se esgotando aos poucos (fonte, p. 5).
No começo dos anos 1970 a Shell encontrou ao largo da costa o North Field, hoje o maior campo de gás natural não associado do mundo, ou seja, de gás que não vem misturado com petróleo. Na época o gás quase não valia nada, porque o campo não tinha petróleo e gás era difícil de transportar, e só no começo dos anos 1980, com o preço do petróleo em queda e a produção do país em declínio, o governo resolveu apostar nele (fonte, p. 12) (fonte). Os planejadores esperavam que as reservas de petróleo acabassem por volta de 2023, e foi nesse cenário que nasceu, em 1984, a Qatargas, criada como joint venture (empresa formada em parceria entre companhias) pra vender e exportar gás natural liquefeito, o GNL (gás resfriado até virar líquido pra caber num navio). A primeira fase do desenvolvimento do campo, supervisionada pela americana Bechtel e pela francesa Technip, foi inaugurada em 3 de setembro de 1991, no aniversário de vinte anos da independência, e servia ao consumo interno de gás. A exportação de GNL era a etapa seguinte, e o Catar já tinha fechado, em fevereiro daquele ano, uma carta de intenção com a japonesa Chubu Electric pra fornecer 4 milhões de toneladas por ano, durante 25 anos, a partir de 1997 (fonte).
O campo é compartilhado com o Irã, que o chama de South Pars e que em 1989 reivindicou que um terço dele ficava em águas iranianas (fonte). Os dois países nunca fecharam um acordo pra explorar o campo em conjunto, e cada um desenvolve o seu lado, com pouca coordenação (fonte) (fonte). Com o início da produção no lado catari do campo, em 1991, o Irã, que sofria com falta de dinheiro e de tecnologia pra explorar o seu lado, passou a criticar o aumento rápido da produção catari, e Doha passou a temer ameaças iranianas à sua infraestrutura de gás (fonte, p. 15).
Em 2 de agosto de 1990 o Iraque invadiu o Kuwait, e isso mudou a política de defesa do Catar. O país, que antes se opunha à presença militar estrangeira no Golfo, mandou tropas pra libertar o Kuwait e deixou aviões americanos, canadenses e franceses decolarem de Doha (fonte). A invasão mostrou que vizinhos árabes também podiam ameaçar países pequenos, e incidentes na fronteira com a Arábia Saudita em 1992 e 1994 convenceram o príncipe herdeiro Hamad bin Khalifa, filho do emir e já tocando o governo no dia a dia, de que a ameaça saudita era mais do que teórica (fonte, p. 9). Em 23 de junho de 1992 o Catar e os Estados Unidos assinaram um acordo de cooperação em defesa, que previa acesso americano às bases catares, armazenamento de equipamento militar americano no país e exercícios conjuntos (fonte).
Em junho de 1995 Hamad tirou o pai, o emir Khalifa, do poder enquanto ele estava na Europa, e o emir deposto fugiu pra Arábia Saudita. Foi a quinta sucessão difícil do século, depois das de 1913, 1949, 1960 e 1972 (fonte, p. 6) (fonte, p. 9) (fonte, p. 10). Hamad anunciou um programa de modernização e, de início, de abertura política, e os vizinhos reagiram mal. Segundo relatos, inclusive de fontes catares, houve até outubro de 1996 três tentativas de golpe envolvendo Arábia Saudita, Emirados e Bahrein, a mais perigosa em fevereiro de 1996, com mercenários franceses, e os Emirados negam o envolvimento (fonte, p. 9-10).
Pra se livrar da tutela saudita, Hamad apostou em frentes paralelas. A primeira foi o gás, e o primeiro carregamento de GNL saiu no fim de 1996 rumo ao Japão e chegou ao terminal de Kawagoe em 10 de janeiro de 1997 (fonte) (fonte). O risco era grande, porque os preços de energia estavam baixos e o Catar teve que pegar bilhões emprestados, mas a demanda asiática por gás subiu a partir de 2002, as receitas explodiram e em 2006 o país já era o maior exportador de GNL do mundo (fonte, p. 12). Hoje o Catar responde por quase 20% do GNL exportado no mundo, e o petróleo e o gás geram 83% da receita do governo (fonte). A lógica, segundo Steinberg e também segundo a Chatham House, era tornar o Catar importante pro maior número possível de países, pra reduzir a vulnerabilidade diante de vizinhos maiores, e os contratos de longo prazo faziam com que vários clientes passassem a ter interesse direto na segurança do país (fonte, p. 12-13) (fonte, p. 10) (fonte, p. 5).
A segunda aposta foi a proteção americana, e em 1996 o Catar construiu por conta própria, por mais de 1 bilhão de dólares, a base aérea de Al Udeid, numa época em que quase nem tinha força aérea, o que foi lido como um convite aos americanos. O convite foi aceito em 2003, quando a Arábia Saudita pediu que os americanos saíssem do seu território antes da guerra do Iraque e o centro de operações aéreas dos Estados Unidos no Oriente Médio se mudou pra Al Udeid (fonte, p. 15) (já escrevemos sobre as bases americanas na Alemanha aqui). Hoje a base abriga o comando avançado do Comando Central, o comando americano responsável pelo Oriente Médio, e algo entre 8 mil e 10 mil militares, e o Catar já financiou mais de 8 bilhões de dólares pra apoiar as operações americanas e da coalizão ali desde 2003, além das verbas americanas de construção (fonte, p. 13-14).
A terceira aposta foi o que os especialistas chamam de soft power (poder de influência por atração, e não por força militar), e a TV Al Jazeera, fundada em novembro de 1996 com dinheiro do emir, noticiava todos os governos árabes menos o do Catar e irritou tanto os sauditas que eles chamaram o embaixador de volta em 2002. Depois vieram os investimentos em universidades estrangeiras e em eventos esportivos, com a Copa de 2022 à frente (fonte, p. 18-20).
Nos anos 2000 o Catar se aproximou do Irã, que dividia com ele o campo de gás, e a partir de 2005, com a rivalidade entre Irã e Arábia Saudita crescendo, passou a se oferecer como mediador entre os dois lados. O acordo de Doha de 2008, que evitou novos combates no Líbano, foi por muito tempo visto como seu maior sucesso (fonte, p. 22). A mediação chegou a entrar na Constituição de 2003, que manda a política externa buscar a solução pacífica de disputas, e o Catar também mediou no Iêmen e em Darfur, no Sudão (fonte, p. 6). Com Israel o contato vem desde 1996, quando Doha recebeu o primeiro-ministro Shimon Peres e foi aberta uma missão comercial israelense, fechada depois da guerra de Gaza de 2008 e 2009 (fonte, p. 23).
O Hamas, grupo islamista palestino que nasceu da Irmandade Muçulmana (movimento islamista que surgiu no Egito nos anos 1920), assumiu o controle da Faixa de Gaza em 2007 e é classificado como terrorista pelos Estados Unidos. Mantinha escritórios em Doha, e seu ex-líder Khaled Meshaal vive no país desde 2012 (fonte, p. 11) (já escrevemos sobre o grupo aqui).
O Talibã, movimento islamista que governou o Afeganistão de 1996 a 2001 e voltou ao poder em 2021, abriu um escritório em Doha em 2013, com apoio dos americanos, e foi lá que Estados Unidos e Talibã assinaram, em fevereiro de 2020, o acordo da retirada das tropas americanas (fonte, p. 12). Em 2021, quando o governo afegão caiu, diplomatas cataris ajudaram a retirar cerca de 75 mil pessoas de Cabul, e a embaixada americana passou a funcionar a partir de Doha (mesma fonte, p. 12).
Entre 2011 e 2013, na Primavera Árabe (onda de protestos que derrubou ou abalou governos árabes), o Catar deixou de lado a mediação em vários conflitos e passou a tomar partido, apostando na Irmandade Muçulmana, que era a única oposição organizada capaz de ocupar o lugar dos governos que caíam. Os laços vinham de longe, porque membros da Irmandade perseguidos no Egito, nos anos 1950 e 1960, e na Síria, em 1982, tinham se refugiado em boa parte no Catar (fonte, p. 8-9). Na Líbia, em 2011, o Catar foi peça central na mobilização internacional ao lado da França e do Reino Unido e chegou a mandar caças às operações aéreas da aliança militar ocidental (mesma fonte, p. 10). Apoiou também rebeldes na Síria e virou o maior doador estrangeiro do governo eleito no Egito, que caiu num golpe militar em julho de 2013 (já escrevemos sobre isso aqui) (fonte, p. 23 e 25-28). Em junho de 2013 o emir Hamad abdicou em favor do filho Tamim bin Hamad Al Thani, um gesto raro num Golfo em que os governantes costumam morrer no cargo ou ser derrubados (fonte, p. 3), e Tamim baixou o tom da política regional (fonte, p. 8 e 23).
O apoio à Irmandade, a proximidade com o Irã e o contato com o Hamas seguiram como as principais acusações da Arábia Saudita e dos Emirados contra Doha (fonte, p. 5). Em 2014 esses dois países e o Bahrein chegaram a retirar seus embaixadores de Doha, e só os devolveram depois que o Catar prometeu reduzir o apoio a grupos ligados à Irmandade (fonte, p. 8-9). Em 5 de junho de 2017 a crise voltou, bem mais pesada, e Arábia Saudita, Emirados, Bahrein e Egito cortaram relações com o Catar e fecharam as rotas de transporte (fonte). O estopim foi uma notícia publicada em maio pela agência oficial catari com declarações do emir Tamim em elogio ao Irã e ao Hamas. O Catar disse que a agência tinha sido hackeada, e autoridades americanas apontaram os Emirados, segundo o jornal Washington Post, que negam (fonte, p. 4). Os quatro países exigiram, entre outras coisas, que o Catar fechasse a Al Jazeera, rompesse com a Irmandade, rebaixasse as relações com o Irã e tirasse as tropas turcas do seu território. O Catar recusou e se apoiou no Irã e na Turquia, que mandou comida e mais de 1.500 soldados pra base que mantinha ali desde 2014 (fonte, p. 9, 10 e 16) (fonte, p. 7-8 e 29).
Em Washington, no primeiro mandato, Trump apoiou o bloqueio no começo, mas em setembro de 2017 passou a apoiar a mediação do emir do Kuwait. O Catar tratou de consertar o estrago, e entre junho e dezembro daquele ano assinou os acordos pra comprar 72 caças F-15, num programa que os Estados Unidos tinham autorizado em 2016, estimado em cerca de 21 bilhões de dólares, e em 22 de dezembro a Boeing recebeu o contrato dos primeiros 36 aviões, de cerca de 6,2 bilhões de dólares (fonte, p. 16-17) (fonte, p. 14-15) (fonte). Em julho, os dois países tinham assinado também um memorando de cooperação contra o terrorismo (fonte, p. 24).
Além dos americanos, o Catar comprava da França, antes do ano 2000, a maior parte dos seus sistemas de combate, e em 2015 encomendou 24 caças Rafale franceses, por cerca de 7 bilhões de dólares (fonte, p. 15-16). Com a Grã-Bretanha, a ligação sobreviveu à independência. Em dezembro de 2017 o Catar fechou a compra de 24 caças Typhoon britânicos, por cerca de 6,7 bilhões de dólares (fonte), e em 2018 nasceu o esquadrão 12, unidade conjunta das forças aéreas britânica e catari, a única do tipo que o Reino Unido mantém com outro país (fonte). Em janeiro de 2026 o esquadrão foi destacado pro Golfo ao abrigo de um acordo de garantia de defesa entre os dois países (fonte), e jatos britânicos ajudaram a interceptar mísseis iranianos sobre o Catar na guerra (fonte). O Catar encomendou ainda navios de guerra à Itália e exibiu, em 2017, um míssil balístico de fabricação chinesa (fonte, p. 15-16). Somando F-15, Rafale e Typhoon, Steinberg observa que militarmente não faz sentido encomendar três tipos de caça pra substituir um modelo antigo, e que a explicação mais provável é o desejo de Doha de reforçar a aliança com os Estados Unidos e com os aliados europeus deles (fonte, p. 17).
Durante o bloqueio o Catar mostrou que não pretendia recuar. Em abril de 2017 anunciou o fim da pausa na expansão do North Field, com a meta de passar de 77 pra 100 milhões de toneladas de GNL por ano, depois ampliada pra 126 milhões até 2027 e, em fevereiro de 2024, pra 142 milhões até o fim de 2030 (fonte). Em dezembro de 2018 anunciou a saída da Opep, numa decisão que Steinberg lê como demonstração de força e de independência de uma organização muito influenciada pelos sauditas (fonte, p. 13-14).
O bloqueio acabou em 5 de janeiro de 2021, com a Declaração de Al-Ula, assinada numa cúpula do Conselho de Cooperação do Golfo na Arábia Saudita, e sem que o Catar precisasse cumprir nenhuma das exigências iniciais (fonte, p. 9). Foi nesse período que o Catar passou a ver a Turquia como seu novo protetor (fonte, p. 5 e 22). A própria Turquia se reaproximou depois dos sauditas e hoje integra com eles e com o Paquistão um pacto de defesa que o Catar não assinou (já escrevemos sobre isso aqui).
A expansão do gás precisava de compradores, e o Catar vinha montando essa rede desde os anos 2000. Em março de 2009 chegou o primeiro carregamento ao terminal de South Hook, no País de Gales, e o Reino Unido passou a depender bastante do gás catari, e no mesmo ano a Qatargas fechou com a Companhia Nacional de Petróleo Offshore da China e com a PetroChina um contrato de 25 anos, pra 5 milhões de toneladas por ano (fonte, p. 5). O emir Hamad disse naquele ano que China, Índia e Rússia estavam chegando e que não sabia se Estados Unidos e Europa continuariam na liderança (mesma fonte, p. 7-8). Em 2019 o Catar fornecia mais da metade do GNL da Índia e de Taiwan, um terço do britânico e um quinto do chinês (fonte, p. 22).
Em 2025 o maior desses clientes foi a China, rival dos Estados Unidos na disputa global (já escrevemos sobre isso aqui), que comprou do Catar 19,4 milhões de toneladas de GNL, o equivalente a 28,4% de tudo que importou, segundo dados da alfândega chinesa citados pela S&P Global Energy (fonte). A QatarEnergy fechou com a estatal chinesa Sinopec um contrato de 10 anos em março de 2021, pra 2 milhões de toneladas por ano, e outro de 27 anos em novembro de 2022, pra 4 milhões de toneladas por ano, com gás da expansão do North Field (fonte). A China também é a maior parceira comercial do Catar, chama o país de parceiro estratégico importante e evita criticar o Irã pelo bloqueio do Estreito de Ormuz, a passagem entre o Irã e Omã por onde sai o gás catari (já escrevemos sobre os estreitos marítimos aqui) (fonte).
O Japão, que não tem energia própria e foi o primeiro destino do GNL catari (já escrevemos sobre como ele reagiu às crises do petróleo aqui), seguiu entre os grandes compradores. A Índia recebia cerca de 42% do seu GNL do Catar antes da guerra, e China, Índia e Coreia do Sul juntas respondiam por cerca de metade das compras de GNL do Catar (fonte).
A Europa só virou cliente grande depois que a Rússia invadiu a Ucrânia, em fevereiro de 2022 (já escrevemos sobre as origens desse conflito aqui). Os europeus correram atrás de gás pra substituir o russo, e em 29 de novembro de 2022 a QatarEnergy e a americana ConocoPhillips fecharam acordos pra fornecer à Alemanha 2 milhões de toneladas por ano, durante pelo menos 15 anos, a partir de 2026 (fonte). A QatarEnergy tem contratos de longo prazo também com França, Itália e Países Baixos, e em 2024 o ministro de energia do Catar ameaçou parar de fornecer à União Europeia se países do bloco multassem empresas pela lei europeia de dever de diligência (regra que obriga grandes empresas a vigiar direitos humanos e meio ambiente em toda a cadeia de fornecedores) (fonte). A ameaça voltou em 2025 (fonte).
Com a Rússia, o Catar ampliou a relação desde 2016, e no fim daquele ano o fundo soberano catari, que é o fundo de investimentos do governo, e a Glencore, uma trading suíça (empresa que compra e vende matérias-primas), compraram quase 20% da petrolífera estatal russa Rosneft. Em 2018, depois que a venda de uma fatia a uma empresa chinesa fracassou, o fundo soberano catari passou a deter diretamente cerca de 19% (fonte). O Catar comprou também fatias de 25% nos aeroportos de São Petersburgo e de Vnukovo, em Moscou (fonte, p. 23). Doha chegou a estudar a compra do sistema antiaéreo russo S-400, mas a compra não avançou, em parte pela oposição americana e pela ameaça de sanções, e em 2022 o Catar apoiou na Assembleia-Geral das Nações Unidas a resolução contra a invasão da Ucrânia, e o chanceler foi a Moscou tentar ajudar na mediação (fonte, p. 16-17). Os dois países também competem pelo mercado europeu de gás (fonte).
Em 2022 o Catar virou major non-NATO ally (aliado preferencial fora da aliança militar ocidental, que dá acesso facilitado a armas e tecnologia militar dos Estados Unidos, mas não traz a promessa de defesa mútua que existe entre os membros dessa aliança) (já escrevemos sobre isso aqui) (fonte, p. 17). Em 2024 saíram reportagens de que os dois governos combinaram manter os americanos em Al Udeid por mais dez anos (fonte).
Em 7 de outubro de 2023 o Hamas atacou comunidades israelenses, matando cerca de 1.200 pessoas e levando cerca de 250 reféns pra Gaza, e começou a guerra de Gaza (fonte). O primeiro-ministro catari, Mohammed bin Abdulrahman Al Thani, virou mediador central das negociações entre Hamas e Israel, ao lado do Egito e dos Estados Unidos, e em novembro de 2023 o Catar ajudou a fechar uma trégua e a libertação de mais de 100 reféns. Em novembro de 2024 suspendeu a mediação até que as partes mostrassem seriedade, depois que Washington disse que a presença do Hamas em Doha já não era aceitável (fonte). O Catar diz que recebe o Hamas desde 2012 a pedido dos Estados Unidos (fonte).
Em junho de 2025 veio a guerra de doze dias entre Israel e Irã, com participação americana nos ataques a instalações nucleares iranianas (fonte). No dia 23 o Irã retaliou lançando 19 mísseis contra Al Udeid, dos quais 18 foram interceptados e um caiu dentro da base sem causar perdas (fonte), e horas depois Trump, já no segundo mandato, anunciou um cessar-fogo entre Israel e Irã (fonte).
Em 9 de setembro de 2025 Israel atacou Doha, mirando líderes do Hamas que estavam na cidade onde aconteciam rodadas de negociação de cessar-fogo. Segundo o próprio Hamas, o ataque matou cinco de seus membros sem atingir a delegação que negociava, e Trump disse que não estava empolgado com a situação (fonte). Vinte dias depois, em 29 de setembro, ele assinou a ordem executiva 14353. O texto torna política dos Estados Unidos garantir a segurança e a integridade territorial do Catar contra ataque externo, trata qualquer ataque armado ao território, à soberania ou à infraestrutura crítica do país como ameaça à paz e à segurança dos próprios Estados Unidos e manda manter planos de defesa conjuntos com Doha. A própria ordem diz que não cria direitos nem benefícios e, por ser um ato do presidente, não é um tratado aprovado pelo Senado, o que a diferencia da defesa coletiva da aliança militar ocidental (fonte).
Em 28 de fevereiro de 2026, Estados Unidos e Israel começaram a bombardear o Irã, dizendo querer provocar uma mudança de regime e atingir o programa nuclear e de mísseis balísticos, depois do fracasso de negociações indiretas mediadas por Omã (fonte) (já escrevemos sobre isso aqui). O Irã respondeu atacando Israel, bases americanas e locais militares e civis em países árabes que abrigam forças americanas, entre eles o Catar. Em 2 de março, drones atingiram Ras Laffan, o maior complexo de GNL do mundo, e Mesaieed, outra área industrial, e a QatarEnergy, a estatal de energia do país, parou a produção de GNL, o que fez o gás subir quase 50% na Europa e cerca de 39% na Ásia (fonte).
Em 2025, cerca de 93% das exportações de GNL do Catar atravessaram o Estreito de Ormuz, segundo a Agência Internacional de Energia, e com a guerra o trânsito caiu drasticamente e passou a operar sob fortes restrições e riscos de segurança. Segundo a mesma agência, mais de 300 milhões de metros cúbicos por dia, em equivalente gasoso (o volume que o GNL ocuparia depois de voltar ao estado de gás), deixaram de chegar ao mercado desde 1º de março por causa da redução das exportações de GNL do Catar e dos Emirados, embora cerca de três quartos dessa perda tenham sido compensados por GNL vindo de outras regiões (fonte).
Nenhuma alternativa tem capacidade de substituir os volumes de GNL que normalmente atravessam o estreito. O gasoduto Dolphin leva gás só aos Emirados e a Omã, cerca de 22 bilhões de metros cúbicos em 2024, contra cerca de 100 bilhões exportados como GNL, segundo estimativas preliminares da Administração de Informação de Energia dos Estados Unidos (EIA), convertidas pra metros cúbicos (fonte).
Nos dias 18 e 19 de março, depois de um ataque israelense ao campo de South Pars, do lado iraniano, mísseis do Irã atingiram Ras Laffan de novo. Dois trens de liquefação (as linhas de produção que transformam o gás em líquido) ficaram fora de operação, o que tirou cerca de 17% da capacidade de exportação do país, com perda estimada de 20 bilhões de dólares por ano em receita e conserto de três a cinco anos (fonte). O Catar, que tinha investido décadas em evitar briga com o Irã, expulsou os adidos militar e de segurança da embaixada iraniana (fonte), e Trump ameaçou destruir South Pars se novos ataques atingissem o Catar (fonte).
Com os danos, a QatarEnergy declarou force majeure (cláusula de contrato que permite suspender entregas por um evento fora do controle da empresa) em contratos de longo prazo com compradores da China, da Coreia do Sul, da Itália e da Bélgica, por até cinco anos (fonte). As exportações do Catar, que ficavam entre 6 e 8 milhões de toneladas por mês antes da guerra, caíram pra perto de 1 milhão a partir de março, e países asiáticos como Tailândia e Singapura passaram a comprar bem mais gás dos Estados Unidos, o mesmo país que protege o Catar em Al Udeid (fonte).
A China, maior cliente, comprou do Catar só cerca de 100 mil toneladas de GNL no segundo trimestre, contra até 4,7 milhões um ano antes, segundo dados de rastreamento de navios da Bloomberg, e suas estatais negociam contratos com fornecedores que não dependem do Golfo (fonte). A Índia, que dependia do gás catari, viu o Catar cair pra sexta posição entre seus fornecedores em setembro, com cerca de 94 mil toneladas, enquanto Omã, que exporta sem passar por Ormuz, virou o maior, com 27% do total, segundo a Kpler (fonte). Em 8 de setembro, o primeiro-ministro catari foi a Pequim, e o Catar disse à China que priorizaria o fornecimento de energia apesar das dificuldades (fonte).
Um cessar-fogo condicional foi declarado em 8 de abril, com mediação do Paquistão (fonte), e um memorando entre Estados Unidos e Irã, em 17 de junho, reabriu o estreito em parte. Os ataques a navios voltaram em julho, e um navio-tanque catari de GNL, o Al Rekayyat, foi atingido ao largo de Omã (fonte). Em setembro o tráfego de GNL voltou a subir, na maior movimentação mensal desde o início da guerra. A S&P Global Energy e a Kpler, empresas que acompanham o comércio de energia e a posição dos navios, registraram respectivamente 19 e 21 carregamentos pelo estreito no mês inteiro, uma fração dos cerca de três por dia, ou uns 90 por mês numa conta aproximada, de antes da guerra. Segundo a S&P, dos 19 carregamentos, 13 eram do Catar e 6 dos Emirados (fonte). O Catar passou o fim do verão carregando GNL nos navios dentro do Golfo, em nível mínimo, e o ministro de energia disse que as partes sem danos de Ras Laffan voltam à operação plena em poucas semanas depois que Ormuz reabrir (fonte). Em 13 de outubro, o emir Tamim disse ao conselho consultivo do país que a segurança dos países do Golfo não está em negociação e que é preciso dobrar os esforços pra garantir a navegação no Golfo e em Ormuz e proteger as instalações de energia (fonte).
Em Gaza, o cessar-fogo mediado pelos Estados Unidos em outubro de 2025 não avançou pra segunda fase, que previa o desarmamento do Hamas, e em 6 de julho de 2026 o Hamas anunciou que ia dissolver o seu governo na Faixa e passar o poder a um comitê de tecnocratas palestinos, formado em janeiro com apoio da Organização das Nações Unidas. O grupo manteve técnicos e funcionários nos cargos e não falou em desarmamento, e o chanceler israelense chamou a medida de truque (fonte).
Antes da guerra, o plano do Catar era elevar a capacidade de exportação de GNL pra 142 milhões de toneladas por ano até o fim de 2030, um aumento de quase 85% sobre o nível de 2024 (fonte). A melhora do trânsito em setembro não significa normalização, porque uma coisa é o volume que sai pelo estreito, que pode subir por um tempo, e outra é a capacidade de produção, que perdeu cerca de 17% em Ras Laffan e só volta com o conserto. A Agência Internacional de Energia avalia que os danos vão reduzir o crescimento de oferta que se esperava e adiar a nova onda de GNL que o mercado aguardava (fonte).
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