A Lógica de Vestfália: Por que EUA e China agem assim

Existe um conceito chamado “Paz de Vestfália” que se você não for acadêmico de relações internacionais, ou um ávido leitor do tema, você provavelmente nunca ouviu falar, mas que explica praticamente tudo do que está acontecendo entre os EUA e a China neste momento. Ela não é um tratado, é uma série de acordos assinados em 1648 que marcou o fim de uma guerra européia brutal de trinta anos. A ideia de que cada país é soberano dentro das suas fronteiras, que nenhum poder acima deles (Papa, Imperador, ninguém) pode vir e mandar em casa deles, e que todos têm direito de mandar igualmente, independente de tamanho (fonte).

Isso virou o sistema internacional que conhecemos. Desde 1648 até hoje, as nações agem como se essa regra fosse real. Você não mete a mão na casa do outro, você responde a si mesmo e ponto. É simples, mas é isso que estrutura praticamente toda a política global. Quando líderes falam em “soberania”, em “fronteiras que precisam ser respeitadas”, em “não interferência”, eles estão falando de Vestfália, mesmo que não saibam disso.

O problema é que essa soberania toda, essa igualdade jurídica entre os países, não é real quando você olha para o poder efetivo de cada um. Um país rico e poderoso faz muito mais o que quer do que um país pobre e fraco, mesmo que tecnicamente os dois sejam “iguais”. E num sistema onde não tem ninguém acima de todo mundo para arbitrar as regras, quem tem mais poder tende a vencer. Mas esse poder vem em formas diferentes, e é isso que torna a disputa entre EUA e China tão complexa.

Waltz estava certo

O teórico muito estudado na faculdade de Relações Internacionais chamado Kenneth Waltz explicou bem como isso funciona. Ele escreveu que o sistema internacional é anárquico, o que não quer dizer caos desorganizado, mas sim que não tem ninguém no topo mandando. Ou seja, não existe uma polícia do mundo. E quando não tem ninguém mandando, cada Estado se vira do seu jeito para sobreviver. Cada país tenta acumular poder, ganhar recursos, ficar mais forte que o vizinho. Se você não fizer isso, outro faz e você fica para trás.

Maquiavel já tinha falado isso há séculos, mas Waltz sistematizou. O príncipe age conforme o interesse do Estado, não conforme a moral. E você vê isso acontecendo em tempo real agora. Marco Rubio, secretário de Estado de Trump, foi bem honesto sobre isso. Quando perguntaram pra ele sobre a China, ele disse exatamente o que um realista diria: “A China tem um plano. Eles acreditam que vão ser o país mais poderoso do mundo, que vão superar os Estados Unidos, e estão executando esse plano. E eu não os culpo. Se eu fosse o governo chinês, teria o mesmo plano.”

Vamos ler novamente: “Se eu fosse o governo chinês, teria o mesmo plano.” Isso é análise pura. Rubio não está dizendo que isso é bom ou ruim, está dizendo que faz sentido, que é racional. E está certo. Num sistema onde ninguém manda em ninguém, cada um tenta ficar no topo. É isso que Waltz explicou. (fonte)

A corrida está acontecendo

Agora, onde essa corrida está mais quente é em quatro frentes: manufatura, energia, tecnologia e pesquisa. A China tem hoje 30% da produção industrial global contra 17% dos Estados Unidos. Na construção naval, o desequilíbrio é bem maior, com a China operando a maior frota naval do mundo em número de embarcações (~370 navios contra ~295 dos EUA). Esses números não são só de mercado, são de potência militar real. (fonte)

Mas quando você olha para qualidade e alcance, a história é completamente diferente. Os EUA ainda lideram em tecnologia naval de ponta: 11 porta-aviões nucleares contra 3 chineses, submarinos muito mais silenciosos, maior tonelagem total e experiência operacional incomparável. A Marinha americana pode chegar em qualquer oceano do mundo em semanas e tem uma rede global de bases militares. A China ainda está limitada basicamente ao Indo-Pacífico, seu quintal. Isso importa muito quando a gente fala de poder real.

Em eletricidade, a China produz 40% mais que os EUA e a União Europeia juntos. Em 2024, foram 10.086 terawatts-hora contra 4.634 dos americanos. E o crescimento? A China em 5,7% ao ano entre 2014 e 2024, os EUA em apenas 0,6%. Não é sequer uma corrida, é um carro andando e outro parado. (fonte)

Na energia, a China entendeu que precisa de independência energética para manter indústria, data centers e pesquisa. Em 2024 investiu 625 bilhões de dólares em energia limpa, o que é 31% do investimento global do setor inteiro. Capacidade instalada de renováveis chegou a 1.889 milhão de GW, salto de 25% em um ano, com renováveis sendo 56% da capacidade total. Na eólica, 340 GW contra 120 dos EUA. Na solar, 886 GW e crescendo 45% ao ano. (fonte) (fonte)

Enquanto isso, os EUA estão cortando incentivos pra energia limpa. Aí você vê a assimetria de novo: um lado acelerando, o outro desacelerando. Mas aqui entra outra vantagem americana que não aparece nesses números: alianças. NATO, AUKUS (com Austrália, Reino Unido), QUAD (Japão, Coreia do Sul, Índia, Austrália), mais parcerias robustas no Indo-Pacífico inteiro. Isso é poder militar real multiplicado. A China não tem praticamente nenhuma aliança significativa porque ninguém quer ficar do lado dela por medo das represálias dos EUA. Ficar perto de Pequim é arriscado economicamente.

P&D é o jogo real

Mas se você quer saber qual é o indicador que mais importa, é pesquisa e desenvolvimento. Em 2024, pela primeira vez, a China superou os Estados Unidos em P&D. A China gastou 1,03 trilhão de dólares contra 1,01 trilhão dos EUA, em valores ajustados pelo poder de compra da moeda. (fonte)

Mas o número não é nem o mais assustador para os americanos. O ritmo é. Desde 2004, o investimento chinês em P&D cresce 14% ao ano, mais que o dobro do ritmo americano. Em 2024, China aumentou 9,7%, EUA apenas 3,4%. As projeções dizem que até 2030 a China pode estar gastando 30% a mais em P&D que os EUA. (fonte) E em número de publicações científicas e pesquisadores de impacto, a China já passou.

Aqui é importante colocar um parêntese: apesar do avanço chinês em escala e investimento em P&D, os EUA mantêm vantagens significativas em inovação de fronteira. O país lidera no Global Innovation Index (3º lugar em 2025, contra 10º da China), domina chips avançados de IA, semicondutores de ponta e breakthroughs científicos de alto impacto. A maioria dos grandes modelos de IA ainda é americana (OpenAI, Anthropic, Google). Mas a China está fechando essa distância rápido com DeepSeek e outros. O modelo chinês é diferente: eles apostam em eficiência, em “bom o suficiente” em vez de “mais poderoso”, o que em alguns cenários é até mais prático. Ainda assim, reconhecer que os EUA têm essa vantagem em inovação de fronteira é crítico para entender o jogo.

Por que estamos citando tudo isso? Porque P&D é o que transforma recursos em poder real. Um país que investe mais em pesquisa hoje vai ter os melhores chips, os melhores armamentos, as melhores tecnologias daqui a vinte anos. É o equivalente moderno de controlar rotas comerciais ou ter o maior exército.

E enquanto a China acelera no P&D, os Estados Unidos estão cortando. O orçamento da NSF caiu 50% em novos projetos. Tem proposta de cortar 40% dos institutos de saúde. É basicamente o oposto do que você faz quando sente a pressão de uma potência em ascensão. (fonte)

Encontro entre delegação americana e Xi Jinping

Aqui é onde fica interessante. Rubio, de novo: “We’re not trying to constrain China, but their rise cannot come at our expense. Their rise cannot come at our fall.” Ou seja, em português: a gente não quer prender a China, mas o crescimento deles não pode ser a nossa queda. Ele está sendo bem claro: crescimento chinês é aceitável, desde que não venha com declínio americano. Pura lógica de jogo de soma zero, que é o que Waltz descrevia. (fonte)

E ele ainda completou dizendo o óbvio: “We have to be able to make our own stuff. We cannot depend on China for 100 percent of anything that we need.” A gente precisa fabricar as próprias coisas, porque depender de qualquer outro país em 100% do que precisa é vulnerabilidade total. Isso é estratégia de sobrevivência estatal pura.

Do lado chinês, Xi Jinping recebeu a delegação americana com tom mais aberto. Disse que a China vai “abrir mais a porta” para negócios estrangeiros, que quer aprofundar engajamento comercial com os americanos. Mas Xi também perguntou se os dois conseguiriam evitar a “armadilha de Tucídides”, que é aquela ideia histórica de que quando uma potência emergente desafia uma estabelecida, a guerra fica provável. (já falamos sobre isso aqui)

Pensa bem no que Xi está fazendo. De um lado, oferece abertura comercial para manter os americanos interessados. Do outro, lembra que existe a armadilha de Tucídides. É a diplomacia pura. Ele está reconhecendo que a tensão é estrutural, mas oferecendo cooperação onde for possível.

O dilema real

O que Waltz explicou é que num sistema anárquico, você nunca consegue confiar completamente do outro porque não tem árbitro. Mas ao mesmo tempo, você precisa cooperar em algumas coisas porque a interdependência é real. É exatamente onde os EUA e China estão agora.

Nenhum dos dois quer romper completamente porque os dois dependem um do outro. As empresas americanas precisam do mercado chinês, a China precisa de tecnologia americana e mercados globais. Mas nenhum dos dois abre mão de garantir sua posição estrutural de longo prazo. Rubio aceita a possibilidade de cooperação mas deixa claro que o crescimento chinês não pode ser na conta americana.

Ao mesmo tempo, os EUA estão usando sua vantagem em alianças: construindo AUKUS com Austrália, reforçando compromissos no Japão e Coreia, criando cadeias de fornecimento alternativas com aliados. É um movimento diferente do chinês, mas igualmente estratégico. A China está apostando em capacidade bruta. Os EUA estão apostando em redes.

É Vestfália funcionando exatamente como foi desenhada há 378 anos: soberanias iguais juridicamente mas assimétricas em poder real, competindo onde há conflito mas se tolerando onde há interesse mútuo, tudo isso sem ninguém acima delas para dizer o que é certo ou errado. Cada um tentando construir vantagens diferentes para o jogo de longo prazo.

Maquiavel entenderia perfeitamente o que Rubio e Xi estão fazendo. Waltz também. Eles estão operando conforme a lógica estrutural do sistema. E enquanto os dois estiverem dispostos a negociar, pelo menos não estão disparando. Mas a assimetria que vimos nos números de manufatura, energia e P&D? Essa vai ficar aí, condicionando cada movimento que qualquer um dos dois fizer nos próximos anos.