Venezuela e Irã: o teste da mudança de regime

Como dois conflitos, um na Venezuela e outro no Irã, estão sendo tratados pelo governo Trump como duas etapas do mesmo projeto. A expressão que aparece nos dois casos é regime change (mudança de regime), e o próprio Trump já chamou a transição que aconteceu na Venezuela de modelo pra repetir no Irã. Só que existe uma pergunta que precisa ser respondida: se trocar quem manda em um país por uma ação militar de fora resolve alguma coisa de fato, ou se só troca um problema por outro do mesmo tamanho? Essa pergunta tem décadas de pesquisa em ciência política e relações internacionais por trás dela, com bastante caso histórico pra comparar.

No dia 3 de janeiro de 2026, um comando da Delta Force do Exército dos Estados Unidos invadiu a residência do presidente venezuelano Nicolás Maduro em Caracas, prendeu ele e a mulher, e levou os dois pra Nova York pra responder a acusações de tráfico de drogas na justiça americana (Georgetown SFS). Logo depois da operação, Trump disse que os Estados Unidos iam comandar a Venezuela, e o secretário de Estado Marco Rubio precisou suavizar essa fala nos dias seguintes.

📲 Receba as próximas análises direto do nosso novo Canal no WhatsApp. Guerras, comércio, energia, tecnologia e poder. Novos artigos, gráficos e reflexões diretamente no canal CAVALÉRO LETTER. [Seguir no WhatsApp]

 

A parte que chama atenção é o que aconteceu depois da prisão de Maduro. A expectativa, tanto da população venezuelana quanto da oposição, era que o poder fosse pra Edmundo González, reconhecido pelos Estados Unidos e demais países como vencedor da eleição de 2024, ou pra María Corina Machado, que ganhou o Nobel da Paz justamente por liderar essa oposição. Já o governo Trump, segundo o Christian Science Monitor, colocou o poder nas mãos de Delcy Rodríguez, vice de Maduro, numa escolha que teria sido recomendada pela CIA (CSMonitor). Em março, a NPR registrou Trump chamando essa transição venezuelana de modelo pra mudança de regime no Irã, destacando também o interesse americano nos minerais críticos do país, os mesmos usados em baterias e em componentes eletrônicos (NPR).

No Irã o roteiro foi diferente. Em 28 de fevereiro de 2026, Estados Unidos e Israel lançaram quase 900 ataques em doze horas contra alvos militares, de defesa antiaérea e de liderança no Irã, numa operação que os americanos chamaram de Epic Fury, algo como fúria épica. O primeiro ataque já matou o líder supremo Ali Khamenei e mais dezenas de autoridades iranianas (Britannica). O Irã respondeu com uma onda de mísseis e drones contra Israel, contra bases americanas na região e contra infraestrutura de países do Golfo, num conflito que, segundo o embaixador iraniano na ONU, já tinha matado mais de 1.500 civis e deslocado até 3,2 milhões de pessoas, além de treze militares americanos mortos (CFR). Um cessar-fogo condicional foi declarado em 8 de abril, com mediação de Paquistão e Omã, e a Assembleia de Peritos iraniana escolheu o próprio filho de Khamenei, Mojtaba Khamenei, pra sucedê-lo logo depois da morte do pai (Câmara dos Comuns, Reino Unido).

Mesmo assim, em 24 de março, Trump disse aos jornalistas que a mudança de regime no Irã já tinha sido alcançada, porque as lideranças de agora seriam bem diferentes das que ele encontrou no começo do conflito. No mesmo discurso, ele afirmou estar negociando com pessoas do regime iraniano sem revelar quem eram, e disse que elas teriam topado nunca desenvolver uma arma nuclear. O governo iraniano negou qualquer negociação, e o chanceler Abbas Araghchi publicou que o país tem três mil anos de história resistindo a forças externas, e que esse seria só mais um capítulo dessa resistência (Roll Call).

Como acontece a mudança de regimes?

Antes de entrar na teoria, vale separar duas coisas que costumam ficar embaralhadas nesse debate. Uma é a decapitação, que é tirar o líder do poder, seja por golpe, prisão ou ataque direto. A outra é a mudança de regime propriamente dita, que envolve trocar as instituições, as regras do jogo político e o grupo que controla o aparato de Estado. Alexander Downes, professor da George Washington University que dedicou um livro inteiro ao tema, define mudança de regime imposta de fora, ou FIRC na sigla em inglês para foreign-imposed regime change, como a remoção pela força ou por coerção de um líder ou de todo um regime por um Estado estrangeiro (H-Diplo/ISSF).

Essa distinção importa porque tirar Maduro do poder ou matar Khamenei é a parte rápida da história. A parte difícil é o que vem depois, e é exatamente esse depois que a literatura de relações internacionais vem tentando entender há décadas, com bastante dado histórico acumulado.

Os Estados Unidos são, de longe, o país que mais promoveu mudanças de regime no mundo desde o início do século vinte, com mais de trinta líderes derrubados nesse período, conforme o levantamento de Downes (RUSI). E o resultado geral desse histórico não é dos melhores. No livro Catastrophic Success, Downes mostra que a mudança de regime aumenta a chance de guerra civil e de o novo líder ser deposto de forma violenta no país que sofreu a intervenção, e ainda assim não reduz a chance de conflito entre quem promoveu a mudança e esse país (Cornell/JSTOR).

Tem um número que ajuda a colocar isso em perspectiva. Num estudo de Downes com Jonathan Monten sobre vinte e oito casos de mudança de regime promovidos pelos Estados Unidos, só três resultaram numa democracia que se sustentou ao longo do tempo, e os três foram justamente os mais lembrados, Alemanha e Japão depois da Segunda Guerra Mundial (Cato Institute). Pra outras democracias que tentaram esse tipo de operação fora de casa, a taxa de sucesso fica entre cinco e quinze por cento.

A pergunta natural é por que Alemanha e Japão deram certo e quase todo o resto não. A resposta que aparece na literatura tem a ver com o que já existia ali antes da intervenção. Os dois países já tinham experiência prévia com instituições democráticas e um nível de modernização econômica que criava as condições institucionais favoráveis pra sustentar um regime democrático depois da guerra. Downes chama isso de precondições estruturais, e o argumento dele em outro estudo, batizado de Forced to Be Free, é que a intervenção militar de fora raramente cria essas condições do zero, ela só consegue aproveitar quando elas já estavam ali antes (Belfer Center).

Existe outro padrão que aparece nos mesmos dados, que é o tamanho do objetivo da intervenção. Quanto mais ambicioso o plano, com a meta de reconstruir o país inteiro do zero, menor a chance de a operação dar certo, e as poucas que funcionaram tinham metas bem mais limitadas.

Analisando por esse lado, a Venezuela carrega décadas de erosão institucional e uma economia que colapsou junto com a produção de petróleo, sem nenhuma experiência recente de transição democrática que tenha dado certo. Já o Irã tem uma estrutura teocrática de pé desde 1979, com instituições paralelas, as Forças Armadas regulares de um lado e a Guarda Revolucionária de outro, que não desaparecem só porque o líder supremo foi morto num ataque.

Há um detalhe que ajuda a entender a fala de Araghchi sobre os três mil anos de história, e que a teoria realista insiste bastante. John Mearsheimer, da Universidade de Chicago e um dos nomes mais conhecidos do realismo ofensivo, ou offensive realism, argumenta no livro The Great Delusion que tentar impor instituições liberais de fora bate de frente com o nacionalismo, que ele descreve como a ideologia mais forte do planeta, e que nenhum país gosta de ser ocupado ou de ter sua política reorganizada pra servir aos interesses de outro Estado (WTTW).

É mais ou menos isso que o regime iraniano está fazendo ao reagir do jeito que reagiu. Quando Araghchi fala em três mil anos de história resistindo a forças externas, ele está jogando exatamente com esse roteiro, transformando o ataque numa questão de soberania e de identidade nacional, o que tende a unir a população em torno do regime em vez de virar ela contra ele. Mearsheimer chama esse tipo de reação de previsível, e cita os casos do Iraque e do Afeganistão como exemplos de como o nacionalismo acaba sendo o principal obstáculo pra qualquer projeto de reconstrução vindo de fora.

📲 Receba as próximas análises direto do nosso novo Canal no WhatsApp. Guerras, comércio, energia, tecnologia e poder. Novos artigos, gráficos e reflexões diretamente no canal CAVALÉRO LETTER. [Seguir no WhatsApp]

 

No caso da Venezuela, tem um detalhe que contradiz boa parte da narrativa de modelo de mudança de regime que Trump está vendendo. Segundo análise publicada no War on the Rocks, o projeto que o governo americano está construindo na Venezuela tem mais a ver com gestão do regime que já existia do que com a criação de uma democracia nova, e se apoia em gente que já fazia parte do esquema de poder de Maduro, no aparato de segurança que já estava montado, e em alavancas de pressão externas, como acesso ao petróleo, alívio de sanções e ameaça de processo judicial (War on the Rocks). A lógica de fundo é que tirar o topo da pirâmide autoritária não desmonta a pirâmide, ela continua de pé, só muda quem está dando as ordens pra quem segura ela por baixo.

Isso conecta direto com a tipologia que Lindsey O’Rourke, do Boston College, descreve no livro Covert Regime Change sobre o período da Guerra Fria. Ela separa as operações americanas em três tipos, as ofensivas, voltadas a derrubar um rival militar ou quebrar uma aliança rival, as preventivas, que tentam impedir que um governo tome uma atitude que o tornaria mais hostil no futuro, e as hegemônicas, que buscam manter uma relação de hierarquia entre quem intervém e o governo que sofre a intervenção (Boston College). O que está acontecendo em Caracas se encaixa muito mais nessa terceira categoria, manter um regime amigo funcionando com outra cara, do que numa substituição de fato por um sistema democrático.

A mesma pesquisa de O’Rourke mostra que os países alvo de mudança de regime ficam mais propensos a viver uma guerra civil nos dez anos seguintes à intervenção, e que as operações americanas encobertas da Guerra Fria fracassaram em mais de sessenta por cento dos casos.

No Irã, esse depois já está em andamento de um jeito mais intenso do que o normal. O ataque que matou Khamenei matou também outras dezenas de autoridades de uma só vez, o que abriu uma crise de sucessão sem precedentes na estrutura de poder iraniana. A escolha de Mojtaba Khamenei pela Assembleia de Peritos resolveu o problema no papel, mas a estrutura por trás do trono continua sendo basicamente a mesma, só com um nome novo no topo.

Juntando as duas pontas, Trump declarou mudança de regime alcançada nos dois países, mas pelos critérios que a própria literatura usa pra medir esse tipo de operação, instituições novas e duradouras, queda no risco de conflito, ausência de guerra civil, nenhum dos dois casos fechou esse ciclo até agora. Na Venezuela o aparato de poder antigo continua de pé com outra liderança no comando. No Irã a estrutura teocrática se manteve, só trocou quem está no topo dela, e o país segue numa crise de sucessão que começou com a morte de dezenas de autoridades de uma vez. A teoria não diz que mudança de regime é impossível, ela diz que funciona muito raramente, e que quando funciona leva décadas e depende de condições que, pelo que os próprios dados mostram, nenhum dos dois países tem hoje.

Continue acompanhando

Se esta análise foi útil para você, receba gratuitamente novos conteúdos sobre geopolítica, economia e relações internacionais.

✓ Novos artigos publicados no blog

✓ Gráficos e infográficos

✓ Curiosidades históricas

✓ Análises sobre os principais acontecimentos internacionais

📲 Seguir CAVALÉRO LETTER

Posts Similares