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História do café no Brasil

Sobre o Dia Internacional do Café, celebrado em 1º de outubro, me perguntei por que o café teve tanto peso na história do Brasil. Você já teve essa curiosidade? Quem gosta de estudar a história do Brasil sabe o quanto o café foi e continua sendo importante pra nós, já que ele está presente em boa parte da nossa história, até os dias atuais. A data foi combinada pelos países-membros da Organização Internacional do Café (OIC) em 2014 (fonte). Depois de ler bastante sobre o assunto, constatei que a história do café é em grande parte a história de como os governos tentaram controlar o preço de um produto que o Brasil plantava demais. Pra isso fazer sentido, vou mostrar primeiro como o café cresceu desde o século XVIII e por que o Brasil acabou plantando tanto, e depois o que cada presidente fez pelo grão, de bom e de ruim, até chegar nos números de hoje.

O café chegou ao Brasil em 1727 por Belém. Naquela época o Pará e a Guiana Francesa viviam em disputa de fronteira, porque o Tratado de Utrecht, de 1713, tinha fixado o limite no rio Oiapoque, mas os franceses não aceitavam isso bem e chegaram a derrubar um marco português que ficava por ali. Foi nesse clima que o governador do Maranhão e Grão-Pará, João da Maia da Gama, mandou o sargento-mor Francisco de Mello Palheta com uma pequena frota até Caiena, a capital da Guiana Francesa. Segundo Affonso Taunay, a ideia de aproveitar a viagem pra trazer o café veio do próprio governador, e Palheta voltou em 1727 com, nas palavras dele, “trinta e tantas frutas e cinco plantas” (fonte).

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O que se sabe é que o café se espalhou devagar pelo Pará e pelo Maranhão. Em 1731 o governador do Pará escrevia que já havia muito café nos quintais de Belém, e em 1748 eram só uns 17 mil pés na região (fonte). O historiador David Rabello, num artigo dos Anais do Museu Paulista, conta que em 1756 saiu um carregamento de Belém pra Portugal e que em 1761 a Coroa isentou o café de impostos, e conclui que nem os escritores portugueses da época tinham percebido o futuro do produto (fonte, p. 206-208 e 215). Taunay mostra o mesmo desinteresse no fim do século XVIII, quando os agrônomos e economistas portugueses escreviam sobre açúcar, anil e cochonilha sem dar atenção ao café (fonte, p. 100-101).

Do Pará o café foi descendo pro sul. No Rio de Janeiro, em 1768, o navegador inglês James Cook ainda criticava os cariocas por importarem de Portugal todo o café que consumiam, o que mostra que não havia plantio por lá. A cultura só começou por volta de 1770, e Taunay conclui que quem introduziu o cafeeiro no Rio foi o desembargador João Alberto Castelo Branco, que veio do Pará, embora não se saiba se ele mesmo trouxe as mudas ou mandou buscar. Já a fama de que o vice-rei Marquês de Lavradio teria incentivado o café é, segundo Taunay, uma lenda, porque a correspondência oficial dele mostra que se ocupava de anil, açúcar e outros produtos e quase nada do café (fonte, p. 60-61 e 90-91).

O começo foi bem pequeno. Em 1779 o Rio de Janeiro exportou 57 arrobas de café, que são uns 840 quilos, enquanto só o açúcar rendeu 248 contos de réis num total exportado de 729 contos. Em 1797 já eram 8.302 arrobas e meia, o que dá umas 2 mil sacas de 60 quilos (fonte).

Foi a partir daí que o café subiu a serra e chegou ao Vale do Paraíba, que depois seria o centro da produção. Em Resende, os primeiros moradores tinham chegado por volta de 1740, e a partir de 1785 os vice-reis concederam muitas sesmarias, que eram as terras que a Coroa dava a quem se comprometesse a cultivá-las, e a região foi sendo coberta de cafezais. Vassouras nasceu de uma dessas concessões, em 1782, e Taunay conta que em meados do século XIX ela seria a capital do café brasileiro (fonte, p. 141-142 e 245-246).

O ritmo mudou depois da chegada da corte portuguesa, em 1808. O Rio de Janeiro virou sede da monarquia e ganhou um mercado consumidor em expansão, com um porto bem perto das áreas de plantio. Lá fora, a revolta em São Domingos, a colônia francesa que hoje é o Haiti e que estava entre os maiores produtores do mundo, desorganizou a produção, e muitos cafeicultores de origem francesa saíram de lá e, segundo Rabello, vieram pro Rio levando técnicas que não eram conhecidas aqui. Um deles plantou 50 mil cafeeiros num terreno na Tijuca. O relato do viajante inglês Chamberlain, de 1822, reproduzido por Taunay, também diz que terras da Tijuca foram cultivadas por europeus, sobretudo franceses, com grandes lavouras de café (fonte, p. 205 e 209-211) (fonte, p. 278).

Nesse começo, Dom João ajudou sem ter um plano claro pro café. Ele também distribuiu sesmarias, do litoral do Rio até o Vale do Paraíba, e boa parte das terras mais aptas ao plantio acabou coberta de cafezais. Chegou a trazer trabalhadores da China pra plantar chá, só que os trinta chineses foram trocando o chá por atividades mais rentáveis, e até as terras reservadas pro chá viraram cafezal. Rabello é cuidadoso e diz que não dá pra falar numa política cafeeira de Dom João, só em algumas medidas que estimularam o plantio (fonte, p. 212-213 e 219).

Os números mostram a velocidade com que isso aconteceu. A tabela do Rabello traz as quantidades em sacos de cinco arrobas, que pesam uns 73 quilos. Foram 973 sacos em 1810 e 190.060 em 1822, o que dá cerca de 233 mil sacas de 60 quilos, que é a medida padrão do café. Já Taunay lê praticamente a mesma série como sacas e fala em 186 mil em 1822, então o número fica entre 186 mil e 233 mil, dependendo de como cada autor mede o saco. Na década de 1820 o café já respondia por 18% das exportações brasileiras (fonte, p. 217-218) (fonte). O produto já tinha tanto peso que, em 1822, no mesmo ano da independência (já escrevemos sobre isso aqui), um decreto de 18 de setembro colocou o café no escudo de armas do Brasil, num ramo de folhas e frutos entrelaçado com um de tabaco (fonte, p. 219).

Depois da independência o café só cresceu. Segundo a tabela da historiadora Maria da Guia Garels, ele passou de 18,4% das exportações brasileiras entre 1821 e 1830 pra 43,8% entre 1831 e 1840, e a partir de 1840 virou o principal produto que o Brasil vendia lá fora. Em volume, Taunay registra 5,586 milhões de sacas exportadas em 1889, cerca de trinta vezes as de 1822 (fonte, p. 89-90) (fonte).

Um negócio que cresce nesse ritmo precisa de muita gente trabalhando, e a mão de obra, no começo, era escravizada. Em 1850, uma lei assinada pelo imperador Dom Pedro II e pelo ministro Eusébio de Queirós proibiu o tráfico de africanos, e depois disso os cafeicultores do Sudeste ampliaram a compra, no mercado interno, de escravizados vindos do Nordeste. Em meados da década de 1850, segundo um levantamento apresentado à Assembleia Legislativa de São Paulo, as 2.618 fazendas de café da província empregavam 55.834 escravizados, além de 2.519 colonos e 4.223 agregados, que eram as outras categorias de trabalhadores registradas. Mais tarde, entre 1867 e 1872, segundo Taunay, o surto cafeeiro ainda foi freado pela falta de trabalhadores rurais, apesar de escravizados dos canaviais do Nordeste estarem sendo levados pros cafezais do sul (fonte) (fonte) (fonte).

Além da mão de obra, havia a questão da terra. Ainda em 1850, a Lei de Terras proibiu adquirir terras devolutas, que são terras públicas sem uso definido e que não tinham passado legitimamente pra mãos particulares, por qualquer meio que não fosse a compra (fonte). Isso favorecia quem já tinha dinheiro pra abrir novas fazendas, e o café foi andando pra onde a terra era melhor. O Vale do Paraíba, onde o café tinha ganhado força, acabou perdendo espaço pro oeste de São Paulo. Em 1854 o Vale respondia por 77,46% do café paulista e em 1920 por só 3,47%, de acordo com o historiador Francisco Sodero Toledo. A diferença de produtividade explica boa parte disso, porque o Oeste Novo, que era a fronteira nova do café no oeste paulista, produzia quase quinze vezes mais por mil pés do que o Vale (fonte, p. 126).

Esse café do oeste precisava chegar ao porto de Santos, por onde o café paulista só tinha começado a sair em 1797, quando três navios levaram 1.924 arrobas pra Lisboa, o que dá umas 470 sacas de 60 quilos. Foi pra resolver esse transporte que a ferrovia Santos-Jundiaí foi inaugurada, em 1867, pela São Paulo Railway Company, ligando o porto ao interior paulista (fonte, p. 280) (fonte, p. 367). Também precisava de gente pra colher. A primeira tentativa de trazer europeus pro café foi do senador Vergueiro, que em 1840 colocou colonos portugueses nas suas fazendas de Ibicaba, em Limeira, e, como não deu certo, tentou de novo em 1847 com alemães. Em 1853 as queixas dos colonos contra os fazendeiros eram tantas que o governo imperial mandou investigar o caso. Depois de 1870 o governo passou a subsidiar a imigração, sobretudo pro café paulista. Entre 1882 e 1934, quase 4 milhões de imigrantes entraram no Brasil e cerca de 60% se instalaram em São Paulo (já contamos a história de São Paulo aqui) (fonte, p. 3) (fonte, p. 102-103) (fonte).

A abolição, em 1888, tirou dos fazendeiros a mão de obra escravizada e também os afastou da monarquia, o que ajuda a entender a proclamação da República no ano seguinte (já escrevemos sobre a Proclamação da República aqui). Quem era contra a abolição dizia que ela seria uma catástrofe financeira, e isso não aconteceu, até o câmbio subiu em 1888. Só que, segundo Taunay, a colheita daquele ano foi prejudicada pelo abandono das lavouras pelos ex-escravizados, e muitos fazendeiros ficaram arruinados, sobretudo no Rio de Janeiro. Em São Paulo o golpe foi menor porque os fazendeiros já tinham atraído colonos europeus, quase sempre italianos. A imigração subsidiada foi um dos fatores que permitiram ao café continuar crescendo depois do fim da escravidão, ao lado do avanço das lavouras pro oeste e das ferrovias, e foi justamente no começo da República que ele chegou ao pico, com 64,5% das exportações brasileiras entre 1891 e 1900 (fonte, p. 90) (fonte).

Com a terra nova do oeste e a ferrovia levando a produção até Santos, a oferta brasileira cresceu a ponto de pressionar os preços pra baixo. Segundo Edmar Bacha, o país chegou a fornecer cerca de 70% do café exportado no mundo no começo do século XX, e a superprodução fez os preços caírem muito a partir de 1896 (fonte, p. 2).

Um detalhe importante pra entender esse problema é que o cafeeiro é uma planta que demora pra produzir. O economista Flávio Versiani, ao comentar o trabalho clássico de Delfim Netto sobre o tema, explica que um pé plantado hoje leva de quatro a cinco anos pra dar a produção plena. Isso quer dizer que o fazendeiro decidia plantar olhando o preço de hoje, mas a safra só chegava anos depois, quando o preço já podia ter caído (fonte). A pesquisa do BNDES chega a números parecidos, com cerca de dois anos pro primeiro fruto e uns cinco pra produtividade plena (fonte).

Foi nesse cenário que, em 25 de fevereiro de 1906, os presidentes de São Paulo (Jorge Tibiriçá), Minas Gerais (Francisco Sales) e Rio de Janeiro (Nilo Peçanha), que era como se chamavam os governadores de estado na época, assinaram o Convênio de Taubaté. Os três estados se comprometiam a manter um preço mínimo de 55 a 65 francos por saca de 60 quilos, e pra isso São Paulo faria empréstimos de até 15 milhões de libras esterlinas, com a responsabilidade dos três. Os juros e a amortização sairiam de uma sobretaxa de 3 francos por saca exportada, e o convênio ainda previa leis pra dificultar, por dois anos, o aumento das áreas plantadas com café. Esse tipo de compra de café pelo governo ficou conhecido como valorização. Quem cobrava a sobretaxa eram os estados, porque, pela Constituição de 1891, só eles podiam tributar a exportação de mercadorias de sua própria produção (fonte, p. 302-305) (fonte, p. 120) (fonte).

O presidente da República, Rodrigues Alves, não gostou da ideia. Segundo Toledo, ele ofereceu uma “resistência passiva” e criticou as medidas de câmbio, que mexiam no valor da moeda, na mensagem que mandou ao Congresso naquele ano. Mesmo assim, em 6 de agosto de 1906 ele assinou o decreto que aprovou o convênio, mas excluiu a cláusula relativa à criação de uma caixa de emissão de ouro e conversão, que dependia de resolução do Congresso Nacional (fonte, p. 121-122) (fonte) (fonte).

Quem tocou o plano foi o sucessor, Afonso Pena, que em dezembro de 1906 criou a Caixa de Conversão, uma instituição que trocava ouro por notas a uma taxa de câmbio fixa pra segurar o valor da moeda (fonte). A safra de 1906/07 chegou perto de 20 milhões de sacas, e São Paulo comprou cerca de 7 milhões só em Santos (fonte, p. 93-94).

Funcionou por um tempo. De acordo com Juan Barile, os preços subiram até 1912 e o empréstimo foi pago em 1913, mas só São Paulo executou o plano (fonte, p. 40). Toledo conclui que o convênio trouxe só um alívio de curto prazo e adiou a crise de fundo (fonte, p. 124). O defeito está no próprio desenho, porque segurar o preço alto também estimulava quem plantava a continuar plantando, e como o pé demora anos pra produzir, o efeito dessa decisão só aparecia nas safras seguintes.

Os economistas discutem o tamanho desse efeito. Delfim Netto, segundo Versiani, defendia que a valorização estimulou o plantio e alimentou a própria superprodução. Já Caliari e Bueno, numa simulação publicada na revista Nova Economia, encontraram um efeito amplificador pequeno, o que sugere que a valorização não explica sozinha o excesso de oferta (fonte) (fonte).

Como o problema de fundo continuou, a segunda valorização veio em 1917, no governo de Venceslau Brás. O crédito estrangeiro tinha quase sumido por causa da guerra, então a compra foi bancada com emissão de papel-moeda, que é o governo imprimir dinheiro. Quem comprou foi o governo de São Paulo, com dinheiro emprestado pela União, e foram compradas cerca de 3,1 milhões de sacas (fonte, p. 8-10). Em 1918, uma geada ainda destruiu cerca de 40% dos cafeeiros (fonte, p. 122).

A terceira, em 1921, no governo de Epitácio Pessoa, passou pelo Banco do Brasil, e o próprio presidente escreveu ao Congresso que “a defesa do valor do café constitue, portanto, um problema nacional” (fonte, p. 5 e 16).

Em 1924 a valorização virou permanente. O governo paulista de Carlos de Campos criou o Instituto Paulista de Defesa Permanente do Café, que podia limitar a quantidade de café transportada de trem até Santos e cobrava um imposto sobre cada saca que passasse pelo território do estado (fonte, p. 2) (fonte).

Esse sistema todo dependia de o mundo continuar comprando, e foi isso que a crise de 1929 quebrou. O café já respondia por 69,6% das exportações brasileiras entre 1921 e 1930, os preços despencaram e em 1932 estavam em cerca de um terço do nível de 1929. O governo de Washington Luís respondeu com o que Marcelo de Paiva Abreu chama de “esperar para ver”, que na prática foi manter a Caixa de Estabilização, que emitia notas lastreadas em ouro, continuar pagando a dívida externa e não interferir no colapso da valorização paulista. Essa política não se sustentou, e em 22 de novembro de 1930, já sob Getúlio Vargas, o Governo Provisório extinguiu a Caixa de Estabilização, porque a troca de suas notas por ouro estava praticamente suspensa (fonte, p. 90) (fonte, p. 3) (fonte) (fonte).

Com a Revolução de 1930, quem assumiu o café foi o governo federal. O Conselho Nacional do Café foi criado em 1931 e, em 10 de fevereiro de 1933, Getúlio Vargas assinou, como chefe do Governo Provisório, o decreto que criou o Departamento Nacional do Café, subordinado ao Ministério da Fazenda (fonte) (fonte).

A política passou a ser comprar a safra e destruir uma parte dela. Só até o fim de 1931, segundo Taunay, o governo federal já tinha comprado 7,7 milhões de sacas e o Conselho Nacional do Café já tinha incinerado 2,4 milhões. Uma parte do estoque ainda foi trocada por trigo, com 1,275 milhão de sacas entregues à Grain Stabilisation Corporation, dos Estados Unidos, em troca de 1,56 milhão de bushels. Mais pra frente, segundo Abreu, o esquema dividia a safra comprada em 30% pra estocar, 30% pra exportar e 40% pra uma “cota de sacrifício”, que era a parte destinada a ser destruída. Entre 1932 e 1943 foram destruídas mais de 75 milhões de sacas, quase três vezes o consumo mundial de um ano (fonte, p. 5) (fonte).

Essa conta foi paga dentro do próprio setor. Segundo Pedro Fonseca, o governo não pegou empréstimo no exterior e financiou parte da política com um imposto de 20% sobre todo o café exportado e cobrou mil réis por cada cafeeiro novo plantado. Em 1933 ainda cortou pela metade as dívidas dos cafeicultores e compensou os bancos com títulos públicos (fonte) (fonte, p. 6).

Os economistas também divergem sobre o que essa política significou. Celso Furtado via nela uma ação anticíclica, que é quando o governo gasta pra compensar uma crise, porque manter a renda do café sustentou a demanda interna e ajudou a indústria a crescer. Fonseca discorda e conclui que não há evidência de uma política keynesiana deliberada, ou seja, um gasto planejado pra reaquecer a economia, e que o crescimento industrial veio mais como efeito colateral do câmbio, dos impostos e das tarifas (fonte).

Ao mesmo tempo, o governo investiu em ciência. Em 1934, o governo federal de Vargas criou a Estação Experimental de Café de Botucatu pra melhorar a qualidade do café nas regiões novas do oeste paulista, só que, segundo o livro de Jefferson Sanches Júnior, a revisão de impostos em 1937 e o acordo de compra de café com os Estados Unidos no começo dos anos 1940 tiraram dos cafeicultores o incentivo pra inovar (fonte).

Depois da Segunda Guerra Mundial o café viveu uma fase boa. Entre 1945 e 1950 os preços quase quadruplicaram e subiram mais uns 50% até o pico de 1954 (fonte, p. 21). Mesmo com os preços altos, Vargas, de volta à presidência, assinou a lei de 22 de dezembro de 1952 que criou o Instituto Brasileiro do Café, com poder pra fixar cotas de exportação, comprar café pra sustentar o preço e definir padrões de qualidade (fonte).

No governo de Café Filho, segundo Abreu, o ministro da Fazenda José Maria Whitaker assumiu sob pressão de São Paulo e aumentou as bonificações dos exportadores de café, que eram um valor extra pago por dólar vendido (fonte, p. 30). Whitaker também tentou acabar com os vários câmbios e com a valorização, mas, segundo Bacha, a aliança entre cafeicultores e industriais derrotou a tentativa (fonte, p. 4-5).

Com Juscelino Kubitschek na presidência, o boom já tinha acabado e sobrava café. O Plano de Metas não tinha nenhuma meta pro café, mas, segundo Abreu, a política de segurar a oferta consumiu tantos recursos que ele compara o custo ao da construção de Brasília. Jânio Quadros manteve em 1961 o câmbio especial do café e mandou a diferença pra um fundo de sustentação de preços (fonte, p. 36-37).

Com café sobrando, em outubro de 1961, já no governo de João Goulart, foi criado o Grupo Executivo de Racionalização da Cafeicultura, com um plano pra erradicar cafezais pouco produtivos e plantar outras culturas no lugar. Segundo Klítia Loureiro, foram erradicados 723,5 milhões de pés na primeira fase e 656 milhões na segunda, o que dá cerca de 1,4 bilhão de cafeeiros pela minha soma (fonte, p. 3-4).

O impacto foi maior no Espírito Santo, onde 53,8% dos cafeeiros do estado foram erradicados e cerca de 60 mil empregos rurais se perderam (fonte, p. 4-8).

Em paralelo, o Brasil passou a negociar o preço com os outros países. O primeiro Acordo Internacional do Café valeu de 1963 a 1968 e, segundo Abreu, marcou o abandono da “política unilateral” de preços que o Brasil vinha adotando desde a primeira valorização, em 1907, e a sustentação do preço passou a depender também de uma coordenação entre os países. O acordo funcionava com cotas de exportação por país (fonte, p. 40) (fonte, p. 279).

Nos governos militares o foco passou a ser a produtividade. Entre 1967 e 1970, os Planos de Renovação e Revigoramento de Cafezais criaram crédito específico pra renovar as lavouras, de mudas a equipamentos, e a produtividade em São Paulo dobrou no começo dos anos 1970 (fonte, p. 69-70).

Com Geisel, segundo Bacha, veio a última tentativa de valorização (fonte, p. 3). Nesse mesmo governo, o clima mudou o mapa do café. Em 18 de julho de 1975, uma geada matou cerca de 950 milhões de pés de café no Paraná, estado que tinha acabado de colher 10,2 milhões de sacas, quase metade da produção nacional. Depois disso o café deixou de ser produzido em larga escala no estado e a soja ocupou boa parte do espaço (fonte).

Já com o fim do regime militar, em 1986, no governo de José Sarney, foi criado, pelo Decreto-Lei 2.295 de 21 de novembro, o Fundo de Defesa da Economia Cafeeira, o Funcafé, regulamentado por decreto em 1987 pra financiar a modernização da cafeicultura e das exportações, a pesquisa e a formação de estoques reguladores, que são estoques que o governo mantém pra segurar o preço (fonte).

Em 1989 foi suspenso o sistema de cotas do Acordo Internacional do Café e, em 1990, no governo de Fernando Collor, o Instituto Brasileiro do Café foi extinto, por uma medida provisória de 15 de março e pela lei de 12 de abril daquele ano. Com isso o país deixou pra trás boa parte do sistema de cotas e de compra de café pelo governo que organizava o mercado havia décadas (fonte, p. 279) (fonte, p. 6 e 9).

Pra Bacha, a valorização manteve o café como principal exportação por mais tempo do que teria sido, e a participação do Brasil nas exportações mundiais caiu de 70%, no começo do século XX, pra cerca de 20% ao final da política, que acabou com a extinção do Instituto Brasileiro do Café, em 1990. O café perdeu a liderança nas exportações por volta de 1964, e depois outros produtos básicos ocuparam esse lugar (já escrevemos sobre isso aqui) (fonte, p. 3-5).

Depois do fim do instituto, o Brasil voltou a ganhar espaço, e uma parte importante disso veio da pesquisa. Em 1997 foi criado o Consórcio Pesquisa Café, que reúne instituições de pesquisa e é coordenado pela Embrapa (já escrevemos sobre a Embrapa aqui). De 1997 a 2020, a produtividade das lavouras saiu de 8 pra cerca de 33,5 sacas por hectare e a produção de 18,9 pra 63 milhões de sacas, e a participação brasileira no mercado mundial foi de cerca de 19% pra quase 37% (fonte).

Hoje o patamar é mais alto. O USDA, que é o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos, projeta uma safra recorde de 71,9 milhões de sacas pro Brasil em 2026/27, quase 40% da produção mundial (fonte).

A Conab, que é a Companhia Nacional de Abastecimento e acompanha as safras pro governo federal, estima uma colheita um pouco menor, de 67,6 milhões de sacas em 2026, 19,6% acima de 2025. Quem puxa esse crescimento é o arábica, que é a espécie mais aromática e mais valorizada, com alta de 34,8% (fonte).

Nas exportações, o Cecafé, conselho dos exportadores de café do Brasil, contabilizou em 2025 cerca de 40 milhões de sacas, 20,8% a menos que em 2024. Mesmo com a queda no volume, a receita foi recorde, de US$ 15,6 bilhões, 24,1% acima da de 2024 (fonte).

Pra ver onde o Brasil está nesse mercado hoje, vale olhar o ranking dos exportadores de grão de café. Na projeção do USDA pra 2026/27, o Brasil aparece em primeiro, com 45 milhões de sacas, o que dá 34,2% das exportações mundiais de grão e quase 80% a mais que o segundo colocado. O Vietnã vem em segundo, com 25,4 milhões, seguido da Colômbia, com 12,2 milhões. A Etiópia, com 7,1 milhões, e a Indonésia, com 7 milhões, ficam praticamente empatadas na quarta e na quinta posição, e só Brasil e Vietnã já somam mais da metade dos 131,4 milhões de sacas exportadas no mundo (fonte).

Quem mudou bastante foi o peso do café dentro do próprio Brasil. Segundo a tabela da Garels, o café representava 18,4% das exportações brasileiras na década de 1820, passou pra 43,8% na de 1830, chegou a 64,5% entre 1891 e 1900 e a 69,6% entre 1921 e 1930, e em 1929, de acordo com Abreu, já passava de 70% (fonte, p. 89-90) (fonte, p. 3). Em 2025 o café rendeu um recorde de US$ 15,6 bilhões, só que o Brasil exportou US$ 349 bilhões no total, o que dá cerca de 4,5% das exportações (fonte) (fonte).

No gráfico abaixo dá pra ver o movimento da participação brasileira no mercado mundial, com os pontos que aparecem ao longo do texto. Foram cerca de 70% das exportações mundiais no começo do século XX, segundo Bacha, uns 20% no fim da política de valorização, em 1990, e 19% em 1997, segundo a Embrapa. Depois veio a recuperação, que chegou a quase 37% em 2020 e agora está em 34,2% na projeção do USDA (fonte, p. 3) (fonte) (fonte).

O ponto que mais merece atenção é que a fatia do Brasil no mercado mundial caiu enquanto o governo segurava o preço e voltou a subir depois que o Instituto Brasileiro do Café acabou. Isso não prova que uma coisa causou a outra, porque a recuperação coincide com o salto de produtividade da pesquisa, e a própria literatura discorda sobre o quanto a valorização estimulou o excesso de plantio. Talvez devêssemos entender melhor essa diferença, porque dela depende saber se o problema estava na política de preços ou no tamanho da oferta.

Leitura complementar

A obra de referência sobre o tema é a História do Café no Brasil, de Affonso de Taunay, que tem os dois primeiros volumes, sobre o período colonial, disponíveis na íntegra (volume 1) (volume 2). O mesmo autor tem uma versão resumida que chega até 1937, a Pequena História do Café no Brasil (leitura online).

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