Resenha do livro “Breakneck: China’s Quest to Engineer the Future”: A Lição da China vs EUA e o Espelho para o Brasil

Uma Análise Profunda da Rivalidade entre o Estado de Engenharia (China) e a Sociedade Jurídica (EUA)

Dan Wang não é um observador comum. Nascido na China no início dos anos 1990, ele imigrou aos sete anos para o Canadá com seus pais e, posteriormente, para os Estados Unidos, perto de Filadélfia. Essa trajetória lhe conferiu uma dualidade cultural fascinante. De 2017 a 2023, trabalhou na China como analista de tecnologia para a Gavekal Dragonomics, vivendo em Hong Kong, Pequim e Xangai, período que coincidiu com momentos cruciais da história chinesa recente, incluindo toda a era do Zero COVID.

Atualmente, Wang é pesquisador no Hoover History Lab da Universidade de Stanford e anteriormente foi fellow no Centro Paul Tsai China da Yale Law School. Mas o que realmente consolidou sua reputação foram suas cartas anuais sobre a China, que ele começou a escrever como uma forma de manter amigos e família informados sobre suas experiências. Essas cartas ganharam vida própria depois que ele ficou preso na China durante toda a política de Zero COVID, quando muito poucos outros observadores conseguiam estar no país e escrever sobre ele.

Como pesquisador acadêmico, Wang traz uma lente única que combina rigor analítico com toque profundamente pessoal. Suas cartas anuais sobre a China, que evoluíram para este livro, revelam um homem que mistura dados econômicos com histórias de vida, como a de trabalhadores rurais que ele conheceu e que “vivem para construir, mesmo sem saber o porquê”. Essa conexão humana adiciona profundidade crucial à análise, destacando como a engenharia chinesa não é apenas técnica, mas um fenômeno social enraizado na cultura (já falamos sobre a abertura de mercado na China aqui).

A Tese Central: Engenheiros (China) vs Advogados (EUA)

A estrutura conceitual de Wang é extremamente sintética. Ele argumenta que a China é um “estado de engenharia” que traz um martelo para resolver problemas tanto físicos quanto sociais, em contraste com os Estados Unidos, uma “sociedade advogada” que traz um martelo judicial para bloquear quase tudo, bom ou ruim.

Essa não é apenas uma metáfora vazia. Wang argumenta que a prevalência de autoridades com formação em engenharia nos escalões superiores da liderança chinesa produziu uma propensão à formulação de políticas econômicas e sociais de cima para baixo que orientou muitas das iniciativas mais transformadoras do país. No outro extremo, as faculdades de direito de elite, agora e no passado, moldam o caminho mais fácil para os ambiciosos entrarem nas fileiras superiores do governo americano, e o domínio dos advogados na elite americana ajudou a transmutar os Estados Unidos em uma vetocracia litigiosa.

A China que Constrói

Uma das passagens mais memoráveis do livro acontece logo no início. O livro começa com uma viagem de bicicleta que Wang fez de Guiyang a Chongqing em 2021, quando descobriu, encantado, que a quarta província mais pobre da China tem infraestrutura muito melhor que a Califórnia ou Nova York, ambas mais ricas por ordens de magnitude.

Essa não foi uma observação superficial. Durante cinco dias de subidas extenuantes em montanhas verdes deslumbrantes, Wang testemunhou o que significa, na prática, o “socialismo com características chinesas” (já escrevemos sobre isso aqui). Wang observa que a maioria dos lugares na China experimentou muita construção, e para a maioria das pessoas, isso significou melhorias materiais, principalmente por meio de obras públicas.

Wang contextualiza habilmente as virtudes do estado de engenharia para leitores americanos, mostrando como ele permitiu o domínio global da Apple em dispositivos de consumo, ilustrado por meio de uma conversa com um especialista em aquisições da Apple na China e um tour pelos parques industriais de Shenzhen. Ele destaca as principais vantagens da China: o “conhecimento de processo” (know-how tácito e difícil de codificar) e as “comunidades de prática em engenharia” (densas redes de conexão e habilidade).

Três décadas atrás, Shenzhen era um centro de manufatura de baixo custo; hoje, é um polo de inovação global, lar da BYD e da Huawei. Essa transformação não foi acidental – foi resultado da mentalidade de engenharia aplicada não apenas a projetos físicos, mas à economia como um todo.

O Lado Sombrio da Engenharia Social Chinesa

Mas Wang não é um apologista do modelo chinês. Longe disso. O coração do livro trata de como Pequim sai terrivelmente dos trilhos quando se engaja em engenharia social, com sua formulação prática do Partido Comunista sendo uma Tecnocracia Leninista.

Dois casos exemplificam essa catástrofe moral: a política do filho único e o Zero COVID. Wang usa os dois programas de engenharia social mais grandiosos da China na era pós-Mao – a política do filho único e a política de Zero COVID – para mostrar o lado catastrófico do estado de engenharia. Embora implementadas com quatro décadas de diferença, os dois planos têm muito em comum: cada um começou com arrogância cientificista e terminou em exaustão nacional.

A política do filho único, em particular, revela a brutalidade que pode resultar quando engenheiros tratam a sociedade como um problema de otimização. Como Wang documenta no livro, essa campanha incluiu esterilizações em massa e abortos forçados que marcaram uma verdadeira campanha de terror rural. Economistas foram os maiores críticos da política do filho único na China, assim como brevemente quando foi discutida nos EUA após Ehrlich publicar The Population Bomb, porque podiam perceber, de uma forma que muitos engenheiros não conseguiam, que a mudança populacional é uma variável dinâmica.

Já o Zero COVID demonstrou como a fixação do estado de engenharia em metas numéricas e o desprezo por vínculos humanos orgânicos o tornam, na análise de Wang, rígido demais para permitir que o povo chinês viva feliz. Wang cita a propaganda inesperadamente poética – e horripilante – transmitida por toda a cidade via drones: “Por favor, cumpra as restrições da COVID. Controle o desejo de liberdade da sua alma”.

A América Paralisada

Do outro lado do Pacífico, Wang identifica uma disfunção diferente, mas igualmente debilitante. Wang acredita que a América não pode continuar sendo uma grande potência se estiver tão comprometida com um sistema que funciona bem principalmente para os ricos e bem conectados.

O problema não é apenas burocracia – é uma cultura que elevou o bloqueio à condição de arte. Enquanto a China “constrói grande em velocidades vertiginosas”, erguendo ferrovias, pontes e fábricas a uma velocidade que nenhum outro país consegue igualar, em contraste, a sociedade jurídica da América é toda sobre obstruir a construção e criar procedimentos vertiginosamente obtusos que frustram toda mudança, tanto boa quanto ruim.

Um exemplo concreto ilustra essa paralisia. Em 2001, a primeira fazenda eólica offshore dos EUA solicitou uma licença de construção ao Corpo de Engenheiros do Exército dos EUA. O projeto proposto teria 130 turbinas eólicas em 24 acres de águas federais na costa de Massachusetts, gerando 454 megawatts de energia. Décadas depois, o projeto ainda não foi concluído – um contraste gritante com a velocidade chinesa.

A sociedade jurídica tende a servir melhor os ricos, que estão mais bem equipados para navegar no labirinto de confusão legalista. Essa observação é crucial: o problema não é apenas ineficiência técnica, mas injustiça social estrutural.

Afinal, Existe Semelhanças?

Apesar das diferenças gritantes em seus sistemas de governança, Wang insiste em algo contraintuitivo: americanos e chineses são fundamentalmente parecidos – inquietos, ansiosos por atalhos, impulsionando a maioria das grandes mudanças do mundo.

Wang começa o livro reiterando um argumento que ele e outros fazem frequentemente – ou seja, que a China e os Estados Unidos têm culturas fundamentalmente semelhantes: uma tendência de materialismo, muitas vezes grosseiro, percorre ambos os países, às vezes produzindo veneração de empreendedores bem-sucedidos, às vezes criando exibições de extraordinária falta de gosto, contribuindo no geral para um espírito de competição vigorosa. Chineses e americanos são pragmáticos: têm uma atitude de “fazer acontecer” que ocasionalmente produz trabalho apressado.

Essa semelhança cultural torna a rivalidade ainda mais trágica. Wang observa que sua rivalidade não deve ser racionalizada com termos desgastados do século passado, como socialista, democrático ou neoliberal, e que ambos os países são emaranhados de imperfeição, entregando regularmente – em nome da competição – auto-espancamentos que vão além dos sonhos mais loucos do outro.

Lições para o Nosso País

Quando termino de ler Wang e olho para o Brasil, vejo um país que herdou o pior dos dois mundos. Não temos a capacidade de construção do estado de engenharia chinês, mas também não temos as proteções jurídicas eficazes que, pelo menos em teoria, a sociedade jurídica americana deveria fornecer.

Diferente da China, que canalizou sua energia em infraestrutura e industrialização, o Brasil luta para sair do atoleiro do subdesenvolvimento. A baixa produtividade é um entrave central, com trabalhadores e empresas rendendo menos que pares em nações emergentes, agravada por uma escolaridade mediana que deixa grande parte da população sem qualificação para empregos de maior valor (já falamos sobre a desigualdade brasileira). A fuga de cérebros drena talentos para países como EUA e Europa, enquanto a corrupção consome bilhões anualmente em desvios e má gestão (já falamos sobre isso aqui).

A economia fechada, dependente de commodities e com barreiras ao comércio, limita a diversificação, e a armadilha da renda média prende o país em crescimento lento, incapaz de competir globalmente (já falamos sobre isso aqui). A comparação com a China é ainda mais dolorosa quando consideramos dados concretos. A rápida urbanização da China desde 1978 significou que ela construiu uma cidade com o dobro da população de Nova York todos os anos nos últimos trinta e cinco anos. Enquanto isso, o Brasil luta para concluir projetos básicos de infraestrutura que levam décadas para sair do papel.

A industrialização que Wang vê como motor da ascensão chinesa nunca decolou plenamente no Brasil. Investimentos em infraestrutura são engolidos por disputas judiciais intermináveis e falta de planejamento coerente – ecoando a “sociedade advogada” americana, mas sem os recursos financeiros ou institucionais para superar os entraves. A baixa escolaridade perpetua a desigualdade, e a pressão da renda média reflete a incapacidade de avançar para economias de alto valor. Comparado à China, que, nas palavras de Wang, “construiu muitas milhas de estradas, novas usinas nucleares e toneladas de aço nas últimas quatro décadas”, o Brasil parece paralisado por ineficiência e desinteresse político em reformas. Wang sugere que industrialização pode levar a mudanças sociais profundas, como aconteceu na Coreia do Sul e Singapura – um caminho que o Brasil ainda não encontrou (já falamos sobre isso aqui). É como se tivéssemos importado a paralisia litigiosa dos EUA sem conseguir construir a competência técnica da China.

Wang sugere que a guerra comercial e o confronto tecnológico ilustram perfeitamente essa divisão: os EUA confiaram em legalismos – cobrando tarifas e projetando um regime de sanções cada vez mais requintado – enquanto a China se concentrou em criar o futuro construindo fisicamente carros melhores, cidades mais bonitas e usinas de energia maiores. O Brasil, por sua vez, parece incapaz de fazer nem uma coisa nem outra com eficácia.


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