A Doutrina Monroe, enunciada em 1823 pelo presidente dos Estados Unidos James Monroe, representa um marco na política externa norte-americana, moldando as relações hemisféricas por mais de dois séculos. Essa declaração, apresentada durante uma mensagem anual ao Congresso, afirmava que os Estados Unidos não tolerariam mais intervenções europeias nas Américas, considerando o continente como uma esfera de influência exclusiva dos EUA. Embora inicialmente vista como uma medida defensiva contra o colonialismo europeu, ela evoluiu para justificar expansões e intervenções dos EUA na região. Vamos analisar sua origem, os nomes chave envolvidos e suas ramificações.

A Doutrina Monroe surgiu no contexto das guerras de independência na América Latina, inspiradas pelas revoluções americana e francesa (já escrevemos sobre isso aqui), e em resposta às ameaças da Santa Aliança europeia (composta por Rússia, Áustria e Prússia), que buscava restaurar monarquias coloniais na região. O presidente James Monroe (1758-1831), quinto presidente dos EUA e veterano da Guerra de Independência, foi o porta-voz oficial da doutrina, mas seu principal arquiteto foi John Quincy Adams (1767-1848), então secretário de Estado e futuro presidente. Adams, filho do segundo presidente John Adams, defendeu uma declaração unilateral dos EUA, rejeitando uma aliança proposta pelo britânico George Canning, ministro das Relações Exteriores do Reino Unido, que via na cooperação com os EUA uma forma de conter rivais europeus.

Outros nomes relevantes incluem Thomas Jefferson (1743-1826), terceiro presidente e mentor de Monroe, que influenciou o isolacionismo inicial da doutrina, e Simón Bolívar (1783-1830), o libertador sul-americano, cujas lutas pela independência de países como Venezuela e Colômbia foram indiretamente apoiadas pela posição norte-americana. A doutrina dividia o mundo em esferas: as Américas para os americanos (entenda-se, os EUA como protetores), e a Europa para os europeus, sem interferências mútuas. Inicialmente, ela era mais retórica do que prática, pois os EUA ainda eram uma nação jovem e dependiam da frota britânica para enforcement. Com o tempo, porém, evoluiu com corolários, como o de Theodore Roosevelt em 1904, que permitia intervenções diretas dos EUA para “estabilizar” nações latino-americanas.
Resultados na América Latina
Os impactos da Doutrina Monroe na América Latina foram ambivalentes. Inicialmente, ela foi celebrada por líderes independentistas, como Bolívar, que a viam como um escudo contra reconquistas europeias, facilitando a consolidação de repúblicas recém-formadas no México, na Argentina e em outros países. No entanto, ao longo do século XIX e XX, transformou-se em ferramenta para os yankee, justificando invasões e intervenções para proteger interesses econômicos, como plantações de banana e minas.
Exemplos incluem a Guerra Mexicano-Americana (1846-1848), que resultou na anexação de territórios mexicanos; a intervenção em Cuba durante a Guerra Hispano-Americana (1898); e a construção do Canal do Panamá (1903), separando-o da Colômbia. Durante a Guerra Fria, a doutrina foi invocada para combater o comunismo, levando a apoios a ditaduras em países como Chile (golpe contra Allende em 1973) e Nicarágua (apoio aos Contras). Isso gerou ressentimentos profundos, com a doutrina sendo vista como paternalista e violadora da soberania, contribuindo para movimentos “anti-imperialistas” e alianças com potências externas, como a URSS. Economicamente, fomentou dependência via investimentos dos EUA, mas também instabilidade política em nações como Guatemala e Honduras.
Impacto no Brasil
No Brasil, a Doutrina Monroe teve um papel mais sutil, mas significativo, especialmente considerando que o país ganhou independência de Portugal em 1822, logo antes da doutrina ser anunciada. Os EUA foram um dos primeiros a reconhecer o Império do Brasil em 1824, alinhando-se à doutrina para conter influências europeias, o que fortaleceu a posição do imperador Pedro I (1798-1834) contra possíveis reconquistas portuguesas. Seu filho, Pedro II (1825-1891), manteve relações cordiais com os EUA, influenciadas pela doutrina, que ajudou na resolução de disputas fronteiriças, como a Questão do Acre com a Bolívia (1903), mediada pelos EUA (já escrevemos sobre isso aqui).
Na transição para a República (1889), figuras como Rui Barbosa (1849-1923), jurista e diplomata, e especialmente José Maria da Silva Paranhos Júnior, o Barão do Rio Branco (1845-1912), chanceler da República, incorporaram elementos da doutrina em sua diplomacia. Rio Branco, conhecido como o “pai da diplomacia brasileira”, usou alianças com os EUA para resolver litígios territoriais com Argentina e Peru, expandindo o território brasileiro em mais de 900 mil km² (já escrevemos sobre a historia do Barão aqui). A influência foi dupla: positiva, ao promover estabilidade e reconhecimento internacional; negativa, ao alinhar o Brasil a interesses yankees, como durante a Primeira República (1889-1930), quando investimentos dos EUA em café e borracha aumentaram a dependência econômica.
Politicamente, a doutrina impactou o isolamento inicial do Brasil em relação à Europa, fomentando uma “americanização” da elite, mas também gerou críticas de intelectuais como Oliveira Lima (1867-1928), que via nela um risco à soberania. No geral, moldou a política externa brasileira para um pragmatismo hemisférico, influenciando até a Era Vargas (1930-1945), com alianças na Segunda Guerra Mundial (já escrevemos sobre algumas curiosidades de Vargas aqui).
Detalhes Históricos e Curiosidades da Doutrina Monroe
A Doutrina Monroe, embora anunciada em 1823, tem raízes no contexto pós-napoleônico, quando a Santa Aliança europeia ameaçava restaurar colônias na América Latina, e a Rússia estendia reivindicações no Pacífico Noroeste, incluindo o Alasca. Uma curiosidade é que o texto não foi um documento isolado, mas parte da mensagem anual de Monroe ao Congresso, redigido principalmente por John Quincy Adams, que rejeitou uma proposta britânica de declaração conjunta para evitar alianças que pudessem arrastar os EUA para guerras europeias. Inicialmente, os EUA não tinham força militar para impor a doutrina, dependendo tacitamente da Marinha Real Britânica, interessada em mercados abertos na região; isso a tornava mais uma aspiração do que uma realidade imediata.
Ao longo do século XIX, a doutrina ganhou contornos expansivos, sendo invocada pela primeira vez em 1825 contra reivindicações russas, e ignorada durante a intervenção francesa no México (1861-1867), quando os EUA, distraídos pela Guerra Civil, só agiram após o conflito interno. Uma curiosidade notável é que o termo “Doutrina Monroe” só foi cunhado na década de 1850, durante debates sobre expansão territorial, e evoluiu com corolários: o de Polk (1845) contra reconquistas espanholas em Cuba, e o de Olney (1895), que afirmou a “soberania praticamente ilimitada” dos EUA nas Américas durante a disputa fronteiriça Venezuela-Guiana. No século XX, transformou-se em justificativa para a “Política do Big Stick” de Roosevelt, permitindo intervenções em nações “instáveis”, como na República Dominicana e em Cuba.
No contexto brasileiro, a doutrina influenciou indiretamente conflitos e diplomacia, como na Questão Christie (1862-1865), uma crise com a Grã-Bretanha por apreensões de navios brasileiros suspeitos de tráfico de escravos; os EUA ofereceram mediação sob a égide da doutrina, mas o Brasil resolveu o impasse com indenizações, destacando tensões europeias na região. Outra curiosidade é o papel na Revolta da Armada (1893-1894), rebelião naval contra o presidente Floriano Peixoto, onde navios americanos intervieram em defesa de interesses comerciais no Rio de Janeiro, aplicando uma interpretação expansionista da doutrina para “proteger” a estabilidade hemisférica. Esses episódios reforçaram a aliança Brasil-EUA, mas geraram debates internos sobre soberania, influenciando a política externa brasileira a equilibrar pragmatismo com autonomia, especialmente durante a Questão do Acre (1899-1903), resolvida com mediação americana favorável ao Brasil contra a Bolívia.
Mais detalhes: Milestones in the History of U.S. Foreign Relations – Office of the Historian / Monroe Doctrine | History, Summary, & Significance | Britannica / The Impact of the Monroe Doctrine in Mexico and Central America and How We Can Change It / Monroe Doctrine – Wikipedia / Recognition More Than Friendship: The Bicentennial of US-Brazil Relations, 1824–2024 | Latin American Research Review | Cambridge Core / Introduction – Brazil-U.S. Relations – Research Guides at Library of Congress / Monroe Doctrine Still Dominates U.S., Latin America Relations After 200 Years / Chinese Security Engagement in Latin America / Relação Brasil-EUA mudou de paradigma no século 20 – 25/05/2024 – Mundo – Folha / Monroe Doctrine, Summary, Facts, Significance / John Quincy Adams – Wikipédia