“A Origem do Totalitarismo” de Hannah Arendt

Há alguns anos, li A Origem do Totalitarismo, da filósofa Hannah Arendt, e até hoje penso nesse livro como um dos mais impactantes que já passaram pelas minhas mãos. Escrito em 1951, ele analisa como regimes totalitários, como o nazismo e o stalinismo, surgiram e o que os tornou possíveis. Mas não se engane: mesmo sendo uma obra densa, suas ideias são mais atuais do que nunca, especialmente em um mundo cheio de polarização e radicalismos. Hoje, quero apresentar esse livro de forma simples, para quem nunca ouviu falar dele, e mostrar como ele pode nos ajudar a entender o que está acontecendo ao nosso redor.

Sobre o Livro

A Origem do Totalitarismo é dividido em três partes: Antissemitismo, Imperialismo e Totalitarismo. Arendt, uma judia alemã que fugiu do nazismo, não se limita a contar a história desses regimes. Ela mergulha nas condições que os tornaram possíveis: desde o ódio aos judeus na Europa até as ambições coloniais do século XIX, que abriram caminho para a desumanização de povos inteiros. Na parte final, ela explica o que faz um regime ser “totalitário” – não é só autoritarismo, mas um sistema que controla tudo, da vida pública à privada, usando propaganda, medo e mentiras para dominar as pessoas.

Arendt mostra que regimes totalitários não surgem do nada. Eles aparecem quando as pessoas se sentem perdidas, isoladas e desconfiadas umas das outras. Ela chama isso de “atomização social”: quando a sociedade se fragmenta, e as pessoas param de dialogar, elas ficam vulneráveis a líderes que prometem soluções simples para problemas complexos.

Um dos pontos mais fascinantes do livro é como Arendt explica o papel da ideologia nos regimes totalitários. Para ela, a ideologia não é só um conjunto de ideias, mas uma “lógica” que funciona como uma armadilha. Arendt chama isso de “logicalidade”: a ideologia pega uma única ideia – como a supremacia racial no nazismo ou a luta de classes no stalinismo – e a transforma em uma lente que explica tudo. Essa lógica tem três efeitos perigosos:

  1. Bloqueia a realidade: A ideologia ignora qualquer fato que contradiga sua premissa, criando uma visão de mundo fechada.
  2. Substitui o pensamento: Em vez de refletir, as pessoas são presas a uma “camisa de força” lógica, onde tudo já está decidido.
  3. Destrói a espontaneidade: A ideologia anula a vontade de agir livremente, tornando as pessoas passivas. Para Arendt, o súdito ideal do totalitarismo não é quem acredita fervorosamente, mas quem não acredita em nada, apenas segue o sistema.

Esses efeitos levam ao que Arendt chama de “eliminação da liberdade” e geram uma espécie de “desertificação da alma”. Ela descreve isso como uma solidão profunda, um desamparo em que a pessoa se sente abandonada não só pelos outros, mas por si mesma. Essa solidão, tão comum na sociedade moderna, torna as pessoas vulneráveis a ideologias que prometem um sentido para a vida e a integração a um grupo maior, como se isso pudesse curar o vazio. No entanto, essa promessa é uma ilusão: o preço é a perda da liberdade e da individualidade.

Outro ponto forte é o papel do terror. Diferente de um governo autoritário, que reprime quem se opõe, o totalitarismo usa o medo de forma imprevisível, para que ninguém se sinta seguro. Isso destrói a confiança entre as pessoas e acaba com qualquer chance de resistência. A autora fala sobre como a propaganda transforma mentiras em “verdades” absolutas, manipulando as massas para aceitarem ideias absurdas. Isso cai como uma luva no mundo atual das redes sociais, não achas?

Agora, vamos trazer isso para 2025. O mundo está mais polarizado do que nunca. De um lado, temos grupos dos dois espectro políticos se digladiando em rede social e praças publicas, cada um com sua “verdade” e sua “narrativa” sem ao menos analisar de forma racional alguma veracidade de fatos, tudo usando unicamente o “fígado”. A “logicalidade” das ideologias que Arendt criticava aparece hoje em discursos que tentam reduzir problemas complexos a uma única causa, seja “o sistema” ou “os outros”. Ambos os lados, quando levados ao extremo, podem cair nas armadilhas que Arendt descreve: narrativas simplistas, desinformação e a destruição do diálogo, pior ainda; em defesa de um politico ou partido politico que tão pouco respeita a sociedade e o dinheiro publico. Faz sentido isso pra você?

Por exemplo, as redes sociais amplificam isso. A propaganda que Arendt descrevia hoje aparece em posts virais, narrativas que pendem pra algum “politico de estimação”, além dos algoritmos que nos prendem em bolhas. A “atomização” que ela mencionava? É o que acontece quando nos dividimos em tribos políticas, incapazes de ouvir o outro lado. A solidão que ela mencionava? É o que sentimos quando nos isolamos em grupos que pensam igual, incapazes de ouvir o outro lado. No Brasil, essa polarização é clara: discussões políticas viram batalhas, e o espaço para debate racional parece cada vez menor. E o mais assustador: vemos líderes utilizando-se de narrativas para propagar e ampliar falsas narrativas do bem contra o mal, botando fogo na lenha virtual, que sempre acabara no real. Seja num encontro de fanáticos políticos se confrontando com outros fanáticos de “torcida organizada” de partido politico. Tudo calculado e apoiado por lideres populistas que adoram se manter ao redor dos poderes.

Nos EUA essa polarização também é visível. Discussões sobre política viram batalhas, e o espaço para debate racional parece cada vez menor. Arendt nos avisa: quando perdemos a capacidade de conversar e respeitar a pluralidade, abrimos a porta para o autoritarismo. E isso não é só sobre ditaduras clássicas – pode ser sobre democracias que, aos poucos, vão se enfraquecendo.

A grande lição de A Origem do Totalitarismo é que a democracia exige esforço. Arendt acreditava que a liberdade depende de uma esfera pública viva, onde pessoas com ideias diferentes possam debater sem medo. Para ela, a pluralidade – ou seja, aceitar que o mundo é feito de muitas vozes – é o que nos protege do totalitarismo.

Hoje, isso significa algumas coisas práticas:

  • Cuidado com narrativas simples: Se alguém diz que todos os problemas do mundo têm uma única causa (seja “os capitalistas”, “os bancos”, “os comunistas”), desconfie. O mundo é complexo, e soluções fáceis muitas vezes escondem intenções perigosas.
  • Resista à desinformação: Verifique fontes, questione o que lê nas redes e busque entender os dois lados de uma questão.
  • Fortaleça o diálogo: Tente conversar com quem pensa diferente, mesmo que seja difícil. É no diálogo que a democracia respira.

Vale a Pena Ler?

Se você nunca leu nada sobre política ou história, A Origem do Totalitarismo pode parecer intimidador, mas vale cada página. Para facilitar, sugiro começar com a terceira parte (Totalitarismo), que é mais direta, e depois voltar às outras. A edição da Companhia das Letras, em português, tem uma tradução ótima e notas que ajudam a contextualizar.

Em um mundo com tantos desafios – polarização, radicalismos de esquerda e direita, desinformação –, esse livro é um convite para sermos mais atentos e inteligentes.

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E você, já leu esse livro? Ou tem sentido essa polarização no seu dia a dia? Conta nos comentários!

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