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A invasão da Rússia por Napoleão em 1812

Faz tempo que me recomendavam o livro “With Napoleon in Russia“, as memórias do general Armand de Caulaincourt, e resolvi finalmente ler. Caulaincourt foi embaixador da França em São Petersburgo e depois virou estribeiro-mor de Napoleão, cargo que na prática o deixava responsável pelos cavalos, pelas carruagens e pela logística das viagens do imperador. Em tempo de guerra, o cargo o colocava ao lado do imperador, e ele passou a campanha de 1812 muito perto de Napoleão, cavalgando do lado esquerdo dele nas batalhas. Como ele anotava as conversas assim que elas terminavam, a gente acompanha um homem avisando o imperador de que a guerra ia dar errado e o imperador não aceitando o aviso. O que mais me chamou atenção é que o czar Alexandre I explicou ao embaixador francês, mais de um ano antes da invasão, de como pretendia reagir a um ataque, e é seguindo esse fio que dá pra entender como um dos maiores exércitos que a Europa já tinha visto acabou destruído na Rússia.

Um detalhe importante de mencionar é que esse livro quase não chegou até a gente. Caulaincourt morreu em 1827 sem publicar as memórias, e a família segurou os papéis por muito tempo, por causa dos laços com a família do duque de Bassano, que ele criticava, e provavelmente pelo risco de processos por difamação (p. xxiii). Quando uma edição estava sendo preparada, veio a Primeira Guerra Mundial, o manuscrito foi emparedado no conservatório do castelo da família e os alemães explodiram o castelo em 1917. A edição seguiu com uma cópia que estava em Paris, e só em agosto de 1933 o arquiteto que reconstruía o lugar achou uma caixa de lata amassada no meio do entulho, com os papéis manchados de água e as correções feitas à mão pelo próprio Caulaincourt. As diferenças em relação à cópia eram pequenas (p. xxiii-xxiv).

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Vale saber como ler esse material. Caulaincourt anotava as conversas assim que elas terminavam e, nos anos 1820, quando outros companheiros de campanha começaram a publicar memórias que ele achava distorcidas, organizou as notas pra deixar a versão dele registrada (p. xxii). Ele afirma que não retocou nem disfarçou nada (p. 3), então o livro funciona como um relato feito no calor dos acontecimentos e organizado depois. Outra observação que podemos fazer é que a edição em inglês de 1935 é abreviada, porque o editor cortou repetições e trechos em que Caulaincourt não estava presente (p. xxiv). Ela está disponível pra download gratuito no Internet Archive (baixe o livro aqui).

A história começa em 1807. Depois de vencer os russos na batalha de Friedland, Napoleão se encontrou com Alexandre I numa balsa no meio do rio Niemen, na cidade de Tilsit, e os dois assinaram um tratado de paz e aliança (p. xviii-xix). Pra Alexandre o preço foi alto, porque a Rússia foi obrigada a entrar no bloqueio continental, a proibição de que os países europeus comerciassem com a Inglaterra, que Napoleão queria enfraquecer economicamente. Foi esse mesmo bloqueio que empurrou a família real portuguesa pro Brasil (já escrevemos sobre isso aqui). O problema é que a economia russa dependia muito do comércio com os ingleses, então o czar aceitou o bloqueio no papel e foi afrouxando a fiscalização, principalmente depois de 1809, deixando entrar navios “neutros” que muitas vezes chegavam carregados de mercadoria inglesa (fonte).

Em dezembro de 1810, Napoleão anexou as cidades hanseáticas de Hamburgo, Bremen e Lübeck, no norte da Alemanha, e o mesmo ato alcançou territórios ligados aos portos, entre eles o ducado de Oldenburg, cujo herdeiro era casado com uma irmã do czar. Menos de três semanas depois, em 31 de dezembro, Alexandre respondeu com um ukase (decreto imperial) que taxava pesado os produtos que chegavam por terra, quase todos franceses, e mantinha os portos abertos aos navios neutros. Caulaincourt explica numa nota que o decreto tentava frear a saída de dinheiro do país, que derrubava o câmbio, e estimular a indústria russa (p. 4). Em janeiro de 1811, por decreto, Napoleão mandou expulsar a família ducal de Oldenburg e tomou o ducado (fonte).

Tem um ponto que costuma passar batido, que é o fato de a própria França vender licenças pra deixar entrar mercadoria inglesa nos seus portos. Caulaincourt lembrou isso a Napoleão numa conversa, dizendo que os franceses aceitavam esses produtos, só que com imposto em dobro. O imperador riu e respondeu que não podia voltar atrás por causa dos portos franceses, e que bastava o czar fazer o mesmo (p. 24-25).

O outro ponto de atrito era a Polônia. Naquela época ela não existia como país independente, porque tinha sido dividida entre os vizinhos, e Napoleão havia criado o ducado de Varsóvia, um pequeno Estado polonês sob controle francês, bem na fronteira com a Rússia. O czar temia que Napoleão fosse restaurar a Polônia de vez e acabasse mexendo nas terras polonesas que a Rússia mantinha, por isso queria uma declaração formal de que isso não aconteceria. O próprio Caulaincourt chegou a fechar com o ministro russo um rascunho de acordo nesse sentido, em janeiro de 1810, e Napoleão rejeitou (fonte). O imperador dizia que não queria refazer a Polônia e que eram os poloneses que queriam a presença dele (p. 12), só que ao mesmo tempo mantinha tropas concentradas em Danzig, uma cidade livre sob controle francês encravada em terras prussianas, e em outros pontos do norte da Prússia. Caulaincourt avisou que isso não combinava com paz (p. 5 e 22) (fonte).

Foi nesse clima que Caulaincourt voltou de São Petersburgo, em junho de 1811, e teve uma conversa de cinco horas com Napoleão no palácio de Saint-Cloud (p. 12). O imperador insistia que era Alexandre quem queria a guerra, e Caulaincourt respondeu que apostava a própria vida que o czar não daria o primeiro tiro (p. 4). Aí ele repetiu o que o próprio Alexandre tinha dito a ele em particular. Se Napoleão atacasse, os russos até podiam perder batalhas, mas isso não os obrigaria a assinar uma paz ditada por ele. Tinham espaço de sobra e um exército organizado, e o czar preferia recuar até Kamchatka, no extremo leste da Sibéria, a assinar em sua capital um tratado que seria só uma trégua. Alexandre ainda completou que o clima e o inverno russos lutariam do lado deles (p. 5-6). Esse aqui é o trecho mais importante do livro inteiro, porque antecipa a lógica que acabou predominando na campanha.

Napoleão ouviu com atenção, ficou calado um tempo e depois começou a listar as tropas e os recursos que tinha. Caulaincourt conta que foi ali que perdeu a esperança de paz, porque eram justamente essas contas de soldados que mais empolgavam o imperador (p. 7). No fim da conversa, Napoleão disse que ele falava como um russo, e repetiu a acusação em público, numa recepção na corte em agosto de 1811 (p. 11-12 e 18-19). Enquanto dizia que não queria guerra, já preparava a expedição. Levou um ministro pra caminhar num ponto do terraço de Saint-Cloud onde ninguém pudesse ouvir e contou que tinha decidido fazer uma grande operação partindo do Niemen, o rio que marcava a fronteira russa. Homens ele arranjava fácil, dizia, e o difícil era o transporte, por isso precisava de cavalos e carroças em grande escala (p. 16-17).

Já em 1812, Caulaincourt disse a ele que nenhum interesse político justificava uma guerra a milhares de quilômetros de Paris, com a Espanha ainda em aberto (p. 22-23), e que o verdadeiro motivo era a paixão do imperador. Napoleão perguntou rindo que paixão era essa e ouviu como resposta que era a guerra (p. 25).

Em maio de 1812, em Dresden, Napoleão explicou a Metternich, o ministro austríaco, como imaginava a guerra. Ele atravessaria o Niemen, terminaria a campanha em Smolensk e Minsk, fortificaria as duas cidades e passaria o inverno em Vilnius, esperando pra ver quem se cansava primeiro, ele de alimentar o exército ou o czar de sustentar o inimigo. Se Alexandre não pedisse paz, ele avançaria mais no ano seguinte. Do lado russo, o plano era o oposto, porque o general Barclay de Tolly, ministro da Guerra, defendia desde 1810 recuar pra dentro do país, e em abril de 1812 o oficial Pyotr Chuikevich escreveu um memorando dizendo que a saída era evitar a batalha, desgastar o inimigo e atacar as linhas de suprimento dele (fonte).

Pouco antes de a guerra começar, Napoleão mandou o conde de Narbonne a Vilnius, que na época era território russo e hoje é a capital da Lituânia, pra sondar o czar. Alexandre recebeu o enviado com cordialidade, repetiu que não daria o primeiro tiro e abriu um mapa da Rússia sobre a mesa, apontando os limites mais distantes do país. Se a sorte não sorrisse pros russos, disse ele, Napoleão teria que ir até o fim do mundo pra encontrar a paz (p. 35-38).

Em 22 de junho, Napoleão publicou uma proclamação ao exército chamando a guerra de “segunda guerra da Polônia” e acusando a Rússia de ter violado os juramentos de Tilsit (fonte).

No dia seguinte, ele fazia o reconhecimento da margem do rio a cavalo quando uma lebre saiu do meio do trigo e passou entre as patas do animal. O cavalo desviou e o imperador, que segundo Caulaincourt montava mal, caiu no chão. Levantou tão rápido que ninguém conseguiu ajudar e subiu de volta sem dizer nada. Em outra situação ele teria descontado no estribeiro-mor, que era o próprio Caulaincourt, mas ali fingiu serenidade. O marechal Berthier segurou a mão de Caulaincourt e disse que seria melhor não atravessar o Niemen, porque aquilo era mau sinal (p. 45-46).

Naquela noite, Napoleão chamou Caulaincourt e perguntou se os camponeses russos pegariam em armas como os espanhóis tinham feito. Caulaincourt respondeu que não esperava grandes batalhas, e que os russos podiam ceder terreno justamente pra levar os franceses longe da base e obrigá-los a dividir as forças (p. 47). Napoleão respondeu que em menos de dois meses a Rússia estaria pedindo paz (p. 48).

A travessia aconteceu em 24 de junho de 1812, e as estimativas do tamanho da Grande Armée (o “Grande Exército” de Napoleão) variam bastante. O Britannica fala em cerca de 453 mil homens na primeira leva e uns 612 mil ao longo da campanha, contando os reforços que foram chegando. Um dado que muita gente desconhece é que menos da metade eram franceses, entre pouco mais de 200 mil e uns 300 mil, conforme o critério, e o resto vinha de outros países da Europa dominados ou aliados à força de Napoleão (fonte, fonte).

O preço apareceu já na marcha até Vilnius. Sem depósitos de comida e com chuvas frias à noite, o exército perdeu uns 10 mil cavalos, e muitos soldados jovens da Guarda Imperial, a tropa de elite de Napoleão, morreram de cansaço, frio e fome (p. 49-50). Em Vilnius chegou o general Balachov, enviado do czar, com uma carta propondo trocar explicações e evitar a guerra se Napoleão recuasse pra trás do Niemen enquanto se negociava (p. 51-52). Napoleão respondeu, diante de Caulaincourt e dos marechais, que tinha ido até ali pra acabar de vez com o colosso da barbárie do norte e empurrar os russos de volta pra neve e pro gelo, de modo que ficassem um quarto de século sem se meter na Europa (p. 52). Na frente de Balachov, ainda disse que Caulaincourt tinha virado russo, e Caulaincourt, ofendido, respondeu que era um bom francês (p. 54).

Barclay de Tolly deixou Vilnius em 28 de junho, depois de destruir os depósitos e a ponte, e Napoleão ficou umas três semanas na cidade organizando o governo da Lituânia e o abastecimento. Foi tempo suficiente pra que Barclay e o outro general russo, Bagration, escapassem sem ser cercados, e Napoleão tentava justamente impedir que os dois exércitos se juntassem (fonte).

Em Vitebsk, no fim de julho, Caulaincourt foi visitar os hospitais e distribuir dinheiro aos feridos. Faltava tudo, até gaze pra curativos, e isso sem que o exército tivesse travado uma grande batalha (p. 66-68). As carroças tinham sido feitas pra estrada pavimentada e a primeira areia derrubou os cavalos, que estavam sem ferraduras, e não havia pregos, ferreiros nem ferro pra fazer pregos (p. 67-69). Caulaincourt via ali a origem dos desastres que vieram depois (p. 67). Napoleão, mesmo assim, mantinha o plano de descansar em quartéis de inverno depois de uma grande batalha e marchar sobre as capitais russas na primavera, se o czar não pedisse paz antes (p. 73-74).

Em 16 de agosto, diante de Smolensk, Napoleão disse a Caulaincourt que, se os russos abandonassem aquela cidade sagrada, ele se entrincheiraria, deixaria o exército descansar, faria quartel-general em Vitebsk, levantaria a Polônia em armas e só depois escolheria entre Moscou e São Petersburgo. Caulaincourt aplaudiu e respondeu que o plano dos russos era justamente puxá-lo pra dentro do país, longe da base, e que era preciso não entrar no jogo deles. Berthier duvidava que a decisão sobrevivesse à tomada da cidade (p. 75-76).

Na noite seguinte, com Smolensk em chamas, Napoleão bateu no ombro de Caulaincourt e perguntou se aquilo não era um espetáculo bonito, uma erupção do Vesúvio. Caulaincourt respondeu que era horrível, e Napoleão citou uma frase atribuída a um imperador romano, a de que o cheiro de um inimigo morto é sempre bom. Caulaincourt e Berthier trocaram um olhar sem dizer nada (p. 77). Em 18 de agosto, Napoleão previu que em menos de um mês estaria em Moscou e em seis semanas teria a paz (p. 78). Dois dias depois, mandou parar as obras de fortificação de Smolensk e disse que não queria passar dali (p. 80). Só que em 25 de agosto ele saiu às pressas atrás do exército russo, e Caulaincourt resume que os bons pensamentos de Smolensk cederam às tentações da glória (p. 82-83).

Essa retirada era impopular na Rússia. Em 9 de agosto, o czar escreveu a Barclay dizendo que era hora de reagir, e em 18 de agosto o veterano Mikhail Kutuzov assumiu o comando geral. Kutuzov manteve em linhas gerais a lógica do recuo e do desgaste do inimigo, o que se costuma chamar de estratégia fabiana (recuar sem aceitar a batalha decisiva), mas decidiu aceitar uma grande batalha de desgaste perto da aldeia de Borodino, a 124 quilômetros de Moscou (fonte).

Na manhã de 7 de setembro, o irmão mais novo de Caulaincourt, o general Auguste, despediu-se dele dizendo que ia vencer ou se fazer matar (p. 97). Poucas horas depois, Auguste assumiu o comando de uma divisão de cavalaria e liderou a carga que tomou o grande reduto, a fortificação de artilharia no centro russo, decidindo a batalha, e morreu com uma bala abaixo do coração quando saía dela. Caulaincourt estava ao lado de Napoleão quando a notícia chegou, e o imperador disse que Auguste tinha morrido como um bravo, decidindo a batalha (p. 99-100).

Napoleão ficou com o campo de batalha, mas reclamou que os russos se deixavam matar como autômatos e quase não havia prisioneiros (p. 103). Na manhã seguinte percorreu um campo coberto de mortos e, segundo Caulaincourt, já desconfiava de que aquela batalha só lhe daria mais terreno. Repetia que a paz estava em Moscou e que, quando os grandes nobres russos vissem a capital tomada, pensariam duas vezes antes de continuar (p. 103-105). Os números vêm da Fondation Napoléon, uns 45 mil russos mortos, feridos ou desaparecidos, contra algo entre 28 mil e 35 mil do lado francês (fonte).

Kutuzov concluiu que uma nova batalha em frente a Moscou destruiria o exército e decidiu, num conselho de guerra em 13 de setembro, abandonar a cidade. O governador, Fiodor Rostopchin, já vinha tirando moradores e autoridades desde o começo do mês e, na noite da retirada, levou embora também os bombeiros e cerca de cem bombas de água. Napoleão entrou em 15 de setembro numa cidade quase vazia, onde tinham ficado uns 10 mil dos 262 mil moradores (fonte).

Ainda no primeiro dia começaram os incêndios, e não era a primeira vez, porque em Viazma, no fim de agosto, Auguste tinha visto cossacos incendiando a cidade, e Napoleão ironizou o povo que queima as próprias casas pra impedir o inimigo de dormir nelas (p. 84-85). Em Moscou, Caulaincourt sustenta que foi ordem do governador. Conta que policiais de uniforme foram presos em flagrante e confessaram ter recebido ordem de queimar a cidade, e que ele mesmo viu pavios iguais em vários prédios, até no quarto do imperador no Kremlin (p. 118-121). Napoleão chamou Rostopchin de novo Eróstrato, o grego que incendiou um templo só pra ficar famoso (p. 121). Caulaincourt passou a noite apagando fogo nos estábulos e no palácio Galitzin com bombas de água que ele mandou consertar, porque estavam desmontadas (p. 119). Os historiadores ainda discutem a origem do fogo, que pode ter vindo de uma ordem, do saque dos dois lados ou de uma combinação disso. Napoleão teve que fugir do Kremlin em 16 de setembro, e no fim um terço das casas da cidade estava destruído (fonte).

Durante semanas o tempo em Moscou foi tão ameno que até os moradores estranhavam. Napoleão comparava o outono ao de Fontainebleau e ironizava o terrível inverno russo com que, segundo ele, Caulaincourt assustava criancinhas (p. 139-140). Caulaincourt, por sua vez, tratou de se preparar. Mandou forrar com pele os capotes dos homens do seu departamento, fez fabricar luvas e gorros, encomendou ferraduras afiadas pra andar no gelo, trenós e biscoitos, e conta que graças a isso conseguiu levar seus doentes e veículos em segurança até Vilnius (p. 131-132). Napoleão passou três semanas sem mencionar a morte de Auguste e, quando falou, foi pra perguntar o que podia fazer pelos ajudantes dele, elogiando-o como o melhor oficial de cavalaria que tinha, o que teria substituído Joachim Murat, cunhado do imperador, rei de Nápoles e comandante da cavalaria, no fim da campanha (p. 140).

Em outubro, Caulaincourt pediu uma audiência pra avisar que ficar em Moscou era perigoso, e Napoleão comentou com Duroc e Berthier que Caulaincourt já estava meio congelado (p. 151). Numa conversa seguinte, Caulaincourt listou o que faltava, peles, luvas, botas, e disse que nenhuma ferradura com ponta pra andar no gelo tinha sido forjada, então como iam puxar os canhões? Napoleão respondeu que ele não conhecia os franceses, que eles se virariam e que o rigor do inverno não chega em 24 horas. Caulaincourt insistiu que o inverno chegaria “como uma bomba” (p. 154-155). Ele mesmo acha que foi a esperança de que o czar aceitasse negociar que manteve Napoleão em Moscou e o fez enfrentar um inverno que matou mais que qualquer peste (p. 134).

Essa esperança tinha alguma razão de ser, porque Napoleão tentou tudo. Mandou emissários em 18 e 22 de setembro e depois Lauriston, o embaixador que tinha substituído Caulaincourt em São Petersburgo, a Kutuzov, que aceitou conversar só pra ganhar tempo, enquanto Alexandre já tinha dito que não negociaria enquanto houvesse um único soldado francês na Rússia (fonte). Napoleão chegou a mandar preparar uma proclamação libertando os servos, mas Caulaincourt a descreve como uma ameaça, um relâmpago de verão que nunca virou tempestade (p. 162-164), e o próprio Napoleão tinha comentado depois de Borodino que libertá-los arruinaria as grandes fortunas dos nobres (p. 105). O livro dedica dois capítulos a esse período, chamados “Indecisão” e “Sem trégua” (p. 128-166).

No fim de setembro o exército tinha cerca de 95 mil homens em condições de combate (p. 152). Napoleão saiu de Moscou ao meio-dia de 19 de outubro e, segundo Caulaincourt, foi em Troitskoie, no dia 20, que decidiu de vez abandonar a cidade, depois de perceber que os russos não fariam a paz (p. 167). Em 24 de outubro, Kutuzov barrou em Maloiaroslavets o caminho pro sul, num combate em que cada lado perdeu cerca de 7 mil homens, e com isso Napoleão foi obrigado a voltar pela mesma estrada por onde tinha entrado (fonte).

Na manhã seguinte, perto de Gorodnia, um grupo de cossacos chegou a poucas centenas de metros do quartel-general. Caulaincourt escreve que, se o imperador tivesse saído antes do amanhecer, como queria, teria sido morto ou capturado (p. 173-174). Depois disso, ele e Berthier insistiram até convencerem Napoleão a desistir de atacar Kutuzov e a pegar a estrada de Borowsk, o caminho da volta (p. 177).

Em 6 de novembro chegaram as primeiras notícias do golpe de Malet em Paris. Napoleão o descreveu como coisa de louco, mas ficou abalado com a facilidade com que um homem sozinho, só com o boato da morte do imperador, tinha paralisado o governo, e disse que os franceses eram como mulheres, que não se podia ficar longe deles por muito tempo (p. 199-204).

Em 14 de novembro, na saída de Smolensk, a estrada virou uma pista de gelo, e Caulaincourt anota que nem a artilharia nem a cavalaria tinham um único cavalo ferrado pra gelo, com as ladeiras cheias de cavalos caídos que não conseguiam se levantar (p. 212). Cossacos aproveitaram um intervalo da coluna e levaram cavalos e a carroça dos mapas de Napoleão, além de troféus de Moscou, entre eles a cruz de Ivan Veliki, que Napoleão queria mandar pros Inválidos (p. 212-213). Naquela noite, o imperador chamou Caulaincourt e falou de novo sobre a necessidade de voltar pra França (p. 213). Os capítulos do livro sobre essa fase têm nomes como “Salve-se quem puder”, “Fome” e “Gelo” (p. 167-238).

No fim de novembro o exército chegou ao rio Berezina, onde hoje fica Belarus, com os russos tentando fechar as saídas. Segundo Caulaincourt, Napoleão passou o dia inteiro na ponte, e os pontoneiros entraram várias vezes na água pra consertar uma ponte tão frágil que quebrava a cada carroça (p. 246). Cerca de 50 mil homens comandados por Ney, Oudinot e Victor passaram em 27 de novembro, e o exército perdeu entre 25 e 40 mil homens e quase toda a bagagem (fonte). Quando a ponte foi derrubada pela multidão, Caulaincourt calcula que uns 10 mil retardatários, mulheres e crianças ficaram do outro lado (p. 251).

Em 5 de dezembro, na cidade de Smorgon, Napoleão ditou as últimas ordens e deixou o exército com Murat. Perguntou a Caulaincourt o que ele achava, e ouviu que Vilnius devia ser evacuada o quanto antes, porque o contato com as tropas desorganizadas ia espalhar a desordem entre as tropas novas (p. 266). Ele viajou disfarçado de conde de Rayneval, o primeiro secretário da embaixada, ou seja, de secretário de Caulaincourt (p. 266). A viagem, de mais de 2.500 quilômetros em treze dias e treze noites quase sem parar, ocupa os capítulos finais do livro, de Varsóvia a Dresden e de Dresden a Paris (p. 271-402) (fonte).

Caulaincourt comprou por algumas moedas de ouro um trenó coberto num posto de correio, e o imperador abandonou até o material de toalete pra ganhar tempo (p. 276). Perto de Varsóvia, ele descreve uma caixa velha e avermelhada, montada sobre patins, com janelas de madeira roída e frestas por onde entrava a neve, que chama de gaiola, e conta que precisava varrer a neve derretida dos bancos (p. 322-323). Achei muito boa uma passagem dessa viagem em que Napoleão sonha com o dia da paz geral, quando passaria quatro meses por ano viajando pela França, construindo estradas e canais, e diz que em dez anos seria tão abençoado quanto era odiado naquele momento (p. 322).

Numa dessas conversas, Napoleão culpou o clima. Disse que o tempo bom o enganou, que se tivesse saído duas semanas antes seu exército estaria em Vitebsk e ele riria dos russos, e que todos os desastres dependiam daquela quinzena (p. 285). É a mesma explicação do 29º Boletim da Grande Armée, escrito em 3 de dezembro, segundo o qual o tempo esteve perfeito até 6 de novembro, o frio começou no dia 7 e mais de 30 mil cavalos morreram em poucos dias. O boletim termina dizendo que a saúde do imperador nunca esteve melhor (fonte).

Caulaincourt discorda, e constatei que ele dedica uma passagem inteira ao que chama de fábulas sobre o frio. Conta que o quartel-general do imperador começou a campanha com 715 cavalos e chegou a Vilnius, em 8 de dezembro, tendo perdido só 80, porque cuidaram deles, e que os cavalos do resto do exército caíam sobretudo por não estarem ferrados pra andar no gelo, e que com a ferradura certa a maioria teria se salvado (p. 161-162).

Já perto de Paris, Napoleão ria das dúvidas de Caulaincourt sobre Vilnius e as chamava de pessimismo, convencido de que sua estrela voltava a subir, a ponto de já não pensar nos desastres que tinha encarado com clareza quarenta horas antes (p. 393). Em Meaux, o chefe dos correios emprestou a própria carruagem, que fechava direito, e os dois chegaram às Tulherias quando o relógio marcava quinze minutos antes da meia-noite de 18 de dezembro. O porteiro apareceu de camisa, com uma lamparina, e as damas de companhia da imperatriz quase fugiram de Caulaincourt, com duas semanas de barba, achando que era um fantasma. Napoleão entrou nos aposentos da imperatriz e disse a ele que fosse descansar também (p. 394-395). Segundo o editor do livro, entraram 600 mil homens na Rússia, e só mil soldados da Guarda chegaram a Paris em formação (p. 393). O 29º Boletim tinha sido publicado no dia anterior (fonte).

Enquanto isso, o que restava do exército tentava se reorganizar em Vilnius, a mesma cidade onde Napoleão tinha ficado três semanas no começo da campanha. Só que a cidade virou um hospital lotado, com milhares de mortes por tifo, e o general britânico Robert Wilson, que visitou um mosteiro usado como hospital, descreveu milhares de corpos empilhados nos corredores. Murat decidiu evacuar Vilnius em 12 de dezembro, quando Kutuzov entrou, e no dia seguinte o que sobrava do exército atravessou o Niemen de volta (fonte).

A gente costuma associar a derrota só ao frio, e ele pesou muito, mas as doenças mataram tanto quanto. Em 2001, operários de uma obra em Vilnius encontraram uma vala comum com os restos de 2 a 3 mil soldados da Grande Armée. Pesquisadores franceses e lituanos encontraram restos de piolhos do corpo na terra do local e, no DNA extraído dos dentes dos soldados, evidências de tifo epidêmico e de febre das trincheiras, duas doenças transmitidas por esses piolhos. O estudo, publicado no Journal of Infectious Diseases, concluiu que essas doenças atingiram quase um terço dos restos examinados e podem ter sido um fator importante na retirada (fonte).

Em 2025, uma equipe do Instituto Pasteur analisou dentes de 13 soldados da mesma vala e achou mais duas doenças, a febre paratifoide, que se pega por água e comida contaminadas, e a febre recorrente, também transmitida por piolhos. Nessa amostra pequena os pesquisadores não detectaram tifo nem febre das trincheiras, o que não invalida o estudo de 2006. Segundo os autores, o mais provável é que tenha sido uma combinação de exaustão, frio e várias doenças circulando ao mesmo tempo (fonte, fonte).

Quando atravessou o Niemen de volta, em dezembro, a Grande Armée tinha perdido cerca de meio milhão de homens, um número que reúne mortos e outras perdas, como feridos, doentes, prisioneiros e desertores (fonte).

Prússia e Áustria, que tinham participado da campanha ao lado de Napoleão, aproveitaram a situação. No fim de dezembro de 1812, o general prussiano Johann von Yorck assinou com os russos a Convenção de Tauroggen (um armistício), e em fevereiro de 1813 Prússia e Rússia formaram uma aliança contra Napoleão. A Áustria entrou na coalizão ainda em 1813, e em 1814 a coalizão derrotou o império francês e mandou Napoleão pro exílio na ilha de Elba (fonte).

Quem quiser acompanhar o que Caulaincourt escreveu sobre esse período, o segundo volume das memórias, No Peace with Napoleon!, cobre 1813 e 1814 e também está no Internet Archive (fonte).

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