Espionagem diplomática: o caso da Hungria e da Rússia
Estão noticiando hoje (08/09) que a Hungria botou pra fora dez diplomatas russos acusados de espionagem. O número de gente expulsa nem é o ponto mais interessante aqui, o que chama atenção é como uma embaixada vira disfarce perfeito pra espionagem e a guinada completa que a Hungria deu na relação com Moscou nos últimos meses. A Alemanha também vinha de uma dança parecida de fechamento de consulados poucos dias antes, e a virada húngara é praticamente o oposto do que o país fazia até pouco tempo atrás.
A chanceler húngara Anita Orbán anunciou essa semana que dez funcionários da embaixada russa em Budapeste tinham feito coisas incompatíveis com o status de diplomata, uma violação das regras que regem a atividade diplomática. O governo não confirmou oficialmente que se trata de espionagem, mas a suspeita não é gratuita, o veículo investigativo russo Agentstvo apurou que pelo menos 15 dos 47 funcionários da embaixada em Budapeste têm ligação com a inteligência russa, com outros seis sob suspeita parecida. A ministra fez questão de dizer que a medida não rompe a relação diplomática com Moscou, que o governo húngaro segue disposto ao diálogo, desde que seja dentro de um clima de respeito mútuo e das regras do jogo. Essa ressalva não é só cortesia diplomática, a Hungria continua dependendo de energia russa e ainda tem uma minoria húngara considerável do outro lado da fronteira, na região ucraniana da Transcarpátia, então manter a porta entreaberta também é pragmatismo. Do lado russo a porta-voz do Ministério das Relações Exteriores, Maria Zakharova, prometeu que a resposta ao que chamou de lobby russofóbico em Budapeste vai ser dura e dolorosa (fonte).
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Diplomata é, resumindo, a pessoa que um governo manda oficialmente pra outro país pra representar seus interesses e manter a relação bilateral funcionando. Desde sempre os países entendem que, pra esse trabalho acontecer direito, o pessoal precisa ficar livre de qualquer interferência do governo local. Isso virou norma internacional formal com a Convenção de Viena sobre Relações Diplomáticas de 1961, que até hoje é a base legal usada mundo afora (fonte). Um dos pontos centrais dessa convenção é que o país anfitrião pode declarar qualquer diplomata persona non grata, expressão em latim que significa que a pessoa não é bem-vinda, a qualquer momento e sem precisar dar explicação nenhuma, isso está lá no artigo 9 do tratado. Quando isso acontece, o país de origem precisa chamar essa pessoa de volta, e foi basicamente isso que aconteceu agora em Budapeste.
Só que essa mesma imunidade que protege o trabalho legítimo de um diplomata também vira uma cobertura excelente pra quem trabalha de outra forma. Na prática, o diplomata não pode ser preso nem processado no país onde está, o instrumento que o país anfitrião tem na mão é declarar ele persona non grata e mandar de volta pra casa, e só o próprio país de origem pode abrir mão dessa proteção, coisa que quase nunca acontece. A mala diplomática, aquele malote que carrega documentos oficiais entre a embaixada e o governo de origem, não pode ser aberta nem vistoriada pelas autoridades locais por força do próprio tratado. Some isso à liberdade de deslocamento internacional que um diplomata tem, e você tem um pacote de proteção que facilita muito mover gente e informação através de fronteiras, do jeito que um agente de inteligência comum, sem esse verniz diplomático, nunca teria. Segundo análises acadêmicas sobre o tema, nos primeiros anos da convenção a maioria dos pedidos de expulsão por persona non grata era justamente por espionagem, a prática ficou mais rara depois do fim da Guerra Fria e voltou a crescer a partir da anexação da Crimeia pela Rússia em 2014 (fonte). Pra quem gosta desse tipo de história de bastidor, já contamos aqui outra operação de inteligência disfarçada, dessa vez do Mossad.
No começo de agosto, enquanto a Hungria ainda não tinha se mexido nesse sentido, um drone carregado de explosivo foi encontrado perto de um avião ucraniano no aeroporto de Leipzig/Halle, na Alemanha, um dos principais centros logísticos usados pra mandar apoio pra Ucrânia. O drone foi desativado, mas a apuração levou quase um mês, e só no início de setembro o governo alemão concluiu formalmente que a Rússia era responsável pelo ataque, uma conclusão baseada em inteligência e no padrão conhecido de operações híbridas russas na Europa. A Rússia negou tudo, chamando a acusação de provocação forjada (fonte). Em resposta, Berlim fechou o consulado russo em Bonn e encerrou as atividades da Casa Russa, um centro cultural ligado ao Kremlin na capital alemã. Moscou revidou fechando o consulado alemão em São Petersburgo, com prazo até 18 de setembro pra encerrar as atividades, e as unidades do Instituto Goethe no país, que tinham até 13 de setembro pra sair (fonte).
O que torna a expulsão húngara tão significativa é o contraste com os últimos dezesseis anos de história do país. Viktor Orbán governou a Hungria desde 2010 mantendo uma relação bem próxima com Vladimir Putin, mesmo depois da invasão da Ucrânia em 2022, um episódio que já tratamos aqui num texto sobre países que funcionam como escudo geopolítico entre potências rivais. Enquanto praticamente toda a Europa reduzia ou cortava de vez as importações de energia russa depois da invasão, a Hungria manteve e chegou a aumentar as compras de petróleo e gás da Rússia, e em fevereiro de 2026, dois meses antes da eleição, o governo ainda travou um empréstimo de 90 bilhões de euros, uns 106 bilhões de dólares, que a União Europeia queria liberar pra Ucrânia, condicionando a liberação à retomada do fornecimento de petróleo russo pelo oleoduto Druzhba, a principal rota que leva petróleo russo até o país (fonte). Isso mudou em abril de 2026, quando o advogado Péter Magyar, líder do partido opositor Tisza, derrotou Orbán numa eleição com participação que se aproximou dos 80% dos eleitores, um recorde no país (fonte). Magyar tomou posse em maio prometendo reaproximar a Hungria da Europa e reverter o que chamou de regime dos últimos dezesseis anos.
A nova chanceler húngara, apesar do sobrenome igual, não tem parentesco nenhum com o ex-primeiro-ministro. O currículo dela ajuda a entender a lógica por trás dessa mudança de postura, ela passou anos como especialista em segurança energética e chegou a escrever um livro em 2008 sobre o que chamou de novo imperialismo energético russo (fonte). Resumindo a proposta de política externa de Tisza, ela estabelece que a Hungria deve deixar de ser um obstáculo na União Europeia e passar a ser uma engrenagem funcional (fonte).
Logo depois da vitória de Magyar nas urnas, em maio, a Hungria já tinha expulsado bem discretamente um diplomata russo chamado Artur Sushkov, terceiro secretário na embaixada em Budapeste que as autoridades identificaram como oficial disfarçado do SVR, o serviço de inteligência externa que sucedeu o braço estrangeiro da antiga KGB soviética. Sushkov passou anos tentando se aproximar de think tanks, centros de pesquisa e análise de políticas públicas, húngaros próximos do antigo governo Orbán, entre eles o Mathias Corvinus Collegium, buscando contatos, informantes e informação sobre a Ucrânia (fonte). Esse tipo de expulsão silenciosa era a marca registrada do governo Orbán em relação a esse tipo de caso, e enquanto isso o número de diplomatas russos credenciados no país só crescia, de 46 em novembro de 2021 pra 56 em outubro de 2022, um aumento de mais de 20%, bem na época em que boa parte da União Europeia expulsava gente aos montes por causa da guerra (fonte).
O detalhe curioso é que até bem pouco tempo atrás a desconfiança ia na direção contrária. Em maio de 2025, ainda sob Orbán, a agência de segurança ucraniana SBU acusou a Hungria de manter uma rede de espionagem pra obter informações sobre a defesa da Ucrânia, uma acusação que Budapeste chamou de propaganda, e os dois países expulsaram dois diplomatas cada um em retaliação mútua (fonte). Num intervalo de pouco mais de um ano a Hungria passou de suspeita de espionar um país vizinho e parceiro europeu pra ser quem expulsa espiões russos em público, o que dá uma boa medida de quanto a bússola de política externa do país girou.
A Hungria também não é caso isolado nessa onda recente. A Itália expulsou dois adidos militares da embaixada russa em Roma por suspeita de espionagem (fonte), e a Romênia chamou seu embaixador em Moscou pra consultas e expulsou um diplomata russo depois que drones Shahed entraram no espaço aéreo do país (fonte). O tom mais exaltado de Zakharova também faz mais sentido dentro desse quadro todo, não é só retórica gratuita, é reação a perder um parceiro que comprava petróleo e gás russo mesmo depois da guerra, barrava sanções e empréstimos da União Europeia, e ainda hospedava, sem incomodar muito, uma presença grande demais de gente ligada à inteligência russa dentro da própria embaixada. A resposta russa já foi prometida (fonte), só que o número de diplomatas húngaros que vão ser expulsos ainda não saiu, e o padrão histórico de Moscou é revidar espelhando o número recebido, em 2021 a Rússia respondeu à expulsão de dez diplomatas russos pelos Estados Unidos expulsando exatamente dez diplomatas americanos de volta (fonte).
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