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Por que o iPhone é fabricado na China (e não nos EUA)?

O iPhone é sinônimo de qualidade tecnológica e industrial, mas não é montado nos EUA, e também não sai de uma única fábrica. São diversos componentes, feitos por diversas indústrias espalhadas por vários países, que formam uma grande teia tecnológica, cada uma com o seu know-how (o conhecimento técnico acumulado de quem domina um processo) pra fazer um dos gadgets mais bem-sucedidos do mundo. O processador principal, por exemplo, é projetado pela Apple e fabricado principalmente pela taiwanesa TSMC, enquanto a maior parte dos aparelhos ainda é montada na China, e é daí que vem a ideia de que o iPhone é fabricado na China (fonte). Pra entrar na lista de fornecedores da Apple, as indústrias fazem muito sacrifício até serem aceitas, porque as exigências de precisão, prazo e preço são duríssimas.

Nos últimos anos, muitas dessas empresas, e várias outras de fora da cadeia da Apple, foram forçadas a repensar onde produzir. O governo dos EUA percebeu que sua malha industrial tinha encolhido enquanto a da China crescia, e Trump respondeu com tarifas sobre os produtos chineses, ainda no primeiro mandato e com muito mais força a partir de 2025. Só que, segundo uma reportagem recente da Reuters, as empresas que tinham tirado produção da China pra escapar dessas tarifas estão voltando, porque replicar o ecossistema industrial chinês não é tão simples quanto parecia no papel (fonte). Pra entender por que isso acontece com tanta empresa diferente, a melhor forma é contar como a China virou o centro dessa engrenagem, e o iPhone é o exemplo mais didático que existe.

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A história começa em 1998, quando Steve Jobs, recém-voltado à Apple depois de anos afastado, recrutou Tim Cook, então executivo da Compaq, pra cuidar das operações mundiais da empresa. Anos depois, num discurso de formatura na Auburn University, onde se formou, Cook contou que trocar a Compaq pela Apple foi uma decisão mais de intuição do que de lógica, porque todos os números da época apontavam pra ficar onde estava (fonte). A Apple vinha de anos de dificuldades financeiras, e Cook chegou encontrando uma empresa afogada em estoque parado. Em sete meses ele reduziu o giro de estoque de 30 dias pra 6 e fechou dez dos dezenove centros de distribuição da companhia. A empresa também vendeu a fábrica de Fountain, no Colorado, e terceirizou a produção, conforme relatou na época à Comissão de Valores Mobiliários americana, a SEC (fonte). Cook tratava estoque parado como dinheiro perdido e dizia que computador deveria circular como leite fresco, o mais rápido possível entre a fábrica e o cliente (fonte).

Esse novo jeito de operar deixou a Apple sem fábrica própria justamente quando ela mais precisava produzir rápido. Em 1998 a empresa lançou o iMac colorido, um sucesso que pegou todo mundo de surpresa, e quem montava boa parte dele era a sul-coreana LG, que não dava conta da demanda. Em 1999, Terry Gou, fundador de uma fabricante taiwanesa chamada Foxconn, ligou pro Cook. Os dois se conheciam da época da Compaq, que era um dos maiores clientes da Foxconn, e Gou disse que conseguia resolver o problema. Pra provar, mandou sua equipe desmontar o iMac feito pela LG e aprender a copiar e melhorar o processo (fonte). A promessa tinha estrutura por trás. A Foxconn já tinha fábrica em Shenzhen desde 1988, e em 1996 começou a erguer o complexo de Longhua, um campus murado de três quilômetros quadrados com fábricas, dormitórios, refeitórios e até granja própria pra abastecer a cozinha dos trabalhadores (fonte).

Dois anos depois desse telefonema, no fim de 2001, a China entrou na Organização Mundial do Comércio, a OMC. Até então, o Congresso americano votava todo ano se renovava as tarifas baixas pros produtos chineses, e sempre existia o risco de elas subirem de uma hora pra outra. Em 2000 os EUA já tinham dado à China relações comerciais normais permanentes, e a entrada na OMC acabou de vez com essa incerteza. Os economistas Justin Pierce, do Federal Reserve, e Peter Schott, de Yale, mostraram que os setores americanos que mais se livraram dessa ameaça de tarifa foram justamente os que mais perderam empregos nos anos seguintes, enquanto as importações chinesas cresciam (fonte). Com as regras comerciais mais estáveis, as grandes marcas ocidentais passaram a ampliar suas encomendas a uma infraestrutura chinesa que já vinha se desenvolvendo, enquanto o país continuava formando a mão de obra técnica que ajudaria a atrair novas empresas, um esforço que segue até hoje com a reforma dos cursos universitários pra formar mais engenheiros (já escrevemos sobre isso aqui).

No caso da Apple, a mudança foi completa em uma década. Segundo o jornalista Patrick McGee, que cobriu a empresa pelo Financial Times e escreveu o livro Apple in China, em 1999 nenhum produto da Apple era feito na China continental, e em 2009 praticamente todos já eram (fonte). O iPhone, lançado em 2007, nasceu bem no meio dessa virada e teve sua produção inicial concentrada nas linhas da Foxconn na China.

O lançamento daquele primeiro iPhone mostra na prática o que a China oferecia. Semanas antes da estreia, Steve Jobs andava com o protótipo no bolso junto com as chaves e percebeu que a tela de plástico estava cheia de arranhões. Ele exigiu tela de vidro, com prazo de seis semanas. Jobs ligou para Wendell Weeks, presidente da americana Corning, que lhe falou de um vidro ultrarresistente desenvolvido nos anos 1960 para cockpits de caças e abandonado por falta de comprador, o que viria a ser o Gorilla Glass (fonte). Só que ainda faltava quem cortasse e polisse aquele vidro na escala de milhões de unidades, e um executivo da Apple saiu da reunião direto pro avião rumo a Shenzhen. Por lá, uma empresa chinesa de vidro já tinha montado uma fábrica nova, por conta própria, antes mesmo de ganhar o contrato, com engenheiros testando o material dia e noite. As telas prontas chegaram à fábrica da Foxconn perto da meia-noite, e um encarregado acordou 8 mil trabalhadores nos dormitórios. Cada um ganhou um biscoito e uma xícara de chá e, meia hora depois, começou um turno de 12 horas encaixando vidro nas molduras. Em 96 horas a fábrica já produzia mais de 10 mil iPhones por dia (fonte).

A Apple calculou que precisaria de 8.700 engenheiros industriais pra supervisionar os 200 mil operários envolvidos na fabricação do iPhone e estimou que levaria até nove meses pra encontrar esse tanto de engenheiro qualificado nos Estados Unidos. Na China, levou 15 dias (fonte). Em cima dessa base, a Apple foi aprofundando o investimento. McGee relata que a Apple contabiliza cerca de 28 milhões de trabalhadores chineses treinados desde 2008, mais do que toda a força de trabalho da Califórnia. Documentos internos obtidos por ele indicam que, em 2015, a empresa estimava estar mobilizando cerca de 55 bilhões de dólares por ano na China, somando máquinas colocadas nas linhas dos fornecedores, treinamento e outros gastos na cadeia. Pra ter uma ideia, a Lei dos Chips de Biden, o grande plano pra trazer a fabricação de semicondutores de volta aos EUA, soma 53 bilhões em quatro anos (fonte, fonte).

A proximidade entre fornecedores também explica por que eles foram se instalando ao lado das montadoras. O diretor financeiro da Corning contou ao New York Times que dava pra fazer o vidro nos EUA e mandar de navio, mas a viagem levava 35 dias, e por avião custava dez vezes mais. Por isso a empresa passou a construir fábricas de vidro perto dos clientes, e boa parte da produção foi parar no Japão e em Taiwan (fonte). Esse tipo de concentração geográfica de fornecedores, mão de obra especializada e serviços é o que os economistas chamam de aglomeração industrial, e era justamente essa densidade que faltava do outro lado do Pacífico.

Um detalhe curioso é que a montagem em si é a etapa que menos dinheiro deixa. Em 2011, os pesquisadores Kenneth Kraemer, Greg Linden e Jason Dedrick, das universidades da Califórnia e de Syracuse, destrincharam o valor do iPhone 4. Pelas estimativas deles, 58,5% do preço correspondiam ao lucro bruto da Apple, outros 14,5% ficavam com fornecedores do Japão, da Coreia do Sul, de Taiwan e da Europa, e o trabalho de montagem na China representava só 1,8%. O restante ia pra matéria-prima e pra mão de obra de outros países (fonte). A conclusão dos autores foi que trazer só a montagem de volta aos EUA teria pouco efeito, porque a maior parte do valor está no projeto, na propriedade intelectual, nos componentes e na venda.

Seis anos depois desse estudo, Tim Cook explicou por que a Apple continuava presa à China mesmo com o lucro concentrado do lado americano. No Fortune Global Forum, em Guangzhou, em dezembro de 2017, ele disse que existe uma confusão sobre o país, porque as pessoas acham que as empresas vão pra lá atrás de mão de obra barata, e que a China tinha deixado de ser barata havia anos. O motivo, segundo ele, era a habilidade, a combinação de operários com destreza quase artesanal e robôs sofisticados, algo muito raro de encontrar em outro lugar. Aí veio a frase que ficou famosa e que o episódio dos 15 dias já tinha antecipado uma década antes. Ele disse que nos EUA talvez não desse nem pra lotar uma sala com engenheiros de ferramentaria, que são os profissionais que fazem os moldes e gabaritos de precisão usados nas máquinas, enquanto “na China, dá pra encher vários campos de futebol” (fonte).

Essa engrenagem só passou a ser contestada de verdade pelo governo americano no segundo mandato de Trump. Em abril de 2025, o secretário de Comércio, Howard Lutnick, disse na CBS que o “exército de milhões e milhões de pessoas apertando parafusinhos pra fazer iPhones” viria pros EUA, só que automatizado (fonte). Em maio, num encontro com empresários no Catar, Trump contou que tinha reclamado com Cook porque a Apple anunciava 500 bilhões de dólares de investimento nos EUA enquanto construía fábricas pela Índia inteira. Dias depois, escreveu na Truth Social que esperava ver os iPhones vendidos nos EUA fabricados no país, “não na Índia nem em qualquer outro lugar”, e ameaçou uma tarifa de pelo menos 25% (fonte).

Em 2025, parte importante das novas tarifas de Trump foi imposta com base na IEEPA (já explicamos isso aqui), uma lei de emergência de 1977. Em fevereiro de 2026, porém, a Suprema Corte decidiu que a lei não dava ao presidente autoridade para impor tarifas, e essas medidas foram posteriormente encerradas. A administração passou então a recorrer a outras bases legais, como as Seções 122, 232 e 301.

Analistas de Wall Street calcularam que fabricar o iPhone nos EUA aumentaria o preço do aparelho em pelo menos 25%, e Dan Ives, da Wedbush, chegou a estimar um iPhone americano de 3,5 mil dólares (fonte). Naquele mesmo mês, Cook avisou aos investidores que a maioria dos iPhones vendidos nos EUA no trimestre seguinte viria da Índia, que quase todos os iPads, Macs, Apple Watches e AirPods viriam do Vietnã e que a China continuaria abastecendo a grande maioria das vendas no resto do mundo (fonte).

A resposta mais concreta da Apple à pressão veio em agosto de 2025, com Cook no Salão Oval. A empresa anunciou mais 100 bilhões de dólares em investimentos e elevou o compromisso total nos EUA pra 600 bilhões, e Trump chamou aquilo de um passo rumo ao iPhone feito no país. O centro do anúncio foi o American Manufacturing Program, com uma parceria com a mesma Corning do episódio de 2007 pra fazer em Kentucky o vidro de todos os iPhones e Apple Watches vendidos no mundo. Especialistas ouvidos pela CNBC avaliaram que o anúncio foi pensado pra tirar a Apple da mira das tarifas sem a concessão final, que seria montar o iPhone nos EUA (fonte, fonte).

O caso da Apple é o exemplo mais visível de um movimento que se repetiu em quase toda a indústria, e os números agregados mostram o tamanho dele. A medida usada pra comparar o peso industrial dos países é o valor adicionado, que é basicamente o quanto as fábricas acrescentam de valor em cima do que gastaram com insumos. Em 2004, a China respondia por menos de 9% da produção industrial do mundo. Em 2023 já eram 28%, com 4,66 trilhões de dólares, mais do que EUA, Japão e Alemanha somados (fonte). Os EUA tinham o maior setor industrial do planeta até 2010, quando foram ultrapassados pela China (fonte).

Do lado americano, o efeito mais visível foi no emprego. Os EUA tinham 17,3 milhões de pessoas trabalhando na indústria em 2000 e chegaram a 11,5 milhões em 2010, segundo o Bureau of Labor Statistics (BLS). Desde então houve uma recuperação pequena, e em fevereiro de 2026 eram cerca de 12,6 milhões (fonte). É o processo que os economistas chamam de desindustrialização, e o Brasil também passou por ele, por caminhos bem diferentes (já escrevemos sobre isso aqui).

Quanto dessa queda foi culpa da China ainda divide os economistas. O estudo mais citado é o de David Autor, David Dorn e Gordon Hanson, que batizaram o fenômeno de China shock (choque chinês). Eles estimaram que o aumento das importações chinesas entre 1999 e 2011 eliminou cerca de 2 milhões de empregos nas indústrias americanas, direta e indiretamente, número que chega a 2,4 milhões quando se somam os efeitos sobre os mercados de trabalho locais (fonte). Um dos principais resultados foi mostrar que o choque ficou concentrado em algumas regiões e que o mercado de trabalho se ajustou muito mais devagar do que a teoria econômica tradicional previa.

Há quem discorde bastante. Em 2015, Michael Hicks e Srikant Devaraj, da Ball State University, estimaram que mais de 87% da redução do emprego industrial desde 2000 estava ligada a ganhos de produtividade e que só cerca de 4% vinha do comércio internacional (fonte). A economista Susan Houseman, do Upjohn Institute, rebateu mostrando que o crescimento forte da produtividade industrial americana vinha quase todo de um único setor, o de computadores e eletrônicos, que representa menos de 15% da indústria. Os números desse setor ficam inflados pela forma como os órgãos de estatística contabilizam a melhora de desempenho dos produtos a cada geração, e tirando os computadores da conta deixa de existir evidência clara de que a produtividade, sozinha, explique a queda do emprego (fonte). Li os dois lados e a crítica da Houseman me parece mais sólida, até porque ajuda a explicar por que o avanço da produtividade não basta pra explicar, sozinho, o encolhimento do emprego industrial americano.

Os dados de robôs industriais ajudam a completar esse quadro. A Federação Internacional de Robótica (IFR) mede quantos robôs existem pra cada 10 mil trabalhadores da indústria. Em 2023, a China chegou a 470, depois de dobrar esse número em quatro anos, e passou Alemanha e Japão, enquanto os EUA ficaram com 295 (fonte). Isso complica a promessa do Lutnick de trazer a montagem pros EUA via automação, porque a China já tem uma das maiores densidades de robôs industriais do mundo e, junto com isso, a mão de obra qualificada que Cook descreveu em 2017.

Quem ganhou com essa migração vai além da própria China. A Foxconn, que segue montando a maior parte dos iPhones, é uma empresa de Taiwan, a mesma daquele telefonema de 1999. Os principais chips do aparelho também são fabricados principalmente em Taiwan. Desde meados da década de 2010, e com exclusividade a partir de 2016, o processador do iPhone é feito pela TSMC, que domina a produção de semicondutores avançados num nível que nenhum outro país conseguiu alcançar, embora parte dessa produção já aconteça também numa fábrica da empresa no Arizona (fonte). Por isso falar só em montagem esconde parte da história, já que alguns dos componentes mais valiosos do iPhone nem passam pela China.

Na montagem, quem mais cresceu foi a Índia. Em 2025, a Apple montou por lá 55 milhões de iPhones, 53% a mais que os 36 milhões do ano anterior, o equivalente a cerca de um em cada quatro aparelhos produzidos no mundo, segundo a Bloomberg (fonte). Outra estimativa, da consultoria Counterpoint, coloca a Índia em 23% da montagem mundial em 2025 (fonte). Mesmo assim, a China continua responsável pela maior parte da produção. O Vietnã, que também ganhou muito investimento com a diversificação, ficou com outros produtos da Apple, como AirPods e Apple Watch, e não com o iPhone.

Ao mesmo tempo, reportagens indicaram que autoridades chinesas estavam preocupadas com a saída desse conhecimento pra outros países. No segundo semestre de 2025, a Foxconn chamou de volta centenas de engenheiros e técnicos chineses que estavam na Índia, em duas levas. Em julho, saíram cerca de 300 que trabalhavam nas linhas de iPhone no sul do país, e em agosto outros 300 da Yuzhan, subsidiária da Foxconn que montava uma fábrica de módulos de tela na mesma região (fonte, fonte). A Foxconn não explicou o motivo, mas as saídas coincidiram com relatos da imprensa de que autoridades em Pequim tinham orientado verbalmente órgãos reguladores e governos locais a dificultar a transferência de tecnologia e equipamentos pra Índia e o Sudeste Asiático. Esses profissionais estavam lá pra montar as linhas e treinar os operários indianos, justamente o tipo de conhecimento que resolveu o problema da tela em 2007.

Depois de transferirem parte da produção pra escapar das tarifas, algumas empresas estão descobrindo que o ecossistema chinês é difícil de copiar. A Dawang Metals, uma fundição familiar de Dandong, no nordeste chinês, perdeu pedidos de um grande cliente americano de máquinas agrícolas que passou a comprar na Índia, e esse mesmo cliente voltou com encomendas novas depois de ter problemas por lá. Um exportador de móveis de área externa de Hangzhou fechou a oficina que tinha aberto em 2024 em Ho Chi Minh, no Vietnã, porque não achava os equipamentos de que precisava e tinha que mandar da China até parafuso e molde de porta-copo. Quando colocou tudo na ponta do lápis, o custo ficou praticamente igual ao de produzir em casa. A varejista americana Target também devolveu parte das encomendas a fornecedores chineses, segundo duas pessoas ouvidas pela agência. A própria Reuters ressalva que ainda não há dados que mostrem quanto dessa produção está de fato voltando pra China (fonte).

A energia também entrou nessa conta. Depois que a crise no Oriente Médio pressionou os preços do petróleo, algumas empresas disseram à Reuters que a garantia de energia elétrica passou a pesar tanto quanto o preço na hora de escolher onde fabricar. A polonesa DST Pack, que faz embalagens, concentra 80% da produção numa fábrica em Shenzhen e mantém fábricas reserva nos EUA e na Europa que custam de duas a três vezes mais por unidade (fonte).

Entre 23 e 25 de setembro deste ano, Xi Jinping esteve em Washington. Os dois governos chegaram a um consenso sobre recomendações de tratamento tarifário mais favorável pra 30 bilhões de dólares em produtos considerados não sensíveis de cada lado, como pequenos eletrodomésticos e brinquedos, e estenderam até 10 de janeiro de 2027 a trégua comercial firmada em Busan, na Coreia do Sul, no ano passado (fonte, fonte). Os exportadores ouvidos pela Reuters antes da cúpula já diziam que não contavam com Trump pra resolver seus problemas e que estavam buscando outros mercados.

No meio dessa negociação, o próprio Cook deixou o comando da Apple. Em 1º de setembro, depois de pouco mais de 15 anos como CEO, ele passou o cargo a John Ternus, engenheiro que entrou na empresa em 2001, e virou presidente executivo do conselho, com a função de, entre outras coisas, conversar com governos mundo afora (fonte). O executivo que atendeu o telefonema de Terry Gou em 1999 sai do dia a dia da empresa com a maior parte dos iPhones ainda montada na China.

Na minha opinião, a tarifa consegue mudar com certa rapidez onde o produto é montado e, com isso, o país que aparece na etiqueta, mas não forma os 8.700 engenheiros que a Apple achou em 15 dias na China e levaria nove meses pra encontrar nos EUA. Esse tipo de capacidade leva décadas pra ser construída, e enquanto isso não acontece em outro lugar, a conta que aquele exportador de móveis de Hangzhou fez na ponta do lápis continua fechando a favor da China, mesmo com a Índia crescendo rápido.

Leitura complementar

Em 2021, Autor, Dorn e Hanson publicaram On the Persistence of the China Shock, mostrando que os efeitos do choque chinês sobre emprego e renda nas regiões mais atingidas continuavam presentes mais de uma década depois (NBER). O livro Apple in China, de Patrick McGee, traz a reportagem completa por trás de boa parte dessa história.

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