Os bancos chineses são todos estatais?
Essa semana o governo chinês está injetando bilhões de dólares dentro dos próprios bancos e seguradoras do país. Isso chama atenção porque não é um resgate de mercado qualquer, inclusive, a China tem seu sistema bancário diferente do que conhecemos. Sobre isso, uma curiosidade: os bancos chineses são mesmo todos estatais? E se existe banco privado por lá, que espaço ele ocupa dentro desse sistema gigante?
Até o fim dos anos 1970, a China tinha essencialmente um banco só, o Banco Popular da China (PBOC), que fazia ao mesmo tempo o papel de banco central e de banco comercial pro país inteiro. Era ele quem recebia depósito, emprestava dinheiro pra fábrica estatal e ainda controlava a política monetária, tudo dentro da mesma instituição, numa economia onde praticamente não existia iniciativa privada (fonte).
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Com as reformas de Deng Xiaoping (já contamos essa história aqui), o governo foi desmembrando essa estrutura entre 1979 e 1984. O Banco Agrícola da China (ABC) e o Banco da China (BOC) ganharam independência em 1979, o Banco de Construção da China (CCB) no mesmo ano, e o processo se fechou em 1984 com a criação do Banco Industrial e Comercial da China (ICBC), o último a nascer. Cada um foi pensado pra financiar um pedaço específico da economia, ICBC cuidando da indústria, BOC do comércio exterior, CCB da infraestrutura e ABC do campo (fonte). Esses bancos nasceram estatais desde o primeiro dia, criados pelo próprio governo pra canalizar crédito pras prioridades do plano econômico, não pra competir por lucro num mercado aberto.
Em janeiro de 2004 o banco central chinês injetou US$ 45 bilhões das próprias reservas cambiais dentro do Banco da China e do Banco de Construção, e criou uma empresa específica pra segurar essa participação, batizada de Central Huijin (fonte). No ano seguinte fizeram o mesmo com o ICBC, e foi só depois dessa limpeza de capital que os quatro bancos abriram capital na bolsa de Hong Kong (que já rendeu artigo aqui) e de Xangai, virando sociedades por ações. É realmente muito curioso perceber que abrir capital na bolsa não transformou esses bancos em empresa privada. A Central Huijin virou a principal acionista estatal e segue nessa posição até hoje. No balanço de 31 de dezembro de 2025 detinha 58,6% do Banco da China, 54,6% do Banco de Construção, 40,1% do Banco Agrícola e 34,8% do ICBC (fonte), participação que caiu um pouco no BOC e no CCB porque os dois passaram por uma emissão de ação nova em 2025 subscrita majoritariamente pelo Ministério das Finanças, o que dilui a fatia da Huijin sem ela vender nada. No caso do ICBC o Ministério das Finanças segura outra fatia relevante, então somando as duas participações o governo controla cerca de dois terços do maior banco do mundo (fonte).
Hoje esse grupo de bancões estatais cresceu pra seis, com a entrada do Banco de Comunicações e do Banco de Poupança Postal da China. Juntos, os seis somavam quase 200 trilhões de iuanes em ativos no fim de 2024, uns US$ 28 trilhões (fonte), total que já passa de 220 trilhões de iuanes depois do balanço de 2025 (fonte). Só o ICBC, sozinho, fechou 2025 com 53,48 trilhões de iuanes em ativos, cerca de US$ 7,6 trilhões, virando o primeiro banco do mundo a cruzar a marca de 50 trilhões de iuanes (fonte).
Abaixo desses gigantes tem uma camada que quase ninguém no Brasil conhece, os chamados bancos de política. Criados em meados dos anos 1990, o Banco de Desenvolvimento da China, o Banco de Desenvolvimento Agrícola e o Banco de Exportação e Importação não têm como objetivo principal maximizar lucro, nem captam depósito do público, eles se financiam via título público e empréstimo do banco central, com a função específica de bancar infraestrutura, agricultura e comércio exterior conforme a prioridade do governo do momento (fonte).
Tem ainda uma terceira camada, os chamados bancos comerciais por ações, tipo o China Merchants Bank ou o CITIC Bank. São cerca de dez instituições desse tipo hoje, com composição societária mista, normalmente com uma estatal como acionista âncora e uma fatia relevante de capital privado ou estrangeiro (fonte). Segundo o próprio regulador bancário chinês, os grandes bancos estatais sozinhos respondiam por 43,9% de todo o ativo do sistema bancário do país no terceiro trimestre de 2025, e os bancos por ações por outros 16,1% (fonte).
Ampliando a conta pra todos os bancos chineses listados em bolsa, o que inclui banco urbano e rural que também abriu capital, a EY calculou que essas 57 instituições juntas respondem por 83% de todo o ativo do setor bancário comercial chinês (fonte), número que bate com a conta que a gente já tinha fechado quando escreveu sobre se a China é capitalista ou socialista (já fizemos essa conta aqui). O próprio FMI chega numa conclusão parecida, descrevendo o sistema financeiro chinês, no relatório de avaliação de estabilidade financeira de abril de 2025, como amplamente controlado pelo governo, com o setor bancário dominante e um tamanho que já passa de 450% do PIB do país (fonte).
Descendo mais um degrau, existem milhares de bancos comerciais urbanos e rurais espalhados pelo país, controlados por prefeituras e governos provinciais, cuidando do crédito local pra empresa pequena e agricultor da região. Outra observação que podemos fazer é que boa parte desses bancos pequenos está numa situação financeira apertada, tanto que mais de 260 instituições rurais foram fundidas em bancos maiores só em 2024 por causa do risco de crédito alto (fonte).
E é só depois de descer todos esses degraus que a gente chega, enfim, no banco privado de verdade. Ele só passou a existir na China a partir de 2014, quando o governo aprovou um programa piloto autorizando as primeiras cinco licenças pra capital privado abrir banco no país (fonte). O primeiro a nascer foi o WeBank, fundado pela Tencent em dezembro daquele ano, seguido logo depois pelo MyBank, do grupo Ant, ligado à Alibaba.
Hoje já são 19 bancos privados na China, mas o peso deles no sistema é minúsculo. No fim de 2023 esses 19 bancos juntos somavam cerca de 2 trilhões de iuanes em ativos, uns US$ 280 bilhões, menos de 0,5% de todo o ativo bancário do país (fonte).
Dentro desse grupinho pequeno, WeBank e MyBank dominam praticamente tudo entre os bancos privados. No balanço de 2025 o WeBank fechou com 766,3 bilhões de iuanes em ativos e o MyBank com 504,6 bilhões, juntos somando 1,3 vez mais que os outros 16 bancos privados combinados, o que mantém o conjunto dos 19 abaixo de 0,5% do sistema mesmo depois desse crescimento (fonte). Os dois nasceram como bancos digitais sem agência física, focados em crédito pra pequena empresa e consumidor comum, exatamente o público que os bancões estatais historicamente atendem por último, preferindo direcionar crédito pra estatal grande ou empresa com relação política forte, o mesmo tipo de acesso preferencial a banco público que ajudou a BYD a crescer (já contamos essa história aqui).
No dia 7 de setembro de 2026 o Ministério das Finanças chinês anunciou a emissão de 300 bilhões de iuanes em título especial do Tesouro pra reforçar o capital de oito instituições financeiras estatais (fonte), com outros 60 bilhões vindo de aporte da estatal China National Tobacco, somando 360 bilhões de iuanes, uns US$ 54 bilhões (fonte). Essa rodada, aliás, vem em cima de outra ainda maior, os 500 bilhões de iuanes que o próprio Ministério das Finanças já tinha injetado em quatro bancões estatais em março de 2025, então juntando as duas rodadas os seis maiores bancos estatais da China já foram recapitalizados (fonte).
Do lado dos bancos, o Banco Agrícola da China recebeu a maior fatia, seguido do ICBC e do Banco de Exportação e Importação, esse último um banco de política, não comercial. Do lado das seguradoras, cinco empresas estatais entraram no pacote, caso da China Life e da Sinosure (fonte).
O motivo do dinheiro ter ido pra esse grupo específico não é mistério. O Ministério das Finanças e o fundo soberano chinês são donos, na prática, da maioria desses bancos e seguradoras, então botar capital novo ali é o próprio acionista majoritário reforçando o caixa da empresa, não um resgate de mercado aberto tipo o que se vê nos Estados Unidos ou na Europa, mecanismo parecido com o que já vimos no rearranjo da dívida oculta das prefeituras chinesas (contamos direitinho aqui). O pano de fundo da injeção é a combinação de demanda fraca por crédito com margem de juro cada vez mais espremida, quadro que piora com a crise imobiliária chinesa, que numa pesquisa da Reuters com analistas realizada em março de 2026 projetava queda de 4% no preço do imóvel novo pra 2026 (fonte).
Os 19 bancos privados, WeBank e MyBank incluídos, não receberam nada desse pacote de setembro, porque simplesmente não são responsabilidade do balanço do governo chinês. Eles em geral quebram, encolhem ou crescem por conta própria, contando com o capital dos sócios que tiraram aquela licença em 2014 e com o que conseguem levantar sozinhos no mercado, embora quando um deles afunda de verdade, caso do Anhui Xin’an Bank, que hoje já pertence majoritariamente a um trio de estatais, o resgate também possa vir do Estado (fonte).
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