MACAU, CHINA

Macau, o pedaço da China que fala português

Pouca gente no Brasil sabe, mas existe um lugar na China onde o português é língua oficial. Não é metáfora, não é exagero. Macau é uma Região Administrativa Especial da República Popular da China, com duas línguas oficiais, o português e o chinês. As placas de rua estão em português, as leis são redigidas em português, os tribunais funcionam em português. É um pedacinho do outro lado do mundo onde você consegue ler os nomes das ruas como se estivesse andando por Lisboa.

Macau fica no sul da China, na foz do Rio das Pérolas, bem pertinho de Hong Kong. O território tem cerca de 33 km² e uma população de aproximadamente 720 mil pessoas, sendo a região mais densamente povoada do planeta. Pra ter uma ideia, é menor do que muitos bairros de São Paulo. E mesmo assim, esse grãozinho de terra tem uma história de quase 500 anos de presença portuguesa e uma importância geopolítica que vai muito além do seu tamanho.

Os portugueses

Ruínas de São Paulo, a fachada do que era originalmente da Catedral de São Paulo, construída em 1602

Macau já era povoada por pescadores e camponeses chineses quando os portugueses se estabeleceram ali em 1557. A chegada dos portugueses na região aconteceu no começo do século XVI, naquela fase em que o Império Português estava obcecado por abrir rotas comerciais na Ásia. A China daquela época vivia um momento bem conturbado internamente, com várias revoltas e conflitos, o que dificultava o controle das autoridades imperiais sobre regiões mais periféricas. Os portugueses aproveitaram essa janela.

A versão mais conhecida é que as autoridades chinesas autorizaram os portugueses a se instalarem permanentemente em Macau, concedendo um grau considerável de autogoverno. Mas existe uma outra versão, defendida por historiadores como o mercador sueco Anders Ljungstedt, que diz que os portugueses na verdade se estabeleceram por meio de subornos às autoridades locais, os chamados mandarins de Cantão. Tem ainda quem diga que a autorização veio como recompensa, porque os portugueses ajudaram a derrotar piratas que infernizavam a costa chinesa. Provavelmente foi um pouco de cada coisa.

O nome “Macau” vem de um mal-entendido. Quando os portugueses chegaram e perguntaram aos habitantes locais o nome do lugar, eles entenderam que a pergunta era sobre o templo que ficava ali e responderam “Ma Kok”. Desse “Ma Kok” veio “Amacao”, depois “Macao” e finalmente Macau.

A idade de ouro

Macau se tornou um centro comercial fundamental no Império Português porque dava acesso ao mercado chinês, podendo fornecer prata, pimenta e sândalo aos chineses e, em troca, obter seda, porcelana, almíscar e ouro. O comércio fluía entre Goa, Macau e Nagasaki, no Japão, numa rede que cobria metade do planeta.

Macau foi elevada à categoria de cidade por volta de 1586, com o nome oficial de “Cidade do Santo Nome de Deus de Macau”. E aqui tem uma ironia interessante. Foi justamente durante o período da União Ibérica, quando Portugal estava sob domínio espanhol, que Macau viveu sua era de maior prosperidade, entre 1595 e 1602 aproximadamente. O governo instalado em Macau se recusou a aceitar outra administração que não fosse a portuguesa, e depois que Portugal recuperou a independência, a cidade ganhou o título de “A Mais Leal das Cidades”.

Essa fase de ouro foi acabando ao longo do século XVII, quando holandeses e britânicos começaram a disputar o comércio asiático com mais agressividade. Com a implantação da colônia britânica de Hong Kong no século XIX, Macau enfrentou uma lenta e gradual perda de relevância.

O jogo de poder

Macau em 1981

Em 1887, depois da Segunda Guerra do Ópio, Portugal formalizou a situação. O governo português assinou o Tratado de Amizade e Comércio Sino-Português, que concedeu soberania perpétua a Portugal sobre Macau. Esse tratado foi possível porque a China estava numa posição de fraqueza perante as potências ocidentais naquela época.

A relação foi ficando cada vez mais complicada com o tempo. Em 1949, quando Mao Tsé-Tung proclamou a República Popular da China, Portugal alinhou com as potências que não reconheceram o novo regime, e os dois países ficaram em barricadas opostas na Guerra Fria.

O episódio mais tenso aconteceu durante a Revolução Cultural chinesa. Em 1966, a recusa das autoridades portuguesas em autorizar obras numa escola na ilha de Taipa provocou uma revolta da comunidade chinesa que durou dois meses, o chamado “Motim 1-2-3”. Salazar sabia da fragilidade da posição de Portugal e foi forçado a apresentar um pedido formal de desculpas. Muitos consideram que ali acabou, na prática, a era colonial em Macau.

A devolução

Depois da Revolução dos Cravos em 1974, Portugal chegou a oferecer Macau de volta à China, mas a China recusou. Parece estranho, mas faz sentido. A China de Mao desconfiava do novo governo português, que tinha forte influência do Partido Comunista ligado à União Soviética. Pequim preferia resolver a questão nos seus próprios termos e no seu próprio tempo.

As negociações formais só começaram em 1986, depois que a China e a Inglaterra já tinham acertado a devolução de Hong Kong. Os portugueses entraram nas conversas achando que tudo podia dar errado, porque havia muita distância entre as posições dos dois lados. Mas Portugal jogou com uma carta interessante. Quando os chineses propuseram que a devolução fosse simultânea com Hong Kong, Portugal recusou e usou o que o diplomata António Vitorino chamou de “argumento Calimero”, que era basicamente dizer que os chineses não fariam aquilo se estivessem tratando com os ingleses. E funcionou, porque a China não queria dar a impressão de ter dois pesos e duas medidas.

Em 13 de abril de 1987 foi assinada a Declaração Conjunta Sino-Portuguesa, e Macau foi formalmente transferida para a China em 20 de dezembro de 1999. Foi o fim do Império Português, que tinha começado lá em 1415.

Um país, dois sistemas

O modelo adotado para Macau é o mesmo de Hong Kong, o famoso “um país, dois sistemas”. Na prática, isso significa que a China estabeleceu um período de transição de 50 anos em que Macau mantém o português como língua oficial, preserva seu sistema jurídico de base portuguesa e tem autonomia de governo, com exceção de política externa e defesa. Ou seja, até 2049 Macau funciona como uma espécie de ilha capitalista dentro do sistema chinês.

E Macau aproveitou muito bem essa condição. Hoje a cidade é conhecida como a capital mundial do jogo, com uma indústria de cassinos cerca de sete vezes maior que a de Las Vegas. Por conta disso, tem um dos maiores PIBs per capita do mundo e um Índice de Desenvolvimento Humano de 0,934. O centro histórico da cidade, com aquela mistura de arquitetura portuguesa e chinesa, foi reconhecido como Patrimônio Mundial da UNESCO em 2005.

A língua portuguesa

Agora, vamos ao que mais interessa pra gente. Se o português é oficial, as pessoas falam português no dia a dia? A resposta honesta é que não muito. A maioria da população usa o cantonês como língua do cotidiano, enquanto o português aparece com mais força em espaços institucionais, jurídicos e em serviços públicos. Pessoas de descendência portuguesa representam apenas 1,4% da população.

Mas tem um fenômeno bem curioso acontecendo. Nos primeiros dez anos após a devolução, houve uma queda na procura pelo ensino de português, mas depois a tendência se inverteu completamente. Os cursos lecionados em português no ensino superior passaram de cerca de 300, em 1999, para aproximadamente 1.500 atualmente, e o número de escolas com oferta de português no ensino básico duplicou. E o mais interessante é que esse movimento se espalhou por toda a China continental, que tem cada vez mais universidades oferecendo cursos de português.

Existe também o patuá macaense, que é um crioulo de base portuguesa que se desenvolveu em Macau ao longo dos séculos. Ele mistura vocabulário português com elementos do cantonês e de outras línguas asiáticas, e apesar de estar ameaçado de extinção, vem sendo resgatado, principalmente entre a população mestiça luso-chinesa.

A peça no tabuleiro

Pra entender por que Macau importa no cenário geopolítico, a gente precisa olhar além dos cassinos. A China percebeu que aquele pedacinho de terra com herança portuguesa poderia ser uma ferramenta diplomática muito poderosa. Em 2003, Pequim fundou em Macau o Fórum para a Cooperação Econômica e Comercial entre a China e os Países de Língua Portuguesa, conhecido como Fórum Macau.

Pensa assim. A China quer se aproximar de países como Brasil, Angola, Moçambique, Portugal, Cabo Verde, Guiné-Bissau, São Tomé e Príncipe e Timor-Leste. Juntos, esses países têm mais de 300 milhões de habitantes e recursos naturais enormes, especialmente na África. E onde é que a China já tem um território com o português como língua oficial, com um sistema jurídico que esses países reconhecem e com séculos de laços históricos com o mundo lusófono? Macau.

Um ex-secretário adjunto da CPLP chegou a dizer que o Fórum Macau funciona como um shopping center onde a China pode ir de loja em loja conversando com ministros dos países lusófonos. E segundo o professor Narana Coissoró, em três anos o Fórum já teria feito mais pelos países lusófonos do que a própria CPLP em dez.

Macau hoje funciona como uma plataforma de ligação entre a China e o espaço lusófono, com potencial econômico, cultural e político de alcance global. O embaixador português na China já disse abertamente que Macau pode ajudar empresas portuguesas a entrar no mercado chinês de mais de 1,4 bilhão de pessoas, especialmente em áreas como medicina, alta tecnologia e economia marítima.

Pra China, a coisa vai ainda mais longe. Por meio da iniciativa Belt and Road, conhecida como Nova Rota da Seda, a China usa Macau como ponto de entrada para ampliar sua influência em países lusófonos africanos, garantindo acesso a mercados e fontes de energia. E Macau também está sendo integrada ao projeto da Grande Baía Guangdong-Hong Kong-Macau, que pretende criar uma megarregião metropolitana com mais de 60 milhões de habitantes.

O português em Macau, portanto, não é só uma curiosidade cultural. É um ativo estratégico num jogo de poder global. A China entendeu isso e está investindo na preservação e no ensino do idioma não por nostalgia colonial, mas porque o português abre portas que o mandarim sozinho não consegue abrir.

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