A Gosplan (Государственный комитет по планированию) foi o órgão que tentou fazer uma coisa que ninguém na história tinha feito naquela escala, que era planejar a economia inteira de um país do tamanho da União Soviética a partir de uma sala em Moscou. A sigla em russo significa “Comitê Estatal de Planejamento”, e ela funcionou de 1921 até o colapso da URSS em 1991. São setenta anos de experiência prática mostrando o que acontece quando você tira o mercado de cena e coloca um grupo de técnicos pra decidir o que cada fábrica vai produzir.

1921
A Gosplan nasceu num momento bem bagunçado. Os bolcheviques tinham acabado de vencer a guerra civil e a economia russa estava destruída. Lênin, em 1921, lançou a Nova Política Econômica (NEP), que era um arranjo híbrido onde o Estado controlava a indústria pesada e o pequeno comércio podia funcionar com lógica de mercado. Foi nesse contexto que a Gosplan apareceu, em fevereiro de 1921, e no começo era bem pequena, mais um conselho consultivo que ajudava o governo a decidir onde investir. Ainda não mandava em nada de verdade.
Esse primeiro momento foi importante porque tinha uma ideia rondando, que era a do plano GOELRO, um projeto de eletrificação do país inteiro que Lênin resumiu na frase famosa “comunismo é o poder soviético mais a eletrificação de todo o país”. A Gosplan herdou esse espírito de usar o Estado pra forçar uma industrialização rápida.
1928
O jogo mudou quando Stalin consolidou o poder e jogou a NEP no lixo. Em 1928 ele lança o Primeiro Plano Quinquenal e a Gosplan, que era um conselho meio decorativo, vira a peça central da máquina econômica soviética. A partir daí ela passa a definir, em detalhe, o que cada fábrica do país tinha que produzir, em qual quantidade, com quais insumos e a que preço.
A lógica de Stalin era que se a URSS não se industrializasse rapidamente, os países avançados iam esmagar o país. O método pra correr atrás foi pesado. O primeiro plano focou em indústria pesada, principalmente aço, carvão, energia elétrica e máquinas. Do ponto de vista bruto da industrialização, funcionou. Entre 1928 e 1940 o número de operários na indústria, construção e transporte saltou de 4,6 milhões pra 12,6 milhões. A URSS deixou de ser um país agrário atrasado e virou uma potência industrial em pouco mais de uma década.
O campo
A coletivização forçada da agricultura veio junto com o primeiro plano e custou um preço humano absurdo. A lógica da Gosplan era que pra industrializar o país rapidamente, alguém tinha que pagar a conta, e essa conta foi cobrada do campesinato. Os pequenos proprietários foram obrigados a entregar suas terras pra fazendas coletivas chamadas kolkhozes, e os que resistiram foram chamados de kulaks, presos, deportados pra Sibéria ou simplesmente fuzilados.
Na Ucrânia, a coisa virou catástrofe. Em 1932 e 1933, com metas de extração de grão impossíveis de cumprir, o regime confiscou a comida que os camponeses precisavam pra sobreviver. O resultado foi o Holodomor, uma fome provocada que matou entre 3 e 5 milhões de pessoas. Esse episódio mostra que a Gosplan não era só uma questão de planilha em Moscou, era também a decisão fria de extrair grão de regiões inteiras pra alimentar a indústria, mesmo quando isso significava deixar o povo morrendo de fome no caminho.
Como funcionava
A Gosplan trabalhava com o que se chamava método dos balanços materiais. Os técnicos calculavam, em tabelas gigantescas, quanto a economia precisava de cada coisa (aço, cimento, trigo, sapatos, parafusos) e cruzavam essa demanda com a capacidade produtiva existente. A partir disso, definiam metas pra cada ministério, que repassavam pra cada fábrica.
Pra ter ideia da escala, em 1970 o Comitê Estatal de Preços (Goskomtsen) fixava 10 milhões de preços diferentes. Em 1990 esse número tinha chegado a 24 milhões. Tudo decidido a partir de Moscou. Pra você ter uma ideia de como isso é diferente do mundo capitalista, pensa no preço do pão na padaria da sua esquina. Esse preço se mexe sozinho conforme o trigo fica caro, conforme aparece concorrente, conforme o gás de cozinha sobe. Ninguém precisa decretar nada. Na URSS, o preço do pão era definido por um burocrata em Moscou e ficava lá, congelado, mesmo que o trigo estivesse acabando ou sobrando. Era decreto, não sinal.
A Gosplan trabalhava junto com o Gosbank, que era o banco estatal, e com o Gossnab, o comitê que distribuía os insumos materiais. Era uma teia burocrática enorme. Os planos eram sempre quinquenais, de cinco em cinco anos, e no total a Gosplan rodou treze planos quinquenais entre 1928 e 1991. Alguns foram cumpridos antes do prazo, outros não saíram do papel, e o último, que ia de 1991 a 1995, nem chegou a começar de fato porque a URSS deixou de existir antes.
O cotidiano
Pra entender o que isso significava na prática, dá pra olhar pra vida do cidadão soviético comum. Acordar cedo pra pegar fila de pão era rotina. Quando chegava notícia de que tinha aparecido carne ou laranja em alguma loja, formava-se aglomeração na hora. As pessoas andavam com sacolas vazias dobradas no bolso o tempo todo, porque se passassem na frente de uma loja com algo disponível, tinham que aproveitar.
Faltava de tudo o que o cotidiano precisa, papel higiênico, sabão, sapato no número certo, peças de reposição pra carro. Sobrava o que ninguém queria, porque a fábrica tinha que cumprir meta de tonelagem ou de unidade produzida, então saía mercadoria torta, malfeita, do tamanho errado. Tinha história famosa de fábrica de prego que produzia só prego gigante, porque a meta era em peso, e prego grande é mais pesado e dá menos trabalho. O resultado era uma economia que produzia muito e satisfazia pouco.
Por baixo desse sistema oficial, foi crescendo uma economia paralela que os russos chamavam de blat, que era a rede de favores, propinas e contatos pessoais que sustentava o cotidiano. Quem queria conseguir um apartamento, uma vaga na escola boa, um corte de carne decente, precisava conhecer alguém que conhecesse alguém. Operários desviavam material da fábrica pra vender por fora. Gerentes superfaturavam relatórios pra ganhar bônus. Esse capitalismo escondido era o que mantinha a URSS funcionando, e mostra que o sistema oficial nunca foi suficiente sozinho.
O cálculo
Esse é o ponto que economistas vinham apontando desde o começo da experiência soviética. Em 1920, antes mesmo da Gosplan existir formalmente, o austríaco Ludwig von Mises publicou um artigo chamado “O cálculo econômico na comunidade socialista” onde ele argumentava que sem propriedade privada dos meios de produção e sem preços formados livremente, era impossível calcular de forma racional o que produzir e como alocar os recursos. Hayek depois aprofundou a crítica dizendo que o conhecimento econômico relevante estava disperso entre milhões de pessoas, e que nenhuma autoridade central conseguiria reunir tudo isso numa sala só.
A diferença pro modelo capitalista é justamente essa. No mercado, ninguém precisa saber tudo, porque o preço carrega a informação. Quando o trigo fica caro, o padeiro entende sozinho que tem que economizar, sem precisar receber ofício de Moscou. Na URSS, alguém tinha que saber tudo, o tempo todo, e isso é matematicamente impossível.
Outro problema é que quem fazia os planos estava muito longe de quem executava. Os historiadores Aleksei Tikhonov e Paul Gregory mostraram, estudando o último plano de Stalin em 1950, que o documento foi montado pela Gosplan, pelo Gossnab e pelo Ministério das Finanças sem nenhuma participação dos ministérios industriais e das autoridades regionais que tinham que cumprir aquilo. Era uma matemática feita por gente que não tinha contato com a produção real. Como os funcionários eram cobrados pelas metas, começou uma cultura de manipular os números pra reportar sucesso mesmo quando os resultados eram ruins.
A conta militar
Tem uma peça desse quebra-cabeça que a maioria das explicações sobre a Gosplan deixa de fora, que é o tamanho do gasto militar. Durante a Guerra Fria, a URSS direcionava uma fatia gigantesca da economia pra indústria de defesa. As estimativas variam, mas economistas como Anders Åslund e a CIA calculavam que entre 15% e 25% do PIB soviético ia pra defesa, contra algo em torno de 5% a 7% nos Estados Unidos no mesmo período.
Isso muda completamente a leitura do que a Gosplan fazia. A indústria pesada que cresceu tão rápido nos anos 30 e 40 não estava produzindo geladeira e máquina de lavar, estava produzindo tanque, míssil e submarino. As melhores fábricas, os melhores engenheiros, as melhores matérias-primas iam pro setor militar, e o que sobrava ia pro consumidor. É por isso que a URSS conseguia colocar homem no espaço e ao mesmo tempo não conseguia produzir um sapato decente. As prioridades estavam definidas, e o cidadão comum estava no fim da fila.
Quando a corrida armamentista esquentou nos anos 80, com Reagan apostando alto na Iniciativa de Defesa Estratégica, a URSS tentou acompanhar e quebrou. A economia simplesmente não tinha mais fôlego pra sustentar o ritmo militar e ainda dar conta da população.
Brejnev
Até os anos 1960 a economia soviética cresceu num ritmo respeitável. Era um crescimento extensivo, que dependia de jogar mais gente, mais terra e mais máquina dentro do sistema. Enquanto tinha mão de obra rural pra migrar pra cidade e recurso natural barato pra explorar, o modelo aguentou.
A coisa começou a virar nos anos 1970, quando Brejnev assumiu o comando. A taxa de crescimento da renda nacional, que ia de 5,8% a 7,5% ao ano, caiu pra 3,8% e depois pra perto de 2,5%. A URSS tinha passado a depender muito da exportação de petróleo pra equilibrar as contas, e quando o preço do barril caiu no final dos anos 1980, o estrago foi grande.
A Gosplan, nesse período, virou sinônimo de uma burocracia inchada e travada. Tentaram algumas reformas, como a de Kossiguin em 1965 e depois em 1973, pra dar mais autonomia regional. Nenhuma foi até o fim. A nomenklatura, que era a casta dirigente do partido, estava confortável demais pra mexer no sistema. Enquanto isso, o atraso tecnológico em relação aos Estados Unidos, Europa Ocidental e Japão só aumentava.
Gorbachev
Quando Mikhail Gorbachev assumiu, em 1985, ele encontrou uma situação bem pior do que imaginava. Em 1988 ele admitiu publicamente que tinha perdido os dois primeiros anos do mandato porque ninguém na cúpula sabia exatamente o tamanho do buraco. A própria Gosplan, segundo a Britannica, não tinha mais um modelo funcional de como a economia operava. O órgão que existia pra planejar a economia inteira não conseguia mais entender a economia que ele mesmo coordenava.
Gorbachev tentou reformar tudo com a perestroika, que pretendia reduzir o poder da Gosplan, abrir espaço pra pequenos negócios privados e atrair tecnologia estrangeira. O aparato resistiu. O déficit fiscal, que historicamente girava em torno de 2% ou 3% do PIB, explodiu pra mais de 10% em 1988. O Décimo Segundo Plano Quinquenal foi devolvido três vezes pra Gosplan com ordens de aumentar as metas, num momento em que o sistema já estava cedendo por todos os lados.
Em dezembro de 1991, com a dissolução da União Soviética, a Federação Russa herdou 66 bilhões de dólares de dívida externa e umas reservas raquíticas em ouro e moeda estrangeira. O último plano quinquenal, programado pra 1991 a 1995, ficou inacabado. A Gosplan acabou junto com o país que ela tentou planejar.
Legado
A experiência da Gosplan virou referência obrigatória pra qualquer discussão sobre planejamento econômico até hoje. Pra quem critica o modelo, ela é a prova de que centralizar decisões sobre uma economia complexa não funciona, porque os preços não conseguem ser substituídos por equações. Pra quem defende, o argumento é que boa parte do problema foi política, não econômica, e que os números brutos da industrialização soviética entre 1928 e 1970 mostram que dá pra fazer muita coisa com um Estado bem articulado.
A Gosplan conseguiu transformar um país agrário atrasado numa potência industrial em poucas décadas, pagou um preço social enorme pra fazer isso, e depois ficou presa no próprio sucesso, sem conseguir se adaptar quando a economia ficou complexa demais pra caber em planilhas. China e outros países comunistas adotaram o modelo dos planos quinquenais, mas a versão chinesa, depois de 1978, foi misturando mercado dentro do planejamento, justamente pra escapar do beco onde a Gosplan ficou.
Mais detalhes:
- Gosplan (Britannica)
- Gosplan (Wikipedia em inglês)
- Five-year plans of the Soviet Union (Wikipedia)
- Economia da União Soviética (Wikipedia em português)
- Era da Estagnação (Wikipedia em português)
- Mises and Hayek: Two Complementary Critiques of Central Planning (AIER)
- Como funcionava a economia soviética (Russia Beyond)
- O Planejamento Econômico na União Soviética (Repositório UFU)
- Soviet Union Economic Policy (Britannica)
- Brejnev, da estabilidade à estagnação (Russia Beyond)
- Holodomor (Encyclopedia Britannica)
- Soviet Defense Spending (CIA Historical Review)
