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Trump, a JBS e o tal monopólio da carne

Agora é oficial. Faz uma semana que o Trump tinha avisado que ia autorizar a preparação de documentos legais pra quebrar o que chamou de “monopólio perverso” do setor de processamento de carnes, e citou nominalmente quem estaria por trás disso (JBS, Cargill, Tyson Foods e National Beef).

Hoje ele assinou dois decretos que cumprem quase à risca aquela promessa. Um autoriza pecuaristas e agricultores a processar e vender sua própria carne direto ao consumidor, driblando parte da dependência dos grandes frigoríficos, e outro mexe na proteção federal dos lobos cinzentos que atacam o rebanho americano (Casa Branca). Duas das quatro empresas citadas na publicação original, JBS e National Beef, têm controle brasileiro, e muita coisa pode mudar pra elas a partir de agora.

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Na publicação, Trump escreveu que pecuaristas e agricultores sempre foram sua prioridade número um, chamou o setor de processamento de carnes de “monopólio perverso” e disse estar autorizando a elaboração de documentos legais pra permitir que produtores rurais possam “processar seus próprios produtos”, já que boa parte da propriedade dessas empresas, nas palavras dele, está “sediada fora dos Estados Unidos”. As quatro companhias citadas são conhecidas no mercado americano como Big Four (as quatro grandes) e respondem juntas por algo entre 76% e 85% do abate de carne bovina no país, dependendo de qual levantamento se usa (CNN Brasil). Cargill e Tyson Foods são companhias americanas. JBS e National Beef não. A National Beef pertence à MBRF, o grupo que nasceu da fusão entre a Marfrig e a BRF em 2025, controlado pela família Molina.

A JBS nasceu em Goiás em 1953 e virou a maior processadora de proteína animal do mundo sob o comando da família Batista, os mesmos irmãos que compraram a fabricante de mísseis Avibras esse ano (já contei essa história aqui). Em junho de 2025 a empresa concluiu uma dupla listagem, passando a ter ações negociadas na Bolsa de Nova York através da JBS N.V., holding sediada na Holanda que concentra o controle acionário da família, enquanto no Brasil os antigos acionistas passaram a negociar BDRs, recibos que representam essas mesmas ações na B3. Mesmo com a entrada de novos investidores americanos, os Batista mantiveram cerca de 85% do poder de voto da companhia (Genial Investimentos). É esse detalhe, o controle familiar brasileiro sobre uma empresa que hoje também é americana no papel, que Trump usa pra chamar o negócio de estrangeiro.

Desde novembro de 2025 o Departamento de Justiça americano investiga as quatro processadoras por suspeita de combinação de preços, investigação que em abril deste ano passou a ter caráter criminal, segundo apurou o Wall Street Journal (Reuters, via GV Wire). A JBS já pagou US$ 83,5 milhões pra encerrar um processo que a acusava de supressão de preços pagos ao pecuarista, sem admitir irregularidade, e Tyson e Cargill pagaram US$ 87,5 milhões num caso parecido, homologado por um juiz federal de Minnesota em maio deste ano (Meat+Poultry).

Uma consultoria especializada em pecuária, a Sterling Marketing, mantém uma série histórica da concentração real do setor desde a década de 1990, e segundo ela as quatro maiores processadoras controlam hoje 75,8% da capacidade de abate, não 85%, um número que vem caindo ano a ano (Drovers). John Nalivka, presidente da Sterling, argumenta que essa concentração reflete economia de escala, não necessariamente abuso de poder, e que trocar quatro processadoras grandes por várias pequenas não muda a conta básica do negócio.

As próprias grandes processadoras vêm perdendo entre US$ 100 e US$ 150 por cabeça de gado processada há mais de um ano, porque pagam caro pelo boi escasso e não conseguem repassar isso rápido o suficiente no preço final. Não me parece o retrato de um cartel lucrando às custas do consumidor, pelo menos não nos números que a própria indústria pecuária acompanha.

Uma semana antes de falar em quebrar o monopólio, Trump já tinha assinado uma liberação temporária de importação de até 300 mil toneladas de carne bovina sem a tarifa extracota, a taxa mais alta que incide sobre tudo que ultrapassa a cota de importação normalmente permitida. Essa liberação, pensada pra baixar o preço da carne moída pro consumidor americano, irritou justamente os pecuaristas americanos, que viram nela um golpe direto na renda deles. O discurso contra o monopólio estrangeiro que veio na sequência tem cara de tentativa de reconquistar essa base rural, mais do que de uma política econômica bem desenhada (Drovers).

Em agosto de 2025, o governo americano impôs uma tarifa de 50% sobre uma lista de produtos brasileiros, carne bovina incluída, alegando retaliação ao julgamento de Jair Bolsonaro no Brasil (expliquei esse imbróglio tarifário todo aqui). Ao longo de 2026 essa tarifa foi mexida várias vezes, caiu, voltou em formato diferente, até que em agosto deste ano Trump zerou a tarifa extracota pra 300 mil toneladas de aparas de carne, deixando o Brasil, sem citar o país nominalmente, como o maior beneficiado possível (Jornal de Brasília). Ou seja, na mesma semana em que chama a JBS e a National Beef de monopólio estrangeiro, o próprio governo americano está abrindo a porta pra mais carne brasileira entrar no país.

O Brasil precisa bastante dessa porta aberta, porque o mercado que sempre absorveu a maior parte da sua carne está mais fechado do que o normal. A China, maior compradora de carne bovina brasileira, impôs uma cota de 1,1 milhão de toneladas livre da tarifa mais alta, que pode chegar a 55% acima disso, e o país já tinha usado mais da metade dessa cota até abril. A projeção do setor é de queda de cerca de 10% nas exportações brasileiras de carne bovina em 2026 comparado com 2025, justamente por causa dessa restrição chinesa (InfoMoney).

Entre janeiro e julho deste ano, o Brasil já tinha exportado 233 mil toneladas de carne aos Estados Unidos, faturando US$ 1,5 bilhão, um mercado que virou ainda mais relevante justamente pelo aperto chinês (The AgriBiz).

As ações da JBS negociadas no Brasil caíram cerca de 4% no dia em que a investigação do Departamento de Justiça foi anunciada, enquanto o Ibovespa como um todo subia (InfoMoney). Analistas calculam, ao mesmo tempo, que a liberação da cota extra de 300 mil toneladas pode render até US$ 500 milhões aos frigoríficos brasileiros, com a Minerva em posição mais favorável por ter menos exposição direta ao risco regulatório americano do que JBS e MBRF, que têm operação própria nos Estados Unidos e por isso sentem os dois lados da moeda ao mesmo tempo.

Entidades como a National Cattlemen’s Beef Association e o Meat Institute já se posicionaram contra qualquer flexibilização das regras de inspeção sanitária, alertando que isso colocaria em risco o que chamam de padrão ouro da segurança alimentar americana (Drovers). Um projeto de lei que ajudaria pequenos produtores a vender carne processada em nível estadual, o chamado PRIME Act, está parado no Congresso americano há anos, e a legislação de inspeção federal de carnes é de meados do século passado, o que torna qualquer mudança rápida por ordem executiva juridicamente arriscada. O pacote de medidas que a Secretária de Agricultura Brooke Rollins prometeu detalhar no fim de agosto girava em torno de reduzir burocracia e facilitar venda entre estados, não de desmontar as quatro maiores processadoras do país.

Os Estados Unidos têm o menor rebanho bovino desde 1951, cerca de 86,2 milhões de cabeças, e reconstruir esse número leva de dois a três anos no mínimo, o tempo que um bezerro nascido hoje leva pra virar boi de abate (Beefpoint).

Enquanto isso não acontece, o preço do bife subiu 17% em um ano e o da carne moída, 19%, segundo dados do Federal Reserve de St. Louis citados pela imprensa americana (Forbes Brasil). É esse aperto que faz o governo Trump usar ao mesmo tempo dois discursos que não combinam muito bem, chamar a JBS e a National Beef de monopólio estrangeiro numa publicação e, na prática, abrir a maior janela de importação de carne brasileira dos últimos anos pra conseguir baixar o preço no supermercado americano.

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