Robôs humanoides: a nova fronteira da inteligência artificial

Jensen Huang, CEO da Nvidia, soltou uma frase bem interessante que vai representar o impacto que acontecerá no mundo. Segundo ele, a chamada “IA física”, que é a junção da inteligência artificial com máquinas capazes de agir no mundo real, pode chegar a ser dez vezes maior que a IA digital, aquela que a gente já conhece bem, tipo ChatGPT e outros assistentes de texto e imagem. A XPeng, montadora chinesa que também fabrica robôs humanoides, está apostando na mesma tese. Vou destrinchar aqui o que é essa tal de “IA física”, por que tantos investidores estão colocando bilhões de dólares nela, e mostrar, com exemplos reais que andam circulando pela internet, o que esses robôs e carros já estão fazendo fora do laboratório.

A IA que você já usa no dia a dia, tipo chatbot, é um cérebro sem corpo. Ela processa texto, gera imagem, áudio e vídeo, responde pergunta, mas não consegue pegar um copo em cima da mesa nem varrer a tua cozinha. A IA física é diferente porque coloca essa mesma inteligência dentro de um corpo, seja um robô humanoide, um carro autônomo ou um braço mecânico de fábrica, e faz esse corpo enxergar o espaço ao redor e agir fisicamente nele. O termo técnico que os pesquisadores usam pra isso é embodied intelligence (inteligência incorporada, ou seja, um sistema de inteligência artificial que controla um corpo físico). Já contamos aqui no blog como a China colocou justamente essa área no centro do seu plano quinquenal de governo, ao lado de tecnologia quântica e fusão nuclear, e já lançou um programa pra colocar dez mil robôs humanoides funcionando de verdade em fábrica e armazém até o fim de 2026 (já explicamos essa reforma toda aqui).

📲 Receba as próximas análises direto do nosso novo Canal no WhatsApp. Guerras, comércio, energia, tecnologia e poder. Novos artigos, gráficos e reflexões diretamente no canal CAVALÉRO LETTER. [Seguir no WhatsApp]

 

Em março desse ano, na GTC (GPU Technology Conference, o principal evento anual da Nvidia), Huang resumiu o que será a vanguarda da indústria tecnológica quando afirmou que “toda empresa industrial vai se tornar uma empresa de robótica” (fonte). Poucos meses depois, em julho, ele participou de um podcast do Y Combinator e trouxe alguns números. O negócio de IA física da Nvidia, que inclui robótica e carro autônomo, já fatura cerca de 10 bilhões de dólares por ano, e a aposta dele é que esse número chegue a 100 bilhões de dólares na próxima década (fonte).

Hoje o mercado de robô humanoide ainda é pequeno perto do mercado de IA de software, mas duas das maiores casas de análise de Wall Street já colocaram número nisso. O Goldman Sachs projeta um mercado endereçável de 38 bilhões de dólares até 2035. Já a Morgan Stanley vai bem mais longe, com projeção de 5 trilhões de dólares até 2050 (fonte / fonte).

Pra um robô conseguir enxergar e reagir ao mundo em tempo real, é preciso um poder de computação gigantesco, e é aí que mora boa parte do otimismo da Nvidia. A empresa já domina o mercado de chip usado pra treinar modelo de IA, e agora está expandindo esse domínio pros chips que vão dentro dos próprios robôs. Só que nada disso existe sem a litografia ultravioleta extrema, a técnica de usar luz de comprimento de onda extremamente curto pra gravar circuito microscópico dentro do chip. A ASML holandesa é a única do mundo que fabrica essa máquina em escala comercial, embora quem grava o chip propriamente dito nela dentro seja outra empresa, como a TSMC (já falamos da importância da ASML aqui). A corrida da IA física passa, então, pelo mesmo gargalo de semicondutor que já limita boa parte da indústria de tecnologia hoje.

Só que discurso de executivo é uma coisa, e robô rodando de verdade é outra bem diferente. A Tesla, por exemplo, já está testando o Optimus em turno industrial dentro da fábrica de Fremont, fazendo tarefa repetitiva de linha de montagem que antes dependia só de gente.

Pra Tesla, carro autônomo também entra na categoria de IA física, e é ali que a empresa investe há mais tempo. O sistema se chama FSD (Full Self-Driving, ou direção totalmente autônoma), o software que já move a frota de robotáxi que a empresa opera sem motorista em cidade americana como Austin, Dallas e Houston, por exemplo. Hoje, 3 de setembro de 2026, a Tesla lança oficialmente em Austin o Cybercab, primeiro carro da empresa desenhado desde o início só pra rodar sozinho, sem volante e sem pedal (fonte).

O Cybercab usa o mesmo software de direção autônoma que já roda no Model Y da frota de robotáxi, só que embarcado num carro pensado pra isso desde o desenho inicial, sem a opção de alguém assumir o volante numa emergência, porque nem existe volante. A meta da Tesla é ter 2.500 robotáxi rodando até o final de 2026, somando Model Y adaptado e Cybercab de fábrica (fonte).

É a mesma lógica da IA física que a gente viu no robô humanoide, só que aplicada num corpo diferente, o corpo de um carro. O cérebro roda em cima de chip de altíssima capacidade de processamento, no caso da Tesla um hardware próprio batizado de AI4, e o corpo aprende a reagir ao mundo real do mesmo jeito, só que na rua em vez de dentro de casa ou de fábrica.

A Tesla está longe de ser a única, claro. Boa parte do avanço recente em robô humanoide está saindo da China, e isso ficou bem visível nos Jogos Mundiais de Robôs Humanoides, que Beijing sediou em agosto na segunda edição do evento, com 32 modalidades de disputa espalhadas entre prova esportiva e tarefa do cotidiano (fonte).

Teve também apresentação de dança, com robô mostrando passo de breakdance em cima do tablado.

E teve prova de precisão, elogiada até pelos próprios acompanhantes do evento como uma das mais limpas de toda a competição.

O destaque ficou por conta do Tiangong Ultra, robô chinês do Centro de Inovação em Robôs Humanoides de Beijing, que venceu o salto em distância com 7,97 metros.

Quebra de recorde dos 100m vencendo até o recorde dos humanos nessa modalidade:

Tem até UFC dos robos:

Jogador de tenis:

Aprenderam a subir e descer escadas:

Enfim, já estão sendo treinados para todas as tarefas. Aqui uma das partes mais complexas de se ter sincronia e naturalidade:

A fabricante de carros elétricos XPeng também apresentou seu modelo dentro dessa mesma corrida por IA física.

Em novembro de 2025, a montadora anunciou que estava mudando de posicionamento, deixando de se chamar apenas de fabricante de carro elétrico pra virar, nas palavras do próprio fundador He Xiaopeng, uma empresa global de inteligência incorporada. No mesmo evento, a companhia fechou parceria com a siderúrgica chinesa Baosteel pra colocar seu robô IRON funcionando dentro da fábrica, fazendo inspeção em processo industrial complexo (fonte).

Segundo a própria XPeng, essa captação foi a maior já registrada na área de inteligência incorporada dentro da China. Vale destacar um detalhe que o próprio comunicado da empresa faz questão de esclarecer, mesmo com a entrada desses investidores, a XPeng segue com o controle da divisão de robótica, que continua consolidada dentro do balanço do grupo (fonte). Assim como a BYD já mostrou no setor automotivo, a China quer repetir a mesma lógica de escala industrial agora dentro da robótica (já contamos como funciona essa engrenagem chinesa aqui).

O robô IRON deve entrar em produção em massa até o final de 2026, primeiro em loja e campus da própria XPeng, e só depois em entrega comercial mais ampla, prevista pra 2027. Na minha opinião, o que chama mais atenção nisso tudo não é a tecnologia em si, é o alinhamento de calendário entre gente que normalmente compete entre si. A Nvidia fala em década pra multiplicar o próprio faturamento por dez. A Tesla lança carro sem volante hoje. A XPeng já fala em data de entrega comercial. Ou seja, o robô que ajuda em casa, o carro que dirige sozinho e a máquina que trabalha lado a lado com humano na fábrica deixaram de ser promessa de ficção científica e viraram prazo de produto, com nome de empresa de capital aberto assinando embaixo.

Continue acompanhando

Se esta análise foi útil para você, receba gratuitamente novos conteúdos sobre geopolítica, economia e relações internacionais.

✓ Novos artigos publicados no blog

✓ Gráficos e infográficos

✓ Curiosidades históricas

✓ Análises sobre os principais acontecimentos internacionais

📲 Seguir CAVALÉRO LETTER

Posts Similares