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Avibras e a indústria de defesa brasileira

Acompanhei essa semana a notícia de que os irmãos Joesley e Wesley Batista, donos da JBS, compraram uma empresa chamada Avibras. Pareceu bem estranho, porque pra mim o nome deles é sinônimo de frigorífico, carne, exportação de proteína, e do nada aparece o mesmo grupo comprando a fabricante dos foguetes e mísseis do Exército Brasileiro. Fui atrás da história da Avibras pra entender como ela chegou nesse ponto, e o que apareceu no caminho foi a relação inteira entre o Brasil e sua própria indústria de defesa.

A Avibras nasceu em São José dos Campos, em 1961, criada por um grupo de engenheiros recém-formados no ITA, o Instituto Tecnológico de Aeronáutica. Foi um ano turbulento pra política brasileira, com Jânio Quadros renunciando em agosto e o país entrando numa crise institucional que só se resolveu com a posse de João Goulart em setembro sob regime parlamentarista. O nome mais associado a ela é o de João Verdi Carvalho Leite, que a dirigiu por quase toda a vida. Vale lembrar onde essas pessoas estavam. São José dos Campos já concentrava o ITA e o então Centro Técnico de Aeronáutica, os dois criados nos anos 1940 e 1950 pelo Ministério da Aeronáutica justamente pra formar engenheiro e fazer pesquisa aeronáutica no país. Sem esse investimento estatal prévio, aqueles engenheiros simplesmente não existiriam ali. (fonte)

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Os primeiros projetos foram aviões pequenos, o Alvorada e o Falcão, feitos com materiais compostos derivados da corrida espacial, o que era novidade no mundo inteiro naquele momento. Sem encomenda suficiente pra sustentar a fabricação de aeronaves, a empresa migrou pra outra coisa. Ainda na primeira década, a Avibras entrou no Programa Espacial Brasileiro e desenvolveu o propelente sólido do Sonda I, o primeiro foguete espacial brasileiro. Propelente é o combustível sólido que empurra o foguete, e dominar essa química é um dos gargalos mais difíceis de toda a área. Quem aprende a fazer propelente pra foguete de pesquisa atmosférica aprende, na prática, a fazer propelente pra míssil. (fonte)

O salto de verdade veio nos anos 1970. O país vivia então sob o regime militar, no auge do governo Médici e depois no governo Geisel, num projeto que ficou conhecido como “Brasil Grande Potência”, em que capacidade industrial, infraestrutura e poder militar eram tratados como peças de uma mesma estratégia nacional. As Forças Armadas deixaram de ser apenas comprador de equipamento importado e virou parceiro direto de empresas nacionais, especificando o que precisava e comprando os primeiros lotes pra viabilizar o desenvolvimento. Foi assim que nasceram, na mesma década, a Engesa com seus blindados, a Embraer com seus aviões (já contamos a história dela aqui) e a Avibras com seus foguetes. Em 1975 o próprio Exército reuniu suas fábricas de armamento sob a recém-criada Indústria de Material Bélico do Brasil, a Imbel. Em 1977 o governo Geisel denunciou o acordo militar que o Brasil mantinha com os Estados Unidos desde 1952, justamente pra reduzir a dependência de equipamento americano e ganhar liberdade pra desenvolver tecnologia própria. A Avibras é hoje a única sobrevivente daquele programa inteiro de modernização da indústria bélica nacional. (fonte)

Em 1981 o Iraque de Saddam Hussein estava em guerra contra o Irã e precisava desesperadamente de artilharia capaz de conter ataques em massa de infantaria. Os iraquianos já compravam foguetes e bombas de aviação da Avibras, e naquele ano fecharam um contrato de centenas de milhões de dólares que obrigou a empresa a expandir a fábrica. O resultado foi o Astros II, apresentado em 1983, um lançador múltiplo de foguetes montado sobre caminhão. A sigla vem do inglês Artillery Saturation Rocket System, sistema de artilharia por saturação, que é exatamente o que ele faz, cobrir uma área grande com muitos foguetes ao mesmo tempo em vez de acertar um alvo único. Foi a década de ouro da companhia. Só entre 1982 e 1987 as vendas do Astros somaram algo perto de um bilhão de dólares, e a Avibras chegou a empregar cerca de 6 mil pessoas. O próprio Verdi contou depois que a empresa vendia em torno de 400 milhões de dólares por ano nos anos 1980, pra clientes como Iraque e Arábia Saudita. O sistema foi comprado também por Catar, Bahrein, Angola, Malásia e Indonésia, e o Brasil chegou a figurar entre os seis maiores exportadores de armas do planeta, o que hoje soa quase inacreditável. Na Guerra do Golfo, em 1991, Iraque e Arábia Saudita estavam em lados opostos do conflito e os dois usavam o mesmo equipamento brasileiro. (fonte)

A partir de 1988 o Iraque parou de importar armamento, o que tirou o principal cliente da Avibras de uma vez só, e o preço do petróleo em baixa levou outros grandes compradores do Oriente Médio a reduzirem drasticamente as compras. Um estudo publicado na Revista Brasileira de Comércio Exterior mostra que os principais clientes do Brasil, Iraque, Líbia, Egito e Arábia Saudita, reduziram suas importações em conjunto em 66% no período, e ao mesmo tempo os Estados Unidos e a União Soviética voltaram a vender armamento agressivamente pro Terceiro Mundo, aumentando muito a concorrência. A Avibras nunca mais reencontrou aquele patamar. (fonte)

Em 2008, no mesmo ano em que João Verdi morreu num acidente de helicóptero, a empresa pediu recuperação judicial pela primeira vez. Faltava garantia bancária pra concluir um contrato de exportação de sistemas Astros pra Malásia, o Banco do Brasil deu a garantia, a receita entrou e a empresa saiu do processo relativamente rápido. O controle acionário seguiu na família, com o filho João Brasil Carvalho Leite chegando a deter 94,7% das ações. (fonte)

A segunda queda foi muito pior. A Avibras entrou de novo em recuperação judicial em 2022 e logo depois enfrentou uma greve que durou 1.280 dias, com a fábrica de Jacareí praticamente parada. Em 2025 as ações do controlador histórico foram penhoradas judicialmente e transferidas pro fundo Brasil Crédito, o principal credor, e o Tribunal de Justiça de São Paulo homologou a destituição dele em julho daquele ano. A saída negociada envolveu um acordo de 230 milhões de reais em dívidas trabalhistas, com cerca de 1.400 pessoas na fila pra receber. Existe uma sutileza jurídica no meio dessa história que vale explicar. A Avibras Indústria Aeroespacial, aquela empresa de 1961, continua existindo e continua em recuperação judicial, carregando o passivo. Não foi ela que foi vendida. O que retomou a produção em maio de 2026 foi a Avibras Aeroco, uma sociedade constituída em outubro de 2025 dentro do próprio processo de recuperação, que recebeu as fábricas, a propriedade intelectual e os programas tecnológicos. É a chamada Unidade Produtiva Isolada, mecanismo da lei de recuperação judicial que permite separar a parte saudável do negócio da montanha de dívidas, justamente pra que alguém aceite comprar. (fonte)

Em 21 de agosto de 2026 saiu o anúncio. A Globe Investimentos, veículo de investimentos pessoais de Joesley e Wesley, fechou a compra de 100% das ações da Nova AVB, controladora integral da Avibras Aeroco. O valor não foi divulgado e a operação ainda depende de aprovação do Cade, o Conselho Administrativo de Defesa Econômica. Antes disso, Joesley já tinha participado de uma captação de 300 milhões de reais coordenada pelo Fundo Brasil Crédito, que foi o que viabilizou a reestruturação e a volta da fábrica a funcionar. (fonte)

E existia uma alternativa concreta pra esse desfecho. Em fevereiro de 2026 a Avibras confirmou que negociava uma possível compra pela empresa saudita Black Storm Military Industries, o que teria levado a tecnologia de mísseis do Exército pra mãos de um grupo estrangeiro, ou simplesmente a empresa poderia ter sido liquidada em pedaços. O governo federal e o Ministério da Defesa queriam uma solução nacional, e foi isso que aconteceu. (fonte)

O Astros 2020 é um dos programas estratégicos prioritários do Exército, e o item mais sofisticado dele é o MTC-300, também chamado de AV-TM 300, o primeiro míssil de cruzeiro projetado no Brasil. Míssil de cruzeiro é aquele que voa baixo e em trajetória programada, como um avião não tripulado descartável, em vez de subir e cair como um foguete de artilharia comum. O MTC voa impulsionado por uma turbina movida a querosene de aviação, segue por pontos de controle definidos antes do lançamento, alcança até 300 quilômetros e tem erro circular provável igual ou menor que 30 metros, o que significa que metade dos disparos cai dentro de um círculo com esse raio. O investimento no programa foi estimado em 2,45 bilhões de reais, e a propriedade intelectual é do Exército Brasileiro. (fonte)

Era uma capacidade que levou décadas pra ser construída e que, uma vez perdida, não se recupera comprando máquina nova. Os engenheiros se aposentam, os fornecedores da cadeia fecham, o conhecimento se dispersa. Um país que se importa em ter parque industrial militar próprio geralmente está protegendo três coisas ao mesmo tempo, e elas se sobrepõem.

A primeira é soberania na hora do aperto. Quem compra armamento pronto de fora depende da autorização de quem vendeu pra usar, pra fazer manutenção e pra comprar munição. Embargo não é hipótese teórica, é rotina da política internacional. O país que não fabrica descobre no pior momento possível que o estoque acabou e que o fornecedor mudou de ideia. Ter fábrica, projeto e propriedade intelectual em casa significa poder continuar operando quando a torneira externa fecha. (fonte)

A segunda é econômica e tecnológica. Projeto militar é caro, demorado e exige um nível de exigência técnica que o mercado civil raramente banca sozinho, mas a tecnologia desenvolvida ali às vezes vaza pro resto da economia, no fenômeno que os pesquisadores chamam de spin-off, transbordamento de tecnologia militar pra uso civil. O caso brasileiro mais claro é a própria Embraer, que nasceu estatal em 1969 transformando a ciência do ITA e do Centro Técnico de Aeronáutica em capacidade industrial, e virou a maior exportadora de manufaturados de alta tecnologia do hemisfério sul (já escrevemos sobre isso aqui). A Boeing seguiu caminho parecido do lado americano, crescendo em cima de encomenda militar antes de dominar a aviação comercial (também já falamos disso aqui). Vale registrar que essa relação não é automática e é objeto de disputa entre pesquisadores. Um estudo de Gilberto Mohr Correa e Ligia Soto Urbina, publicado na Revista Brasileira de Estudos de Defesa em 2024, examinou empiricamente a ocorrência desses transbordamentos no Brasil contemporâneo a partir do projeto de aquisição dos caças F-X2, e reconhece que a controvérsia sobre o real impacto desses efeitos continua aberta. (fonte)

A terceira é geopolítica. Quem fabrica vende, e quem vende cria relação. Aquele contrato com o Iraque em 1981 não era só dinheiro, era presença brasileira no Oriente Médio numa época em que o país tinha muito pouco a oferecer àquela região. A Coreia do Sul entendeu isso melhor que qualquer outro país de renda média nas últimas décadas e transformou a indústria de defesa em política externa. Segundo o Instituto Internacional de Pesquisa para a Paz de Estocolmo, o SIPRI, os sul-coreanos já são o terceiro maior fornecedor de armas pra Europa, atrás só dos Estados Unidos, respondendo por 8,6% de tudo que os países europeus da Otan importaram entre 2021 e 2025. A Europa está fazendo um cálculo parecido agora, correndo pra reconstruir capacidade produtiva que tinha desmontado depois da Guerra Fria (falamos sobre essa corrida aqui). (fonte)

O Brasil, nessa comparação, fica pra trás. Em 2025 o país gastou cerca de 1,1% do PIB em defesa, enquanto a média mundial voltou a 2,5%. Em valores absolutos foram 23,9 bilhões de dólares, e quase metade desse orçamento vai pra folha de pagamento, o que deixa pouquíssimo espaço pra investimento e modernização. (fonte)

O país tem instrumento legal pra tratar do assunto desde 2012, quando foi sancionada a Lei 12.598. Ela criou duas categorias que aparecem o tempo todo nesse debate. A Empresa Estratégica de Defesa, a EED, é aquela credenciada pelo Ministério da Defesa que precisa ter sede, administração e fábrica no Brasil, além de domínio tecnológico nacional ou parceria com instituição pública de ciência e tecnologia. E o Produto Estratégico de Defesa, o PED, é o produto que por conteúdo tecnológico ou dificuldade de obtenção é considerado essencial. A lei também instituiu o Retid, um regime tributário especial que desonera a cadeia produtiva do setor. A Avibras é uma EED, e é por isso que a venda dela nunca foi um negócio privado qualquer. (fonte)

O que fica pra mim depois de revisar tudo isso é que a Avibras conta a mesma história que o Brasil repete em vários setores. A gente constrói capacidade tecnológica real, com engenheiro bom, produto que o mundo compra e domínio de tecnologia crítica, e depois deixa a coisa se deteriorar por falta de encomenda estável e de política de longo prazo (já falamos sobre esse padrão de travamento brasileiro aqui). Programa militar tem ciclo de dez, vinte anos, e não combina com orçamento que muda de humor a cada exercício fiscal. A fábrica de Jacareí ficou parada mais de três anos e voltou a funcionar não por causa de uma política pública, mas porque um empresário de frigorífico resolveu comprar. Não me parece razoável que a preservação de uma tecnologia de míssil desenvolvida com dinheiro público e propriedade intelectual do Exército tenha dependido disso.

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