TECNOFEUDALISMO

Tecnofeudalismo, de Varoufakis

TECNOFEUDALISMO

Comecei a ler esse livro meio desconfiado, pra ser sincero. A tese do autor parecia pesada demais pra ser levada a sério, dizer que o capitalismo morreu e que a gente vive hoje numa espécie de feudalismo digital. Ainda não tinha concluído a leitura em pdf e acabei adquirindo um exemplar físico, que é a minha preferência de leitura. Dessa vez fui lendo e me convencendo que tem coisa interessante ali, independentemente de concordar ou não com o diagnóstico final. É um livro que força a pensar, e isso por si só já vale a leitura.

A ideia central é que as big techs não são só empresas grandes ou poderosas no sentido tradicional, elas mudaram a natureza da economia. A Amazon não é um shopping, é um feudo. O Google não é um portal, é um território. E a gente, usuário comum, virou um servo digital trabalhando de graça pra alimentar essas plataformas com dados, atenção e conteúdo. Se o Varoufakis estiver certo, as categorias que a gente usa pra entender a economia mundial estão todas defasadas.

O autor

Yanis Varoufakis é grego, economista, professor da Universidade de Atenas, e ficou famoso fora dos círculos acadêmicos quando virou ministro das Finanças da Grécia em janeiro de 2015, no governo do Alexis Tsipras pelo Syriza, que era o partido de esquerda radical. Ele assumiu num momento brutal, a Grécia estava sufocada por anos de austeridade imposta pela Troika, que era o nome dado ao trio formado pelo Banco Central Europeu, FMI e Comissão Europeia.

A passagem pelo governo durou só seis meses, mas foi o suficiente pra transformar Varoufakis numa figura mundial. Ele tentou renegociar a dívida grega, enfrentou direto o Wolfgang Schäuble, ministro alemão das Finanças, e perdeu a batalha. Em julho de 2015 renunciou depois que o governo aceitou um acordo bem parecido com o que tinha sido rejeitado em referendo popular. Toda essa experiência ele depois contou no livro Adults in the Room, que virou best-seller na Alemanha e no Reino Unido.

Hoje ele segue ativo na política europeia através do DiEM25, um movimento pan-europeu de esquerda que ele cofundou junto com o Bernie Sanders, e continua escrevendo sobre economia política. O Tecnofeudalismo é o livro mais recente e também o mais ambicioso, no sentido de propor uma teoria nova pra explicar o mundo de hoje.

A tese

A coisa mais provocadora do livro é a afirmação que o capitalismo já morreu. Não está em crise, não está em transição, morreu mesmo. E o que está no lugar dele é algo que Varoufakis chama de tecnofeudalismo, um sistema onde os mercados foram substituídos por plataformas digitais que funcionam como feudos modernos, e o lucro foi substituído pela cobrança de renda, igual aos senhores feudais cobravam pedágio dos camponeses pra usar a terra.

Pra ele, o capitalismo se autodestruiu por excesso de sucesso. O capital ficou tão poderoso que acabou superando a própria lógica do capitalismo, que era basicamente competição em mercados pra vender mercadorias. Agora a gente vive num mundo onde os mercados de verdade estão sendo cada vez mais substituídos por ambientes digitais privados, controlados por meia dúzia de empresas, e onde o dinheiro grande não vem mais de produzir e vender, mas de cobrar pedágio pelo acesso a esses territórios.

Capital-nuvem

O conceito mais importante do livro é o que Varoufakis chama de capital-nuvem, em inglês cloud capital. É um tipo novo de capital que não funciona como o capital industrial tradicional. O capital industrial são as fábricas, máquinas, equipamentos, coisas físicas que produzem mercadorias pra serem vendidas no mercado. Já o capital-nuvem é a infraestrutura digital, algoritmos, redes neurais, plataformas, sistemas de recomendação, tudo isso que vive na nuvem e que organiza o comportamento das pessoas.

A diferença prática é grande. O capital industrial precisa de trabalhador assalariado pra funcionar. Já o capital-nuvem se reproduz com trabalho gratuito, porque a gente alimenta esses sistemas o dia inteiro sem receber nada em troca. Cada vez que você posta uma foto, comenta um vídeo, avalia um produto, está fazendo trabalho que vai ser monetizado por alguém que não é você. Varoufakis chama esse pessoal de servos da nuvem, que produzem valor de forma voluntária e gratuita.

Tem ainda um detalhe que torna o capital-nuvem ainda mais poderoso, que é a capacidade de personalizar a experiência de cada pessoa de um jeito que o capital tradicional nunca conseguiu. Duas pessoas digitando bicicleta elétrica na Amazon vão receber recomendações totalmente diferentes, baseadas no que o algoritmo já aprendeu sobre cada uma. É como se cada usuário estivesse num shopping individual, desenhado especificamente pra extrair o máximo dele. Isso quebra a ideia de mercado clássica, onde todo mundo via os mesmos preços e produtos.

Renda

Aqui entra a parte mais técnica do argumento. No capitalismo clássico, o motor da economia é o lucro, que vem da produção e venda de mercadorias num mercado competitivo. Já no feudalismo, o motor era a renda, o pedágio cobrado pelo senhor feudal pra deixar os camponeses usarem a terra. Pra Varoufakis, a economia mundial está cada vez mais funcionando pela lógica da renda e cada vez menos pela lógica do lucro.

Pensa num vendedor que coloca produtos na Amazon. Ele depende totalmente da plataforma pra alcançar clientes. A Amazon cobra dele uma porcentagem de cada venda, que é exatamente uma renda no sentido feudal, é o pedágio pelo direito de existir naquele território digital. O vendedor é um capitalista tradicional que virou vassalo da Amazon. E a Amazon, dona do feudo, fica com uma fatia gorda sem ter que produzir nada. Esse modelo se repete em quase todo lugar, do Uber pros motoristas, do Airbnb pros anfitriões, do Spotify pros artistas independentes, da Apple pros desenvolvedores de aplicativos.

A pirâmide social do tecnofeudalismo, segundo o autor, tem os cloudalistas no topo, que são os donos das plataformas, tipo Bezos, Zuckerberg, Musk e Pichai. Logo abaixo vêm os capitalistas tradicionais reduzidos a vassalos, que precisam pagar tributo pras plataformas pra acessar o mercado. E na base ficam os proletários da nuvem, que trabalham diretamente pras big techs, e os servos da nuvem, que somos a gente, gerando dados de graça.

2008

Uma parte muito interessante do livro é a explicação de como a gente chegou nesse ponto. Pra Varoufakis, dois eventos foram decisivos. O primeiro foi a privatização da internet a partir dos anos 90, que entregou pras empresas privadas uma infraestrutura que tinha sido construída com dinheiro público. O segundo, e talvez o mais importante, foi a resposta dos governos e bancos centrais à crise financeira de 2008.

Depois de 2008, os bancos centrais ocidentais, principalmente o Federal Reserve americano e o Banco Central Europeu, começaram a despejar trilhões de dólares na economia através do quantitative easing, um programa de compra de títulos pra injetar liquidez no sistema. A intenção era reativar a economia produtiva, mas o dinheiro acabou indo parar majoritariamente nos mercados financeiros e nas big techs, que tinham balanços limpos e estruturas digitais escaláveis. Foi com esse dinheiro praticamente gratuito que as big techs construíram seus impérios de capital-nuvem.

Geopolítica

O livro não para na economia, vai pra geopolítica também. Pra Varoufakis, a nova Guerra Fria entre Estados Unidos e China não é uma briga ideológica como foi a do século XX, é uma briga entre os cloudalistas americanos e os cloudalistas chineses pelo controle da infraestrutura digital global. Cada lado quer que a sua nuvem domine o mundo, e os países do meio têm que escolher de qual feudo digital vão depender.

A Europa, no diagnóstico do autor, ficou de fora dessa briga. Não tem capital-nuvem próprio, depende totalmente das nuvens americanas e chinesas, e por isso virou geopoliticamente irrelevante. O caso brasileiro segue a mesma lógica, com o agravante que países do Sul Global ficam ainda mais dependentes dessas plataformas tanto pra economia quanto pra dinâmica política, incluindo o impacto sobre eleições e fluxo de informação.

Críticas

A tese do Varoufakis tem muita gente discordando, e vale conhecer as principais objeções. A crítica mais séria veio do Evgeny Morozov, num ensaio publicado na New Left Review em 2022. Pra ele, chamar o sistema atual de feudalismo é mais uma firula retórica do que uma análise rigorosa. A renda extraída pelas big techs continua sendo parte da mais-valia gerada pelo trabalho dentro do capitalismo, não é uma categoria realmente nova. O que mudou foi a forma de extração, não a natureza do sistema. (fonte)

Na revista Jacobin, o crítico E.A. Halevi argumentou que o tecnofeudalismo descreve mais a ambição das elites tech do que a realidade efetiva. As big techs continuam dependentes de fornecedores capitalistas tradicionais, continuam competindo entre si, continuam sujeitas às leis do mercado em muitas dimensões. E a comparação com a Idade Média esbarra num problema básico, que é o fato de muitos historiadores discutirem se o feudalismo como sistema coerente sequer existiu de fato. (fonte)

Tem ainda quem ache que o livro acerta na descrição do problema mas erra no diagnóstico. O capital-nuvem é uma realidade, a extração de renda pelas plataformas é uma realidade, a concentração brutal de poder é uma realidade. Mas talvez o melhor jeito de entender isso não seja como o fim do capitalismo, e sim como uma nova fase dele, mais concentrada e parasitária. O nome que se dê pode ser detalhe, o importante é a coisa em si. (fonte)

No fim

Tem dois jeitos de ler o Varoufakis. O primeiro é levar a tese ao pé da letra, comprar a ideia que o capitalismo morreu mesmo e a gente vive num novo modo de produção. O segundo é pegar as ferramentas analíticas que ele oferece sobre capital-nuvem e feudos digitais, e usar elas pra entender melhor o que está rolando, sem necessariamente concordar com o diagnóstico final. Pra mim, o segundo caminho é o mais útil.

O livro é escrito num formato de carta pro pai já falecido do autor, o que torna a leitura bem mais leve do que o tema sugere. Varoufakis é um economista marxista que sabe escrever pra leigo, mistura referências da mitologia grega com análise macroeconômica, e consegue tornar interessante até a parte sobre quantitative easing, o que não é fácil. Pra quem quer entender o mundo das big techs por uma lente que não é a do entusiasmo silicon-valley nem a da regulamentação técnica, é uma leitura que rende bastante.

Paradoxalmente, você pode comprar o livro do crítico da Amazon no próprio serviço em nuvem da Amazon.

Compre o livro aqui.