Toda vez que alguém tenta explicar a China pelo PIB, pelo Partido Comunista ou pela disputa com os Estados Unidos, fica faltando algo. E esse algo geralmente é um senhor que viveu há mais de dois mil e quinhentos anos, nunca escreveu um livro sozinho e passou boa parte da vida sem cargo nenhum. O nome dele é Kong Fuzi, que o Ocidente acabou chamando de Confúcio. Entender o que ele pensava e, principalmente, como o Estado chinês usou esse pensamento por dois milênios, é o atalho mais curto para enxergar por que a China se comporta do jeito que se comporta hoje, tanto dentro de casa quanto no xadrez global.
Confúcio
Confúcio viveu entre 551 e 479 antes de Cristo, num momento chamado Primaveras e Outonos, que era um pedaço particularmente bagunçado da história chinesa. Pequenos reinos se matando, guerras quase permanentes, fome, nobreza brigando por terra. A pergunta que ele tentou responder era algo do tipo: como faz para uma sociedade funcionar quando tudo está desmoronando? Ele disse que a estabilidade vinha da conduta correta em cada relação humana. Filho com pai, irmão mais novo com irmão mais velho, esposa com marido, súdito com governante, amigo com amigo. Cada um no seu lugar, cumprindo seu papel com virtude, e o resto se encaixa.
A palavra central disso tudo é ren, que costumam traduzir como humanidade ou benevolência. Junto dela vem o li, que é a etiqueta, os rituais, o jeito certo de fazer as coisas. E ainda a piedade filial, que é basicamente a obrigação do filho com os pais e ancestrais. Parece pouco, mas virou o sistema operacional de uma civilização inteira.
Uma distinção confuciana que vale guardar pra depois é a do amor em graus, em chinês ai you chadeng. A ideia é que você ama mais os próximos que os distantes, e isso é moralmente correto, não é egoísmo. Primeiro a família, depois a comunidade, depois o Estado, depois a humanidade. Isso é o oposto do moísmo, uma escola rival que pregava amor universal e igual por todos. A preferência chinesa pelo amor em graus vai voltar na política externa séculos depois, e ajuda a entender uma coisa que confunde muito analista ocidental.
O Estado
Aqui começa a parte interessante pra quem quer entender política e economia. Na dinastia Han, a partir do século II antes de Cristo, o confucionismo deixou de ser uma escola filosófica entre várias e virou ideologia oficial do Estado. E ficou assim até 1912, quando caiu o último imperador. Isso são quase dois mil anos de uma mesma doutrina organizando o governo. É uma continuidade que nenhum país ocidental tem.
Essa adoção oficial produziu uma invenção que, na real, mudou o mundo: o sistema de exames imperiais. Pra virar funcionário do governo na China, você precisava passar numa prova baseada nos clássicos confucianos. Em tese, qualquer homem podia prestar. Na prática, tinha um viés enorme de classe, porque só famílias com grana conseguiam pagar anos de estudo. Mas o princípio era revolucionário pra época. O Estado era comandado por letrados selecionados por mérito intelectual, não por sangue nobre. A Europa só ia fazer algo parecido muito tempo depois.
Esse modelo deixou um hábito cultural que está vivo até hoje. A China moderna continua sendo um país obcecado por educação, provas e meritocracia dentro do sistema. O gaokao, o vestibular chinês atual, é tratado como evento nacional (ja falamos sobre isso aqui). Famílias inteiras organizam a vida ao redor da prova dos filhos. Isso não é coincidência. É herança direta de dois milênios de cultura confuciana ensinando que estudar é a via legítima de ascensão social.
Outro conceito que aparece muito nos textos imperiais e hoje voltou com força é a diferença entre wangdao e badao. O wangdao, que pode ser traduzido como “caminho do sábio-rei”, é o governo que manda pela virtude e pelo exemplo moral. O badao, “caminho do hegemon”, é governar por força bruta e coerção. Na narrativa chinesa oficial atual, a China se apresenta como wangdao e pinta os Estados Unidos como badao. Você vê essa dicotomia aparecendo em discurso oficial toda semana.
A ruptura
Em 1912 o império cai. E em 1949 Mao Tsé-Tung assume com o Partido Comunista. Pra Mao, o confucionismo era o inimigo. Representava o passado feudal, a hierarquia, o conservadorismo, tudo que a revolução queria destruir. Durante a Revolução Cultural, nos anos 60 e 70, os Guardas Vermelhos pegaram pesado. Destruíram templos, queimaram livros, perseguiram intelectuais. Confúcio virou símbolo de atraso.
Teve até uma campanha política específica em 1973 chamada “Criticar Lin Biao, Criticar Confúcio”, onde o objetivo era atacar os dois como símbolos de reação. Só que tem uma ironia boa aí, que a pesquisa da Lily Rezepa na LSE observa. Pra criticar Confúcio, as pessoas precisavam ler Confúcio. Então a campanha acabou reintroduzindo textos confucianos na vida de milhões de chineses que nunca tinham estudado aquilo direito. O veneno virou vacina.
E quando Deng Xiaoping começou a abertura econômica em 1978 (ja falamos sobre isso aqui), o Partido percebeu uma coisa. O marxismo sozinho não dava conta de explicar pra população de um bilhão de pessoas por que agora se podia ganhar dinheiro, abrir empresa e acumular riqueza. Precisava de outra cola cultural. E aí o confucionismo começou a voltar pela porta dos fundos.
Xi Jinping
Com Xi Jinping, que chegou ao poder em 2012, essa volta virou política oficial. Xi cunhou o que chama de “segunda combinação”, que é a ideia de misturar os princípios básicos do marxismo com a cultura tradicional chinesa. Ou seja, Marx (ja falamos sobre Marx aqui) mais Confúcio. Em outubro de 2023, ele disse numa declaração oficial que o marxismo deve ser considerado a “alma” da China, e a cultura tradicional chinesa, a “raiz”. É uma mudança ideológica enorme, porque praticamente reabilita o pensamento que Mao tinha tentado enterrar.
Teve um momento que ilustra bem onde isso chegou. Em 2023, a Hunan TV, o segundo canal mais assistido da China, lançou uma série de cinco episódios chamada Quando Marx Encontrou Confúcio. Literalmente isso. Dois atores, um de robe bege fazendo Confúcio e outro de terno preto com peruca branca fazendo Karl Marx, se encontravam na Academia Yuelu, uma escola confuciana milenar, e discutiam política. A conclusão da série, claro, é que as duas doutrinas são compatíveis e que Marx talvez, sem saber, estivesse bebendo de fontes confucianas. Não é propaganda barata de canal obscuro, é produção do sistema estatal numa TV de massa. O Rana Mitter, da Harvard Kennedy School, escreveu uma resenha boa na Foreign Affairs do livro do Wang Hui sobre tudo isso, onde trata dessa cena como sintoma de uma estratégia maior.
Pra entender quem está desenhando essa síntese por trás, tem um personagem que merece ser mencionado, o Wang Huning. Ele é acadêmico de formação, começou como cientista político, e virou conselheiro de três presidentes seguidos, Jiang Zemin, Hu Jintao e agora Xi. Hoje é membro do Comitê Permanente do Politburo, o núcleo duro do poder chinês. Foi um dos primeiros a introduzir o conceito de soft power (ja falamos sobre isso aqui) na China. E é dele boa parte da arquitetura intelectual do “Sonho Chinês” de Xi. Alguns analistas chamam o Wang Huning de “confuciano comunista”, porque é literalmente ele costurando as duas tradições no mesmo tecido.
Xi também institucionalizou o aprendizado do próprio pensamento num app de celular chamado “Estuda Xi, Fortalece a Nação” Xuexi Qiangguo (学习强国, em pinyin). Ele foi lançado em janeiro de 2019 pela Departamento de Propaganda do Comitê Central do Partido Comunista Chinês (PCC), com desenvolvimento da Alibaba, e serve exatamente como uma plataforma de aprendizado obrigatório ou fortemente incentivado do Pensamento de Xi Jinping. Membros do Partido precisam usar diariamente, ganham pontos, fazem quiz. Estudantes aprendem na escola, executivos precisam citar em reuniões. É uma operação de larga escala pra fazer o “Pensamento de Xi Jinping” entrar na cabeça das pessoas, com vocabulário bem confuciano misturado com slogans marxistas.
O economista político Daniel A. Bell, que dá aula em Xangai, chama isso de meritocracia política confuciana. A ideia é que o sistema chinês não precisa copiar a democracia liberal ocidental porque tem uma tradição própria de selecionar governantes competentes pelo mérito e pela virtude. É um argumento que a gente pode discordar, mas ele tem lastro cultural real dentro da China e está sendo exportado como alternativa ideológica pro Sul Global (ja falamos sobre isso aqui).
Economia
Agora, uma coisa que se discute bastante em economia do desenvolvimento é se o confucionismo ajuda ou atrapalha crescer. Durante muito tempo, gente como Max Weber achava que atrapalhava, que o confucionismo era conservador demais pra produzir capitalismo dinâmico. Essa tese caiu por terra quando Japão, Coreia do Sul, Taiwan, Singapura e Hong Kong, todas sociedades com forte herança confuciana, cresceram em velocidade absurda no pós-guerra (ja falamos sobre isso aqui). E depois a China entrou na fila.
O que os pesquisadores foram descobrindo é que alguns valores confucianos casam muito bem com desenvolvimento econômico acelerado. Taxas altas de poupança familiar, obsessão por educação, ética de trabalho forte, aceitação da autoridade, planejamento de longo prazo, preferência pela coesão do grupo em vez do interesse individual imediato. Isso tudo ajuda um Estado a coordenar esforço econômico numa escala que uma sociedade muito individualista teria dificuldade de fazer. Não é que o confucionismo “causa” crescimento, a análise é mais sutil que isso, mas ele cria um substrato cultural favorável a projetos nacionais de longo prazo.
A política externa
Na geopolítica, a coisa fica ainda mais curiosa. A narrativa oficial chinesa pra explicar sua atuação internacional está cheia de termos de origem confuciana. “Desenvolvimento pacífico”, “relações ganha-ganha”, “harmonia entre civilizações”, “comunidade de futuro compartilhado para a humanidade”. Esse último virou praticamente o slogan da diplomacia de Xi. Em setembro de 2015, Xi foi à Assembleia Geral da ONU e usou a expressão tianxia wei gong, que significa “tudo sob o céu pertence a todos”. Quem conhece os clássicos confucianos reconhece na hora, é frase do Livro dos Ritos, um texto de mais de dois mil anos. Xi estava basicamente citando um clássico chinês no plenário da ONU como proposta de ordem mundial alternativa.
Isso conecta com a ideia que mencionei lá no começo, do amor em graus. Um artigo interessante publicado na Nature Humanities and Social Sciences Communications em 2024 mostra como essa lógica confuciana ajuda Pequim a justificar uma combinação que, pro observador ocidental, parece contraditória. De um lado, um nacionalismo bem firme, defesa dura de soberania, pressão no Mar do Sul da China, reivindicação de Taiwan. De outro, discurso de cooperação global, desenvolvimento compartilhado, não interferência. Pela lógica confuciana do amor em graus, não tem contradição nenhuma. Você cuida primeiro da sua família estendida, que é a nação, e depois contribui pro mundo. O autoínteresse não briga com a ética universal, ele se ordena dentro dela.
Tem um conceito antigo que está sendo reciclado nesse processo que vale mencionar, que é o tianxia, literalmente “tudo sob o céu”. Na ordem imperial chinesa, o tianxia era uma visão de mundo hierárquica mas não exatamente colonial, onde a China era o centro civilizacional e os outros povos se relacionavam com ela em graus variados de proximidade cultural. Alguns analistas, como o filósofo Zhao Tingyang, propõem que o tianxia pode ser uma alternativa ao sistema westfaliano de Estados-nação soberanos. E a Iniciativa do Cinturão e Rota, aquele megaprojeto de infraestrutura global da China, pode ser lida em parte como uma aplicação prática dessa lógica, onde Pequim se coloca como nó central de uma rede de parcerias econômicas.
Tem um grupo de geógrafos liderado pelo Ning An, da Universidade Normal do Sul da China, que propôs um conceito interessante em artigo na Dialogues in Human Geography, o de “confucionismo estratégico” ou “híbrido”. A ideia é que o Estado chinês não aplica a doutrina confuciana em bloco. Ele pega seletivamente os pedaços que servem pro momento, descarta o que atrapalha, e mistura com marxismo, realismo geopolítico, pragmatismo econômico. É uma adaptabilidade estratégica que o Estado ocidental tem dificuldade de fazer, porque está preso a frameworks mais rígidos.
Agora, a gente precisa separar o discurso da prática. O mesmo Xi que fala em harmonia confuciana também usa instrumentos de controle político bem pesados, que na tradição chinesa estão associados a outra escola, o legismo. O legismo é o contrário do confucionismo em muita coisa, acha que gente se move por medo e interesse, não por virtude, e que o Estado precisa controlar com lei dura e punição. Xi combina as duas coisas de forma funcional. Usa o confucionismo pra legitimar moralmente o poder por fora, e o legismo pra operar o poder por dentro. É uma síntese que muitos chineses educados reconhecem, porque ela tem precedente histórico em várias dinastias.
Pra fechar
O que tudo isso quer dizer na prática é que, quando você olha uma decisão de Pequim, seja econômica ou geopolítica, vale perguntar que camada cultural está operando ali. A obsessão por estabilidade e por ordem social, a paciência estratégica de pensar em décadas e não em ciclos eleitorais, a forma de entender hierarquia internacional, a relação quase religiosa com educação e mérito, a desconfiança do individualismo liberal. Nada disso é invenção do Partido Comunista. É sedimento de dois mil anos de confucionismo que o Partido aprendeu a usar a seu favor depois de tentar destruir e descobrir que não conseguia. Entender isso não transforma ninguém em simpatizante do regime. Mas evita ficar analisando a China com categorias ocidentais que simplesmente não encaixam no que está acontecendo.
Mais detalhes:
- Freitas, L. S. A influência do confucionismo na formação da cultura, sociedade e economia chinesa, Revista de Economia da UEG, 2025
- Carneiro Leão, I. Z. C. e Ferraz de Oliveira Ogama, D. A China entre o Confucionismo e o Socialismo, Revista Paranaense de Desenvolvimento, 2019
- Viggiani, T. Desenvolvimento da República Popular da China: a influência do Novo Confucionismo, UNESP Marília
- Jabbour, E., via Senge RJ. Como a China concilia o desenvolvimento tecnológico com sua tradição filosófica, 2025
- Rezepa, L. M. T. Understanding the Revival of Confucianism in China’s Contemporary Politics, Grimshaw Review of International Affairs, LSE, 2025
- An, N., Sharp, J. e Shaw, I. Towards a Confucian geopolitics, Dialogues in Human Geography, 2021
- Mitter, R. The Real Roots of Xi Jinping Thought, resenha de Wang Hui, Foreign Affairs, 2024
- Reconciling China’s maritime discourses of nationalism and international engagement with left Confucian logic, Humanities and Social Sciences Communications, Nature, 2024
- Rolland, N. What Xi Jinping’s First Decade Tells Us About the Next, Foreign Policy, 2022
- Confucio & China: que dice Xi Jinping, Observatorio de Política China
- A Tianxià e a Faixa e Rota na Ordem Internacional, Daxiyangguo, Universidade de Lisboa
- Daniel A. Bell, The China Model: Political Meritocracy and the Limits of Democracy (Princeton University Press, 2015)
