| |

Os Soldados da borracha e a Amazônia na Segunda Guerra Mundial

Uma curiosidade aconteceu esses dias com os acessos aqui no site. O que costuma acontecer é que os textos sobre história do Brasil recebem pouco acesso. Os textos mais visitados são os de geopolítica, principalmente quando envolvem Estados Unidos e China. Dessa vez os acessos dispararam justamente no texto que fizemos sobre a Independência do Brasil (quem ainda não leu, o texto está aqui).

Aproveito para avisar que o site tem uma categoria só para o Brasil, e quem quiser ler outros textos curiosos sobre a nossa história pode encontrá-los por lá (a categoria fica aqui).

📲 Receba as próximas análises direto do nosso novo Canal no WhatsApp. Guerras, comércio, energia, tecnologia e poder. Novos artigos, gráficos e reflexões diretamente no canal CAVALÉRO LETTER. [Seguir no WhatsApp]

 

Como a história do Brasil parece ter despertado interesse dessa vez, escolhi um episódio que também tem o ingrediente que costuma funcionar por aqui, que é uma grande potência precisando de um recurso estratégico. Estou falando dos soldados da borracha, nordestinos que foram levados para a Amazônia durante a Segunda Guerra Mundial. O episódio explica por que a borracha da floresta passou a valer tanto para os Estados Unidos em 1942 e também o que aconteceu com as pessoas que foram tirar essa borracha do meio do mato.

A borracha natural vem do látex, a seiva branca da seringueira, uma árvore nativa da Amazônia, e durante o século XIX o Brasil tinha praticamente o monopólio desse produto. Já os ingleses não gostavam de depender dos brasileiros, e em 1876 um inglês chamado Henry Wickham levou cerca de 70 mil sementes de seringueira para o jardim botânico de Kew, em Londres, um feito que rendeu a ele o desprezo dos brasileiros e um título de cavaleiro na Inglaterra. Dali a borracha passou a ser cultivada em colônias britânicas e holandesas do Sudeste Asiático, e por volta de 1913 a produção cultivada de lá já tinha varrido do mercado a borracha coletada na Amazônia (fonte, fonte).

A questão é que boa parte dessas plantações da Ásia, nascidas de sementes brasileiras, foi justamente o que o Japão tomou em 1942. Quando os japoneses conquistaram Singapura, em fevereiro daquele ano, e depois quase todo o Sudeste Asiático, os Estados Unidos perderam 97% da borracha natural que compravam, segundo um estudo do economista Alexander Field, da Universidade de Santa Clara, publicado em 2025 na Business History Review. Cerca de 70% dessa borracha virava pneu, para o qual não havia substituto satisfatório, e o estoque que os americanos tinham guardado era pequeno para o tamanho da guerra (Field (2025), p. 365, 366 e 368, acesso aberto).

A Amazônia era uma das poucas fontes que os japoneses não alcançavam, só que a produção dela era pequena diante do que os americanos consumiam. Field calcula que toda a produção que restava na África, na América do Sul e no México, somada, cobriria apenas duas semanas do consumo americano de 1941. A explicação começa na própria floresta, porque quase toda a borracha de lá vinha de árvores da mata e plantação em escala nunca funcionou nas Américas. Árvores plantadas bem juntas ficam expostas a um fungo que causa o mal-das-folhas, e foi isso que arruinou a tentativa de Henry Ford, que montou a cidade de Fordlândia a partir de 1928 e depois a plantação de Belterra, ambas na região de Santarém (já contamos essa história aqui) (Field (2025), p. 373 e 374, acesso aberto).

Na floresta, as seringueiras sobrevivem justamente por estarem espalhadas, mais ou menos uma a cada 4 mil metros quadrados, e por isso cada seringueiro, que é quem extrai o látex, precisa caminhar bastante de uma árvore até a outra dentro do seringal, a área de mata onde elas ficam (Field (2025), p. 374, nota 36, acesso aberto).

O acordo da borracha

Em Washington, muita gente apostava que, cortada a borracha asiática, a América Latina aumentaria a produção com facilidade. Field mostra que Jesse Jones, o empresário e político que controlava o dinheiro do governo americano para comprar e estocar borracha, era otimista desse jeito, e as previsões da época falavam em algo entre 76 mil e 102 mil toneladas de borracha silvestre latino-americana em 1942 (Field (2025), p. 369 e 375, acesso aberto).

Do lado brasileiro, Vargas tinha mantido o país neutro nos primeiros anos da guerra, oscilando entre a Alemanha e os Estados Unidos (já falamos do comércio com a Alemanha aqui) para tirar vantagem dos dois, e foi isso que o historiador Gerson Moura chamou de equilíbrio pragmático. Enquanto esse jogo funcionou, o Brasil conseguiu dos americanos o financiamento da grande siderúrgica de Volta Redonda e equipamento para as Forças Armadas, e em troca cedeu bases no Nordeste (já contamos a importância de Natal aqui) e garantiu o fornecimento de matérias-primas estratégicas. A equidistância acabou descartada entre janeiro de 1942, quando o Brasil rompeu relações com o Eixo, e agosto do mesmo ano, quando entrou na guerra (Moura (2012), p. 17, 21, 51 e 117, livro gratuito na FUNAG, Relatório do Itamaraty de 1942, p. 6, 7 e 17, para baixar na FUNAG).

A borracha já aparecia num acordo de maio de 1941, em que o Brasil se comprometeu a vender aos Estados Unidos, com exclusividade e por dois anos, a produção de vários materiais estratégicos, entre eles a borracha, e a Rubber Reserve Company e a Metals Reserve Company ficaram encarregadas de comprar o que a indústria americana não absorvesse. Só que os americanos compraram pouco naquele ano, porque, como Moura interpreta, antes de Pearl Harbor a preocupação principal deles era impedir que a Alemanha comprasse esses materiais, e não garantir um fluxo para si (Moura (2012), p. 63, 64 e 101, livro gratuito na FUNAG).

Com o Brasil alinhado aos americanos, em 3 de março de 1942 os dois países assinaram os Acordos de Washington, que incluíram um acordo específico da borracha entre o governo brasileiro e a Rubber Reserve Company (agência do governo americano criada para comprar e estocar borracha). Pelo texto, o Brasil vendia aos Estados Unidos, por cinco anos, toda a borracha que não fosse consumida dentro do país e se comprometia a exportá-la só para eles, enquanto os americanos garantiam a compra e reservavam um fundo de 5 milhões de dólares para ampliar a produção de borracha silvestre (a que vem das árvores nativas da mata) no Vale Amazônico. Quem assinou, em Washington, foram o ministro da Fazenda brasileiro, Arthur de Souza Costa, que tinha viajado logo depois da Conferência do Rio, e o secretário de Estado americano, Cordell Hull (fonte, Moura (2012), p. 93, 94 e 102, livro gratuito na FUNAG, Relatório do Itamaraty de 1942, p. 33 a 36, para baixar na FUNAG).

O dinheiro do acordo passou pelo Banco de Crédito da Borracha, criado em 9 de julho de 1942 para executar o acordo, com capital de 55% do governo brasileiro e 40% da Rubber Reserve Company, sobrando o restante para o público brasileiro. Segundo o embaixador americano Jefferson Caffery, foi a primeira vez que a legislação bancária brasileira aceitou sócios e diretor estrangeiros, o que ele via como uma concessão importante ao seu país (fonte, fonte).

Quando os Estados Unidos perderam suas fontes asiáticas de borracha para os japoneses, o Brasil se tornou o maior fornecedor deles, segundo Moura, e o acordo deu à Rubber Reserve Company controle completo sobre a produção e o comércio dessa borracha. Os americanos usaram esse controle para tentar limitar a fabricação de produtos de borracha no Brasil e para impedir que o governo brasileiro exportasse uma pequena carga para a Argentina, e Souza Costa acabou mandando proibir a venda de pneus, câmaras e borracha bruta para qualquer país que não fossem os Estados Unidos, que passaram a decidir quanto cada país da América do Sul precisava. Em agosto, o Itamaraty chegou a mandar uma nota dura reclamando, mas o Departamento de Estado manteve a política (Moura (2012), p. 101 a 103, livro gratuito na FUNAG).

Em outubro de 1942, uma troca de notas entre o Itamaraty e a embaixada americana estabeleceu um sistema de cotas para pneus e outros artefatos de borracha, e o Brasil reservou 10 mil toneladas de borracha seca por ano para a sua própria indústria. Para ter uma noção da escala, a Amazônia tinha produzido entre 16 mil e 17 mil toneladas na safra de 1940 e 1941. A Rubber Reserve Company ficou de comprar todos os pneus e câmaras fabricados no Brasil que não fossem necessários ao consumo interno, e o governo brasileiro se comprometeu a fazer os fabricantes pararem, na medida do possível, de produzir itens não essenciais (Relatório do Itamaraty de 1942, p. 36, para baixar na FUNAG).

Só que controlar a borracha não bastava, porque alguém precisava tirar o látex das árvores. A meta dos americanos era chegar a 70 mil toneladas por ano, mais de quatro vezes o que a floresta dava, e para isso não bastavam os seringueiros que já estavam lá, concorda? A saída foi recrutar trabalhadores no Nordeste, onde a seca deixava muita gente sem trabalho (fonte, fonte).

O recrutamento

A ideia de levar nordestinos para a Amazônia era antiga. Em 1940, no chamado Discurso do Rio Amazonas, feito em Manaus, Vargas apresentou o nordestino como o brasileiro capaz de ocupar uma região vista como vazio demográfico e chegou a oferecer 4 mil passagens gratuitas a quem quisesse trabalhar nos seringais, com pouco resultado (fonte). A região seguia pouco povoada desde a crise da borracha da década de 1910, e a seca de 1941 acabou empurrando milhares de nordestinos para lá por conta própria (Campos (2006), p. 139, livro gratuito na SciELO Books).

O Departamento Nacional de Imigração passou a organizar esse movimento, recrutando famílias de retirantes no Ceará e na Paraíba e pagando a passagem de navio, com um plano de transportar 4.800 pessoas por mês. Só que entre maio e junho de 1942 apenas 1.800 migrantes passaram pelo alojamento de Belém, e nenhum dos que passaram por lá até junho foi trabalhar nos seringais. Havia ainda outro problema, porque só um terço dos transferidos eram homens adultos, e seringueiro era função de homem adulto (Campos (2006), p. 139 e 140, livro gratuito na SciELO Books).

A guerra complicou esse movimento. Em agosto de 1942, um submarino alemão afundou cinco navios brasileiros na costa nordestina, num ataque que matou 607 pessoas, em grande parte civis que viajavam entre cidades do próprio país, e o governo declarou guerra à Alemanha e à Itália em 22 de agosto. Com os submarinos rondando a costa, a rota de navio entre Fortaleza e Belém foi fechada, e milhares de migrantes ficaram amontoados nos postos de embarque de Fortaleza, expostos a epidemias (fonte, Moura (2012), p. 112, livro gratuito na FUNAG, Campos (2006), p. 139 e 140, livro gratuito na SciELO Books).

Nesse mesmo agosto, o secretário de Estado americano designou a Rubber Reserve Company para financiar um programa de migração para a Amazônia. Em setembro, o comitê que Roosevelt tinha nomeado, com Bernard Baruch e os presidentes de Harvard e do MIT, avisou que sem uma nova fonte grande de borracha o esforço de guerra e a economia americana entrariam em colapso, e os Estados Unidos passaram a impor um limite de velocidade de 35 milhas por hora, ou 56 km/h, e racionamento de gasolina só para os pneus durarem mais. Um jornalista americano chegou a escrever que a falta de borracha era um desastre do tamanho de Pearl Harbor. Em outubro, uma reunião no Rio de Janeiro juntou representantes do Departamento Nacional de Imigração, do Serviço Especial de Saúde Pública, do governo do Ceará, da Comissão de Controle dos Acordos de Washington e da própria agência americana para organizar o programa (Campos (2006), p. 140, livro gratuito na SciELO Books, Field (2025), p. 382, 386, 387 e 389, acesso aberto).

Em novembro, a invasão aliada do norte da África reduziu o risco de o Eixo invadir o Brasil, e Moura conta que as autoridades brasileiras logo perceberam que o país era visto pelos americanos como “mera fonte de materiais estratégicos” e rota de passagem para as tropas aliadas. Foi nesse mês que a Comissão de Mobilização Econômica, comandada pelo ministro João Alberto Lins de Barros, criou o Serviço Especial de Mobilização de Trabalhadores para a Amazônia, com a meta de recrutar 50 mil homens até o fim de maio de 1943, chefiado pelo engenheiro e geógrafo Paulo de Assis Ribeiro e pago pelos americanos, primeiro pela Rubber Reserve Company e depois pela agência rebatizada de Rubber Development Corporation. No mês seguinte surgiu a Superintendência de Abastecimento do Vale Amazônico, encarregada de receber os recrutados em Belém e distribuí-los pelas áreas de borracha (Moura (2012), p. 124, livro gratuito na FUNAG, Campos (2006), p. 141, livro gratuito na SciELO Books, fonte).

Para atrair gente, o serviço fez uma campanha agressiva com folhetos, cartazes e anúncios no rádio e nos jornais. O artista suíço Jean-Pierre Chabloz produziu o material entre janeiro e julho de 1943, com cartazes que mostravam a Amazônia como terra da fartura e frases como “Vida nova na Amazônia”, e o discurso oficial chamava o trabalhador de soldado e a extração de batalha, numa comparação direta com os pracinhas da Força Expedicionária Brasileira (já contamos a história dos pracinhas aqui), embora o recrutado estivesse dispensado do serviço militar (Campos (2006), p. 141 e 142, livro gratuito na SciELO Books, Jornal da Unicamp).

O folheto Rumo à Amazônia, terra da fartura prometia comida e alojamento, assistência médica, equipamento de viagem e de trabalho, adiantamento e ajuda financeira para a família que ficava. O contrato de dois anos garantia ao trabalhador pelo menos 60% do valor da borracha que extraísse, metade de toda a castanha e madeira que coletasse, um hectare de terra para cultivar e toda a caça e todo o peixe que conseguisse, e cada alistado recebia um kit com duas calças, um blusão, alpercatas, uma rede e utensílios para comer (Campos (2006), p. 142, livro gratuito na SciELO Books, fonte).

O serviço também contou com prefeitos e padres. A Igreja Católica entrou depois de uma longa conversa entre o diretor do serviço e o núncio apostólico, e o padre Hélder Câmara chefiou o departamento de assistência religiosa. Mesmo assim havia medo, e circulavam rumores de que os recrutados seriam mandados para a guerra na África, comidos pelos índios ou vendidos como escravos nos seringais (Campos (2006), p. 142 e 143, livro gratuito na SciELO Books).

Quem se alistava, em geral, era gente que a seca tinha deixado sem nada. O antropólogo americano Charles Wagley, primeiro diretor do programa de migração do serviço de saúde, percorreu o sudoeste do Ceará e o oeste da Paraíba e encontrou cerca de 100 mil retirantes peregrinando de vila em vila e vivendo de esmola, enquanto quem conseguia trabalho em obras de estrada ganhava o equivalente a vinte centavos de dólar por dia. Numa viagem de navio para Belém, em 1944, um médico do mesmo serviço entrevistou casais que tinham perdido a colheita dois anos seguidos e que, segundo o relatório dele, “preferiam o risco do desconhecido do que morrer de fome” (Campos (2006), p. 143 a 145, livro gratuito na SciELO Books).

O primeiro grupo recrutado, no entanto, não veio do sertão. Foram homens que passaram pelo albergue municipal do Rio de Janeiro, numa campanha para limpar a cidade de gente indesejável, e eles embarcaram para Fortaleza em janeiro de 1943 e deram tanto trabalho que Vargas mandou o ministro João Alberto tomar conta dos refugiados do Ceará. O recrutamento no Ceará começou logo depois, com o anúncio de uma marcha para o Amazonas (Campos (2006), p. 146 a 148, livro gratuito na SciELO Books).

Um detalhe importante de mencionar é que o programa dependia da seca, porque quanto menos chuva no sertão, mais gente sem perspectiva e mais fácil o alistamento. Em 16 de fevereiro de 1943, o médico José Lins de Souza chegou a Senador Pompeu, no Ceará, debaixo de chuva forte, e registrou no relatório que com o inverno promissor o sertanejo preferia retomar a lavoura e não aceitava trocar de vida. O próprio diretor do projeto de migração reconheceu que o avanço do recrutamento devia mais à seca do que ao esforço do programa, e quando as chuvas voltaram, a partir de agosto, os retirantes foram sendo substituídos por famílias em situação um pouco melhor (fonte, Campos (2006), p. 149, livro gratuito na SciELO Books).

A viagem

Antes de embarcar, cada candidato passava por um médico, que o classificava como apto, inapto, recuperável ou recusado temporariamente, e esperava a viagem em um dos cerca de dez pousos, alojamentos espalhados por cidades como Sobral, Iguatu, Crato, Teresina e São Luís, além de Fortaleza. Quase 85% dos examinados foram aprovados ou considerados recuperáveis, e os historiadores mostram que os médicos flexibilizaram os critérios por causa da pressão pela meta (fonte, fonte).

Com a rota de navio fechada, entre agosto de 1942 e novembro de 1943 a viagem era por terra. Nas pequenas vilas do interior, a partida virava cerimônia, com anúncio no rádio, bênção do padre e discurso do prefeito, e os homens seguiam de caminhão para Fortaleza. De lá até Teresina iam em comboios de caminhões com cerca de 35 homens em cada um, levando um farnel de rapadura, farinha, carne seca e banana e acompanhados só por guardas sanitários, porque quase nunca havia médico, e não era raro passarem a noite na estrada debaixo de chuva e frio. Um caminhão chegou a tombar com 35 homens, e quatro ficaram gravemente feridos. De Teresina eles seguiam de trem até Coroatá e chegavam a São Luís, de onde embarcavam para Belém e depois para Manaus (Campos (2006), p. 150 a 152, livro gratuito na SciELO Books).

Depois de novembro de 1943, quando a ameaça dos submarinos diminuiu, os migrantes voltaram a viajar de navio entre Fortaleza e Belém, e a travessia era desconfortável. Um médico que acompanhou uma dessas viagens descreveu mulheres e crianças na terceira classe e homens nos corredores e no convés, sem banho e com poucos banheiros, e em outra travessia o convés amanheceu escorregadio de saliva, casca de fruta, restos de comida e vômito. Certa vez, um navio com capacidade para 280 passageiros ficou dias parado com mil pessoas a bordo e chegou a Belém com 44 casos de sarampo (Campos (2006), p. 150, livro gratuito na SciELO Books).

Os pousos e os alojamentos de Belém e Manaus viviam superlotados. O de Teresina, com capacidade para 1.200 homens, vivia cheio, e em abril de 1943 muitos trabalhadores esperaram de três a quatro semanas pelo trem. A comida também falhava, e a nutricionista Maria Novais, que o serviço mandou inspecionar os postos, ouviu de um grupo que, se aquela comida continuasse, todos acabariam no cemitério. Em Belém, muitos passavam pela Hospedaria do Tapanã, que ficou conhecida como Hospedaria do Diabo e onde, segundo pesquisa da Universidade Federal do Pará, era exigida dos alojados uma contrapartida de trabalho pesado para ter direito às três refeições diárias, o que na maioria dos casos os expunha à fome e ao trabalho escravo (Campos (2006), p. 152 e 153, livro gratuito na SciELO Books, fonte).

As doenças se espalhavam nesses lugares. Em fevereiro de 1943, um surto de sarampo atingiu a hospedaria do Tapanã, que tinha algo em torno de três mil pessoas, e entre junho e julho de 1944 uma epidemia de meningite, trazida por migrantes que chegaram de navio de Fortaleza, atingiu os alojamentos de Belém (Campos (2006), p. 156 e 157, livro gratuito na SciELO Books).

Os relatórios do serviço de saúde mostram que as doenças que mais matavam nos pousos eram as intestinais, e que a maioria das mortes acontecia nos alojamentos das famílias, entre crianças. Em abril de 1944, o alojamento de Alagadiço, em Fortaleza, tinha 1.500 pessoas para 800 vagas, ficou sem leite no hospital por quinze dias e perdeu 35 crianças no mês (Campos (2006), p. 154 e 157, livro gratuito na SciELO Books).

Pelo relatório do próprio serviço de saúde, dos 10.824 homens recrutados em 1943, 8.437 foram entregues aos seringais e 1.247 desertaram só em Belém (Campos (2006), p. 146, livro gratuito na SciELO Books).

Nos seringais

Na teoria, o contrato que o trabalhador assinava com o serviço de mobilização estava ligado a um segundo contrato com o dono do seringal, dentro da legislação trabalhista da época, e o acordo entre a superintendência de abastecimento e a agência americana previa que os migrantes seriam encaminhados a seringalistas qualificados, sob a proteção da legislação civil e do trabalho. Só que isso acabou não se concretizando na prática. Muita gente ficou isolada e sujeita a um trabalho praticamente compulsório, e quem reclamava de doença ou de maus-tratos não era bem-visto, tanto que muitos fugiam depois de ameaças de morte (Campos (2006), p. 141, livro gratuito na SciELO Books, fonte).

Nos seringais, do Pará ao território do Acre (já falamos do Acre e do Barão do Rio Branco aqui), os recém-chegados encontravam o aviamento, um sistema em que o dono do seringal adianta mercadorias ao seringueiro e desconta o valor da borracha que ele entrega, de modo que quase nunca havia dinheiro na mão de quem trabalhava. O Banco de Crédito da Borracha tinha sede em Belém, agência em Manaus e planos de abrir outras em Porto Velho e Rio Branco, e emprestava aos donos de seringais, mas a caderneta de cheques que eles recebiam só podia pagar as contas do aviamento (fonte).

O próprio ministro João Alberto reconheceu isso numa reunião em Belém, em abril de 1943, a chamada Conferência da Amazônia, quando lembrou que esse sistema de troca tinha sido um regime de escravização na região. Os presentes, entre eles os interventores (governadores nomeados por Vargas) Magalhães Barata, do Pará, e Álvaro Maia, do Amazonas, admitiram que o seringueiro com frequência era explorado duas vezes, no peso da borracha e no preço da mercadoria, e a conversa terminou sem solução (fonte).

A saúde também era um problema na floresta. O serviço de saúde distribuiu atebrina e montou postos ao longo do vale amazônico, e o DDT só passou a ser usado a partir de 1945. Em maio de 1943, um surto de malária atingiu 138 migrantes no alojamento de Manaus, e em Belém a maioria dos casos vinha de seringueiros que voltavam doentes da mata. Muitos voltavam com o que eles chamavam de catarrão, que o médico do serviço de saúde Morrison Faria identificou como uma bronquite crônica causada pela fumaça densa usada para coagular o látex, ou seja, uma doença do trabalho (Campos (2006), p. 156, livro gratuito na SciELO Books, fonte).

Um desses trabalhadores, Pedro Marciano de Souza, nasceu no Ceará e foi para a Amazônia como soldado da borracha em 1943. Trabalhou 29 anos para o mesmo seringalista, em Eirunepé, no rio Juruá, até perder uma perna num acidente, e décadas depois contou a pesquisadores da Casa de Oswaldo Cruz que muitos como ele ficaram e fizeram família, mas que o trabalho era uma espécie de cativeiro e que ele nunca conseguiu juntar nada (Campos (2006), p. 149 e 150, livro gratuito na SciELO Books).

O que a borracha valeu de fato

Segundo Field, a América Latina inteira, e não só o Brasil, forneceu aos Estados Unidos cerca de 26,6 mil toneladas de borracha em 1943, 5,4% de todo o consumo americano de borracha, natural e sintética somadas, contra uma previsão de cerca de 61 mil toneladas para aquele ano (Field (2025), p. 375, acesso aberto).

Por isso não me parece razoável a ideia, que se repete bastante, de que a borracha da Amazônia salvou os Aliados. Field diz, numa nota do artigo, que o livro Rubber Soldiers, dos Neeleman, documenta bem as condições terríveis em que trabalharam e muitas vezes morreram os cerca de 50 mil recrutados, mas exagera a contribuição brasileira ao esforço de guerra americano. Moura chega a uma avaliação parecida sobre a batalha da borracha tocada por João Alberto junto com a Rubber Reserve Company, cujos resultados, segundo ele, ficaram longe de ser brilhantes (Field (2025), p. 375, nota 40, acesso aberto, Moura (2012), p. 136, livro gratuito na FUNAG).

Ainda assim, mesmo um percentual pequeno de borracha natural pesava. A borracha sintética que os Estados Unidos passaram a fabricar somou pouco mais de 1,3 milhão de toneladas durante a guerra, mas as fábricas de butadieno, o gás que serve de matéria-prima principal, só começaram a funcionar em 1943, e a sintética precisava ser misturada com borracha natural na maioria dos produtos. Pneus de avião e de caminhão pesado, em alguns casos, só podiam ser feitos com a natural, e em 1944 os Estados Unidos chegaram perto de ficar sem ela (Field (2025), p. 368, 372, 380 e 385, acesso aberto).

O serviço de mobilização durou menos de um ano. Os conflitos entre as agências e os problemas nos alojamentos fizeram a Igreja retirar o apoio, e o padre Hélder Câmara pediu demissão e aconselhou o governo a dissolver o serviço. Em setembro de 1943, um decreto-lei aprovou o acordo com a agência americana para o recrutamento, o encaminhamento e a colocação de trabalhadores e criou a Comissão Administrativa de Encaminhamento de Trabalhadores para a Amazônia, que juntou tudo sob um único comando e recebeu a meta de 16 mil migrantes para 1944, bem abaixo dos 50 mil prometidos no início. Pesaram a proximidade do fim da guerra e o aprimoramento da borracha sintética americana, e o programa foi encerrado até dezembro de 1944 (Campos (2006), p. 158 e 159, livro gratuito na SciELO Books, Decreto-Lei 5.813/1943, fonte).

As famílias que tinham ficado para trás foram as primeiras a sentir o abandono. Antes mesmo do fim da comissão, os subsídios prometidos às famílias dos recrutados foram cancelados, e em junho de 1944 um grupo de mulheres que se apresentavam como esposas de soldados da borracha mandou um telegrama a Vargas pedindo ajuda, porque só ofereciam a cada uma uma passagem para ir atrás dos maridos na Amazônia, e elas não sabiam onde eles estavam. No mesmo mês, um abaixo-assinado em nome de 191 famílias chegou ao presidente (Campos (2006), p. 159 e 160, livro gratuito na SciELO Books).

Li diversos textos sobre o assunto e constatei que ninguém sabe ao certo quantos foram. O Senado costuma falar em cerca de 60 mil pessoas recrutadas, e a meta do serviço de mobilização era de 50 mil homens, mas o historiador André Campos, somando os números dos relatórios do serviço de saúde da época, chega a cerca de 36 mil pessoas transportadas em todo o programa, contando as famílias (Campos (2006), p. 160 e 161, livro gratuito na SciELO Books, Senado Notícias).

Com os mortos acontece o mesmo. Um jornal ligado ao Partido Comunista acusou o governo, em 1947, pela morte de 30 mil migrantes, e o historiador Warren Dean calculou que entre 17 mil e 20 mil seringueiros não voltaram para casa, mas Campos diz que não há evidência para afirmar que 30, 20 ou mesmo 17 mil pessoas tenham morrido. Depois da queda do Estado Novo, o Congresso abriu em 1946 uma comissão de inquérito sobre a campanha da borracha, e João Alberto assumiu a responsabilidade pelo fracasso. A comissão não puniu ninguém e considerou inviável precisar quantos morreram ou desapareceram, e o depoimento do ex-chefe do serviço de mobilização está guardado no Arquivo Nacional (Campos (2006), p. 160 e 161, livro gratuito na SciELO Books, fonte, fonte).

O reconhecimento

O decreto-lei de 1943 que criou a comissão de encaminhamento não estabeleceu nenhum direito aos seringueiros, só a estrutura administrativa dela, segundo uma nota técnica da Consultoria Legislativa da Câmara dos Deputados. O amparo veio depois da guerra, num decreto de 1946 que autorizou um plano de assistência aos trabalhadores da borracha, e foram esses dois decretos que a Constituição de 1988 usou para definir quem tinha direito a uma pensão (nota técnica da Câmara, para baixar, fonte).

A Constituição de 1988 acabou reconhecendo os soldados da borracha, mas de um jeito bem mais modesto do que o reconhecimento dado aos pracinhas. Aos seringueiros recrutados coube uma pensão mensal vitalícia de dois salários mínimos, regulamentada pela Lei do Seringueiro de 1989 e só para quem comprovasse carência, enquanto a pensão dos ex-combatentes equivale à de um segundo-tenente das Forças Armadas, que é bem mais alta (fonte, Lei 7.986/1989, nota técnica da Câmara, para baixar).

Em 2012, a categoria “soldados da borracha e seringueiros” foi gravada no livro de aço do Panteão da Pátria, em Brasília, e em 2014 uma emenda constitucional criou uma indenização única de 25 mil reais (fonte, fonte).

O tempo, porém, foi passando. Segundo o Senado, cerca de 6.500 soldados da borracha ainda recebiam a pensão em 2023, e o mais novo deles tem 85 anos, sem novos beneficiários desde 2015. Em junho de 2026, a Comissão de Assuntos Econômicos do Senado aprovou um projeto que garante a eles um abono natalino, como os pracinhas já recebem, e o texto seguia para a Câmara dos Deputados (Senado Notícias, Rádio Senado).

Como leitura complementar, o historiador Seth Garfield conta essa história em detalhes no livro In Search of the Amazon, da Duke University Press (saiba mais), e as negociações da borracha entre os dois governos estão nos documentos diplomáticos americanos de 1943 reunidos pelo Escritório do Historiador do Departamento de Estado (leia aqui).

Quem quiser ver exemplos dos documentos do serviço de mobilização, como cartas, relatórios de médicos e nutricionistas e cardápios dos pousos, encontra parte deles digitalizada no site do Arquivo Nacional, que guarda o fundo de Paulo de Assis Ribeiro (veja aqui).

Os cartazes de Chabloz são analisados na dissertação de Ana Carolina Albuquerque de Moraes, da Unicamp (leia aqui), e o livro inteiro de André Campos, com os capítulos sobre o combate à malária na Amazônia, pode ser baixado de graça na SciELO Books (baixe aqui).

Quem quiser ler o Discurso do Rio Amazonas, feito por Vargas em Manaus em 1940, encontra o texto na Biblioteca da Presidência da República (leia aqui).

Continue acompanhando

Se esta análise foi útil para você, receba gratuitamente novos conteúdos sobre geopolítica, economia e relações internacionais.

✓ Novos artigos publicados no blog

✓ Gráficos e infográficos

✓ Curiosidades históricas

✓ Análises sobre os principais acontecimentos internacionais

📲 Seguir CAVALÉRO LETTER

Posts Similares