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EUA, Groenlândia e o acordo de segurança com a Dinamarca

Na sexta-feira, dia 18, Trump anunciou pela rede Truth Social que fechou com a Dinamarca e com a Groenlândia, a maior ilha do mundo, um acordo que, segundo ele, dá aos EUA o “controle permanente” da segurança do território. A ilha fica entre a América do Norte e a Europa, tem cerca de 56 mil habitantes e é autônoma dentro do Reino da Dinamarca. Pelo que Trump contou, nenhum adversário dos americanos poderá ter base ou presença militar por lá, nem fazer investimentos sensíveis, sem aprovação expressa por escrito de Washington. Os EUA também vão começar a montar uma presença militar grande em alguma parte da ilha, e o acordo não tem prazo para acabar. O texto completo ainda não veio a público, então a história da ilha ajuda a separar o que pode ser novidade do que os americanos já tinham lá há décadas (fonte, fonte).

O interesse dos EUA pela Groenlândia (já falamos brevemente sobre isso aqui) começa em 1867, quando o secretário de Estado William Seward, que tinha acabado de comprar o Alasca da Rússia (comentamos sobre isso aqui), passou a olhar também para a Groenlândia e para a Islândia. Um relatório do Departamento de Estado de 1868 destacava a pesca farta e a riqueza mineral da Groenlândia, e ainda apontava que ficar com a ilha poderia acabar obrigando o Canadá, que fica entre o Alasca e a Groenlândia, a virar parte dos EUA (fonte, fonte).

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Em 1917, com a Primeira Guerra Mundial em andamento, os EUA compraram da Dinamarca as ilhas do Caribe que hoje formam as Ilhas Virgens Americanas, por 25 milhões de dólares em ouro, para evitar que caíssem nas mãos da Alemanha. Na mesma negociação, o secretário de Estado Robert Lansing declarou que os EUA não se oporiam a que a Dinamarca estendesse seus interesses políticos e econômicos a toda a Groenlândia (fonte, fonte).

A Alemanha nazista ocupou a Dinamarca em 1940 e a Groenlândia ficou isolada de Copenhague, o que preocupou Washington, já que os alemães poderiam se instalar na ilha e ameaçar o Canadá e os próprios EUA. Com isso, os americanos passaram a defender que a Groenlândia fazia parte do hemisfério ocidental, ou seja, das Américas, e precisava entrar na defesa do continente. Na minha visão isso lembra bastante a lógica da Doutrina Monroe, a ideia de que os EUA não aceitariam interferência europeia nas Américas (já contamos sobre ela aqui). Em 9 de abril de 1941, o embaixador dinamarquês em Washington, Henrik Kauffmann, que agia por conta própria e contra os ocupantes, assinou um acordo que dava aos EUA acesso quase ilimitado para construir instalações militares na ilha. No fim da guerra, os americanos já tinham 17 dessas instalações (fonte).

A criolita era um dos motivos práticos dessa presença. Esse mineral entra na fundição do alumínio, que na guerra era essencial para fabricar aviões, e em 1940 a Groenlândia tinha a única mina de criolita natural em operação no mundo, em Ivigtut, no sul da ilha, além do único grande depósito conhecido. Os aliados temiam que um submarino alemão ou um sabotador danificasse a mina, mas a dependência foi diminuindo a partir de 1943, quando a criolita sintética ganhou espaço (fonte, fonte).

A ilha também importava pela meteorologia, já que boa parte das tempestades que chegam à Europa Ocidental se forma por ali. Por isso quem mantinha estações de medição do tempo na Groenlândia sabia antes o que vinha pela frente, o que ajudava a planejar bombardeios e comboios de navios, e o desembarque na Normandia também contou com informações das estações da ilha. Os alemães tentaram esconder estações na costa, que tem mais de 40 mil quilômetros e é quase impossível de vigiar inteira, e os aliados montaram uma patrulha de trenós, com gente que conhecia o terreno, para achá-las. Ao todo os alemães chegaram a ter quatro estações ali (fonte).

Com o fim da guerra, a Dinamarca queria voltar a cuidar da defesa da ilha, e o parlamento dinamarquês aprovou o acordo de 1941 já esperando que ele terminasse cedo. Só que os EUA pensavam diferente. No fim de 1946, numa conversa em segredo, o secretário de Estado James Byrnes sugeriu ao ministro das Relações Exteriores da Dinamarca três caminhos para a ilha. Um deles era os EUA comprarem o território, e os documentos americanos falavam em 100 milhões de dólares em ouro. Os dinamarqueses não quiseram vender. A proposta contrasta com o que os próprios EUA tinham declarado na negociação das ilhas do Caribe, quando disseram que não se oporiam aos interesses dinamarqueses sobre a ilha inteira (fonte, fonte, fonte).

Um dos primeiros documentos do Conselho de Segurança Nacional dos EUA, de 1947, já tratava a Groenlândia como uma ilha que ficava no caminho mais provável de um ataque inimigo e que não podia cair nas mãos de um adversário. A Dinamarca largou a neutralidade ao entrar na Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), a aliança militar liderada pelos EUA (já contamos a história dela aqui), e em 1951 fechou um novo acordo de defesa com os americanos. Ele confirmava que a ilha continuava sendo dinamarquesa, substituía o acordo de 1941 e reservava áreas de defesa para os EUA, entre elas a base de Thule, no noroeste da ilha, de onde a Força Aérea queria alcançar alvos soviéticos pelo Ártico (fonte, fonte).

Em 1955 os chefes militares dos EUA propuseram comprar a Groenlândia para não depender de acordo com outro governo. Segundo uma nota interna do Departamento de Estado, de 1959, a compra não fazia sentido, porque os americanos já podiam fazer na ilha, “literalmente, quase qualquer coisa” que quisessem (fonte).

Os EUA passaram a guardar bombas nucleares na Groenlândia em 1958, com um sinal verde informal e sigiloso do primeiro-ministro dinamarquês, e depois bombardeiros B-52 carregados com armas nucleares passaram a sobrevoar Thule de forma rotineira, para conferir se o radar de alerta contra mísseis que ficava na base continuava de pé caso as comunicações falhassem. Um deles pegou fogo e caiu no gelo em 1968, e os explosivos comuns das bombas detonaram e espalharam plutônio por vários quilômetros. A rotina desses voos só se tornou pública nos anos 1990 (fonte, fonte).

Hoje a base de Thule se chama Pituffik, pertence à Força Espacial dos EUA e é a instalação militar americana mais ao norte do mundo, com radar de alerta contra mísseis e uma estação de controle de satélites. A localização explica o valor dela, já que o caminho mais curto para um míssil balístico russo chegar aos EUA passa pela Groenlândia e pelo Polo Norte. A ilha também marca uma das pontas do GIUK, sigla em inglês para o trecho de oceano entre Groenlândia, Islândia e Reino Unido, um gargalo naval pelo qual a Frota do Norte russa precisa passar para chegar ao Atlântico (fonte, fonte).

O argumento de Trump é que Rússia e China vêm ampliando a atuação no Ártico, e por isso ele quer a segurança da ilha sob controle americano. Ele também quer usar a Groenlândia no Domo de Ouro, um sistema de defesa antimísseis que pretende construir para proteger os EUA, e segundo a Reuters as conversas com a Dinamarca incluíam justamente isso, além de formas de limitar a presença e a influência da China na ilha. Em janeiro, o próprio Trump já tinha dito que havia conversas em andamento sobre o Domo de Ouro em relação à Groenlândia (fonte, fonte).

Os minerais da ilha aparecem muito no discurso americano, só que no início de 2026 a Groenlândia tinha apenas duas minas em operação, uma de anortosito, que é uma rocha rica em alumínio e sílica, e outra de ouro. Não havia nenhuma mineração de terras raras, um grupo de elementos químicos usados em ímãs de turbinas eólicas e de sistemas de defesa. O maior projeto da ilha nessa área, o de Kvanefjeld, está travado desde que o parlamento groenlandês proibiu, em 2021, a exploração de urânio, que aparece no mesmo minério. Na minha opinião, isso faz dos minerais um argumento de longo prazo, já que a produção de terras raras ainda nem começou (fonte, fonte).

Desde que voltou à Casa Branca, Trump pedia a posse da ilha, e em janeiro, em Davos, no Fórum Econômico Mundial, disse que não usaria a força para tomá-la. Depois de conversar com o secretário-geral da Otan, Mark Rutte, desistiu da ameaça de tarifas contra países europeus e falou em um “arcabouço” de acordo para a Groenlândia e o Ártico. Até ali vinha dizendo que ficaria com a ilha “de um jeito ou de outro” e não descartava o uso da força militar (fonte, fonte).

O gabinete da primeira-ministra dinamarquesa, Mette Frederiksen, disse que o acordo será assinado pelos três governos na semana de 21 de setembro, durante a Assembleia Geral das Nações Unidas, mas que ele ainda depende da aprovação dos parlamentos da Dinamarca e da Groenlândia. Ela afirmou que o acordo reconhece a soberania e a integridade territorial da Dinamarca, o que significa que a ilha continua fazendo parte do reino, e o direito dos groenlandeses à autodeterminação, que é o direito de decidir o próprio futuro (já contamos a origem dessa ideia aqui). Isso fica abaixo do que Trump vinha pedindo, que era a posse da ilha (fonte, fonte).

Com o pouco que se sabe até agora, o que parece novo é o veto sobre a presença e os investimentos de adversários e a ampliação das bases, porque o tratado de 1951 já cobre boa parte do resto. O ministro das Relações Exteriores da Dinamarca, Lars Løkke Rasmussen, já tinha dito que esse tratado dá espaço de sobra para uma presença militar americana bem maior, e que, segundo ele, os EUA têm hoje cerca de 200 soldados em Pituffik, contra milhares de soldados espalhados por 17 bases e instalações no passado (fonte).

Quando Marco Rubio, secretário de Estado dos EUA, diz que a Groenlândia será para sempre parte da área estratégica de defesa da América do Norte, o argumento lembra o de 1941, quando os americanos passaram a tratar a ilha como parte da defesa do hemisfério ocidental (fonte, fonte).

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