Prigozhin e o Grupo Wagner
Atualmente pouco se fala sobre o Grupo Wagner, mas não faz muito tempo que esse grupo paramilitar russo estava no centro de uma das situações mais estranhas da política internacional recente. Pra quem não acompanhou de perto, o Wagner ficou mundialmente famoso durante a invasão em larga escala da Ucrânia, em 2022, quando virou a principal força de ataque do Kremlin em Bakhmut, a batalha mais longa e sangrenta da guerra.
O rosto do grupo era Yevgeny Prigozhin, um ex-presidiário que construiu um império de restaurantes e eventos em São Petersburgo e ficou tão próximo de Putin que circulou mundo afora uma foto dele servindo pessoalmente comida ao presidente russo no próprio restaurante. Prigozhin acumulou contratos bilionários com o Kremlin e ganhou acesso a recursos militares que um civil comum jamais teria. Ao longo dos anos, foi transformando o Wagner num braço armado que operava na Ucrânia, na Síria e em meia dúzia de países africanos.
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Em junho de 2023, Prigozhin ordenou que seus soldados marchassem em direção a Moscou para derrubar os generais de Putin. A marcha durou menos de 24 horas antes de ser abortada por um acordo mediado pela Bielorrússia, e dois meses depois seu avião particular explodiu em pleno voo sobre a Rússia, em circunstâncias que nunca foram completamente esclarecidas.

Prigozhin nasceu em 1961 em Leningrado, a mesma cidade de Putin (já falamos sobre a vida de Putin aqui). Com 20 anos, foi condenado a treze anos de prisão por uma série de crimes que incluíam roubo e fraude. Cumpriu nove anos antes de ser solto em 1990, justamente quando a União Soviética desmoronava e um mundo de oportunidades e caos se abria na Rússia.
Saído da prisão, começou vendendo cachorros-quentes nas ruas de São Petersburgo, foi comprando participação em supermercados e acabou abrindo restaurantes de alto padrão na cidade. Um deles, o “New Island”, era um restaurante flutuante que se tornou ponto de encontro da elite política local. Foi lá que Prigozhin conheceu Putin, que na época era vice-prefeito de São Petersburgo. A relação cresceu ao longo dos anos. Putin passou a levar convidados importantes para jantar no restaurante, incluindo o presidente americano George W. Bush em 2002 e Chirac em 2001, e em 2003 celebrou o próprio aniversário lá. A empresa de catering (alimentação e eventos corporativos) de Prigozhin, a Concord, passou a ganhar contratos milionários do governo, incluindo um de mais de US$ 1,2 bilhão para fornecer refeições ao exército russo em 2012. Foi daí que surgiu o apelido “chef de Putin”. (Britannica)
O grupo

A história do Grupo Wagner começa formalmente em 1º de maio de 2014, algumas semanas depois da Rússia anexar a Crimeia e enquanto a guerra encoberta do Kremlin no leste da Ucrânia ganhava corpo. A organização nasceu de uma reunião no Ministério da Defesa russo, com o aval explícito de Putin. (fonte) (fonte)
Dois nomes estão na origem da estrutura. Dmitry Utkin era um ex-militar de inteligência, veterano das guerras da Chechênia, que atuava como comandante das operações militares. Prigozhin, sem nenhum histórico militar, ficava com a gestão operacional e financeira. A arquitetura legal era deliberadamente ambígua, porque empresas privadas de segurança militarizada são tecnicamente ilegais na Rússia, e isso era exatamente o ponto. O governo russo precisava de um instrumento de força com o qual pudesse negar publicamente qualquer envolvimento. Se algo desse errado em alguma operação no exterior, não havia soldados russos mortos, nenhuma bandeira nacional envolvida, apenas “voluntários” e “contratados privados” de uma empresa que, oficialmente, não existia. Os primeiros combatentes do Wagner apareceram no Donbas em 2014 e 2015, lutando ao lado das forças separatistas pró-Rússia. Já em 2015, o grupo expandiu para a Síria, onde apoiou o regime de Bashar al-Assad. (CBS News)


A África

O padrão africano é diferente do modelo de operação na Síria e na Ucrânia. Nos países africanos, o Wagner chegava como força de combate e, ao mesmo tempo, como sócio comercial. Prigozhin havia desenvolvido um modelo bastante específico: o grupo oferecia segurança e treinamento militar a governos fracos ou isolados internacionalmente, e em troca recebia concessões em minerais valiosos. Na República Centro-Africana, empresas ligadas a Prigozhin controlavam jazidas de ouro e diamantes em troca de proteção ao governo local. No Mali, investigadores da ONU documentaram que a junta militar que tomou o poder passou a depender progressivamente do Wagner para funções que antes eram do exército nacional. No Sudão, o grupo apoiava forças paramilitares rivais ao governo central enquanto operava uma planta de processamento de ouro. Em praticamente todos esses países, as Nações Unidas e organizações de direitos humanos registraram evidências de execuções em massa, tortura e outras graves violações cometidas pelos mercenários. (ACLED)
Pra entender o que estava em jogo no conflito que veio depois, é importante ter em mente que o Wagner era apenas parte do que Prigozhin havia construído ao longo de uma década. Ao lado das operações militares em vários continentes, ele controlava uma rede de empresas de mídia e desinformação cujas atividades chegaram a ser objeto de investigações criminais nos Estados Unidos, além de um complexo de empresas de catering, aviação e logística integrado de perto com o Ministério da Defesa russo. Qualquer ameaça a essa estrutura era uma ameaça direta à fortuna e ao poder pessoal de Prigozhin.
Ucrânia – 2022
A invasão em larga escala da Ucrânia em fevereiro de 2022 mudou a posição do Wagner radicalmente. O exército russo sofreu perdas pesadas logo no início da campanha, e Putin adiou por meses a mobilização formal de reservistas. Nesse vácuo, as autoridades russas passaram a buscar mercenários com urgência. Prigozhin recebeu recursos substanciais, acesso a aviação própria e, a partir do verão de 2022, autorização para recrutar diretamente nas prisões russas, oferecendo liberdade em troca de seis meses de serviço na linha de frente (falamos sobre isso aqui). O grupo cresceu de alguns milhares de combatentes para aproximadamente 50 mil homens, segundo estimativas ocidentais, sendo a maioria criminosos condenados recrutados como infantaria de assalto descartável. (PBS NewsHour)

Foi com essa configuração que o Grupo Wagner se tornou a principal força de ataque na batalha de Bakhmut, cidade industrial no leste da Ucrânia que virou o palco do confronto mais longo e sangrento da guerra. O cerco durou quase dez meses. A tática do Wagner era de desgaste: ondas de assalto usando os condenados recrutados nas prisões, acumulando perdas pesadas enquanto os militares regulares russos mantinham os flancos. Em maio de 2023, o Wagner anunciou a captura da cidade.
Mas foi durante a batalha de Bakhmut que a relação entre Prigozhin e o alto comando russo azedou de vez. Prigozhin vinha acumulando reclamações públicas contra o ministro da Defesa, Sergei Shoigu, e o chefe do Estado-Maior, Valery Gerasimov. Acusava os dois, pelo nome, de deliberadamente cortar o suprimento de munição para o Wagner, causando mortes desnecessárias entre seus combatentes. Postou vídeos no Telegram mostrando corpos de mercenários mortos, xingou os generais em linguagem bastante direta e ameaçou retirar o Wagner de Bakhmut se as entregas de munição não melhorassem. Era um confronto público com a estrutura militar sem precedente na Rússia de Putin.
Em meados de junho de 2023, o Ministério da Defesa deu o passo que Prigozhin encarou como a gota d’água ao ordenar que todos os grupos militares voluntários assinassem contratos os subordinando à cadeia de comando regular até 1º de julho. Na prática, isso extinguia a autonomia do Wagner e colocava Prigozhin sob a autoridade de Shoigu, justamente o homem que ele havia atacado publicamente por meses. Prigozhin se recusou a assinar. (Middle East Institute)
23 de junho de 2023
Na noite de 23 de junho de 2023, o que havia sido um conflito institucional virou um confronto armado. Prigozhin publicou áudios e vídeos afirmando que forças russas regulares haviam atacado um acampamento do Wagner com mísseis e helicópteros, matando um grande número de seus combatentes. O Kremlin negou. Ainda na mesma noite, Prigozhin declarou uma “marcha pela justiça” em direção a Moscou, com o objetivo declarado de destituir Shoigu e Gerasimov.

Forças do Wagner tomaram Rostov-on-Don, uma cidade de mais de um milhão de habitantes que funciona como principal hub (centro logístico e de distribuição) da retaguarda da invasão russa na Ucrânia, em menos de oito horas e praticamente sem resistência. Prigozhin apareceu pessoalmente no quartel-general militar da cidade, filmando vídeos enquanto conversava com oficiais russos que, aparentemente, não receberam ordens para reagir. Uma coluna de veículos blindados partiu de Rostov em direção norte, pela rodovia que leva a Moscou. (Al Jazeera)
Na manhã do dia 24, Putin se dirigiu ao país em discurso televisionado. Chamou a rebelião de uma facada nas costas da Rússia e do seu povo, disse que havia conversado com os comandantes de todas as frentes na noite anterior e que as tropas continuavam lutando heroicamente. Argumentou que a Rússia estava travando uma guerra dura contra a máquina militar do Ocidente e que qualquer agitação interna era uma ameaça mortal ao Estado. Deixou claro que nenhuma divisão seria tolerada enquanto o destino do povo russo estava sendo decidido no campo de batalha. A promessa final foi de que todos os traidores envolvidos seriam punidos.
A marcha

Ao longo do dia 24 de junho, a coluna avançou pelo território russo praticamente sem resistência. O prefeito de Moscou decretou operações antiterrorismo na capital. Barreiras e veículos blindados foram posicionados nas saídas ao sul da cidade. A aproximação mais próxima de Moscou com confirmação visual foi na região de Lipetsk, a cerca de 330 quilômetros ao sul da capital. Prigozhin afirmou que suas forças chegaram a 200 quilômetros de Moscou.
Prigozhin tentou falar diretamente com Putin, que recusou o telefonema. As negociações foram conduzidas com Alexander Lukashenko, o presidente da Bielorrússia e aliado próximo de Putin, que se colocou como mediador. Lukashenko disse depois que conhecia Prigozhin há vinte anos e que o convenceu ao longo de um dia inteiro de conversas. O argumento que encerrou a negociação foi direto: você não vai conseguir nem Shoigu nem Gerasimov, Putin não vai falar com você agora, e se continuar marchando, vai ser esmagado.
No fim do dia 24, Prigozhin anunciou que estava revertendo o avanço para evitar derramamento de sangue russo. As condições do acordo eram que ele se exilaria na Bielorrússia, as acusações criminais seriam descartadas e os combatentes do Wagner que participaram da marcha não seriam processados. Poucas horas depois de Putin prometer punição exemplar a todos os envolvidos, o Kremlin anunciou a extinção do processo de “rebelião armada” e a anistia geral aos mercenários, incluindo o próprio Prigozhin. Ao deixar Rostov, alguns mercenários dispararam tiros para o ar numa espécie de despedida. Tinham tomado a cidade em menos de oito horas sem precisar disparar um único tiro de combate. (Time)
Nos dias seguintes, Putin fez algo que nunca havia feito publicamente: admitiu que o governo russo havia financiado integralmente o Wagner, pagando mais de 86 bilhões de rublos, algo próximo de US$ 940 milhões, ao grupo entre maio de 2022 e maio de 2023. Era o fim de anos de negativas oficiais sobre qualquer relação entre o Kremlin e a organização (fonte) (fonte).
A morte de Prigozhin
Em 19 de julho, Prigozhin reapareceu publicamente pela primeira vez desde a rebelião, em um vídeo no qual dizia que o Wagner não voltaria a lutar na Ucrânia e que o grupo se concentraria em treinar soldados na Bielorrússia e manter as operações africanas.
Na tarde de 23 de agosto de 2023, exatamente dois meses após o início da rebelião, um jato executivo Embraer Legacy 600 decolou de Moscou com destino a São Petersburgo. A bordo estavam Prigozhin, Dmitry Utkin, Valery Chekalov (chefe de segurança e logística externa do Wagner), dois veteranos do grupo, dois guarda-costas e três tripulantes. O avião caiu perto da aldeia de Kuzhenkino, na região de Tver, a cerca de 100 quilômetros ao norte de Moscou, matando todos os dez a bordo. Moradores da região relataram ter ouvido uma forte explosão antes de ver o avião despencar em queda livre. (Reuters)



O Kremlin ficou em silêncio nas horas seguintes. Putin naquele mesmo dia comparecia a uma cerimônia comemorando os 80 anos da vitória soviética na Batalha de Kursk e não fez nenhuma declaração pública sobre o acidente. Vídeos que circularam nas redes sociais mostravam o avião em queda vertical, deixando rastro de fumaça. O canal do Telegram ligado ao Wagner, conhecido como Grey Zone, afirmou que o avião havia sido abatido pelo sistema de defesa antiaérea russo, informação que não pôde ser verificada de forma independente. Na mesma data, a imprensa russa noticiou que o general Sergei Surovikin, antigo comandante das operações russas na Ucrânia e figura associada a Prigozhin, havia sido exonerado do comando da força aérea. (Al Jazeera)
Os dados de rastreamento de voo mostraram variações abruptas de altitude antes da queda. A avaliação preliminar da inteligência americana concluiu que uma explosão intencional havia derrubado o avião. Em outubro de 2023, o próprio Putin confirmou que os corpos das vítimas continham fragmentos de granadas de mão, embora tenha descartado a hipótese de impacto externo e apresentado a versão oficial de falha nos procedimentos de segurança de voo. Fontes de inteligência britânica apontaram o FSB como o mais provável responsável. Prigozhin foi enterrado ao lado do pai, em cerimônia privada em São Petersburgo. Putin não compareceu ao funeral. (ABC News)
Depois das mortes de Prigozhin e Utkin, as unidades do Wagner foram gradualmente integradas à Guarda Nacional russa e a outras estruturas do Estado. As operações africanas continuaram sob outros arranjos institucionais, mas o grupo como projeto pessoal de Prigozhin deixou de existir.
O que aconteceu com Prigozhin e o Grupo Wagner é um exemplo clássico do que a gente chama de guerra por procuração (ou proxy war).
É quando uma potência grande não quer (ou não pode) colocar suas tropas regulares lutando diretamente, então usa “procurações” — grupos armados, empresas militares privadas ou aliados locais — para fazer o trabalho sujo. O Wagner era exatamente isso: um instrumento que a Rússia podia negar quando dava errado, mas que entregava resultados no campo de batalha, na Síria, na Ucrânia e especialmente na África.
Esse tipo de conflito indireto virou uma das marcas do mundo de hoje. Já escrevi aqui no blog sobre como várias guerras e disputas atuais funcionam assim, evitando um confronto direto entre as grandes potências O caso do Prigozhin mostra tanto o poder quanto o perigo desse modelo: o “procurador” pode crescer demais, ganhar vontade própria e acabar virando um problema para quem o criou (leia o texto sobre proxy war aqui).
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