As Malvinas e a reivindicação argentina
Você provavelmente viu a resposta de Trump na segunda-feira (31/08), quando foi perguntado no Salão Oval sobre a soberania das Ilhas Malvinas e disse que revisa todas as posições, afirmando que aquela era apenas mais uma entre tantas. Foi uma resposta breve, sem anúncio formal, mas suficiente para virar manchete em Londres e Buenos Aires no mesmo dia (fonte).
O que ela agita é uma posição congelada desde 1982. Os Estados Unidos reconhecem de fato a administração britânica sobre o arquipélago e não se posicionam sobre quem tem direito à soberania, algo repetido por todos os governos americanos, sejam republicanos ou democratas. Quando o presidente afirma que a posição está sendo revista, não altera nada juridicamente, mas tira do congelador uma questão parada há mais de quarenta anos. E para Buenos Aires, até a ambiguidade já representa movimento.
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Em abril deste ano vazou um e-mail interno do Pentágono sugerindo revisar o apoio americano a antigas possessões imperiais europeias, e o Departamento de Estado correu para reafirmar que a posição sobre as ilhas continuava sendo de neutralidade (fonte). O que apareceu depois, pela imprensa britânica, é que a ideia estava dentro de um pacote de medidas para pressionar aliados a cumprir a meta de 5% do PIB em defesa acordada na OTAN (já escrevemos sobre essa disputa dos gastos militares aqui). O Reino Unido do novo primeiro-ministro Andy Burnham receberia “atenção especial”, e a atenção especial seria exatamente essa, ameaçar contestar a soberania sobre as Malvinas. Ou seja, as ilhas entraram na conversa como moeda de barganha orçamentária, não como questão de mérito.
Só que pra Argentina isso nunca foi barganha, e é aí que a história do arquipélago precisa ser contada com calma. Ela é confusa desde o começo, e essa confusão é justamente o que sustenta os dois lados da disputa até hoje.
Os franceses chegaram primeiro com uma colônia, em 1764, na ilha que hoje se chama Malvina Oriental. No ano seguinte os britânicos ocuparam a Malvina Ocidental sem saber da presença francesa. A Espanha comprou o assentamento francês por volta de 1767 e, em 1770, expulsou os britânicos à força. Quase deu guerra na Europa, e o posto britânico foi restaurado em 1771. Só que em 1774 os britânicos foram embora por questão de custo, deixando uma placa que registrava a reivindicação. A Espanha ficou na ilha oriental até 1811. Em 1820, o governo de Buenos Aires, que havia declarado independência em 1816, proclamou soberania sobre as ilhas (fonte).
Esse ponto de 1820 é a base de tudo pro lado argentino, e vale explicar direito. Quando as colônias espanholas da América viraram países independentes, elas herdaram as fronteiras administrativas que a Espanha tinha desenhado, cada nova república ficando com o território da divisão colonial que lhe correspondia. As Malvinas eram administradas a partir do vice-reinado do Rio da Prata, que virou Argentina. Pela leitura argentina, portanto, as ilhas entraram no país no dia em que o país nasceu, do mesmo jeito que qualquer província do continente, e não são território distante conquistado depois.
Aí entra um personagem que costuma ser esquecido nas versões resumidas, Luis Vernet, um comerciante que recebeu concessão de Buenos Aires em 1828 e montou um povoado com gado e caça à foca. Vernet resolveu regular a caça nas águas em volta e, em 1831, apreendeu três navios americanos que estavam caçando focas na região. A resposta veio da corveta USS Lexington, que destruiu o assentamento argentino. No começo de 1833, com o lugar já esvaziado, uma força britânica chegou e expulsou os poucos que restavam.
Essa ordem dos acontecimentos explica boa parte do incômodo argentino com Washington. O primeiro país a desmontar a presença argentina nas ilhas não foi o Reino Unido, foi os Estados Unidos, um ano e pouco antes. E é sobre 1833 que a Argentina construiu seu argumento central, que ela sustenta até hoje nos fóruns internacionais. Na versão do próprio governo argentino, a corveta britânica HMS Clio tomou Porto Soledad em 3 de janeiro de 1833 e expulsou a Argentina das ilhas, suas autoridades e parte da população, impedindo que o país reconstruísse o assentamento que tinha levado anos para erguer (fonte). Se isso é verdade, os moradores de hoje não seriam um povo colonizado com direito a decidir seu destino, e sim a população da potência que ocupou, e aplicar autodeterminação ali seria transformar uma posse ilegítima em soberania plena. A Argentina protesta diplomaticamente desde então, sem interrupção, com exceção do período da guerra.
Em dezembro de 1965 a Assembleia Geral da ONU aprovou a resolução 2065, que reconhece a existência de uma disputa de soberania entre Argentina e Reino Unido e convida os dois governos a negociar sem demora uma solução pacífica, considerando os interesses da população das ilhas (fonte). Foram anos de negociação nos anos 1960 e 1970 que não chegaram a lugar nenhum. Repare na palavra “interesses”, porque ela não está ali por acaso. O texto fala em interesses da população, e não em desejos dela, e essa diferença de uma palavra é o centro da briga jurídica. Londres defende que os moradores têm direito de escolher, o que resolveria a disputa na hora. Buenos Aires responde que a ONU mandou considerar o bem-estar deles, não entregar a eles o voto de desempate (já contamos aqui de onde vem esse princípio de autodeterminação).
Quando a via diplomática travou de vez, a junta militar argentina invadiu as ilhas em 2 de abril de 1982. Margaret Thatcher enviou uma task force (força-tarefa naval montada para uma operação específica) e retomou o território em 14 de junho. Morreram 649 argentinos, 255 britânicos e três moradores das ilhas. Ronald Reagan começou neutro, tentou mediar, e quando as conversas de paz travaram passou a dar apoio militar e de inteligência aos britânicos (fonte).
A guerra derrubou a ditadura argentina em poucos meses e consolidou Thatcher no poder por mais uma década. E deixou uma ferida, porque os que morreram lá eram, em grande parte, conscritos muito jovens mandados por um regime que usava a causa para se sustentar. Isso produziu uma situação delicada dentro da própria Argentina, que é separar a reivindicação, considerada legítima por praticamente todo o espectro político do país, da aventura militar de uma ditadura em decadência. O 2 de abril virou data nacional dedicada aos veteranos e aos mortos, não à invasão.
O tamanho que o tema ocupa por lá é difícil de dimensionar de fora. Quando a Argentina reformou sua Constituição em 1994, já em plena democracia, colocou a questão no próprio texto constitucional, dizendo que a nação ratifica sua soberania legítima e imprescritível sobre as Malvinas, Geórgias do Sul e Sandwich do Sul e os espaços marítimos correspondentes, por serem parte integrante do território nacional, e que recuperar esses territórios respeitando o modo de vida dos habitantes é objetivo permanente e irrenunciável do povo argentino (fonte). Não é declaração de governo que muda com a eleição, é cláusula constitucional. As ilhas aparecem nos mapas oficiais, integram administrativamente a província da Terra do Fogo e o assunto é conteúdo obrigatório na escola. Um governo argentino que abrisse mão disso estaria violando a própria Constituição.
Em março de 2013 os moradores foram às urnas responder se queriam continuar sendo território ultramarino britânico. Foram 1.517 votos, três contra, comparecimento acima de 90%, o que dá 99,8% pela permanência (fonte). O governo britânico usa esse resultado como base de toda a sua posição, e reafirmou isso num discurso oficial na Organização dos Estados Americanos em junho de 2026, dizendo que a vontade dos moradores vem antes de qualquer outra consideração e que não há negociação de soberania sem o consentimento deles (fonte). A Argentina não reconhece o resultado, e a lógica é a mesma de sempre, que é dizer que consultar a população instalada pelo ocupante não responde a pergunta que está em jogo. Comparações com a devolução de Hong Kong ou de Macau à China aparecem de vez em quando no debate argentino, mas o caso é diferente, porque naqueles territórios havia uma população local majoritária de origem chinesa (contamos a história de Macau aqui).
Só que a disputa deixou de ser só simbólica faz tempo, e isso tem a ver com dinheiro. Muita gente imagina as Malvinas como um pedaço de rocha pobre no meio do mar, sustentado por subsídio britânico. Não é bem assim.
São 11.718 quilômetros quadrados, cerca de 480 quilômetros da costa argentina, e pouco mais de 3.600 habitantes, segundo o censo de 2021 (fonte). A economia parou de depender de ovelha nos anos 1980 e passou a depender de pesca. As contas nacionais do governo local mostram que pesca e aquicultura respondem por algo perto de 58% do PIB, com PIB por habitante em torno de 86 mil libras, algo em torno de 116 mil dólares, número que fica acima do britânico (fonte). O grosso disso vem da venda de licenças para frotas estrangeiras pescarem lula na zona econômica em volta das ilhas.
E é exatamente aqui que a conta pesa do lado argentino. Cada licença vendida em Stanley, a capital do arquipélago, onde fica a sede do governo local, é uma receita que a Argentina considera que deveria ser dela, tirada de uma área que ela trata como sua zona econômica exclusiva. Em 2022 o governo das ilhas publicou a resolução que estendeu os direitos de pesca das principais empresas por 25 anos a partir de 2023, com vigência até 2047, habilitando frotas da Espanha, Taiwan, Coreia do Sul, Vanuatu e Reino Unido a operar naquelas águas (fonte). Deputados argentinos chamam isso de pesca ilegal licenciada. Londres e Stanley tratam como administração normal de um território próprio. Cada licença renovada por 25 anos é um fato consumado a mais empilhado contra a reivindicação argentina, e é por isso que a briga sobre lula importa tanto quanto a briga sobre bandeira.
O que muda de patamar agora é o petróleo. O campo Sea Lion, descoberto na bacia ao norte das ilhas em 2010, ficou quinze anos parado por preço baixo e falta de dinheiro. Em dezembro de 2025 saiu a final investment decision (decisão final que libera o dinheiro e trava o cronograma de um projeto), tomada pela israelense Navitas Petroleum, que opera o campo, junto com a britânica Rockhopper. A avaliação independente mais recente aponta 917 milhões de barris de recursos contingentes 2C (categoria técnica para volume estimado ainda sem contrato de venda firmado, mais conservadora que reserva provada) no campo inteiro, dos quais 321 milhões correspondem à participação de 35% da Rockhopper. A primeira fase mira 170 milhões de barris e pico de produção perto de 50 mil barris por dia, a um custo de 1,8 bilhão de dólares até o primeiro óleo e 2,1 bilhões até a conclusão do projeto, com primeiro óleo previsto para 2028 (fonte).
A receita estimada para o governo das ilhas ao longo da vida do projeto gira em torno de 4 bilhões de libras, algo como 5,4 bilhões de dólares. Distribuído por três décadas e por 3.600 pessoas, dá um número que praticamente nenhum território desse tamanho no mundo alcança. A Argentina classificou o projeto como unilateral e ilegítimo, e já declarou as duas empresas operadoras clandestinas, com proibição de atuar em território argentino.
Tem ainda a camada estratégica, e ela também vale pros dois lados. As Malvinas funcionam como porta de entrada britânica para o Atlântico Sul e para a Antártica, sustentando também a administração da Geórgia do Sul e das Sandwich do Sul, num arranjo que combina soberania, segurança e gestão de recursos naturais (fonte). É a base de Mount Pleasant que garante presença militar britânica permanente no hemisfério sul, e é a partir dela que o Reino Unido sustenta sua reivindicação antártica, que se sobrepõe às reivindicações argentina e chilena. A Argentina mantém presença antártica ininterrupta desde 1904 e enxerga as ilhas como peça do mesmo conjunto, ligando o continente, o Atlântico Sul e o setor antártico que reivindica. Perder ou ganhar as ilhas altera a posição dos dois países em tudo isso de uma vez. O raciocínio é o mesmo que faz os americanos olharem há mais de um século para uma ilha gelada do outro extremo do mundo (já falamos do caso da Groenlândia aqui).
Um detalhe importante de mencionar é a posição do próprio Javier Milei nessa história. Ele é provavelmente o aliado mais próximo de Trump na América Latina, mantém a reivindicação prevista na Constituição e já disse publicamente que gostaria que os moradores das ilhas um dia escolhessem ser argentinos, uma fala que se aproxima do princípio de autodeterminação que Londres usa como argumento central e que a diplomacia argentina rejeita há sessenta anos. Foi uma declaração mal recebida em casa por isso. É uma posição desconfortável, porque a aproximação com Washington é justamente o ativo que Buenos Aires tem, e usar esse ativo para forçar a mão britânica significa depender de um instrumento que não está sob controle argentino.
Uma outra observação que podemos fazer é que nada disso indica que os Estados Unidos vão apoiar a reivindicação argentina. A frase de Trump não é apoio, é sinalização de que a neutralidade deixou de ser um dado permanente e virou algo negociável. O alvo não é Buenos Aires, é Londres, e o assunto real é orçamento de defesa. O que acontece é que a moeda escolhida para essa negociação está escrita na Constituição de outro país e agora tem petróleo em cima.
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