MKULTRA

MKUltra: o programa de controle mental da CIA

Dezembro de 2024 trouxe à tona algo que muitos imaginavam perdido para sempre. O National Security Archive, em parceria com a ProQuest, divulgou mais de 1.200 documentos sobre o programa MKUltra — a tentativa mais ambiciosa e aterrorizante da CIA de controlar a mente humana. Não é exagero dizer que estamos diante de um dos capítulos mais sombrios da história da inteligência americana, agora documentado com precisão cirúrgica.

O que impressiona nesses papéis não é apenas a brutalidade, mas a sistemática frieza com que tudo foi conduzido. Entre 1953 e 1973, sob o nome-código MKUltra — e seus precursores Bluebird e Artichoke — a CIA experimentou em milhares de pessoas, muitas delas cidadãos americanos que não tinham a menor ideia do que lhes estava sendo feito. Drogas psicoativas em doses cavalares, privação sensorial, eletrochoques, hipnose. Tudo em nome da segurança nacional, tudo secreto, tudo sem supervisão real.

O cérebro do MK-Ultra
Allen W. Dulles supervisionou operações secretas da CIA e foi responsável pela expansão do programa de controle mental, que acabou fracassando nos anos 1950.
© Bettman/Getty Images

O químico Sidney Gottlieb

Sidney Gottlieb era uma figura improvável para o papel que desempenharia. Nascido no Bronx, filho de imigrantes judeus húngaros, gago desde a infância, com pé torto que o impediu de servir na Segunda Guerra. Apaixonado por dança folclórica. Depois de se aposentar da CIA, fez mestrado em fonoaudiologia. Nada nele sugeria o arquiteto de um dos programas mais sinistros da história americana. Stephen Kinzer, que escreveu sua biografia, chamou-o de “o torturador de coração gentil” — e há algo perturbador nessa contradição.

Gottlieb tinha uma teoria de duas etapas para o controle mental: primeiro, era preciso “explodir” a mente existente; depois, inserir uma nova mente no vazio resultante. Parece ficção científica, mas era política oficial da CIA. A agência queria um “soro da verdade” para interrogatórios, drogas que pudessem incapacitar inimigos, substâncias capazes de provocar amnésia em espiões. Em resumo: controle total sobre o comportamento humano.

O LSD tornou-se sua obsessão central. Em 1953, Gottlieb convenceu a CIA a comprar todo o estoque mundial da droga — 240 mil dólares em LSD. Depois, a farmacêutica Eli Lilly desenvolveu um processo para fabricá-la em “quantidades de toneladas”, tornando-se a fornecedora oficial da agência. O que Gottlieb e seus superiores não imaginavam era que o LSD, que pretendiam usar para controlar pessoas, acabaria alimentando toda uma contracultura dedicada a destruir tudo aquilo que a CIA defendia.

Midnight Climax: as casas do horror

Mas os experimentos de laboratório não eram suficientes. Gottlieb acreditava que testar drogas em ambientes controlados não revelaria seu potencial real. Foi assim que nasceram as “casas seguras” — apartamentos em São Francisco e Nova York onde a CIA, em colaboração com o agente federal de narcóticos George Hunter White, contratava prostitutas para atrair clientes. Lá, os homens eram secretamente dosados com LSD e outras substâncias enquanto agentes os observavam através de espelhos falsos. A operação ganhou o codinome “Midnight Climax” — Clímax da Meia-Noite.

O que acontecia nesses lugares era surreal. Há relatos de um operativo da CIA que, após ser dosado no café da manhã, ficou psicótico e correu pelas ruas de Washington vendo monstros em cada carro que passava. Um documento descreve outro sujeito que teve uma “reação paranoica clássica grave” após receber uma dose alta da droga sem saber.

Documentação divulgada

Os papéis recém-divulgados não deixam margem para dúvida. Há um memorando de 1950 aprovando “equipes de interrogação” que usariam polígrafo, drogas e hipnose. Um relatório de 1952 celebrando o uso “bem-sucedido” de narcóticos e hipnose para induzir amnésia em “agentes russos suspeitos de terem sido virados”. Uma entrada no diário de George White — o agente que operava as casas secretas — registrando sua contratação por Gottlieb em junho de 1952: “Gottlieb propõe que eu seja consultor da CIA – concordo.”

Há também o documento de 1956 em que Gottlieb autoriza experimentos com “grandes doses de LSD-25 em voluntários humanos normais” — prisioneiros federais em Atlanta. E o devastador relatório do inspetor-geral de 1963, que levou a liderança da CIA a reconsiderar os testes em americanos inconscientes. Mas note bem: o problema não era a ética em si. Era o risco de exposição.

Particularmente revelador é o depoimento de Gottlieb em 1983, tornado público agora, onde ele admite entre “um e cinco” interrogatórios pessoais e confirma que documentos das casas secretas foram “especificamente destruídos” em 1972-73. Quando confrontado com um memorando que descrevia “a administração secreta de materiais fisiologicamente ativos a sujeitos inconscientes”, Gottlieb escreveu que “a natureza altamente não ortodoxa dessas atividades e o risco considerável” tornavam “impossível exigir que eles forneçam um recibo”.

As vítimas

O programa operou através de 149 subprojetos, envolvendo pelo menos 80 instituições — 44 universidades, 185 pesquisadores. Lugares respeitados como Georgetown, Cornell, Stanford, McGill. Em Georgetown, a CIA doou 375 mil dólares para a construção de um novo prédio médico em troca do uso de um sexto do anexo Gorman como “casa segura hospitalar”, com acesso a “pacientes humanos e voluntários para uso experimental”.

O caso mais infame aconteceu no Allan Memorial Institute, em Montreal, onde o psiquiatra Ewen Cameron — presidente das associações psiquiátricas americana, canadense e mundial — conduziu experimentos de “desprogramação”. Cameron submetia pessoas a eletrochoques com 30 a 40 vezes a potência normal, doses massivas de LSD por meses seguidos, comas induzidos por drogas que duravam até três meses. Pacientes que chegavam com ansiedade ou depressão pós-parto saíam incontinentes, amnésicos, incapazes de falar, sem reconhecer os próprios pais. Uma vítima, Velma Orlikow, descreveu os efeitos como “estupro mental”.

Em Kentucky, no Centro de Pesquisa sobre Dependência em Lexington, o dr. Harris Isbell testou LSD em prisioneiros — predominantemente afro-americanos marginalizados — oferecendo drogas em troca de participação. Sete homens receberam LSD por 77 dias consecutivos. Os relatos são perturbadores: paranoia total, perda de apetite, alucinações de sangue saindo das paredes, esqueletos se materializando diante deles.

E há Frank Olson, o bioquímico do Exército que em 1953 caiu de uma janela do 13º andar em Nova York, uma semana depois de Gottlieb ter colocado LSD em sua bebida durante um retiro de trabalho. Segundo Stephen Kinzer, Olson havia se aproximado de seus superiores semanas antes de sua morte, questionando a moralidade do projeto e pedindo para deixar a CIA. A agência classificou como suicídio. A família nunca acreditou — e até hoje suspeita de assassinato para silenciá-lo.

Em 1973, quando Richard Helms deixou a direção da CIA, ele e Gottlieb ordenaram a destruição de praticamente todos os arquivos do MKUltra. Caixas e caixas de documentos foram incineradas. Registros de experimentos, nomes de vítimas, detalhes de subprojetos — tudo virou cinzas. O pretexto era rotineiro: limpeza de arquivos antigos. A realidade é que Helms sabia que o Watergate estava abrindo as comportas da investigação sobre abusos de poder.

Mas aconteceu algo extraordinário. Em 1977, um funcionário da CIA encarregado de responder a pedidos da Lei de Liberdade de Informação fez uma busca particularmente minuciosa. Ele revisou até os arquivos da Seção de Orçamento e Fiscal, que normalmente não guardava documentos de projetos sensíveis. E encontrou sete caixas de documentos financeiros do MKUltra — aproximadamente 20 mil páginas que, por alguma quebra de protocolo em 1970, tinham sido arquivadas separadamente e escaparam da fogueira de 1973.

Dezembro de 1974 trouxe a reportagem devastadora de Seymour Hersh no New York Times sobre atividades ilegais da CIA. O que se seguiu foi chamado de “Ano da Inteligência” — 1975 viu três investigações convergirem para expor os abusos das agências de espionagem.

Em outubro de 1975, Gottlieb — já aposentado há dois anos — foi convocado a depor. Em seu testemunho secreto, desclassificado apenas 50 anos depois, em 2025, ele admitiu que a CIA experimentou “tantos fracassos quanto sucessos” com LSD. Avaliou que o programa provavelmente não valeu o investimento. Mas quando questionado sobre testar drogas em pessoas sem o conhecimento delas, respondeu que essa falta de consciência “poderia ter sido a coisa chave”.

A família de Frank Olson recebeu 750 mil dólares em indenização e pedidos formais de desculpas do presidente Ford. Em agosto de 1977, o almirante Stansfield Turner, então diretor da CIA, testemunhou perante o Congresso ao lado do senador Ted Kennedy, admitindo a extensão do programa e prometendo que experimentos desse tipo não ocorreriam novamente.

Como Stephen Kinzer aponta, as técnicas desenvolvidas ali influenciaram diretamente os métodos de interrogação usados no Vietnã, nas ditaduras anticomunistas da América Latina, em Guantánamo, no Iraque, no Afeganistão. O manual KUBARK de 1963 da CIA, base dos interrogatórios por décadas, cita diretamente pesquisas do MKUltra.

Sidney Gottlieb morreu em 7 de março de 1999, em sua casa na Virgínia. Após deixar a CIA em 1973, trabalhou como voluntário em uma clínica para leprosos na Índia e depois em um abrigo para desabrigados. Quando confrontado sobre seu passado, alegava ter pouca lembrança dos detalhes. Nunca expressou remorso pelas vidas destruídas. Sua família destruiu seus registros pessoais após sua morte — assim como Helms em 1973, Gottlieb garantiu que sua versão da história nunca seria totalmente conhecida.

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