Por que o Peru teve nove presidentes em dez anos

O Peru acabou de viver uma das eleições mais apertadas da história recente da América do Sul. No segundo turno de 7 de junho, o candidato de esquerda Roberto Sánchez e a candidata de direita Keiko Fujimori passaram dias trocando de posição na apuração. Com 98% das atas contabilizadas, Keiko liderava por apenas 561 votos, com 50,002% contra 49,998% de Sánchez, num universo de mais de 18 milhões de votos. A autoridade eleitoral já avisou que o resultado final pode sair só em meados de julho, porque ainda faltam atas do exterior, das áreas rurais e quase 450 mil votos em atas impugnadas que precisam ser revisadas uma a uma.

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E aqui um detalhe: Quem vencer essa disputa será o nono presidente do Peru em apenas dez anos.O Brasil, que a gente costuma achar politicamente conturbado, teve três no mesmo período. O que a gente vai ver aqui é como o Peru chegou nesse ponto, por que nenhum presidente consegue terminar o mandato e o que isso explica sobre o desenho do sistema político peruano, que segue com a economia funcionando bem mesmo no meio de toda essa bagunça.

1993

Pra entender a instabilidade peruana, a gente precisa começar pela Constituição de 1993, escrita durante o governo de Alberto Fujimori, pai da Keiko que está disputando a eleição agora. Essa Constituição tem um artigo, o 113, que permite ao Congresso destituir o presidente por vacância (perda do cargo) em caso de “incapacidade moral permanente”. O problema é que ninguém nunca definiu direito o que significa essa “incapacidade moral”. Na prática, virou um cheque em branco. Basta o Congresso reunir 87 votos entre os 130 parlamentares e o presidente cai, sem precisar provar crime nenhum (Congreso de la República, LP Derecho).

Curioso que essa expressão, lá na origem, no século XIX, nem queria dizer “imoralidade”. Ela se referia a uma incapacidade mental do governante, alguém que tivesse perdido a razão e por isso não pudesse mais decidir. Com o tempo, os congressistas peruanos passaram a interpretar “incapacidade moral” como má conduta ética, e foi essa virada de sentido que transformou o artigo numa arma política comum (Chornancap Revista Jurídica). A partir de 2017, governar o Peru virou uma guerra permanente entre o palácio presidencial e o Congresso.

Odebrecht

O estopim de boa parte disso tem nome brasileiro. Quando o escândalo da Lava Jato chegou ao Peru pela Odebrecht, a partir de 2016, o resultado foi similar ao que ocorreu no Brasil. A empreiteira admitiu ter pago cerca de 29 milhões de dólares em propinas no país, dinheiro que respingou em praticamente toda a classe política. Quatro ex-presidentes foram parar na investigação. Alejandro Toledo acabou extraditado dos Estados Unidos e condenado a mais de 20 anos de prisão por ter recebido 35 milhões de dólares da empresa. Ollanta Humala foi condenado a 15 anos. E Alan García, que tinha sido presidente duas vezes, se matou em 2019 no momento em que a polícia chegava à sua casa para prendê-lo (CNN Brasil, Metrópoles).

Quando a corrupção atinge todos os partidos ao mesmo tempo, o eleitor perde a referência. Foi isso que aconteceu no Peru. Os partidos tradicionais derreteram e o sistema político virou um amontoado de legendas de aluguel, sem ideologia, sem base, sem lealdade. Esse vácuo é o pano de fundo de tudo que veio depois.

A lista

Agora vamos à sequência de presidentes, porque ela é realmente impressionante. Pedro Pablo Kuczynski, o tal PPK, foi eleito em 2016 e renunciou em março de 2018, horas antes de uma votação de vacância, depois que vazaram vídeos de aliados negociando votos de congressistas. O motivo de fundo eram pagamentos da Odebrecht a empresas ligadas a ele (Reuters via AOL).

Assumiu o vice, Martín Vizcarra. Ele até ganhou popularidade brigando com o Congresso e chegou a dissolver o parlamento em 2019. Só que o Congresso novo, eleito em 2020, devolveu o favor e o destituiu em novembro daquele ano, alegando incapacidade moral por supostas propinas de quando ele era governador. Vizcarra tinha mais de 50% de aprovação na hora em que caiu.

Quem entrou no lugar foi Manuel Merino, presidente do Congresso. Esse durou exatos cinco dias. A população foi pra rua em protestos enormes contra o que viu como um golpe parlamentar, a repressão policial matou dois jovens manifestantes, e Merino renunciou (Wikipédia, 2020 Peruvian protests).

No lugar dele veio Francisco Sagasti, um engenheiro respeitado que fez o papel de presidente de transição até as eleições de 2021. Foi o único dessa lista toda que saiu pela porta da frente, mas só porque o mandato dele era exatamente esse, entregar a faixa.

Aí a gente chega em Pedro Castillo, o professor rural de chapéu que venceu Keiko Fujimori em 2021 por uma margem de 44 mil votos, numa eleição tão apertada quanto a de agora. Castillo governou em conflito aberto com o Congresso desde o primeiro dia, trocou de ministros mais de 70 vezes e, em dezembro de 2022, quando ia enfrentar a terceira tentativa de vacância, tentou um autogolpe. Anunciou na televisão a dissolução do Congresso e a intervenção no Judiciário. Não tinha apoio nem das Forças Armadas nem da própria polícia. Em poucas horas foi destituído, preso e levado pra mesma penitenciária onde estava Alberto Fujimori (Reuters via AOL).

Subiu então a vice, Dina Boluarte. O começo do governo dela foi marcado por protestos gigantes no sul andino, que era a base eleitoral de Castillo, e a repressão deixou dezenas de mortos. Boluarte se segurou por quase três anos com apoio do Congresso de direita, mas chegou a 2025 com aprovação na casa dos 3%, no meio de uma explosão de extorsões e crime organizado. Em outubro de 2025, depois de um tiroteio durante um show do grupo Agua Marina em Lima, o Congresso aprovou a vacância dela por 118 votos a zero (La Jornada, Infobae).

Quem assumiu foi José Jerí, presidente do Congresso, 38 anos, com mandato interino até julho de 2026, justamente pra conduzir o país até a eleição que está sendo apurada agora (Ámbito).

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As regras

Um outro detalhe sobre o Peru. A instabilidade não nasce de golpe militar, daquele com tanque na rua. Ela nasce dentro das próprias regras do jogo. O desenho institucional peruano junta três ingredientes que, somados, formam uma receita de crise permanente.

O primeiro é a vacância por incapacidade moral, aquele cheque em branco que a gente já viu. O segundo é a fragmentação partidária extrema. O Congresso peruano costuma ter dez ou mais bancadas, nenhuma com maioria, e os partidos são tão fracos que muitos parlamentares trocam de legenda no meio do mandato. Presidente nenhum consegue montar uma base estável nesse ambiente. O terceiro é a proibição de reeleição imediata, que transforma todo presidente num pato manco (presidente politicamente enfraquecido, sem força pra emplacar suas pautas) desde o primeiro dia.

Cientistas políticos que estudam o caso, como Steven Levitsky, de Harvard, já descreviam o Peru como uma “democracia sem partidos” num trabalho de 2003 sobre a era Fujimori, e a ideia segue valendo pra explicar a crise de hoje. As eleições acontecem, são limpas, o voto é respeitado. Mas o que vem depois da eleição não funciona, porque não existem organizações políticas capazes de sustentar um governo. Cada presidente chega ao poder sozinho, com uma legenda improvisada, e o Congresso vira um mercado de votos avulsos (Cambridge / Latin American Politics and Society).

A economia

Uma outra questão que vale mencionar é o contraste entre o caos político e a economia. Durante boa parte dessas crises, o Peru manteve inflação baixa, dentro da meta do banco central de 1% a 3%, dívida pública entre as menores da América Latina e uma moeda das mais estáveis do continente. O banco central é comandado pelo mesmo presidente, Julio Velarde, desde 2006, atravessando governo após governo sem mudar o rumo. E o país é o terceiro maior produtor mundial de cobre, então a mineração segue exportando independentemente de quem ocupa o palácio (CNN Brasil, NeoFeed).

Esse descolamento ajuda a entender por que a crise se arrasta sem explodir de vez. A máquina econômica roda quase no piloto automático, com as regras fiscais e monetárias blindadas da política. Só que esse modelo tem limite. O investimento privado sofre com a incerteza, a criminalidade cresceu de forma assustadora nos últimos anos, com a extorsão virando uma espécie de epidemia nas cidades, e a pobreza voltou a subir depois da pandemia. A economia segura o país, mas não resolve o problema político.

2026

A eleição de agora repete um padrão que o Peru já conhece bem. Em 2021, Castillo e Keiko ficaram separados por 44 mil votos e a proclamação do vencedor demorou semanas, com a derrotada alegando fraude sem nunca apresentar provas (Diario de Cuyo). Agora a margem é ainda menor, e Keiko, na quarta vez que tenta chegar à presidência, já mobilizou mais de cem advogados pra brigar ata por ata.

Seja quem for o vencedor, ele vai assumir com metade do país contra, um Congresso fragmentado e o mecanismo da vacância intacto, pronto pra ser acionado de novo. As mesmas regras que derrubaram os últimos presidentes continuam todas valendo. O Peru tem eleição limpa e voto respeitado, mas ainda não descobriu como fazer um presidente eleito conseguir, de fato, governar.

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