Como a SpaceX transformou trabalhadores comuns em milionários
Tenho acompanhado nesses dias as críticas em volta de Elon Musk desde que ele virou o primeiro trilionário da história. As pessoas criticam de forma automática, principalmente porque ele apoiou o Trump e isso o tornou um inimigo político pra uma porção grande do espectro ideológico. Mas, sinceramente? Quero apontar o que significa tudo isso para o mercado de capitais. Vamos deixar de lado os amores e ódios políticos, porque a vida não se resume ao embate de rede social de esquerda vs direita.
O que quero mostrar é como o maior IPO (oferta pública inicial de ações, quando uma empresa abre seu capital na bolsa de valores) da história afetou a vida concreta de pessoas comuns, muitas delas nem sabiam direito o que era uma ação quando começaram a acumulá-las. Essa é a parte que quase ninguém está discutindo.
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Como isso funciona
Pra entender o que aconteceu com esses funcionários, vale dois minutos explicando como esse negócio de ações funciona, porque é mais simples do que parece.
Imagine que a SpaceX é uma padaria muito grande. As ações são como pedaços dessa padaria, e quem tem uma ação é dono de uma fatia minúscula do negócio. Quando a padaria vai bem e cresce, a sua fatia vale mais. Quando vai mal, vale menos.
Quando uma empresa faz um IPO, ela está colocando esses pedaços no mercado aberto pela primeira vez. E o dinheiro dessa venda vai direto pro caixa da empresa pra ela investir, contratar gente ou expandir. A SpaceX captou 75 bilhões de dólares nessa abertura pra financiar o ritmo de lançamentos do Starship (o foguete mais poderoso já construído) e desenvolver projetos futuros, incluindo a rede de internet via satélite mais famosa do mundo atualmente, Starlink, que faz parte da empresa. Isso é o chamado mercado primário (quando a empresa vende ações novas e o dinheiro entra direto no caixa dela).
Mas tem um outro detalhe que a maioria das pessoas desconhece. Depois do IPO, quem compra e vende ações na bolsa não está mais mandando dinheiro pra empresa. Está comprando de outra pessoa que já tinha aquelas ações. Se você compra ações da SpaceX hoje, o dinheiro vai pro bolso de quem te vendeu, não pro caixa da SpaceX. Isso é o mercado secundário (onde acontece praticamente tudo que a gente vê nas notícias sobre bolsa no dia a dia). A empresa só recebe dinheiro novo de verdade quando emite ações novas de propósito, seja no IPO ou numa rodada de captação futura.
É exatamente aqui que a história dos funcionários da SpaceX entra, porque eles acumularam ações ao longo dos anos e agora, com a abertura de capital, podem finalmente vendê-las no mercado.
Por décadas, a SpaceX adotou um modelo direto de remuneração: salários um pouco abaixo do mercado, complementados com ações da empresa. Parte do salário era paga em participação no negócio, não em dinheiro vivo. As ações levavam cinco ou mais anos pra vencer completamente (o chamado vesting period, ou período de carência), então o funcionário precisava ficar na empresa durante todo esse tempo pra ganhar o que tinha direito. E havia liquidez limitada: duas vezes por ano, a SpaceX organizava eventos onde os funcionários podiam vender uma pequena quantidade no mercado privado. Fora isso, ficava parado, esperando uma empresa abrir capital que o próprio Musk repetia que nunca ia acontecer. (New York Times via Quartz)
Muitos funcionários não aguentaram a espera e venderam as ações achando que a empresa nunca faria isso. Há relatos entre os trabalhadores de que alguns dos primeiros funcionários chegaram a trocar suas participações por gift cards de restaurantes como o Chili’s e hoje estão consumidos de arrependimento. (The Mirror)
Quem ficou viu uma história completamente diferente.
Um trilhão no papel, não no bolso
Antes de qualquer coisa, vale desfazer um mal-entendido que aparece muito nessa discussão toda. Quando a Forbes ou a Bloomberg diz que Musk vale um trilhão de dólares, esse número não está em conta-corrente esperando ele gastar. Está alocado principalmente em participações acionárias, fatias de empresas como a própria SpaceX e a Tesla. É um número que existe no papel, sobe e desce com o mercado, e que só vira dinheiro de verdade quando ele vende ações, o que gera uma mordida enorme de imposto nos Estados Unidos.
No sistema tributário americano, o imposto sobre ganho de capital (capital gains tax, que incide sobre o lucro gerado pela venda de ativos como ações) chega a 23,8% para grandes fortunas no nível federal. Nos estados mais ricos, como a Califórnia, somam-se mais 13,3% de imposto estadual. Vender um bloco grande de ações da SpaceX custaria bilhões de dólares em impostos de uma só vez, além de pressionar o próprio preço das ações pra baixo, o que reduziria o valor do restante da participação. (ProPublica)
O que pessoas nessa situação normalmente fazem, e Musk não é exceção, é usar as ações como garantia para tomar empréstimos diretamente com bancos, uma estratégia conhecida no mercado como “buy, borrow, die” (comprar, tomar emprestado, morrer). A pessoa fica com liquidez pra pagar despesas e investimentos enquanto mantém a participação intacta na empresa. (SmartAsset)
Tem mais uma camada nisso que também costuma passar despercebida. Uma empresa com o valuation de mercado (valor de mercado, que é o preço de todas as ações somadas) da SpaceX não é uma caixinha de dinheiro nas mãos de uma única pessoa. Tem conselho de administração, acionistas institucionais, regras regulatórias da SEC (a comissão americana de valores mobiliários), e obrigações de transparência que qualquer empresa aberta precisa cumprir. Musk tem controle de voto majoritário na SpaceX, o que lhe dá poder de decisão, mas isso não é a mesma coisa que ter liberdade total pra fazer o que quiser com os ativos da empresa.
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E o que essa empresa gera de concreto pra economia ao redor dela é bem visível. O Condado de Cameron, no Texas, onde fica a sede da SpaceX em Starbase, registrou um impacto econômico de 13 bilhões de dólares gerados pelas operações da empresa entre 2024 e 2026, com suporte a 24 mil empregos diretos e indiretos na região e mais de 305 milhões de dólares em receita tributária indireta. Setenta por cento dos trabalhadores diretos do complexo são moradores locais, vindos de cidades como Brownsville, Harlingen e San Benito. (Cameron County / RGV Business Journal)
Essa é a economia real que existe por trás do número no papel.
Funcionários comuns e agora milionários
Juan Hernandez veio do México, aprendeu a soldar e chegou à SpaceX em 2015 como contratado horista, ganhando 28 dólares por hora. Conta que nem sabia direito o que era a empresa quando foi contratado. Quando virou funcionário efetivo, a SpaceX ofereceu a ele 10 mil dólares em ações. Ao longo dos anos foi comprando mais por meio de pequenos descontos diretos no salário, subiu de soldador a supervisor e saiu da empresa uma década depois. No primeiro dia de negociação, com os papéis fechando a 160,95 dólares, as 6.500 ações que tinha acumulado valiam pouco mais de um milhão de dólares. (CBS News)
Trevor Hise entrou na SpaceX em 2011 logo depois da faculdade, mesmo com os pais insistindo pra que ele fosse pra General Electric, que parecia muito mais segura e estável. Ficou 12 anos como engenheiro de lançamentos, acumulou mais de 100 mil ações ao longo do tempo e, pelo preço de IPO de 135 dólares a ação, a participação dele vale pelo menos 13,5 milhões de dólares. Aos 37 anos, ele já se considera semiaposentado. (Inc. Magazine)
Gavin Petit entrou na SpaceX em 2012 como engenheiro de lançamentos com salário de 80 mil dólares por ano mais alguns milhares de ações a 13,80 dólares cada. Ao longo dos anos tomou uma decisão que os colegas achavam arriscada: além de guardar as ações do pacote de remuneração, também recebia os bônus anuais em ações adicionais em vez de dinheiro em espécie. Usou os eventos de liquidez semestrais pra vender uma parte pequena e quitar a casa em Denver, mas segurou o restante. Hoje tem mais de 50 mil ações, o suficiente pra ser milionário várias vezes. (The Mirror)
Maryellen Musselman, 27 anos, passou dois anos trabalhando num navio usado pela SpaceX para recuperar partes dos foguetes que caíam no oceano após os lançamentos na costa da Flórida. Além do pacote de ações padrão que a empresa oferecia, ela destinava 10% do próprio salário pra comprar mais ações diretamente. Não era engenheira, não era executiva, era oficial de bordo num navio de recuperação de peças. E vai entrar no clube dos milionários do mesmo jeito. (Fox Business)
Gwynne Shotwell foi a décima primeira funcionária contratada por Musk na SpaceX, em 2002, quando a empresa ainda funcionava num galpão alugado e ninguém fora do setor sabia o que ela era. Ela tinha formação em engenharia mecânica e ciência aeroespacial pela Northwestern University e vinha de um cargo de vice-presidência na Aerospace Corporation, empresa ligada ao Departamento de Defesa americano. Entrou na SpaceX como vice-presidente de desenvolvimento de negócios e passou as duas décadas seguintes construindo o portfólio comercial da empresa. Em 2008, virou presidente e COO (diretora de operações), cargo que mantém até hoje aos 62 anos. Segundo o S-1 filing (documento regulatório arquivado na SEC, a comissão americana de valores mobiliários), ela tinha 12,6 milhões de ações da SpaceX. Pelo preço de listagem de 135 dólares a ação, essa participação vale cerca de 1,7 bilhão de dólares, tornando-a bilionária. A remuneração total dela em 2025 chegou a 85,8 milhões de dólares, a maior parte em opções de ações. (Fortune) (SEC / Fortune)
Os 4.400 novos milionários
Esses casos não são exceção. Segundo análise da plataforma de investimentos Hiive, citada pelo New York Times, mais de 4.400 funcionários e ex-funcionários da SpaceX vão ter participações no valor mínimo de um milhão de dólares. Cerca de 400 desses estão acima de 100 milhões de dólares cada. Antes do IPO, mais de cem desses funcionários e ex-funcionários se uniram discretamente e negociaram um acordo coletivo de gestão de patrimônio com a Choreo, uma consultora financeira de Chicago, cobrindo um volume de entre um e cinco bilhões de dólares. Nenhum deles tinha precisado de um gestor de patrimônio antes. (Quartz)
São pessoas que foram trabalhar numa empresa de foguetes, receberam parte do salário em participação no negócio e de repente precisaram contratar alguém pra ajudar a gerenciar uma fortuna que nem sabiam que estavam construindo.
O tamanho da operação
A SpaceX estreou na Nasdaq a 135 dólares por ação, captando 75 bilhões de dólares e avaliando a empresa em 1,77 trilhões de dólares. No primeiro dia as ações fecharam a 160,95 dólares, empurrando o valor de mercado (market cap) acima de dois trilhões. (Al Jazeera)
Já do lado dos investidores institucionais, o Google investiu 900 milhões de dólares na SpaceX em 2015 como parte de uma rodada de 1 bilhão de dólares junto com a Fidelity Investments, quando a empresa valia cerca de 12 bilhões. (SpaceNews) Com a diluição gerada pela fusão da SpaceX com a xAI (empresa de inteligência artificial de Musk) em fevereiro de 2026, a participação do Google caiu para cerca de 5% do capital, conforme registrado no S-1 filing (documento regulatório) da SpaceX. Nessa valuation próxima de dois trilhões, essa participação vale aproximadamente 100 bilhões de dólares, um ganho de cem vezes em dez anos. (TradingKey / S-1 Filing)
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