Imagina o seguinte cenário. O presidente de um país é eleito pelo povo, do jeito que a gente conhece, com campanha, voto direto e tudo mais. Só que, ao contrário do que acontece no Brasil, esse presidente não governa sozinho. Ele divide o poder executivo com um primeiro-ministro, que é escolhido a partir da maioria do Parlamento. O presidente cuida mais da política externa, da defesa, das grandes questões de Estado. Já o primeiro-ministro toca o dia a dia, as políticas públicas, a economia, o orçamento. Esse arranjo tem nome. O cientista político francês Maurice Duverger cunhou o termo nos anos 1970 para descrever o que acontecia na Quinta República Francesa. Chama-se semipresidencialismo.

A ideia é basicamente um meio-termo entre o presidencialismo, onde o presidente concentra tudo nas mãos, e o parlamentarismo, onde quem manda de verdade é o parlamento e o presidente vira quase uma figura decorativa. No semipresidencialismo, os dois existem e os dois têm poder real. Essa divisão muda bastante de país pra país, o que torna o sistema flexível e, ao mesmo tempo, mais difícil de encaixar numa definição única.

A origem

A coisa nasceu antes de ter nome. A República de Weimar, na Alemanha dos anos 1920, já funcionava com um presidente forte que dividia poder com o Parlamento. A Finlândia também adotou algo parecido a partir de 1919. Mas o modelo que virou referência mundial apareceu mesmo na França, em 1958, quando Charles de Gaulle redesenhou o sistema político francês.

O contexto era de crise. A França vinha de uma tradição parlamentarista nas Terceira e Quarta Repúblicas que causava uma instabilidade enorme, com o governo mudando em média a cada seis meses. De Gaulle, que era herói da Segunda Guerra e tinha prestígio enorme, queria um Executivo mais forte. Mas também não fazia sentido voltar a um presidencialismo puro, porque a tradição parlamentar francesa era muito enraizada. A solução foi criar um sistema novo, que juntasse pedaços dos dois. O presidente ganhou poderes de verdade, como política externa e defesa, e ainda podia dissolver o Parlamento em situações extremas. Ao mesmo tempo, um primeiro-ministro ficava responsável pelo governo no sentido mais prático do termo, a política interna, e precisava manter a confiança da maioria parlamentar pra continuar no cargo.

Duverger formalizou isso no livro “Échec au Roi”, de 1978, definindo o semipresidencialismo como um sistema em que o chefe de Estado é eleito pelo povo e tem poderes relevantes conferidos pela constituição, enquanto o governo, composto pelo primeiro-ministro e seu gabinete, responde politicamente perante o parlamento.

Como funciona na prática

Pra simplificar, pense em dois subtipos que os cientistas políticos Matthew Shugart e John Carey identificaram num livro clássico de 1992. No sistema chamado premiê-presidencial, o primeiro-ministro e o gabinete respondem só perante o Parlamento, e o presidente não pode demiti-los diretamente. França e Portugal funcionam assim. No sistema presidencial-parlamentar, o primeiro-ministro e o gabinete devem confiança tanto ao Parlamento quanto ao presidente. Rússia e Ucrânia, em períodos diferentes, funcionaram nesse segundo modelo.

E qual a diferença prática? A literatura acadêmica aponta um consenso de que os regimes premiê-presidenciais têm desempenho superior em termos de qualidade democrática e efetividade governamental. Faz sentido. Quando o presidente também pode demitir o primeiro-ministro, a tendência é gerar conflitos sérios entre os dois. Quando só o Parlamento tem esse poder, a engrenagem roda mais suave.

A coabitação

Tem um fenômeno específico do semipresidencialismo que vale a pena entender, porque é talvez a situação mais delicada do sistema. Chama-se coabitação, e acontece quando o presidente é de um partido e a maioria parlamentar é de outro. Nesse caso, o presidente é obrigado a nomear um primeiro-ministro que não é do seu campo político.

A França já passou por isso três vezes. Entre 1986 e 1988, o presidente socialista François Mitterrand coabitou com o primeiro-ministro de centro-direita Jacques Chirac. Depois, entre 1993 e 1995, Mitterrand conviveu com outro primeiro-ministro conservador, Édouard Balladur. E entre 1997 e 2002, foi a vez de Chirac, já como presidente, coabitar com o socialista Lionel Jospin como primeiro-ministro.

Não é uma convivência fácil. O presidente e o primeiro-ministro divergem em praticamente tudo, mas precisam governar juntos. Cada um tenta puxar a corda pro seu lado dentro dos limites constitucionais. Em 2000, uma reforma reduziu o mandato presidencial francês de sete para cinco anos, alinhando-o com o mandato parlamentar. Isso diminuiu bastante a chance de coabitação, porque as eleições passaram a acontecer quase no mesmo período, e o eleitor tende a votar na mesma direção.

Onde funciona no mundo

Um levantamento do professor Robert Elgie, da Royal Irish Academy, indica que cerca de 53 países podem ser considerados semipresidencialistas atualmente. A lista é bem variada. Na Europa, temos França, Portugal, Romênia, Polônia, Lituânia, Finlândia. Na África, onde a influência portuguesa foi forte, o modelo se espalhou por Cabo Verde, Moçambique, São Tomé e Príncipe, Timor-Leste. A maior parte dos países semipresidencialistas está localizada justamente na África, o que não é por acaso, já que desde que Portugal adotou o modelo em 1976, sete das suas oito ex-colônias seguiram o mesmo caminho.

Mas o funcionamento é muito diferente em cada lugar. Na França e na Romênia, o presidente tem prerrogativa sobre política externa e defesa, e o primeiro-ministro cuida da política interna e econômica. Em Portugal, a divisão não está explicitada na constituição, mas evoluiu com o costume político, e o presidente funciona mais como um árbitro institucional, com poder de veto, de dissolver o Parlamento e de nomear o primeiro-ministro, mas sem se meter tanto na administração do dia a dia.

Na Rússia, o modelo existe na constituição, mas na prática funciona de um jeito bem diferente. O presidente concentra um poder enorme e o primeiro-ministro acaba subordinado. Isso mostra que o desenho constitucional é uma coisa e a realidade política é outra.

O Brasil e o presidencialismo

Pra entender por que esse debate importa pro Brasil, a gente precisa olhar pra como funciona o sistema atual. O Brasil é uma república presidencialista. O presidente é ao mesmo tempo chefe de Estado e chefe de governo. Ele representa o país no exterior, comanda as Forças Armadas, mas também é responsável por montar o ministério, negociar o orçamento, propor leis, tocar as políticas públicas. Tudo concentrado numa pessoa só.

O cientista político Sérgio Abranches descreveu isso em 1988 num artigo que virou referência. Ele chamou o arranjo brasileiro de “presidencialismo de coalizão”. O nome já entrega o problema. Como nenhum presidente consegue maioria sozinho num Congresso com mais de 30 partidos, ele precisa montar alianças distribuindo cargos, ministérios e emendas parlamentares. É uma troca. O presidente dá pedaços do governo em troca de votos no Congresso. Quando essa engrenagem funciona, o governo anda. Quando a base se racha, a coisa emperra e o resultado pode ser uma crise institucional que demora meses pra se resolver, como nos impeachments de Collor em 1992 e de Dilma em 2016.

Brasil e semipresidencialismo

E é justamente aí que entra o debate sobre semipresidencialismo. Em crises políticas, o semipresidencialismo permite uma troca de primeiro-ministro rápida e sem tanto trauma, preservando a estabilidade. O Brasil, por outro lado, acumulou dois processos de impeachment recentes, longos e desgastantes.

Num sistema semipresidencialista, se o primeiro-ministro perde a maioria parlamentar, ele cai por moção de censura e outro assume. Sem meses de crise, sem polarização extrema, sem o país inteiro paralisado por um processo de impeachment. O presidente segue no cargo como chefe de Estado, garantindo a continuidade institucional.

Essa ideia não é nova no Brasil. O projeto original de semipresidencialismo foi apresentado há 30 anos, em 1995, pelo ex-deputado Eduardo Jorge. Depois, a proposta reapareceu em diferentes formatos. Em 2017, o ex-presidente Michel Temer e o ministro do STF Gilmar Mendes formularam um projeto próprio para implementação do semipresidencialismo. Em 2022, a Câmara dos Deputados criou um grupo de trabalho coordenado pelo deputado Samuel Moreira, que aprovou um relatório recomendando a adoção do semipresidencialismo a partir das eleições de 2030, condicionada a um plebiscito prévio.

Figuras como Arthur Lira, os ministros do STF Luís Roberto Barroso, Gilmar Mendes e Dias Toffoli, além do próprio Temer, já se declararam favoráveis ao modelo. O ministro Barroso, aliás, defende a tese desde 2006, quando publicou uma proposta de reforma política sugerindo o semipresidencialismo como forma de atenuar dois problemas crônicos da história brasileira, que são o autoritarismo do Executivo e a instabilidade institucional. Do lado contrário, estão nomes como Lula, Bolsonaro, Gleisi Hoffmann e Ricardo Lewandowski.

A proposta mais recente é a PEC 2/25, apresentada pelo deputado Luiz Carlos Hauly e outros parlamentares, que institui o semipresidencialismo e o voto distrital misto no Brasil. Essa PEC atingiu o número mínimo de 171 assinaturas necessárias e foi protocolada em fevereiro de 2025, ganhando impulso depois que o presidente da Câmara, Hugo Motta, defendeu publicamente o debate.

O plebiscito de 1993

Tem um detalhe importante nessa discussão toda. O Brasil já votou sobre sistema de governo antes. Em 21 de abril de 1993, houve um plebiscito para decidir a forma de governo, república ou monarquia, e o sistema de governo, presidencialismo ou parlamentarismo. A república venceu com 66,26% dos votos contra 10,25% da monarquia. O presidencialismo venceu com 55,57% contra 24,9% do parlamentarismo.

O semipresidencialismo sequer estava entre as opções naquela época. E é justamente esse o argumento de quem defende a proposta atual, que o semipresidencialismo seria uma alternativa que o povo nunca teve a chance de avaliar. A questão jurídica que fica em aberto é se uma mudança dessas pode ser feita só por emenda constitucional ou se exigiria um novo plebiscito, já que o sistema atual foi ratificado pelo voto popular.

As diferenças concretas

Pra quem quer visualizar melhor, vale listar o que mudaria na prática se o Brasil adotasse o semipresidencialismo nos moldes propostos. Hoje, o presidente nomeia ministros sem precisar de aprovação do Congresso. Num sistema semipresidencialista, o primeiro-ministro, que seria o chefe de governo, precisaria ter o respaldo da maioria parlamentar pra se manter no cargo. Isso muda completamente a lógica. Em vez de o presidente distribuir cargos pra comprar apoio, a maioria parlamentar teria responsabilidade direta sobre o governo. Se o governo vai mal, o Parlamento pode derrubar o primeiro-ministro e formar outro governo, sem o trauma de um impeachment.

O deputado Enrico Misasi resumiu bem o dilema atual ao dizer que a gente quer que o presidente seja parcial e imparcial ao mesmo tempo, que seja chefe de partido e árbitro do sistema. Num semipresidencialismo, essas funções se separam. O presidente arbitra. O primeiro-ministro governa.

Um problema concreto apontado por analistas é a fragmentação partidária brasileira, uma das maiores do mundo, com o maior partido controlando pouco mais de 10% das cadeiras na Câmara. Isso torna a formação de governos estáveis muito mais complicada, independente do sistema. A Itália, que é parlamentarista, sofre com algo parecido, e os governos duram pouco mais de um ano em média.

Quem defende o semipresidencialismo no Brasil costuma olhar mais para Portugal e França como referências. Quem é contra argumenta que o problema brasileiro não é o sistema em si, mas a cultura política e os fatores estruturais que geram crises, e que trocar o sistema de governo sem enfrentar essas questões de fundo seria como trocar de roupa achando que vai curar uma febre.

O debate segue aberto. A PEC 2/25 precisa passar pela Comissão de Constituição e Justiça, depois por comissão especial e votação em dois turnos no plenário. E provavelmente por um plebiscito. Ou seja, ainda tem um caminho longo pela frente.

Mais detalhes:

Revista Problemas Brasileiros, “Plebiscito de 1993: voto da maioria?”

Câmara dos Deputados, PEC 2/25 sobre o semipresidencialismo

Câmara dos Deputados, proposta sobre semipresidencialismo divide opiniões

Câmara dos Deputados, grupo de trabalho recomenda semipresidencialismo a partir de 2030

Câmara dos Deputados, semipresidencialismo como alternativa ao parlamentarismo rejeitado em 1993

Câmara dos Deputados, infográfico “Entenda o semipresidencialismo”

CNN Brasil, “Entenda como funciona o semipresidencialismo e outras formas de governo”

ISTOÉ, “Veja quais países adotam o semipresidencialismo”

Octavio Amorim Neto, “Para aprofundar o debate sobre o semipresidencialismo”, Blog do IBRE/FGV

Marcelo Leonardo Tavares, “Semipresidencialismo no Brasil: por que não?”, Revista de Informação Legislativa do Senado, v. 54, n. 215, 2017

Marcelo Leonardo Tavares, “Semipresidencialismo francês”, Revista de Informação Legislativa do Senado, v. 55, n. 217, 2018

Petra Schleiter e Edward Morgan-Jones, “Semipresidencialismo: decisiones constitucionales y consecuencias políticas”, Política y Gobierno, v. 14, n. 2, 2007

Sérgio Abranches, “Presidencialismo de coalizão: o dilema institucional brasileiro”, DADOS, 1988

Bahro, Bayerlein & Veser, “Duverger’s concept: Semi-presidential government revisited”, European Journal of Political Research, 1998

BFBM Advogados, “As instituições e as crises de representatividade: o exemplo do semipresidencialismo francês”

Euronews, “Could a divided or minority government in France pose a risk to EU’s stability?”

Semipresidencialismo, Wikipédia em português

Plebiscito no Brasil em 1993, Wikipédia em português

TSE, Plebiscito de 1993

Senado Notícias, “Há 30 anos, Brasil decidiu nas urnas se teria rei e primeiro-ministro”