Cuba: da Revolução ao embargo dos EUA
Você sabe realmente como anda a situação em Cuba? No Brasil é comum ouvir que a ilha é exemplo de justiça social, de ensino de qualidade e de políticas sociais, e boa parte dessa imagem vem da revolução de 1959 e do que ela entregou nas primeiras décadas. Só que a imagem que a gente guarda de um país e o que os números mostram hoje nem sempre coincidem, e com Cuba isso pesa bastante.
Resolvi analisar esse contraponto porque acabei de conhecer um canal no YouTube de um casal muito simpático que está explorando pela primeira vez o mundo fora da ilha. O video começa pela cidade de Boa Vista, em Roraima, e foi muito interessante perceber a reação do casal ao descobrir o “capitalismo”, como eles mesmos descrevem (vídeo). Quero compartilhar com vocês a visão desse casal de jovens cubanos que têm o sonho de emigrar de Cuba, e deixo também um vídeo que lista os motivos pelos quais os cubanos querem sair da ilha (vídeo) e mais dois que mostram como é, de fato, viver lá pelas lentes de quem nasceu no país (vídeo, vídeo).
📲 Receba as próximas análises direto do nosso novo Canal no WhatsApp. Guerras, comércio, energia, tecnologia e poder. Novos artigos, gráficos e reflexões diretamente no canal CAVALÉRO LETTER. [Seguir no WhatsApp]
Com esse material na mesa, vamos revisar como funciona o governo cubano e como a revolução de 1959 chegou a esse modelo. Depois a gente vê o que é, de fato, o embargo americano e onde tudo isso deixou a economia e a população da ilha em 2026.
Cuba é um Estado socialista governado por um partido único, o Partido Comunista de Cuba. A Constituição atual é a de 2019, aprovada em referendo em 24 de fevereiro daquele ano, que substituiu a de 1976, a primeira Constituição socialista do país e da qual a gente fala mais adiante. O texto de 2019 diz que o sistema socialista é irrevogável e chama o partido de “força dirigente superior da sociedade e do Estado”. Ele descreve o partido como marxista-leninista, que é a doutrina inspirada em Marx e Lênin e adotada na União Soviética (já explicamos o marxismo-leninismo aqui), e como herdeiro de José Martí, herói da independência cubana, e de Fidel Castro (fonte).
Na parte formal, o Parlamento é a Assembleia Nacional do Poder Popular (Asamblea Nacional del Poder Popular), que a Constituição define como o órgão supremo do poder do Estado e que elege o presidente da República. Hoje o presidente é Miguel Díaz-Canel, que sucedeu Raúl Castro, irmão de Fidel, em 2018 e, em 2021, assumiu também o comando do Partido Comunista (fonte, fonte).
Os cubanos votam, mas o voto funciona de um jeito bem diferente do nosso. Nas eleições dos bairros, os eleitores escolhem diretamente os delegados das assembleias municipais, e nessa etapa pode haver de dois a oito candidatos por vaga. Esses delegados são a base de onde sai quase metade dos candidatos à Assembleia Nacional, e o resto é indicado por assembleias provinciais, pela comissão eleitoral nacional e por organizações sociais como sindicatos e associações profissionais. Já na eleição da Assembleia Nacional existe um candidato por vaga, 470 nomes pra 470 cadeiras, então o eleitor não escolhe entre candidatos, só confirma ou rejeita, e pra ser eleito o candidato precisa de mais da metade dos votos válidos. O eleitor pode marcar todos de uma vez, no chamado voto unido, que o governo incentiva há décadas, e em março de 2023 cerca de 72% dos votos válidos foram desse tipo (fonte, fonte, fonte).
O peso desse voto é o ponto em que as opiniões mais se dividem. O governo cubano defende o sistema como uma democracia socialista, em que os eleitos prestam contas e podem ter o mandato revogado a qualquer momento, e é esse Parlamento que elege o presidente da República por maioria absoluta. Os críticos dizem que, num país em que só o Partido Comunista é permitido, sem observadores internacionais independentes e com um candidato por vaga, a eleição não oferece escolha de verdade. Em 2023 todos os 470 deputados foram eleitos, com participação de cerca de 76%, e, segundo o think tank (centro de pesquisa sobre política externa) Council on Foreign Relations (CFR), uma em cada quatro pessoas se absteve ou anulou o voto, um recorde (fonte).
Esse desenho veio da revolução de 1959, que derrubou o ditador Fulgencio Batista, no poder desde um golpe em 1952. Aquele golpe veio num momento em que a política cubana estava muito desgastada, porque os governos eleitos eram vistos como corruptos e o senador Eduardo Chibás, que era o principal crítico dessa corrupção, tinha se suicidado em 1951, deixando a oposição sem liderança. Batista, convencido de que não venceria a eleição marcada pra junho de 1952, derrubou o presidente Carlos Prío em 10 de março, sem derramamento de sangue, de acordo com o Cuba: A Country Study, que dá pra baixar aqui (p. 55). O estudo diz que a facilidade com que ele tomou o poder mostrou como as instituições do país eram frágeis, e que a falência dos governos reformistas foi talvez o fator mais importante pro golpe (p. 56). Foi nesse cenário que Fidel Castro, então um jovem advogado, tentou derrubá-lo em 1953 atacando o quartel de Moncada e foi preso e, depois de voltar do México em 1956, foi fazer guerrilha na Sierra Maestra, uma cadeia de montanhas no leste da ilha (p. 57, 60). Os EUA, que tinham apoiado Batista, anunciaram em março de 1958 a proibição de vender armas ao regime, e ele fugiu da ilha em 1º de janeiro de 1959 (p. 63-64).
Castro tinha o apoio entusiasmado da maioria da população (p. 64). Nas primeiras semanas ele só comandava as Forças Armadas e deixou como presidente um juiz de sua confiança, Manuel Urrutia, mas logo ficou claro que o poder de verdade estava com Fidel, que virou primeiro-ministro em fevereiro de 1959 (p. 64-65). Líderes e apoiadores de Batista foram julgados em tribunais revolucionários, e centenas foram executados (p. 65). Os EUA reconheceram o novo governo em 7 de janeiro de 1959 e ficaram esperando pra ver como as coisas andariam (p. 68).
Em maio de 1959 veio a primeira Lei de Reforma Agrária, que estabeleceu um limite geral de 30 caballerías, cerca de 404 hectares, pra propriedade rural, com exceções previstas na própria lei, e restringiu a compra de terras por estrangeiros (p. 65). Ela marcou o começo de uma fase rápida de confiscos, que foi até 1961, com o objetivo de diminuir a dependência do açúcar e enfraquecer a presença econômica dos EUA em Cuba, e o estudo diz que a classe alta foi praticamente eliminada e que muitas famílias de classe média perderam seus bens e acabaram emigrando, principalmente pros EUA (p. 65-66). Só que a lei previa pagar as terras desapropriadas com títulos do governo, que são papéis que ele só pagaria mais tarde, e Washington contestou essa forma de pagamento, que é onde a relação começou a azedar (p. 68) (fonte).
Estávamos em plena Guerra Fria, a disputa entre os EUA e a União Soviética, e em fevereiro de 1960 um vice-premiê soviético visitou Havana e fechou um acordo pelo qual Cuba receberia petróleo soviético em troca de açúcar (p. 68-69). O governo cubano passou então a nacionalizar, ou seja, a transferir pro Estado, as empresas estrangeiras, incluindo as refinarias americanas, e depois a maior parte das cubanas, e os EUA responderam proibindo quase todas as exportações pra ilha e, em 3 de janeiro de 1961, rompendo as relações diplomáticas (p. 69-70). Um memorando do Departamento de Estado de 5 de janeiro de 1961 mostra que os EUA também tinham cortado as importações de açúcar cubano, que somavam cerca de 70% do que Cuba vendia pros EUA (fonte). Ou seja, as restrições começaram em 1960, ainda no governo Eisenhower, e com elas Cuba trocou de parceiro, porque o comércio, que dependia sobretudo dos EUA, passou a depender do bloco soviético (fonte).
Em abril de 1961, cerca de 1.400 exilados cubanos treinados e apoiados pela Agência Central de Inteligência (CIA) desembarcaram na Baía dos Porcos (Bahía de Cochinos) pra tentar derrubar Castro e foram derrotados em três dias (fonte). Na véspera do desembarque, Castro declarou o caráter socialista da revolução (p. 66).
Esse rumo surpreendeu muita gente, porque a grande maioria dos cubanos que apoiou a luta contra Batista esperava a volta da Constituição de 1940, mais honestidade no governo e o fim da violência, e nenhum dos grupos de oposição tinha um programa marxista (p. 58). O próprio estudo diz que Castro estava longe de ser marxista e vinha mais da tradição de Martí e de Chibás, da qual rompeu por ser contra os EUA (p. 67). Os comunistas, reunidos no Partido Socialista Popular (PSP), eram um grupo pequeno, que tinha enfrentado Batista só por meios pacíficos e entrou na luta muito tarde (p. 58), mas tinham quadros organizados e linha direta com Moscou, e foi por isso que Castro passou a usá-los (p. 67). Ele sabia que o conflito com os EUA viria e que só o “guarda-chuva protetor” da União Soviética poderia defendê-lo (p. 67). O resultado foi que nenhum outro partido pôde funcionar, e o PSP se juntou ao movimento de Castro e voltou a usar o nome original, Partido Comunista de Cuba, que já existia desde 1925. Vários antigos aliados de Castro se decepcionaram, achando que ele tinha traído o que defendia nas montanhas (p. 67). A criação formal do partido, com a estrutura de hoje, veio só em 1965 (p. 250).
O embargo total veio em fevereiro de 1962. Em 3 de fevereiro, uma proclamação do presidente John Kennedy proibiu todo o comércio com a ilha (fonte), e ele disse que as exceções seriam alguns alimentos e remédios e que o objetivo era reduzir a capacidade do governo Castro de praticar agressão e subversão (fonte). Os documentos americanos chamam a medida de embargo, que é a restrição ao comércio imposta por um país a outro, e o governo cubano fala em bloqueio (já escrevemos sobre o embargo aqui).
Depois da Baía dos Porcos, os soviéticos concluíram que os EUA não reagiriam com firmeza em Cuba, e a fraqueza de Kennedy no desembarque e na reunião com o líder soviético Nikita Khrushchev, em Viena, em 1961, reforçou essa leitura (p. 71). Em 1962, a União Soviética instalou mísseis nucleares na ilha em segredo, com o objetivo principal de mudar o equilíbrio de forças com os EUA e forçar uma negociação sobre a Alemanha, e proteger Castro era um motivo secundário, segundo o estudo (p. 71). Foi a Crise dos Mísseis (Crisis de Octubre). Em 22 de outubro Kennedy cercou a ilha com navios e exigiu a retirada das armas, e o mundo ficou perto de uma guerra nuclear até Khrushchev aceitar retirá-las em troca do compromisso dos EUA de não invadir Cuba, compromisso que os americanos nunca reconheceram publicamente (p. 71-72). Um detalhe importante de mencionar é que Castro não foi consultado nessa negociação entre Kennedy e Khrushchev e se sentiu humilhado, a ponto de recusar a inspeção da ONU e de questionar publicamente se a União Soviética defenderia mesmo a revolução, e logo depois ele se aproximou da China (p. 72).
Nas três décadas seguintes, Cuba copiou o modelo soviético de economia planejada (já explicamos como ele funcionava aqui). Em 1976 veio a primeira Constituição socialista, que já reconhecia o partido como “a força dirigente superior da sociedade e do Estado”, a mesma expressão que a Constituição de 2019 usa hoje (p. 79). Esse modelo se sustentava com muita ajuda de fora, porque Cuba continuou dependente do açúcar, recebeu grandes volumes de ajuda soviética e dependia quase inteiramente do petróleo soviético pra produzir energia (p. 80).
Quando a União Soviética acabou, em 1991 (já contamos como foi aqui), a ajuda e o petróleo barato sumiram. O PIB cubano, que é a soma de tudo que o país produz, caiu 35% entre 1989 e 1993, segundo as estatísticas oficiais (p. 165). O governo chamou esse tempo de Período Especial em Tempo de Paz (Período Especial en Tiempo de Paz), com apagões e transporte cortado. Isso bateu forte no racionamento, um sistema que Cuba usa desde 1961, quando a produção agrícola despencou, a comida começou a faltar e o governo introduziu o racionamento de alimentos pela primeira vez na história do país (p. 66-67). Funciona assim: cada pessoa fica registrada numa família e numa lojinha estatal do bairro, a bodega, onde pega todo mês uma cota de produtos básicos, e os grupos mais vulneráveis, como crianças, grávidas e idosos, têm direito a cotas especiais (p. 105). Durante décadas a cota era pra durar o mês inteiro, só que, com a crise dos anos 1990, ela foi reduzida a ponto de cobrir só cerca de duas semanas do consumo de uma família (p. 165) (fonte, fonte).
E o que fazer nas outras duas semanas? Em Cuba o Estado controla a maior parte da produção e do comércio, então vender comida fora do sistema estatal era ilegal ou muito restrito, e foi isso que fez crescer o mercado negro, que é o comércio ilegal de produtos, serviços e moedas fora do controle do Estado (p. 159). Quem não completava a comida pela cota passou a comprar de vendedores clandestinos, a preços bem mais altos (p. 165). O próprio governo foi e voltou nessa questão, porque liberou os mercados de agricultores em 1980, proibiu em 1986 e reabriu em 1994, segundo a cronologia do estudo.
Foi nessa fase mais frágil que os EUA endureceram o embargo, porque, com o fim da União Soviética, o governo americano passou a achar que a relação especial de Cuba com Moscou tinha acabado. A Cuban Democracy Act, sancionada em 23 de outubro de 1992, restringiu o comércio das subsidiárias estrangeiras de empresas dos EUA, que são as filiais fora do país, com Cuba e passou a impedir que navios que entram em portos cubanos pra fazer comércio carreguem ou descarreguem em portos americanos durante 180 dias depois de deixarem Cuba, salvo autorização. A lei também dizia que o caminho pra normalizar as relações passava por reformas econômicas e políticas na ilha (fonte, fonte).
Em 1996, poucas semanas depois de os militares cubanos derrubarem dois aviões civis americanos de um grupo de exilados perto da Flórida, matando quatro pessoas, veio a Lei Helms-Burton (Cuban Liberty and Democratic Solidarity Act), sancionada em 12 de março. Ela transformou o embargo em lei do Congresso, previu que americanos possam processar nos tribunais dos EUA quem lucra com bens confiscados em Cuba e barrou a entrada no país de quem negocia com esses bens. Fidel morreu em 2016 e Raúl deixou a presidência em 2018, só que a lei traz outras exigências pra suspender as sanções, como eleições livres e a libertação dos presos políticos (já escrevemos sobre isso aqui). Como o embargo virou lei, o presidente não pode simplesmente ignorar essas condições, mas a própria lei autoriza a suspensão quando existir um governo de transição em Cuba, depois de consultar o Congresso, e prevê o encerramento quando houver um governo democraticamente eleito. O embargo também nunca foi total na prática, porque desde uma lei de 2000 empresas americanas podem vender produtos agrícolas a Cuba, só que com pagamento adiantado em dinheiro ou financiado por banco de outro país, enquanto remédios e equipamentos médicos seguem regras próprias de licença (fonte, fonte, fonte, fonte, fonte).
O alívio da crise do Período Especial veio em outubro de 2000, quando o presidente venezuelano Hugo Chávez fechou com Fidel um acordo de cooperação pelo qual Cuba receberia até 53 mil barris de petróleo por dia a preços de mercado, mas com condições de pagamento bem mais favoráveis do que as dadas a outros clientes, e retribuiria com serviços em áreas como saúde e educação (já falamos do petróleo venezuelano aqui) (fonte). Com isso a dependência mudou de dono pela segunda vez, passando da União Soviética pra Venezuela.
Só que esse apoio também foi enfraquecendo. A produção de petróleo da Venezuela caiu com a má gestão do regime, e governos do Brasil e da Colômbia encerraram acordos pelos quais Cuba mandava médicos ao exterior e ficava com a maior parte dos salários deles (fonte). Nesse meio tempo a relação com os EUA oscilou bastante. Em 17 de dezembro de 2014, Barack Obama e Raúl Castro anunciaram a retomada das relações diplomáticas e Obama visitou Havana em março de 2016, o primeiro presidente americano a ir à ilha em quase noventa anos, só que o embargo continuou valendo. Já em junho de 2017 Donald Trump voltou a restringir viagens e negócios com um conglomerado controlado pelos militares cubanos e, em janeiro de 2021, recolocou Cuba na lista de países patrocinadores do terrorismo (fonte).
O que mais pesou nesse período foram 2020 e 2021. A pandemia fechou as fronteiras em 2020 e o turismo desabou, e em outubro de 2022 o número de visitantes ainda estava abaixo da metade do que era em 2019. Em 2021 começou a unificação monetária, que encerrou um sistema de duas moedas circulando ao mesmo tempo desde 1994, e a mudança provocou forte desvalorização do peso e inflação alta. Foi nesse cenário que, em julho de 2021, dezenas de milhares de cubanos foram às ruas, nas maiores manifestações em quase três décadas. Organizações cubanas de direitos humanos registraram mais de 1.400 pessoas detidas, segundo a Human Rights Watch, e os tribunais cubanos confirmaram condenações de mais de 380 pessoas (fonte, fonte, fonte).
Quanto ao funcionamento da economia hoje, o governo foi mexendo nela aos poucos e passou a permitir algumas pequenas e médias empresas privadas, as mipymes (micro, pequeñas y medianas empresas). Mesmo assim, a economia continua sob direção central e, na prática, a GAESA (Grupo de Administración Empresarial S.A.), um conglomerado controlado pelos militares, domina boa parte do turismo e das importações do país (fonte, fonte).
Hoje a libreta de abastecimiento, como é chamada a caderneta do racionamento, continua sendo o símbolo desse modelo, mas entrega bem menos. Tradicionalmente a cesta traz arroz, açúcar, óleo, grãos, café, massa e frango, e em julho de 2026, em Havana, a cota era de sete libras de arroz por pessoa, cerca de três quilos, sendo cinco pagas e duas de graça, quantidade que não cobre o mês de uma família. Em abril, a agência Associated Press (AP) mostrou mercearias estatais quase vazias, com a cesta reduzida a poucos itens como arroz, açúcar e grão-de-bico (fonte, fonte).
O resto precisa ser comprado fora da bodega, e é aí que a conta não fecha. Cuba importa cerca de 70% dos alimentos que consome, segundo o CFR, e, segundo a ONEI, em julho de 2026 um ovo custava entre 90 e 100 pesos, num país em que o salário médio de 2025 era de 6.930 pesos por mês. Por isso as famílias dependem das remessas de parentes no exterior, que chegam a cerca de 60% dos cubanos na ilha, segundo a AP (fonte, fonte, fonte).
A Constituição garante saúde e educação gratuitas. Segundo o Banco Mundial, a expectativa de vida em Cuba era de 78,3 anos em 2024 e a mortalidade infantil, de 6,8 por mil nascidos vivos, taxa que vem subindo desde 2020 (fonte, fonte). Em 2025, o escritório de estatística de Cuba (ONEI) divulgou uma taxa de 9,9, a maior em mais de duas décadas, e o chanceler Bruno Rodríguez atribuiu a alta ao embargo, enquanto analistas independentes apontam também a saída de profissionais de saúde e os apagões (fonte, fonte). O próprio Country Study já avisava em 2001 que muitas das conquistas sociais tão elogiadas dos anos 1970 e 1980, em saúde, educação e previdência, “já não são sustentáveis diante da ausência dos subsídios soviéticos e do mau desempenho da economia” (p. 91).
O governo cubano estima que o embargo causou danos acumulados de cerca de 178,7 bilhões de dólares, a preços correntes, em mais de sessenta anos, sendo 8,08 bilhões só entre março de 2025 e fevereiro de 2026, números do relatório anual que Cuba leva à Organização das Nações Unidas (ONU) e que são estimativas do próprio governo, não uma medição independente. Cuba atribui a ele boa parte dos problemas, enquanto o governo americano sustenta que o responsável é o governo de Cuba (fonte, fonte). É realmente muito curioso perceber que essa mistura de explicações já aparecia num relatório de inteligência americano de agosto de 1962, que dizia que a economia cubana estava “em apuros, em parte por causa do embargo americano e da consequente falta de divisas conversíveis, em parte por má gestão agrícola e industrial” (fonte). O CFR avalia hoje que a crise vem de problemas estruturais antigos, como o baixo investimento em energia.
A pressão ficou muito mais forte em janeiro de 2026, quando uma operação militar americana capturou o líder venezuelano Nicolás Maduro (já contamos como foi aqui). A Venezuela, a mesma do acordo de 2000, ainda era a principal fornecedora de petróleo de Cuba, e em 29 de janeiro Trump assinou a Ordem Executiva 14380, um decreto que permite cobrar tarifas adicionais, que são impostos sobre produtos importados, de qualquer país que forneça petróleo a Cuba, direta ou indiretamente (fonte, fonte).
O efeito foi rápido. Díaz-Canel disse no começo de março que Cuba estava havia três meses sem receber nenhum carregamento de petróleo, e houve três apagões nacionais só naquele mês. Um petroleiro russo chegou em 30 de março, com a aceitação de Trump, e a China anunciou uma ajuda de cerca de 80 milhões de dólares (fonte). Pelo lado americano, a pressão sobre Cuba faz parte da volta da Doutrina Monroe, a ideia de que os EUA não aceitam potências de fora no próprio hemisfério (já falamos da origem dela aqui e da volta dela aqui). Ao mesmo tempo, Díaz-Canel confirmou em março que Cuba conversa com os EUA (fonte).
O resultado aparece nas projeções. Em agosto de 2026, a Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (CEPAL) projetou que o PIB cubano encolha 10,3% no ano e mais 5,1% em 2027, a pior perspectiva da região, enquanto pra América Latina e o Caribe como um todo a projeção é de crescimento de 2,2% em 2026 (fonte).
Com a economia nesse estado, muita gente decide ir embora. Emigrar de Cuba não é novidade, e o Country Study registra cerca de 800 mil saídas entre 1959 e 1980, o que inclui o êxodo de Mariel, em 1980, quando Castro permitiu que 125 mil cubanos saíssem de barco pros EUA (p. 115). O que mudou foi a escala recente, porque o escritório de estatística de Cuba (ONEI) informou que a população caiu pra 9,4 milhões no fim de 2025, com saldo migratório negativo, que é a diferença entre quem chegou e quem saiu, de cerca de 245 mil pessoas (fonte). Esse é o dado oficial cubano, que conta como população efetiva quem viveu pelo menos 180 dias dos últimos 365 no território nacional, e a revista The Economist, num cálculo próprio citado pelo CFR, estima que a população na ilha caiu de mais de 11 milhões pra menos de 9 milhões desde 2021, então os números não são diretamente comparáveis, porque cada fonte usa critérios diferentes (fonte). O casal dos vídeos que citei no começo faz parte desse movimento de jovens cubanos que decidem emigrar.
Continue acompanhando
Se esta análise foi útil para você, receba gratuitamente novos conteúdos sobre geopolítica, economia e relações internacionais.
✓ Novos artigos publicados no blog
✓ Gráficos e infográficos
✓ Curiosidades históricas
✓ Análises sobre os principais acontecimentos internacionais
📲 Seguir CAVALÉRO LETTER