Confesso que acordei neste sábado sem acreditar no que estava vendo. Trump acabou de anunciar que Nicolás Maduro foi capturado durante uma operação militar noturna em território venezuelano e retirado do país junto com sua esposa, Cilia Flores. É história sendo escrita em tempo real – e não qualquer história.
O Cartel dos Sóis: Um Estado Transformado em Máquina Criminal

Vamos direto ao ponto: o Cartel dos Sóis é uma organização criminosa sediada na Venezuela, liderada por Nicolás Maduro e outros altos funcionários do regime, que corromperam as instituições governamentais venezuelanas, incluindo partes do exército, serviços de inteligência, legislatura e judiciário. O nome vem das insígnias solares nos uniformes dos militares venezuelanos – um símbolo que deveria representar honra, mas passou a identificar uma das maiores redes de narcotráfico do hemisfério.
A operação não surgiu do nada. Em julho de 2025, o Departamento do Tesouro dos EUA sancionou o Cartel dos Sóis como entidade terrorista global, alegando que o grupo fornece apoio material ao Tren de Aragua e ao Cartel de Sinaloa. Dois meses depois, em novembro de 2025, o Departamento de Estado designou formalmente o Cartel dos Sóis como organização terrorista estrangeira.
As Raízes na Era Chávez

Essa corrupção tem nome, sobrenome e endereço. O termo “Cartel dos Sóis” surgiu em 1993, quando dois generais da Guarda Nacional venezuelana foram investigados por tráfico de drogas. Mas foi sob Hugo Chávez que o sistema ganhou escala industrial. Chávez expandiu a corrupção a níveis sem precedentes em um exército já corrupto, dando milhões de dólares a oficiais militares para programas sociais que supostamente desapareceram, além de conceder imunidade legal a funcionários envolvidos no tráfico para manter poder e lealdade.
Em 2005, Chávez expulsou a DEA da Venezuela sob alegações de espionagem. A jogada foi genial do ponto de vista criminal: sem supervisão americana, as rotas de narcotráfico floresceram. As Nações Unidas registraram a existência do Cartel dos Sóis desde pelo menos 2019, quando a Junta Internacional de Fiscalização de Estupefacientes concluiu que surgiu na Venezuela uma nova rede informal de narcotráfico que infiltrou os corpos de segurança para facilitar o trânsito de cocaína para Europa e Estados Unidos.
As Provas Contra Maduro e Sua Cúpula
Em março de 2020, o Departamento de Justiça dos EUA acusou formalmente Maduro e outros funcionários venezuelanos de narcoterrorismo, conspiração para importar cocaína e narcotráfico. A recompensa inicial era de 15 milhões de dólares. Em agosto de 2025, o governo Trump dobrou a recompensa para 50 milhões de dólares, tornando-se a maior já oferecida por um chefe de Estado em exercício.
As acusações são devastadoras. Segundo autoridades americanas, Maduro lidera uma rede que utiliza o território venezuelano como ponto-chave para o tráfico de cocaína para mercados internacionais. A fiscal geral Pam Bondi afirmou que a DEA já apreendeu 30 toneladas de cocaína vinculadas a Maduro e seus cúmplices, das quais quase 7 toneladas estão diretamente ligadas ao próprio Maduro. O Departamento de Justiça também confiscou mais de 700 milhões de dólares em ativos, incluindo dois aviões privados e nove veículos.
Mas a peça mais reveladora do quebra-cabeça veio de dentro. Hugo Carvajal, o “El Pollo”, ex-chefe da Inteligência Militar venezuelana, virou delator. Em carta a Trump, Carvajal admitiu ter testemunhado como o governo de Hugo Chávez se transformou em uma organização criminosa comandada por Nicolás Maduro, Diosdado Cabello e outros altos funcionários. Segundo Carvajal, o propósito do Cartel dos Sóis é usar as drogas como arma contra os Estados Unidos.
Diosdado Cabello, considerado o segundo homem mais poderoso do regime, também está na mira. A recompensa por Cabello foi elevada de 10 milhões para 25 milhões de dólares em janeiro de 2025. Testemunhas da DEA relataram reuniões entre Cabello e líderes das FARC para coordenar o tráfico de drogas.
O Mártir que Maduro Calou

Antes de chegarmos ao presente, preciso contar a história de um homem que muitos venezuelanos não esqueceram: Óscar Pérez. Em 27 de junho de 2017, esse ex-policial de 36 anos, piloto de helicóptero e até ator de cinema – conhecido como o “James Bond venezuelano” – roubou um helicóptero e atacou o Supremo Tribunal de Justiça e o Ministério do Interior em Caracas, lançando granadas e exibindo uma faixa com os dizeres “350 Libertad”, referência ao artigo 350 da Constituição venezuelana que permite desobediência civil contra regimes que violam direitos humanos.
Pérez gravou um vídeo cercado por homens armados e encapuzados, convocando militares e civis a se rebelar contra a “tirania” de Maduro. Durante seis meses, ele e seu pequeno grupo permaneceram na clandestinidade, burlando os serviços de inteligência venezuelanos enquanto postavam nas redes sociais e davam entrevistas. Em dezembro de 2017, atacaram um quartel da Guarda Nacional, roubando 26 fuzis.
A caçada terminou em 15 de janeiro de 2018. Quinhentos militares, policiais e paramilitares cercaram o grupo no bairro de El Junquito, em Caracas. Pérez transmitiu vídeos ao vivo durante o cerco de nove horas, aparecendo com o rosto ensanguentado, dizendo que queria se entregar mas que as forças governamentais não queriam capturá-lo vivo – queriam assassiná-lo. Documentos e fotografias vazados posteriormente sugeriram que Pérez foi capturado vivo e executado, junto com seis companheiros.
Diosdado Cabello, o mesmo que hoje enfrenta acusações de narcotráfico nos EUA, chamou Pérez de terrorista. A ministra Iris Varela tripudiou de sua morte nas redes sociais. Mas Pérez se tornou um mártir para milhões de venezuelanos. Trump, anos depois, o elogiou como um “grande patriota” que deu a vida pela liberdade de seu povo. A história de Óscar Pérez é fundamental para entender a brutalidade do regime que finalmente está enfrentando consequências.
A Última Fraude que Quebrou o Pacto

Se havia alguma dúvida sobre a legitimidade de Maduro, as eleições de 28 de julho de 2024 a destruíram completamente. O Conselho Nacional Eleitoral, controlado por Elvis Amoroso – amigo pessoal de Maduro e de sua esposa Cilia Flores – declarou vitória do presidente com 51,2% dos votos contra 44,2% do candidato da oposição, Edmundo González Urrutia. O problema? O CNE nunca publicou as atas eleitorais detalhadas que comprovassem esse resultado.
A oposição, liderada por María Corina Machado, tinha um plano. Seus fiscais conseguiram copiar as atas eleitorais em mais de 80% das mesas de votação. Essas atas foram digitalizadas e publicadas em um site hospedado na Amazon Web Services, permitindo que qualquer venezuelano verificasse o resultado de sua própria mesa eleitoral. Os números eram devastadores para Maduro: González havia vencido com 67% dos votos (6,2 milhões) contra 30% de Maduro (2,8 milhões).
As atas da oposição continham todos os elementos necessários para auditoria: números de identificação gerados pelo sistema, assinaturas de testemunhas e códigos QR. O CNE alegou um “ataque cibernético vindo da Macedônia do Norte” para justificar a não divulgação dos dados. O governo da Macedônia do Norte desmentiu, afirmando nunca ter recebido qualquer solicitação de investigação das autoridades venezuelanas.
Sete países latino-americanos – Argentina, Uruguai, Equador, Costa Rica, Panamá, Peru e Chile – recusaram-se a reconhecer a vitória de Maduro. Os Estados Unidos expressaram sérias preocupações. A União Europeia exigiu transparência total. O presidente chileno Gabriel Boric foi direto: “o regime de Maduro tem que compreender que os resultados que publicou são difíceis de acreditar”. Brasil, Colômbia e México pediram a divulgação das atas, mas evitaram tomar posições mais duras.
A resposta de Maduro foi a de sempre: repressão brutal. Protestos espontâneos eclodiram em todo o país. A Suprema Corte venezuelana – presidida por Caryslia Rodríguez, militante do partido de Maduro e próxima de Cilia Flores – “validou” os resultados sem nunca examinar as atas originais. Edmundo González teve sua prisão decretada e foi forçado ao exílio na Espanha. María Corina Machado permanece na clandestinidade no país.
O Contexto da Operação
A escalada foi rápida e calculada. Após anunciar a possibilidade de ataques terrestres contra a Venezuela, Trump afirmou que os dias de Maduro no poder “estavam contados”. Na segunda-feira anterior à captura, os Estados Unidos destruíram uma zona de atraque usada por embarcações vinculadas ao narcotráfico na Venezuela, marcando o primeiro ataque terrestre americano no país.
Maduro enfrentará julgamento pelos cargos de narcoterrorismo, corrupção e conspiração para introduzir cocaína nos EUA. O senador Mike Lee revelou que a ação militar vista durante a madrugada foi realizada para “proteger e defender aqueles que executavam a ordem de prisão”.
Preciso corrigir algo importante: esta não é a primeira vez que os Estados Unidos realizam uma operação militar desse tipo na América Latina. Em dezembro de 1989, os EUA invadiram o Panamá na Operação Justa Causa para capturar o ditador Manuel Noriega, acusado de tráfico de drogas. Em 1983, os Estados Unidos invadiram Granada para derrubar um governo marxista. A história da intervenção americana na região é longa e controversa.
O que torna este caso único é a escala da operação e o contexto geopolítico. Estamos falando de uma ação militar direta contra um Estado sul-americano de médio porte em pleno século XXI. As repercussões regionais são imediatas: o presidente colombiano Gustavo Petro mobilizou militares para a fronteira com a Venezuela, classificando as ações de Washington como “agressão à soberanía” da América Latina.
Trump convocou uma coletiva para as 11h da manhã (horário da Flórida) em Mar-a-Lago. As perguntas são muitas: Maduro está realmente detido? Onde? Qual será a reação das Forças Armadas venezuelanas? Cuba e Rússia vão se manifestar? E o mais importante: que tipo de governo ocupará o vácuo de poder em Caracas?
Durante o mandato de Maduro, a Venezuela sofreu hiperinflação, grave escassez de alimentos e medicamentos, e o êxodo de mais de 8 milhões de cidadãos, uma das maiores ondas migratórias do mundo. A questão agora é se esta operação abrirá caminho para uma transição democrática ou mergulhará o país em um caos ainda maior.
Uma coisa é certa: acordamos em um mundo diferente daquele em que fomos dormir. E não sabemos ainda todas as consequências do que acabou de acontecer.
