A grande estratégia dos EUA: Irã, Venezuela e os Cartéis

Três eventos das últimas semanas, aparentemente desconexos, têm uma lógica interna que vale o esforço de nomear com precisão. No dia 3 de janeiro, os EUA prenderam Nicolás Maduro em operação militar e o enviaram a Nova York para responder a acusações de tráfico de drogas e armas. Em seguida, intensificaram a pressão sobre o Irã, com sanções crescentes à sua chamada “frota-sombra” e ataques a instalações nucleares. E em 22 de fevereiro, Nemesio Oseguera Cervantes, o “El Mencho”, lenda viva do narcotráfico mexicano, morreu em operação conjunta das forças especiais mexicanas com inteligência norte-americana em Tapalpa, Jalisco. Cada ato tem sua própria narrativa doméstica, mas vistos juntos, compõem algo maior: um esforço deliberado de descompressão estratégica no Hemisfério Ocidental e no Oriente Médio para que os EUA possam, nos próximos dois anos, concentrar energia, recursos e atenção política no único teatro que importa de verdade para Washington neste momento — o Indo-Pacífico.

O petróleo como alavanca estratégica

A China importa cerca de 11,5 milhões de barris de petróleo por dia, segundo dado consolidado pelo próprio sistema aduaneiro chinês referente a 2025. Desse volume, o Irã e a Venezuela, juntos, respondem por uma fatia que oscila entre 15% e 20% das importações reais — não das importações declaradas, que são quase zero para ambos os países, mas das importações efetivas, rastreadas por empresas como a Kpler através das frotas-sombra, da rerotulagem de cargas na Malásia e de outros mecanismos de evasão de sanções que Washington conhece milimetricamente e tolerou até aqui.

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O ponto central não é que a China dependa existencialmente desse petróleo. Analistas do Columbia Center on Global Energy Policy são cuidadosos em distinguir exposição de dependência. A China tem uma base de fornecedores muito diversificada. Mas Teerã e Caracas oferecem algo que o mercado aberto não oferece: desconto. O petróleo iraniano chegou a ser ofertado às refinarias independentes chinesas — as chamadas “teapots” — a cerca de US$ 3 por barril abaixo do Brent. A Venezuela fornecia seu pesado Merey com margens similares. Para refinarias que operam em margens estreitas, esse desconto é a diferença entre lucro e prejuízo.

Ao comprimir esse ecossistema de barris sancionados, os EUA não estão tentando deixar a China sem petróleo — seria inviável. Estão, porém, encarecendo seu petróleo, elevando o prêmio de risco de cada carregamento, forçando a substituição para fontes mais caras ou para uma dependência crescente da Rússia. E aqui a equação se fecha de forma elegante para Washington: cerca de 20% das importações chinesas de petróleo já vêm da Rússia, e 70% do petróleo russo exportado tem a China como destino. Comprimir Irã e Venezuela não resolve o problema russo de imediato — mas o agravar, ao empurrar Pequim para maior dependência de Moscou no momento em que Washington também pressiona o setor energético russo via sanções ao Lukoil, à Rosneft e às frotas de tanqueiros.

A análise do Hudson Institute vai além e lembra um detalhe que faz toda diferença: não é a China que precisa do Irã e da Venezuela. São o Irã e a Venezuela que precisam da China. Pequim compra o petróleo deles porque é barato e porque manter esses regimes de pé tem utilidade estratégica — funcionam como distrações para os EUA, como pontos de ancoragem de um mundo multipolar e como clientes da influência financeira e tecnológica chinesa. Quando Washington age para remover esses países da órbita de Pequim, não está apenas cortando um fornecimento de energia; está destruindo parte do sistema de suporte que mantém vivos dois dos mais importantes aliados-clientes da China.

A morte de El Mencho

O caso do CJNG adiciona uma dimensão diferente, mas complementar. O Cártel Jalisco Nueva Generação é, nos termos do próprio DEA, a organização criminosa com maior capacidade operacional do México — presente em todos os estados do país, com braços em mais de 40 países, e estruturado como uma franquia descentralizada que cobra pelo uso da marca e das rotas. Esse modelo de franquia é também o que torna o cartel economicamente resistente: matar El Mencho não destrói o negócio, como vários analistas já advertiram. O problema, porém, não é só o fentanil. É o que economistas do crimen organizado chamam de “tributação das cadeias produtivas” — extorsão sistemática sobre o comércio, transporte e logística ao longo da fronteira México-EUA, uma das mais movimentadas do mundo em fluxo de mercadorias.

Quando o CJNG bloqueia estradas com narcobloqueios, cobra pedágio de transportadoras, intimida operadores de terminais ou controla zonas industriais, está impondo um custo invisível mas real ao comércio bilateral — estimado em alguns estudos em torno de 15% do valor transacionado em certas rotas. Isso é especialmente relevante agora, porque a renegociação do USMCA está na mesa e os EUA querem usar o México como plataforma de produção offshore para reduzir dependência da China em manufaturas de média complexidade. Um corredor EUA-México funcional e desobstruído é condição sine qua non para essa estratégia de nearshoring ganhar escala. El Mencho, vivo e operante, era um impedimento estrutural a esse projeto.

A operação que o matou em 22 de fevereiro foi formalmente executada pelas Forças Especiais mexicanas — a presidente Claudia Sheinbaum foi cuidadosa em sublinhar isso — mas o papel norte-americano na inteligência foi confirmado pela Casa Branca ainda no domingo. A designação do CJNG como organização terrorista estrangeira, feita por Trump em fevereiro de 2025, foi o instrumento jurídico que criou a base para essa cooperação expandida, segundo o especialista em segurança pública Facundo Rosas. Trump exibiu o resultado no seu discurso sobre o Estado da União no dia seguinte. Era para ser exibido.

O pivô ao Pacífico

O que conecta Caracas, Teerã e Tapalpa não é ideologia nem moralismo democrático — é geometria estratégica. A Estratégia Nacional de Segurança dos EUA de 2025 e a Estratégia Nacional de Defesa de 2026 são explícitas em identificar o Indo-Pacífico como o teatro decisivo do século. A lógica operacional que emerge dessas duas frentes é: para que os EUA possam focar recursos e atenção no Pacífico — onde a questão de Taiwan permanece a maior faísca potencial de conflito entre potências — precisam primeiro desobstruir o hemisfério ocidental e degradar a capacidade de Pequim de operar com conforto estratégico.

Se a China decidir agir militarmente contra Taiwan nos próximos dois anos, o cálculo que Pequim fará incluirá variáveis como: tenho acesso confiável a energia? Tenho aliados no Oriente Médio que me deem suporte diplomático e cobertura financeira? Tenho parceiros no hemisfério americano que me permitam pressionar os EUA por flancos alternativos? A resposta a cada uma dessas perguntas estava sendo sistematicamente degradada pela sequência de ações que acompanhamos desde o início de 2026.

Nenhuma dessas ações, sozinha, é decisiva. Os analistas do Geopolitical Monitor têm razão quando dizem que o petróleo iraniano e venezuelano chegará à China de qualquer forma — só vai custar mais e via rotas mais longas. O CJNG não vai desaparecer com a morte de El Mencho; já há pelo menos 90 organizações operando sob sua franquia. Mas a lógica da grande estratégia raramente opera por golpes únicos e definitivos. Opera por acumulação de pressões que, juntas, encarecem as escolhas do adversário, reduzem suas margens de manobra e forçam realocações de recursos que ele preferiria manter intactos.

O que tudo isso significa, de fato, para a nova ordem global

O que os EUA estão construindo não é uma política externa no sentido convencional — é uma reconfiguração de esferas de influência para o século 21, parecida com o que as grandes potências faziam no século 19, mas executada com os instrumentos do século 21: sanções financeiras, inteligência compartilhada, controle de fluxos energéticos e pressão sobre cadeias de fornecimento. A diferença é que dessa vez o alvo não é um país isolado, mas um ecossistema inteiro de estados que sustentam a capacidade de expansão chinesa.

Pense desta forma: a China funciona hoje como uma grande potência que precisa de três coisas para operar com confiança — energia barata, rotas comerciais seguras e aliados que distribuam o custo geopolítico de confrontar os EUA. Washington está atacando as três frentes simultaneamente, mas com uma lógica de prioridade clara: primeiro libera o hemisfério ocidental de interferência chinesa e russa, depois concentra tudo no Pacífico.

Se os EUA conseguirem manter a Venezuela na órbita norte-americana — seja com empresas americanas controlando a extração, seja redirecionando o petróleo venezuelano para o Golfo do México em vez de Xangai —, Pequim perde não só barris de petróleo com desconto, mas um aliado simbólico no hemisfério. Perde também um argumento político importante: o de que é possível existir e prosperar fora do sistema liderado por Washington. A Venezuela era, para o projeto chinês de multipolaridade, uma prova viva de que dava certo. Com Maduro preso em Nova York e o petróleo sendo negociado em dólares para refinarias americanas, essa prova desaparece.

O Irã é mais grave. Teerã não é apenas fornecedor de energia: é o principal financiador regional de grupos que mantêm a presença iraniana no Líbano (Hezbollah), no Iêmen (Houthis) e no Iraque (milícias pró-iranianas). Para a China, um Irã funcional no Oriente Médio serve como ponto de pressão permanente sobre os EUA — toda vez que Washington precisa alocar recursos militares e diplomáticos para aquela região, é menos capacidade disponível para o Pacífico. Se o Irã for neutralizado — seja por um acordo coercitivo, seja por colapso econômico acelerado pelas sanções —, os EUA ganham precisamente essa margem de manobra que precisam para olhar para o Índico e o Pacífico sem distração.

No México, a lógica é diferente mas complementa o quadro. O El Mencho morreu, mas o CJNG não vai desaparecer. O que muda, porém, é a equação política bilateral. Com a morte do líder mais procurado do México, conseguida com inteligência americana, o governo de Claudia Sheinbaum entrega a Washington o maior troféu simbólico possível — e com isso compra espaço para a renegociação do USMCA em melhores termos do que teria sem essa entrega. Para os EUA, o subproduto mais importante não é a droga apreendida: é um corredor México-EUA funcionando com menos atrito, capaz de absorver a produção industrial que as tarifas contra a China vão forçar a sair de lá para cá. O nearshoring — trazer fábricas de volta para perto dos EUA, usando o México como plataforma — só funciona se as rotas estiverem razoavelmente limpas.

O que os EUA estão construindo, ao final, não é uma vitória rápida. É uma posição de força para a próxima década. A lógica é a seguinte: se a China quiser agir militarmente contra Taiwan — e toda a literatura de defesa americana trata esse risco como real dentro de um horizonte de dois a cinco anos —, ela precisará fazer isso em condições piores do que as atuais. Com petróleo mais caro. Sem aliados confiáveis no Oriente Médio. Com o hemisfério americano fechado para sua influência. Com os EUA capazes de concentrar a 7ª Frota e seus aliados regionais — Japão, Austrália, Filipinas — no Pacífico, sem estarem distraídos com Venezuela, Irã ou cartéis mexicanos.

A nova ordem global que emerge desse processo não é uma volta à hegemonia americana do pós-Guerra Fria. É algo mais parecido com duas esferas de influência que se reconhecem mutuamente sem se gostar — os EUA no hemisfério ocidental e no Pacífico até a Primeira Cadeia de Ilhas, a China na Ásia continental e em partes da África e América do Sul onde Washington ainda não fechou o cerco. Uma paz de equilíbrio, como a Foreign Policy descreveu, que “os EUA e a China possam tolerar sem precisar destruir um ao outro”.

Se isso é uma vitória americana ou uma acomodação disfarçada de vitória, só o tempo dirá. O que não dá mais para dizer é que os movimentos das últimas semanas foram desconexos. Eles têm uma lógica. E essa lógica aponta para um Pacífico muito mais tenso nos próximos dois anos.


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