Como o Mossad roubou o MiG-21 do Iraque em 1966
O caso do Flávio Bolsonaro com a ida dele para os Estados Unidos, incluindo uma passagem pela Argentina, as informações desencontradas que possivelmente foram implantadas para desviar o foco, tudo isso me fez lembrar de um tema que já escrevi aqui no blog há alguns anos: o roubo de um caça soviético MiG-21 do Iraque pelo Mossad (em hebraico, המוסד, HaMossad), chamado de Operação Diamante (מבצע יהלום, Mivtza Yahalom), quando também houve uma família tirada de um país com ajuda de um serviço estrangeiro (escrevemos sobre isso aqui). Como o site hoje recebe muito mais visitas por dia, quero voltar ao assunto com mais detalhes para quem ainda não leu, porque a história parece mesmo roteiro de filme.
Em 1966 a Guerra Fria estava bem presente no Oriente Médio. A União Soviética abastecia de armas o Egito, que na época se chamava República Árabe Unida, e outros governos árabes inimigos de Israel, enquanto os Estados Unidos de Lyndon Johnson tinham como política evitar virar um grande fornecedor de armas de qualquer dos lados. As vendas diretas a Israel eram tratadas como exceções, caso a caso, como os mísseis Hawk em 1962. Israel, um país pequeno e cercado, ficava com vizinhos recebendo armamento soviético moderno e sem garantia de conseguir armas equivalentes dos americanos, e por isso descobrir do que esse armamento era capaz virou uma prioridade da inteligência israelense (fonte).
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O avião que mais preocupava era o MiG-21, um dos caças mais capazes que os adversários de Israel operavam. Ele era supersônico, ou seja, voava mais rápido que o som, e o Mossad estimava que Egito, Síria e Iraque já tivessem mais de 60 deles juntos. Em abril de 1965, o comandante da Força Aérea israelense, Ezer Weizman, pediu ao chefe do Mossad, Meir Amit (מאיר עמית), que conseguisse um MiG-21 para os israelenses estudarem de perto. A forma mais direta de fazer isso era convencer um piloto árabe a desertar, isto é, abandonar a própria força aérea e entregar o avião ao inimigo, e a oportunidade acabou aparecendo no Iraque (fonte) (fonte) (fonte).
O Iraque era uma monarquia aliada da Grã-Bretanha até 1958 (sobre como as potências europeias desenharam o mapa da região, já escrevemos aqui). Naquele ano uma revolução derrubou o rei, e a partir daí o país teve governos militares instáveis, com dois golpes só em 1963. Esses governos dependiam de armas soviéticas e se aproximaram do Egito de Nasser. Em abril de 1966 o presidente Abd al-Salam Arif morreu num acidente de helicóptero, e o irmão dele, Abd al-Rahman Arif, assumiu quatro meses antes da operação. Mesmo alinhado à União Soviética, o Iraque reabriu contatos com Londres e Washington, e é nesse quadro que oficiais iraquianos faziam cursos militares nos Estados Unidos (fonte) (fonte).
O piloto que entrou nessa história se chamava Munir Redfa (منير ردفا), era cristão assírio, uma minoria no Iraque, e voava o MiG-21. O Ynet conta que ele fez um desses cursos militares nos Estados Unidos e que um empresário judeu e colaborador do Mossad no Iraque, Yosef Shemesh, que tinha uma relação com a cunhada de Redfa, chegou até ele e o apresentou ao serviço israelense (fonte) (fonte).
A versão oficial de Israel é que Redfa sofria discriminação religiosa e étnica e tinha sido preterido em promoções. O Ynet acrescenta que ele ficou animado com a vida no Ocidente depois do curso nos Estados Unidos e que, segundo o próprio Redfa, sentia culpa por ter bombardeado vilas curdas com napalm, já que o governo iraquiano combatia os curdos, um povo do norte do país. Redfa viajou do Iraque para Roma, onde um piloto israelense o levou de avião a Israel. Ele ficou três dias, voou num avião da Força Aérea israelense e, sem saber, foi fotografado, para que as fotos servissem de pressão caso desistisse.
A oferta incluía 1 milhão de dólares, cidadania israelense e emprego fixo, segundo o Center for Israel Education, e a Jewish Virtual Library, que se baseia em livros sobre o Mossad, acrescenta uma casa e emprego vitalício. Antes do voo o Mossad precisava tirar a família dele do Iraque, para que ninguém sofresse represálias, e os parentes de Redfa saíram do país passando pelo Irã, que naquela época ainda tinha boas relações com Israel (fonte) (fonte) (fonte).
Em 16 de agosto de 1966, Redfa decolou no Iraque com um tanque extra de combustível, subiu a cerca de 9 mil metros e seguiu em direção a Israel, num voo de uns 900 quilômetros. Ao se aproximar de Israel, foi escoltado por caças israelenses até a base aérea de Hatzor, e contou depois que tinha pousado com “a última gota de combustível” (fonte) (fonte).
Em Israel o avião foi estudado em mais de 100 horas de voo ao longo de um ano, Redfa foi interrogado sobre o que sabia dele e o MiG recebeu o número 007, em referência ao agente James Bond. Os israelenses testaram os pontos fortes e fracos do caça, inclusive colocando pilotos da própria Força Aérea para enfrentá-lo, e passaram as táticas desenvolvidas aos demais pilotos. Redfa ficou pouco tempo no país e depois foi viver com a família em outro país ocidental (fonte) (fonte) (fonte). Abaixo um post do perfil oficial da Israeli Air Foce sobre a visita do ator Sean Connery em 1967:
O que se aprendeu com o avião foi usado menos de um ano depois, na Guerra dos Seis Dias (em hebraico, מלחמת ששת הימים), de 5 a 10 de junho de 1967, em que Israel enfrentou Egito, Jordânia e Síria. No primeiro ataque Israel destruiu no solo mais de 90% da força aérea egípcia, e outro ataque parecido neutralizou a da Síria. O próprio MiG ficou de prontidão em Hatzor, armado com mísseis israelenses, mas, segundo os relatos de Israel, nunca foi chamado a decolar. De acordo com o Ynet, esse conhecimento ajudou os pilotos israelenses a abater dezenas de MiG-21 árabes durante a guerra (fonte).
Os Estados Unidos também quiseram avaliar o avião, e em janeiro de 1968 Israel o emprestou. Levado à base de Groom Lake, em Nevada, mais conhecida como Área 51, o MiG entrou no programa Have Doughnut (nome em código desses testes), com mais de 100 voos. Os pilotos americanos concluíram que, em baixas altitudes, o MiG-21 fazia curvas mais fechadas que o F-4 Phantom, o principal caça americano da época, mas que o F-4 acelerava mais e tinha mais potência. Em troca do empréstimo, segundo o Arquivo Nacional americano, Israel passou a receber os próprios Phantom, que os Estados Unidos relutavam em vender. O Departamento de Estado registra que o presidente Lyndon Johnson decidiu vender os aviões ao longo de 1968 e que os americanos queriam, além disso, que Israel aderisse ao Tratado de Não Proliferação Nuclear, o que Israel recusou (fonte) (fonte).
Tudo o que contei até aqui segue principalmente a versão israelense, e existe uma versão iraquiana que contesta boa parte dela. Ela vem de um artigo do site War Is Boring, republicado pelo The National Interest, que usa as lembranças do general reformado Ahmad Sadik, ex-oficial da inteligência da Força Aérea iraquiana, e do historiador egípcio Nour Bardai. Nessa versão as Forças Armadas do Iraque davam pouca importância à religião e à origem dos oficiais, e Redfa era um dos cinco pilotos em quem o regime confiava para voar o MiG-21, o que contraria a ideia de que ele sofria discriminação. A versão iraquiana fala em coação, com um agente do Mossad dando a Redfa a escolha entre “prata ou chumbo”, que é o mesmo que dizer entre aceitar o dinheiro ou levar um tiro, e cita três pilotos que teriam sido mortos antes dele. O Ynet não menciona nada disso, e o The War Zone trata essas mortes como relatos da Força Aérea iraquiana e não como fatos comprovados (fonte) (fonte).
O mesmo artigo diz que o impacto do roubo costuma ser exagerado, principalmente nos Estados Unidos, porque o Iraque tinha restabelecido relações com Londres e Washington em 1963 e a inteligência americana já havia conseguido o manual tático do MiG-21 em 1965, antes da deserção. A investigação iraquiana, segundo o artigo, concluiu que Redfa era só o quarto nome da lista de pilotos que o Mossad tentava recrutar, e nenhum superior ou colega dele foi punido (fonte).
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