Por que o Brasil desindustrializou
A corrida eleitoral sempre traz assuntos interessantes, infelizmente são assuntos que vão ficar pelo caminho, é claro. Enfim, um excelente tema voltou a aparecer em alguns debates que tenho visto que é a desindustrialização do Brasil. Pois bem, vamos fazer um resumão de toda a história da industrialização e o porquê da desindustrialização. Vou focar no momento em que o Brasil decidiu virar um país industrial até o ponto em que essa indústria começou a perder espaço, terminando com as principais teses que os economistas usam hoje pra explicar o que aconteceu.
1930
Pra contar essa história do começo, o ponto de partida usual é 1930. Não que não existisse fábrica antes, já havia alguma indústria de pé, sobretudo têxtil, puxada pelo capital acumulado no ciclo do café em São Paulo, mas é com Getúlio Vargas, entre 1930 e 1945, que o Estado transforma industrialização em projeto de governo, através do que ficou conhecido como substituição de importações, que na prática significa passar a produzir dentro de casa o que antes vinha de fora. O Estado subia as tarifas de importação, desvalorizava o câmbio pra encarecer o produto estrangeiro e usava esse espaço protegido pra colocar de pé indústrias que o capital privado sozinho não bancaria, caso da siderurgia, que exigia muito investimento inicial e demorava anos pra dar qualquer retorno. Foi assim que nasceu a Companhia Siderúrgica Nacional, negociada com os Estados Unidos ao longo da Segunda Guerra em troca de apoio militar e alinhamento aos Aliados, história que já contamos com mais detalhes por aqui (confira aqui), e instalada em Volta Redonda, resolvendo de vez o problema do aço que o Brasil não conseguia produzir sozinho (fonte).
📲 Receba as próximas análises direto do nosso novo Canal no WhatsApp. Guerras, comércio, energia, tecnologia e poder. Novos artigos, gráficos e reflexões diretamente no canal CAVALÉRO LETTER. [Seguir no WhatsApp]
Vargas volta ao poder eleito em 1951 e fecha o pacote com a criação do BNDE em 1952, o banco estatal de desenvolvimento que financiaria projetos de longo prazo, e da Petrobras em 1953, entregando ao Estado o controle sobre crédito pesado e petróleo, dois insumos que a indústria nascente não tinha como garantir por conta própria. Essa lógica toda vinha influenciada por economistas estruturalistas brasileiros como Celso Furtado, que defendiam que só a industrialização tiraria o país da dependência histórica de exportar café e outros produtos primários, ideias que já detalhamos por aqui quando falamos dos economistas que moldaram esse debate no Brasil (confira aqui).
JK
Depois de um interregno mais morno, quem acelera esse processo de verdade é Juscelino Kubitschek, entre 1956 e 1961, com o Plano de Metas, um pacote de investimentos concentrado em energia, transporte e indústria de base, vendido na campanha com a promessa de cinquenta anos de progresso em cinco de mandato. JK trouxe capital estrangeiro pra montar a indústria automobilística no ABC paulista, coisa que Vargas não tinha conseguido, e a produção industrial cresceu bem mais rápido que na década anterior, ao ponto de praticamente dobrar entre 1955 e o fim do governo (fonte). Junto veio a construção de Brasília, símbolo maior daquele otimismo desenvolvimentista.
Os militares
Depois do golpe de 1964, o general Castelo Branco assume com uma equipe econômica focada em segurar a inflação e reorganizar as contas públicas. É desse mesmo governo, em 1967, que sai a Zona Franca de Manaus, criada justamente pra usar incentivo fiscal como ferramenta de industrialização numa região isolada, história que já contamos com mais detalhes por aqui (confira aqui).
Com Emílio Médici na presidência entre 1969 e 1973 e Antonio Delfim Netto tocando a economia, o Brasil vive o que ficou conhecido como milagre econômico, com o PIB, ou seja tudo que o país produz somado, crescendo numa média de 11,3% ao ano e a indústria crescendo ainda mais rápido, na casa dos 12,7% ao ano, puxada por crédito farto e por uma economia mundial em expansão (fonte). Foi também nesse período, em 1969, que nasceu a Embraer, estatal que décadas depois viraria o principal item de exportação de alta intensidade tecnológica do país, história que também já contamos por aqui (confira aqui). O detalhe é que esse crescimento todo era financiado com dívida externa, que saltou de 3 bilhões pra 12 bilhões de dólares só durante o milagre (fonte).
Quando Ernesto Geisel assume em 1974, já com o primeiro choque do petróleo batendo à porta, ele decide não desacelerar e lança o Segundo Plano Nacional de Desenvolvimento, apostando pesado em siderurgia, petroquímica e bens de capital, tudo financiado com mais dívida externa. A conta chega no começo dos anos 1980, já sob o governo Figueiredo, quando os juros americanos disparam, o crédito externo seca e o Brasil entra na chamada década perdida, com inflação alta e crescimento praticamente nulo.
1985–1986
É bem nesse fim de linha da ditadura que a indústria brasileira bate seu recorde histórico de participação na economia. Considerando só a indústria de transformação, ou seja a manufatura, o pico foi em 1986, quando esse setor sozinho respondia por 27,3% do PIB nacional, contra 13,7% em 2025 (fonte). Um parênteses rápido aqui, que vale pro resto do texto, é que esse tipo de conta pode ser feita de duas formas, a preços correntes, que é a mais comum e mais citada por aí, ou a preços constantes, que tira o efeito da inflação e mede só o volume que sai da fábrica. As duas contam a mesma história de queda, só que com números diferentes entre si, então não estranhe se um percentual mudar de um trecho pro outro do texto.
Vale reforçar uma coisa antes de seguir, que é o seguinte, perder espaço no PIB não significa que a fábrica fechou ou parou de produzir. Em vários anos desse período a manufatura brasileira até cresceu em volume, só que o agronegócio e os serviços cresceram ainda mais rápido, então a fatia da indústria no bolo total foi encolhendo mesmo com produção em alta.
Se a conta incluir toda a atividade industrial, não só a manufatura mas também a mineração, a construção civil e os serviços industriais de utilidade pública, o levantamento da Confederação Nacional da Indústria mostra que esse conjunto saiu de cerca de 48% do PIB em 1985 pra 24,7% em 2024 (fonte).
Coincidência ou não, esse pico histórico acontece bem no início da redemocratização, com José Sarney tomando posse como primeiro presidente civil depois de 21 anos de regime militar. A crise que já vinha se armando desde o fim dos anos 1970, com a dívida externa e a inflação alta, não tem nada a ver com a chegada da democracia, mas é justamente a partir dali que a indústria brasileira entra numa trajetória de perda de espaço que se estende pelas décadas seguintes.
Anos 90
Fernando Collor assume em 1990 encabeçando uma abertura comercial rápida, derrubando barreiras que protegiam a indústria nacional desde os tempos de Vargas. A tarifa média de importação, que girava em torno de 30% em 1990, caiu pra perto de 14% em 1995, expondo de uma vez fábricas que quase seis décadas de protecionismo tinham blindado da concorrência externa (fonte). Essa virada, aliás, é um dos casos que já usamos por aqui pra discutir a tese de Ha-Joon Chang sobre como os países ricos hoje defendem um livre-comércio que eles mesmos não praticaram enquanto estavam industrializando (confira aqui).
Itamar Franco lança o Plano Real em 1994 sob a batuta do então ministro da Fazenda Fernando Henrique Cardoso, que assume a presidência no ano seguinte e aprofunda essa agenda, resolvendo a inflação crônica mas segurando o câmbio valorizado. O processo de privatização, que já tinha começado com o próprio Collor, se intensifica nesse período e chega a mais de 160 estatais vendidas ao longo da década, com nomes de peso como Usiminas, CSN e a própria Vale do Rio Doce, que Vargas tinha erguido décadas antes (fonte).
Anos 2000
Lula assume em 2003 em meio ao chamado medo de Lula, quando o mercado temia um calote e o real se desvalorizou fortemente. Só que a partir dali a China começa a puxar uma demanda gigantesca por commodities brasileiras, ou seja produtos primários como minério de ferro e soja, exportados com pouco ou nenhum processamento industrial, e o real entra numa valorização forte que vai até 2011. Esse movimento é o que os economistas chamam de doença holandesa, aquele fenômeno em que a exportação maciça de recursos naturais aprecia a moeda do país e encarece o produto industrial nacional lá fora, mecanismo que já detalhamos por aqui quando falamos do fundo soberano da Noruega (confira aqui).
Esse processo aparece direto na composição do que o Brasil exporta. Os manufaturados, que respondiam por mais de 55% da pauta de exportação em 1997, caem pra perto de 40% em 2010, enquanto os produtos básicos, como minério e soja, saltam de 29% pra 47% no mesmo período (fonte). O próprio governo Lula tentou contrapor esse efeito lançando planos de incentivo industrial em 2003 e 2008, mas o esforço nunca foi forte o bastante pra segurar a valorização do câmbio. Só que, como a gente vai ver mais na frente, nem essa história de câmbio e abertura comercial sozinha dá conta de explicar o tamanho da queda que vem depois.
Da crise ao apagão industrial
Dilma Rousseff assume em 2011 já falando em guerra cambial e lança o Plano Brasil Maior, com desoneração da folha de pagamento e crédito subsidiado pra tentar segurar a indústria, mas não é suficiente. A partir de 2014 o país mergulha na pior recessão de sua história recente, o preço das commodities despenca e a indústria de transformação segue perdendo espaço mesmo com o real se desvalorizando de novo depois de 2015. Nos governos seguintes, de Michel Temer a Jair Bolsonaro, esse recuo continua até bater os piores números da série histórica, girando perto de 11% do PIB em 2020 e 2021 nessa mesma métrica a preços correntes, achatamento que a pandemia só reforçou, com a produção industrial global travada e o consumo brasileiro migrando pra importados assim que a economia reabriu (fonte).
A volta da política industrial
Lula volta à presidência em 2023 apostando de novo em política industrial, e em janeiro de 2024 o governo lança a Nova Indústria Brasil, com Geraldo Alckmin à frente do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, prometendo trezentos bilhões de reais em financiamento até 2033 geridos pelo BNDES, o banco estatal de desenvolvimento, e por agências de fomento à inovação como a Finep e a Embrapii (fonte). Parte dos economistas recebeu o anúncio com desconfiança, apontando que o pacote reciclava ferramentas antigas sem atacar o que mais pesa sobre quem produz no Brasil, que é o chamado Custo Brasil, aquele conjunto de juros altos, carga tributária pesada e burocracia que encarece investir em fábrica no país. Esse ponto, aliás, conecta direto com o problema dos juros brasileiros que já discutimos por aqui, porque quando o custo de capital fica muito acima da média mundial, é a indústria, que precisa de investimento pesado e retorno lento, quem mais sofre (confira aqui).
O problema é que qualquer política industrial mais ambiciosa esbarra no mesmo obstáculo de sempre, que é o espaço fiscal, justamente o ponto que o FMI, o Fundo Monetário Internacional, colocou no centro do seu último relatório sobre a economia brasileira (confira aqui). Com a disputa presidencial de 2026 no radar, tanto o governo quanto a oposição vêm usando esse quadro todo pra construir narrativa, uns cobrando mais proteção e investimento estatal, outros cobrando reforma tributária e redução do peso do Estado sobre quem produz.
As teses
Voltando à pergunta que abre esse texto, que é entender por que o Brasil desindustrializou, os economistas testam basicamente duas hipóteses concorrentes, e nenhuma das duas fecha a conta sozinha. A primeira é a doença holandesa que já mencionamos, ligada à valorização cambial provocada pelo crescimento das exportações de recursos naturais. A segunda é a desindustrialização precoce, ideia desenvolvida pelo economista Dani Rodrik, segundo a qual países em desenvolvimento vêm perdendo espaço industrial muito antes de atingir a renda per capita que os países ricos tinham quando começaram a desindustrializar, efeito puxado pela abertura comercial global e pela ascensão de países asiáticos que, ao contrário do Brasil, sustentaram a base manufatureira com política de Estado consistente, tema que já exploramos por aqui (confira aqui) (fonte).
O detalhe curioso é que, quando os pesquisadores testam essas duas hipóteses com dados de verdade, nenhuma delas explica o tamanho da queda observada. Um estudo de Edmar Bacha e outros pesquisadores da Fundação Getúlio Vargas e do Instituto de Estudos de Política Econômica, publicado em 2025 na Revista Brasileira de Economia, mostra que a manufatura, medida a preços constantes, ou seja isolando o efeito da inflação e olhando só pro volume produzido, caiu de 15,7% do PIB em 1995 pra 9,8% em 2022, uma queda de 38%. Só que, segundo o próprio modelo, a variação do câmbio sozinha teria gerado mais indústria, não menos, e a evolução da renda per capita também teria puxado a participação industrial pra cima, não pra baixo. Quem realmente explica quase toda a queda é uma tendência de fundo que não está ligada nem ao câmbio nem à renda, respondendo por 92% do tombo no curto prazo e por mais que isso no longo prazo (fonte).
Os próprios pesquisadores ainda não fecharam o motivo exato dessa tendência, mas apontam como suspeita principal a perda de competitividade da indústria brasileira frente ao resto da economia, sobretudo o agronegócio, que multiplicou sua produtividade no mesmo período enquanto a manufatura ficou pra trás. Talvez devêssemos entender melhor esse contraste antes de decidir se a saída passa por mais protecionismo, como propõe a Nova Indústria Brasil, ou por resolver o Custo Brasil que qualquer fabricante enfrenta na hora de investir. Se a indústria perdeu competitividade porque parou de crescer em produtividade, proteger empresa sem cobrar investimento e inovação em troca pode só empurrar o problema com a barriga, e abrir ainda mais a economia sem resolver esse gargalo por trás pode acelerar a perda de capacidade produtiva que a gente já vem carregando há quarenta anos. É basicamente essa disputa de diagnóstico que vai orientar boa parte do debate econômico da eleição de 2026.
Continue acompanhando
Se esta análise foi útil para você, receba gratuitamente novos conteúdos sobre geopolítica, economia e relações internacionais.
✓ Novos artigos publicados no blog
✓ Gráficos e infográficos
✓ Curiosidades históricas
✓ Análises sobre os principais acontecimentos internacionais
📲 Seguir CAVALÉRO LETTER