|

A dívida pública dos Estados Unidos da América

Depois que escrevi sobre a dívida trilionária brasileira e, na sequência, sobre por que o caso japonês não serve de consolo pra gente, ficou faltando o terceiro personagem dessa história. E é o mais importante de todos, porque é o único que deve numa moeda que ele mesmo emite e que o mundo inteiro aceita.

No final de julho de 2026, a dívida bruta do governo federal americano estava em 39,8 trilhões de dólares. O Tesouro americano publica esse valor todo dia útil, num conjunto de dados chamado Debt to the Penny (dívida até o centavo), e vale a pena olhar pelo menos uma vez na vida, porque é raro ver um governo expondo o próprio buraco com essa frequência (U.S. Treasury Fiscal Data).

📲 Receba as próximas análises direto do nosso novo Canal no WhatsApp. Guerras, comércio, energia, tecnologia e poder. Novos artigos, gráficos e reflexões diretamente no canal CAVALÉRO LETTER. [Seguir no WhatsApp]

 

Pra dar dimensão do salto, em 2000 essa mesma dívida era de 5,7 trilhões. Em 2005 tinha ido pra 7,9 trilhões, em 2015 já estava em 18,2 trilhões e fechou o ano fiscal de 2025 em 37,6 trilhões. Ou seja, quase sete vezes em 26 anos. E ela subiu todo ano fiscal desde 2001, sem exceção (U.S. Treasury Fiscal Data).

Os Estados Unidos entraram nos anos 2000 com superávit no orçamento. Aí veio o corte de impostos de 2001 e 2003, veio o 11 de setembro e as guerras no Afeganistão e no Iraque, e a conta virou vermelha de novo. Depois veio a crise de 2008, com os pacotes de socorro aos bancos e o estímulo pra segurar a economia. Depois veio outro corte de impostos em 2017. E aí veio a pandemia, que sozinha adicionou 4,2 trilhões de dólares à dívida só no ano fiscal de 2020, o maior salto nominal de um único ano na história americana.

Cada um deles foi votado no Congresso e assinado por um presidente. A dívida americana não é fruto de descontrole administrativo, é fruto de uma escolha repetida de gastar mais do que se arrecada, com apoio dos dois partidos em momentos diferentes.

O padrão continua até hoje. Só em 2025, a lei de reconciliação orçamentária aprovada naquele ano aumentou a projeção de déficits acumulados entre 2026 e 2035 em 4,7 trilhões de dólares. As tarifas de importação, na direção contrária, reduziram essa projeção em cerca de 3 trilhões, e a queda na imigração adicionou mais 0,5 trilhão de déficit (Congressional Budget Office).

Agora, número absoluto sozinho não diz muito, e isso eu já tinha comentado no texto sobre o Japão. O que importa mesmo é a relação com o tamanho da economia, e aqui existe uma confusão que aparece muito e vale esclarecer. Nos Estados Unidos, quando os economistas falam de dívida, normalmente falam de debt held by the public (dívida em poder do público), que exclui o que uma parte do governo deve pra outra parte, como os fundos da previdência. Essa medida estava em torno de 101% do PIB em 2026, e a projeção é que chegue a 120% em 2036, ultrapassando o recorde de 106% que os EUA atingiram em 1946, logo depois da Segunda Guerra (Congressional Budget Office).

Já o FMI usa outro critério, o da dívida bruta do governo geral, que soma tudo, inclusive estados e municípios. Nessa métrica os Estados Unidos aparecem com 126% do PIB em 2026, com projeção de 142% em 2031. Comparando com os outros, o Japão está em 204%, a Itália em 138%, a Grécia em 137%, a França em 118%. O Brasil, pra referência, roda bem abaixo disso (IMF Fiscal Monitor, abril de 2026).

Repare que a deterioração americana é a mais rápida entre as economias avançadas nesse horizonte. Não é a maior dívida do mundo, mas é a que está piorando mais depressa entre os países ricos, e isso é o que costuma incomodar quem acompanha o assunto. A parte que dói de verdade no orçamento são os juros. Em 2026, os Estados Unidos vão gastar cerca de 1 trilhão de dólares só pagando juros da dívida, o que dá 3,3% do PIB. A projeção é que isso dobre pra 2,1 trilhões em 2036, chegando a 4,6% do PIB. É o item que mais cresce no orçamento federal, e a partir do fim desta década ele passa a consumir mais do que a defesa (Baker Institute).

Falando em quem financia tudo isso, investidores estrangeiros seguravam 9,49 trilhões de dólares em títulos do Tesouro americano em fevereiro de 2026, um recorde. O Japão é o maior credor estrangeiro, com cerca de 1,2 trilhão, seguido do Reino Unido, com uns 897 bilhões, e da China, com uns 683 bilhões. A China, aliás, vem reduzindo posição há anos, mas outros compradores entraram no lugar e o total continuou subindo (Congressional Research Service).

Isso significa que a maior parte da dívida americana é comprada pelos próprios americanos, entre bancos, fundos de pensão, seguradoras, o Federal Reserve e famílias. A ideia de que os EUA estão nas mãos da China não bate com os números, porque o que a China tem hoje é menos de 2% do total da dívida federal.

Só que nada disso explica o principal, que é o ponto que separa os Estados Unidos de todo mundo. Eles devem numa moeda que eles mesmos emitem e que o resto do planeta usa por conta própria. Isso vem de julho de 1944, quando, com a guerra ainda em curso, delegados de 44 países se reuniram num hotel em Bretton Woods (falamos disso aqui), no estado americano de New Hampshire. Dali saíram o FMI e o que viria a ser o Banco Mundial, e saiu também um sistema monetário novo. As moedas dos outros países ficavam atreladas ao dólar, e o dólar ficava atrelado ao ouro numa taxa fixa de 35 dólares a onça. Os países passaram a acertar suas contas internacionais em dólar, e os Estados Unidos tinham a obrigação de manter aquele preço do ouro de pé (Federal Reserve History).

O arranjo tinha um problema embutido que o economista belga Robert Triffin descreveu ainda nos anos 1950. Pro mundo ter dólares suficientes pra crescer e comerciar, os Estados Unidos precisavam mandar dólares pra fora, ou seja, precisavam rodar déficits. Só que quanto mais dólares circulassem fora, menos crível ficava a promessa de trocar todos eles por ouro, porque o estoque de ouro americano era finito.

Foi exatamente isso que aconteceu. Na noite de 15 de agosto de 1971, Nixon foi à televisão e fechou a janela do ouro. Governos estrangeiros não podiam mais trocar seus dólares por metal. Junto veio um congelamento de preços e salários por 90 dias e uma sobretaxa de 10% nas importações. O sistema de Bretton Woods acabou ali, e o mundo passou a operar com moedas puramente fiduciárias (Federal Reserve History).

Sem lastro nenhum, o dólar ficou mais dominante do que era antes, apoiado agora em outras coisas, como a profundidade do mercado financeiro americano, a liquidez dos títulos do Tesouro, o uso do dólar na fatura do petróleo e a credibilidade monetária reconstruída por Paul Volcker no começo dos anos 1980, quando ele subiu os juros a níveis brutais pra matar a inflação.

Os números atuais mostram bem onde isso parou. No primeiro trimestre de 2026, o dólar respondia por 57,13% das reservas cambiais oficiais do mundo, contra 20,03% do euro e 1,99% do renminbi chinês (IMF COFER). Fora as reservas, o dólar aparece em 54% do faturamento das exportações globais e em 89% do volume negociado no mercado de câmbio. Esse último número merece atenção, porque significa que em quase nove de cada dez operações cambiais do planeta tem um dólar em algum lado da transação, mesmo quando nenhum dos dois países envolvidos é os Estados Unidos (Atlantic Council, Dollar Dominance Monitor).

É aqui que entra o conceito que os economistas chamam de privilégio exorbitante, expressão criada nos anos 1960 por um ministro francês e depois formalizada em economia por Pierre-Olivier Gourinchas e Hélène Rey. O mundo tem uma demanda especial por ativos seguros denominados em dólar, e paga um prêmio por isso. Na prática, os Estados Unidos conseguem se financiar mais barato do que qualquer outro devedor conseguiria com o mesmo nível de endividamento. Um estudo de Jiang, Krishnamurthy e Lustig estima que investidores estrangeiros abrem mão de cerca de 2% de retorno ao ano pra ter títulos do Tesouro americano, e que 90% desse desconto vem simplesmente do fato de o papel ser em dólar (NBER).

Traduzindo, é como se o mundo desse um desconto permanente na conta de juros dos Estados Unidos, em troca de poder guardar dinheiro num lugar seguro e líquido. Nenhum outro país tem isso. O Brasil não tem, o Japão tem uma versão bem mais fraca e ainda depende quase toda de poupador interno, e a China vem tentando construir algo parecido com o renminbi há mais de uma década, sem sair dos 2% de reserva mundial.

Privilégio, porém, não é imunidade. O FMI apontou no Relatório de Estabilidade Financeira Global de abril de 2026 que o peso crescente de fundos de hedge e outros intermediários financeiros alavancados na negociação da dívida soberana americana está deixando o mercado mais sujeito a solavancos, principalmente numa eventual liquidação forçada dessas posições (IMF Global Financial Stability Report).

Uma outra questão que podemos mencionar aqui é que o custo do privilégio recai sobre alguém dentro dos próprios Estados Unidos. Quando o mundo compra dólar e título americano, o dólar fica mais forte do que ficaria, e dólar forte encarece o produto americano lá fora. Quem paga essa conta é o exportador e a indústria que compete com importado, e boa parte da política comercial americana dos últimos dez anos, com tarifas e conflito comercial, é tentativa de resolver um sintoma cuja causa está exatamente nesse arranjo monetário.

Comparando com o que a gente viu nos textos anteriores, a diferença de fundo é essa. O Japão deve muito, mas deve pra si mesmo e em iene. O Brasil deve menos, mas paga juro alto e tem prazo curto. Os Estados Unidos devem numa moeda que eles emitem, que o mundo quer ter, e por isso conseguem sustentar um nível de dívida que quebraria qualquer outro. A dúvida não é se eles vão dar calote, porque não vão. A dúvida é até quando o resto do mundo continua disposto a bancar o desconto, e o que acontece com os juros americanos no dia em que essa disposição diminuir.

Continue acompanhando

Se esta análise foi útil para você, receba gratuitamente novos conteúdos sobre geopolítica, economia e relações internacionais.

✓ Novos artigos publicados no blog

✓ Gráficos e infográficos

✓ Curiosidades históricas

✓ Análises sobre os principais acontecimentos internacionais

📲 Seguir CAVALÉRO LETTER

Posts Similares