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Quem é a família Saud, a dinastia que fundou a Arábia Saudita

Você sabia que o nome do país vem do sobrenome da família que controla o reino desde 1932? A Arábia Saudita é, literalmente, o reino da família Saud, e é essa mesma família, quase cem anos depois, que acabou de fechar um acordo nuclear bilionário com os Estados Unidos.

O Departamento de Energia dos Estados Unidos anunciou a assinatura de um acordo de cooperação nuclear com a Arábia Saudita. Esse acordo, chamado de 123 agreement (nome que vem da Seção 123 da Lei de Energia Atômica americana, de 1954), estabelece as bases legais para uma parceria de décadas, envolvendo bilhões de dólares e transferência de tecnologia nuclear civil. Na prática, o que ele faz é permitir que empresas americanas forneçam tecnologia nuclear para a Arábia Saudita construir reatores e gerar energia elétrica. (fonte)

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Só que o acordo também abre caminho para que os sauditas enriqueçam urânio em território próprio, e inclui uma dispensa que os isenta das inspeções internacionais mais rigorosas, as mesmas exigidas em acordos nucleares com outros países, como os Emirados Árabes Unidos. Enriquecimento de urânio é o mesmo processo técnico que serve tanto para produzir combustível de reator quanto para fabricar uma bomba, e é por isso que o assunto pegou fogo no Congresso americano. O príncipe herdeiro Mohammed bin Salman já falou publicamente que trabalharia para desenvolver armas nucleares caso o Irã não seja impedido de tê-las. (fonte)

O Wall Street Journal noticiou que o acordo prevê a possibilidade de uma instalação de enriquecimento em solo saudita operada por empresas americanas, num sistema chamado de black box (caixa-preta), onde os sauditas teriam a usina mas não teriam acesso direto à tecnologia. Essa instalação depende de um estudo conjunto de dois anos entre os dois países para avaliar se faz sentido comercial. As discussões sobre esse acordo começaram no primeiro mandato de Trump, continuaram durante o governo Biden e agora foram concluídas no atual governo Trump. (fonte)

O presidente dos EUA, Donald Trump, é recebido pelo príncipe herdeiro saudita Mohammed Bin Salman em Riad, Arábia Saudita, em 13 de maio de 2025. (REUTERS/Brian Snyder)

O senador Edward Markey, democrata de Massachusetts, criticou o acordo dizendo que ele abandona normas de não proliferação que existem há décadas e pode permitir que Riad produza material nuclear sem as salvaguardas internacionais adequadas. (fonte) Do outro lado da discussão, analistas argumentam que a participação americana garante mais controle sobre o programa nuclear saudita do que se o reino recorresse à Rússia ou à China para conseguir a mesma tecnologia. (fonte)

Pra entender por que os EUA estão fazendo isso justo agora, com o Irã no meio de uma escalada militar na região, a gente precisa olhar pra história da Arábia Saudita desde o começo.

A família e o reino

O nome “Arábia Saudita” fica bem mais claro quando você descobre a origem. Não vem de uma etnia, não vem de uma região geográfica, não vem de um conceito de nação árabe. Vem de uma família. A família Saud. O país é, literalmente, o reino da família Saud.

A dinastia foi fundada por Muhammad ibn Saud no século XVIII, e o nome vem do pai dele, Saud ibn Muhammad ibn Muqrin, que governou a cidade de Ad-Dir’iyyah entre 1720 e 1725, perto de onde fica Riade hoje. Em 1744, Muhammad ibn Saud fez uma aliança com Muhammad ibn Abd-al-Wahhab, um reformador religioso que pregava uma renovação do islã baseada num código moral rígido, que ficaria conhecido como wahhabismo. Essa aliança entre uma família com ambição política e um movimento religioso com ambição de reformar a sociedade virou o alicerce de tudo. A família Saud entrava com o poder militar, e o wahhabismo entrava com a legitimidade religiosa. (fonte)

Distrito de At-Turaif em ad-Dir’iyah [Diriyah Gate] – Essa propriedade foi a primeira capital da Dinastia Saudita, no coração da Península Arábica, a noroeste de Riade. Fundada no século XV, ela testemunha o estilo arquitetônico Najdi, que é específico do centro da península arábica. 

O Najd, região central da Península Arábica onde tudo isso começou, era um lugar pobre e isolado do mundo islâmico naquela época. Ao longo de 150 anos a família expandiu e perdeu território várias vezes. (fonte)

Mapa do Primeiro Estado Saudita (1744–1818)
Mostra a expansão a partir de Diriyah. Ajuda a contextualizar o poder militar que a família Saud passou a exercer após a aliança.

A reconstrução do reino, essa que deu origem ao país que existe hoje, começou com uma data específica. Em 15 de janeiro de 1902, Ibn Saud tomou Riade da tribo rival Rashid. Em 1913, suas forças capturaram a província de al-Hasa dos turcos otomanos. Em 1922, ele completou a conquista do Nejd, e em 1925, conquistou o Hejaz, região que abriga Meca e Medina. Foram vinte e três anos de campanhas militares seguidas, território por território. Pelo caminho, em 1912, Ibn Saud criou assentamentos militares e agrícolas chamados de hijrahs, que deram origem à Ikhwan, uma irmandade militar e religiosa que ele usou para eliminar rivais. (fonte)

Em 23 de setembro de 1932, os reinos do Hejaz e do Najd, que eram administrados separadamente desde 1927, foram unificados por decreto real, criando o Reino da Arábia Saudita. (fonte)

O país nasceu pobre. Deserto, sem infraestrutura, sem indústria relevante, com uma economia que dependia de comércio local, criação de animais e da renda que vinha da peregrinação religiosa a Meca. Ibn Saud governava um território gigantesco com pouquíssimo dinheiro.

O petróleo e os americanos

A Saudi Aramco (Saudi Arabian Oil Company) é hoje uma das empresas mais valiosas do planeta, com valor de mercado em torno de 1,7 trilhão de dólares, figurando consistentemente entre as dez maiores companhias do mundo por capitalização de mercado e disparadamente a maior do setor de petróleo e gás.

Essa gigante nasceu de forma bem mais modesta. Em 1933, a Arábia Saudita assinou um acordo de concessão com a Standard Oil Company of California (SOCAL). Para administrar o contrato, foi criada uma subsidiária chamada California Arabian Standard Oil Company (CASOC). As perfurações começaram em 1935. (fonte)

A equipe de perfuração do Poço Dammam nº 7 posa nos degraus da plataforma em 1937 ou 1938. A perfuração para petróleo começou em 1935. Três anos depois, o petróleo foi encontrado em quantidades comerciais pelo Poço nº 7 em 4 de março. Saudi Aramco
Sua Excelência Shaykh ‘Abd Allah as-Sulayman, Ministro das Finanças da Arábia Saudita, e o Sr. Lloyd N. Hamilton, advogado e negociador da Standard Oil da Califórnia, assinam o acordo de concessão em 29 de maio de 1933, em Jiddah. Saudi Aramco
Poço Dammam-7, 1938 

Só que os anos seguintes foram de frustração. Perfuravam e não encontravam nada em quantidade comercial. Depois de anos sem resultado, em 1937 os executivos da SOCAL pediram a opinião do geólogo-chefe Max Steineke, e ele, apoiado em anos de trabalho de campo, disse pra continuar perfurando. A insistência valeu a pena. Em 4 de março de 1938, o poço Dammam número 7, que ficaria conhecido depois como “Prosperity Well” (Poço da Prosperidade), encontrou petróleo em quantidade comercial. A economia do país mudou por completo a partir dali. (fonte) (fonte)

Com o petróleo fluindo e a importância econômica da Arábia Saudita crescendo rapidamente, os Estados Unidos não demoraram a tratar o reino como uma peça central de sua estratégia no Oriente Médio. O momento decisivo veio no final da Segunda Guerra Mundial.

Cerca de oitenta anos atrás, no final da Segunda Guerra Mundial e logo depois da Conferência de Yalta, o presidente Franklin D. Roosevelt tentou fechar uma grande barganha com o fundador da Arábia Saudita. Roosevelt e Ibn Saud se encontraram a bordo do cruzador americano USS Quincy, ancorado no Grande Lago Amargo, no Canal de Suez. Esse encontro de fevereiro de 1945 definiu a lógica que funciona até hoje. (fonte)

O rei Ibn Saud da Arábia Saudita e o presidente Franklin D. Roosevelt compartilham uma risada a bordo do USS Quincy no Grande Lago Amargo, no Egito. Cortesia da Biblioteca e Museu Presidencial Franklin D. Roosevelt.

Os dois países firmaram um pacto baseado em petróleo saudita em troca de um guarda-chuva de segurança americano que protegesse o reino de ameaças externas. É uma relação ancorada em interesses de Estado, não em ideologias comuns ou sistemas políticos parecidos, que continuam em extremos opostos. Os EUA são uma democracia liberal, a Arábia Saudita é uma monarquia absoluta teocrática. O petróleo criou um casamento de conveniência que atravessou oito décadas. (fonte)

Os números

A Arábia Saudita detém 15% das reservas comprovadas de petróleo do mundo, é a maior exportadora de petróleo bruto do planeta e mantém a maior capacidade de produção do mundo, com quase 12 milhões de barris por dia, incluindo a capacidade da Zona Neutra que ela divide com o Kuwait. Em termos absolutos, isso significa cerca de 267 bilhões de barris em reservas comprovadas, o segundo maior estoque do mundo. (fonte)

A produção efetiva ficou abaixo desse teto nos últimos anos por decisão política. Como membro do OPEP+, a Arábia Saudita concordou com cortes de 0,5 milhão de barris por dia a partir de maio de 2023, e cortou unilateralmente mais 1,0 milhão de barris por dia a partir de julho de 2023. A OPEP, pra quem não conhece, é a Organização dos Países Exportadores de Petróleo, um cartel que coordena a produção entre os maiores exportadores pra influenciar o preço internacional do barril. Em 2024, a produção saudita ficou em torno de 10,8 milhões de barris por dia, com um consumo interno de cerca de 3,6 milhões, deixando um excedente de mais de 7 milhões de barris disponíveis para exportação. (fonte)

O peso do petróleo na economia saudita é gigantesco. O setor responde por cerca de 75% das receitas do governo, 40% do PIB e 90% das receitas de exportação. Em 2024, as exportações totais do país somaram cerca de 178 bilhões de dólares. Ou seja, sem petróleo a Arábia Saudita seria um país completamente diferente do que conhecemos hoje. (fonte)

Em 2022, o petróleo e outros líquidos derivados representaram 85% de toda a produção primária de energia do país, e a geração elétrica saudita vinha 40% de petróleo e 60% de gás natural, com praticamente zero de nuclear, hidrelétrica ou renováveis. Esse dado explica bastante coisa sobre o acordo nuclear, porque a Arábia Saudita queima petróleo pra gerar a própria eletricidade, e cada barril queimado dentro de casa é um barril que deixa de ser exportado. (fonte)

Existe um detalhe técnico que costuma passar batido. Mesmo depois que os EUA desenvolveram a produção de shale oil (petróleo de xisto, extraído de formações rochosas com uma técnica diferente da perfuração convencional) a partir de 2011, as refinarias americanas continuaram dependendo do petróleo saudita. Boa parte do parque de refino dos EUA foi construída pra processar petróleo pesado, parecido com o saudita, e não o petróleo leve que sai do xisto. Trocar a matéria-prima exigiria bilhões em adaptação de refinarias.

A rivalidade com o Irã

A posição estratégica da Arábia Saudita para os EUA vai muito além do petróleo, e aqui entra uma divisão religiosa que define boa parte da geopolítica do Oriente Médio. O islã se dividiu em dois grandes ramos depois da morte do profeta Maomé no século VII, por causa de uma disputa sobre quem deveria sucedê-lo. De um lado os sunitas, que representam cerca de 85% dos muçulmanos do mundo. Do outro os xiitas, com cerca de 15%. A Arábia Saudita é o principal país sunita e guardiã das cidades sagradas de Meca e Medina, enquanto o Irã é o principal país xiita. Essa divisão de mais de mil anos virou, na prática, uma disputa por influência regional. (já falamos sobre a divisão do Islã aqui)

Ao longo de décadas, a Arábia Saudita ajustou sua produção de petróleo pra manter preços estáveis e vendeu petróleo aos Estados Unidos em condições favoráveis, em troca de proteção militar americana. O Irã também é grande produtor, só que tem uma economia bem mais frágil e mais dependente do petróleo. Quando os sauditas abrem a torneira e derrubam o preço do barril, quem sente mais é Teerã. (fonte)

Desde meados da década de 1920, quando a família real capturou Meca e Medina, uma questão domina a política externa saudita, que é a segurança da própria família e, por extensão, do país. Quando a Revolução Islâmica transformou o Irã de aliado americano em adversário em 1979, a Arábia Saudita virou o contrapeso natural na região. (fonte)

Nos últimos anos essa parceria se desgastou bastante. Os Estados Unidos ficaram frustrados com o histórico de direitos humanos saudita e com a relutância do reino em estabilizar o mercado de petróleo, enquanto Riad passou a acreditar que Washington já não estava disposta a garantir a segurança do reino como antes. O boom da produção doméstica de combustíveis fósseis nos EUA e a reorientação estratégica do governo Obama para a Ásia também tiraram a Arábia Saudita da lista de prioridades americanas. (fonte)

O acordo nuclear dentro dessa lógica

Com toda essa história na cabeça, o acordo de julho de 2026 deixa de parecer estranho. Os líderes sauditas vêm declarando há anos a intenção de comprar tecnologia pra um programa nuclear civil, e a única pergunta que existia era se o reino faria isso com os americanos ou com russos e chineses.

O contexto de 2026 acelerou tudo. Em 2 de março de 2026, o Irã lançou um ataque de mísseis e drones contra a refinaria da Saudi Aramco em Ras Tanura, causando vários incêndios grandes e forçando o fechamento temporário da instalação. No dia seguinte, um ataque de drones atingiu a embaixada americana em Riad. (fonte) Com os EUA em conflito aberto com o regime iraniano e as instalações sauditas sob ataque, dar à Arábia Saudita acesso a tecnologia nuclear civil sob supervisão americana funciona como forma de fortalecer o aliado e, ao mesmo tempo, manter alguma influência sobre como essa tecnologia vai ser usada.

Tem ainda o lado do dinheiro. A Arábia Saudita está tentando diversificar a economia através do Vision 2030 (o plano de transformação econômica do príncipe Mohammed bin Salman que busca reduzir a dependência do petróleo), e energia nuclear entra como peça dessa transição. O governo saudita tem mais de 21 gigawatts em projetos de energia renovável planejados até meados de 2024, a maioria em energia solar, e está construindo quatro usinas termelétricas a gás natural, cada uma com 1,8 gigawatt de capacidade adicional. O nuclear entra como complemento. (fonte)

Do lado americano, o Departamento de Energia destacou que empresas dos EUA vão fornecer a tecnologia nuclear ao reino, e o secretário Chris Wright afirmou que os acordos refletem o compromisso dos dois países em fortalecer as relações comerciais bilaterais. (fonte)

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