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Por que o Brasil continua travado

O Brasil tem mais água doce do que praticamente qualquer outro país do planeta, com 12% de toda a água doce disponível na Terra concentrada em território nacional, entre o sistema do Aquífero Guarani e as bacias do Amazonas, do São Francisco e do Paraná, segundo levantamento da USP (Jornal da USP). Tem também uma reserva de terra agricultável que poucos países conseguem igualar, com quase metade do território nacional apresentando algum grau de aptidão pra agricultura mecanizada, segundo mapeamento recente da Embrapa (Embrapa). E tem uma das matrizes elétricas mais limpas do mundo, com 88,2% de toda a eletricidade gerada em 2024 vindo de fontes renováveis, mais de seis vezes a média global de 14,2%, segundo balanço do Ministério de Minas e Energia (MME).

Tem mais uma camada nessa história, que são os metais que vão sustentar a próxima fase da economia mundial. O Brasil detém perto de 94% de toda a reserva de nióbio do planeta, a segunda maior reserva de terras raras, com 23% do total mundial, e a segunda maior reserva de grafita, com 26%, segundo o Serviço Geológico do Brasil (SGB). São justamente os insumos por trás de bateria de carro elétrico, ímã de turbina eólica e painel solar.

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Com essa lista toda na mão, a economia brasileira deveria ter alcançado um patamar de país rico, mas segue travada nesse meio caminho. A explicação tem menos a ver com geografia e mais a ver com a forma como o país administra o próprio dinheiro.

Com a Selic em 14,25% ao ano, o juro real brasileiro bateu 9,67% em junho, o maior entre as principais economias monitoradas pelo mercado financeiro, segundo levantamento do InfoMoney (InfoMoney). Na prática, quem empresta dinheiro no Brasil ganha quase 10% acima da inflação só pra emprestar. Uma mina, uma ferrovia, uma fábrica nova, esse tipo de projeto só dá retorno depois de muitos anos, e com juro real desse tamanho, pouca coisa fecha conta no papel.

Esse juro tão alto tem uma explicação bem direta, que está no orçamento federal. Em 2025, menos de 8% de tudo que o governo gastou era despesa discricionária, ou seja, gasto que o governo escolhe fazer ou não a cada ano, segundo dados divulgados pela Câmara dos Deputados (Câmara dos Deputados). O resto, mais de 90% do orçamento, já está comprometido por lei, com aposentadoria, salário de funcionalismo, benefício social e repasse obrigatório pra estados e municípios. O governo não tem como cortar essa fatia mesmo que quisesse, e como não pode cortar, segue se endividando pra fechar a conta todo ano.

O resultado aparece nos números da dívida pública. A relação entre dívida bruta e PIB deve sair de 79,6% no fim de 2025 pra 83,7% em 2026 e 87% em 2027, segundo projeções reunidas pelo Ipea (Ipea). Quanto mais a dívida cresce, mais caro fica pro governo continuar se financiando, porque o risco percebido pelo mercado sobe junto. O orçamento travado empurra a dívida pra cima, isso eleva o risco que o mercado enxerga no Brasil, e pra manter esse risco sob controle o juro segue alto, o que trava o investimento que poderia fazer a economia crescer mais e aliviar o próprio orçamento lá na frente.

Esse travamento já aparece nos números de investimento. Desde 2013, a taxa de investimento brasileira, medida pela razão entre a formação bruta de capital fixo e o PIB, não volta a passar de 20%, um patamar entre os mais baixos do G20, enquanto a China manteve taxas de investimento acima de 40% do PIB ao longo do mesmo período, segundo levantamento do BNDES (BNDES). É dinheiro que não vira máquina nova, fábrica nova ou ferrovia nova, porque o crédito caro afasta justamente esse tipo de aposta de longo prazo.

Essa armadilha foi montada por decisões políticas tomadas ao longo de décadas, e o que foi montado também pode ser desmontado, embora não seja simples. O sistema político segue fragmentado, com 29 partidos representados no Congresso mesmo depois de anos de reforma pensada pra reduzir esse número, o que dificulta formar a maioria necessária pra mudar as regras do gasto obrigatório, segundo o Conjur (Conjur). A Justiça pesa do mesmo jeito. O país fechou 2024 com 80,6 milhões de processos pendentes de julgamento e taxa de congestionamento de 64,3%, segundo o Conselho Nacional de Justiça (CNJ), o que encarece e atrasa a resolução de disputas contratuais que sustentam qualquer ambiente de negócios saudável.

Ainda assim, se o Congresso revisasse as regras que emperram mais de 90% do orçamento, abrindo espaço de verdade pra cortar ou realocar gasto, o risco fiscal percebido pelo mercado cairia, e o juro real brasileiro poderia se aproximar dos 3% ou 4% praticados por outras economias emergentes mais organizadas do ponto de vista fiscal. Com dinheiro nesse preço, finalmente sairia do papel esse tipo de investimento de longo prazo que hoje não sobrevive com juro de quase 10% acima da inflação.

Mesmo essa correção inteira não resolveria tudo. O Brasil ainda tinha 48,9 milhões de pessoas vivendo abaixo da linha de pobreza do Banco Mundial em 2024, com 3,5% da população em situação de extrema pobreza, mesmo depois de três anos seguidos de queda nesses indicadores, segundo o IBGE (IBGE). Juro baixo não resolve isso sozinho, essa conta passa por política social, educação e geração de emprego formal.

A formação escolar é outro gargalo. No Pisa 2022, a avaliação internacional mais recente já consolidada, só 27% dos alunos brasileiros de 15 anos atingiram o nível mínimo de proficiência em matemática, contra 69% na média da OCDE, segundo o Inep (Inep). O problema começa antes, na formação de quem dá aula. Na Prova Nacional Docente de 2025, aplicada pelo MEC a quem está se formando pra lecionar, só 45,9% dos candidatos de matemática atingiram o nível mínimo de proficiência exigido pra ensinar a disciplina, o pior resultado entre todas as licenciaturas avaliadas, contra 80,2% em ciências humanas, segundo o Ministério da Educação (MEC). E quem segue na carreira ainda ganha pouco pra isso, o salário do professor brasileiro do fundamental 2 é 47% menor do que a média da OCDE, segundo relatório da própria organização (CNN Brasil).

A violência completa esse quadro. Em 2024, ano mais recente com dado consolidado, o Brasil registrou 20,1 homicídios a cada 100 mil habitantes, segundo o Atlas da Violência elaborado pelo Ipea em parceria com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública (Ipea/FBSP). Pra comparar, é mais de quatro vezes a taxa dos Estados Unidos, que fecharam o mesmo ano com cerca de 5 homicídios a cada 100 mil habitantes, segundo o FBI (FBI). Olhando pro lado sul-americano, a comparação fica ainda pior. A Argentina teve a menor taxa de homicídios do continente em 2024, com 3,8 a cada 100 mil habitantes, o nível mais baixo da série histórica iniciada no ano 2000, segundo o Ministério da Segurança Nacional argentino (Argentina.gob.ar). Proporcionalmente, o Brasil mata mais de cinco vezes mais que isso.

E o problema não fica só nas grandes cidades. No campo, o Brasil teve 2.185 conflitos agrários em 2024, o segundo maior número desde que a Comissão Pastoral da Terra começou a monitorar o tema em 1985, com recorde de disputas por terra justamente nas regiões de fronteira agrícola como o Matopiba e a Amacro (CPT). É violência espalhada entre cidade e campo, que não desaparece só porque a Selic cai. Esse tipo de problema pede investimento em segurança pública, polícia de investigação e Justiça mais rápida, não taxa de juros.

E o Brasil está envelhecendo rápido demais pra ficar esperando. A população do país deve parar de crescer em 2041, segundo projeção do IBGE com base no Censo de 2022 (IBGE). Isso dá ao Brasil cerca de 15 anos de janela, o período em que ainda tem mais gente trabalhando do que dependendo de aposentadoria ou benefício. Depois disso, a conta fica mais difícil de fechar pra qualquer governo que esteja no poder.

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De todos os problemas que aparecem aqui, pobreza, violência, educação, envelhecimento, o juro alto é o único que se resolve com uma canetada do Congresso, votando a reforma que libera o orçamento. Os outros levam décadas pra mudar.

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