Como a Romênia fuz1l0u o próprio presidente ao vivo na TV em 1989
Nicolae Ceaușescu governou a Romênia por 24 anos com mão de ferro, construiu um culto à personalidade que rivalizava com os de Stalin e Mao, e transformou o país numa das ditaduras mais fechadas do Leste Europeu. Era o tipo de líder que mandava a população inteira parar o que estava fazendo pra assistir aos próprios discursos na televisão estatal. Em dezembro de 1989, enquanto o resto do bloco soviético vivia revoluções relativamente pacíficas, a Romênia fez diferente. Em 25 de dezembro, dia de Natal, Ceaușescu e a esposa Elena foram fuzilados num quartel em Târgoviște depois de um julgamento militar que durou menos de uma hora. Quatro dias antes ele ainda era o chefe absoluto do país. A queda foi tão rápida que saiu vivo de um palanque numa quinta-feira de manhã e tava com o corpo exibido na televisão estatal antes do fim do feriado, mostrado pros romenos que passaram décadas com medo até de pronunciar o nome dele em voz alta. (fonte)

Timișoara
A faísca começou em Timișoara, uma cidade no oeste do país, em 16 de dezembro. Tudo girava em torno de um pastor protestante chamado László Tőkés, que vinha sendo perseguido pela Securitate (a polícia política da Romênia) por causa de sermões que criticavam o regime. Quando a polícia tentou despejá-lo da casa paroquial, vizinhos formaram um cordão humano pra proteger o pastor, e o que era pra ser uma vigília acabou virando uma revolta aberta. No dia 17, o exército abriu fogo contra os manifestantes, e o saldo foi de 72 mortos e 253 feridos segundo dados que vieram à tona depois. (fonte)
Ceaușescu tava em viagem oficial pelo Irã, voltou pra Romênia no dia 20 e resolveu que ia abafar tudo do jeito que sempre funcionou pra ele, com uma manifestação gigante na capital, daquelas com gente trazida de ônibus, plaquinha pronta e palavra de ordem ensaiada. Pra ele era um ritual conhecido, repetido todo ano.
21 de dezembro

No dia 21, mais ou menos meio-dia, umas 80 a 100 mil pessoas foram levadas pra Praça do Palácio, em Bucareste, em frente ao prédio do Comitê Central do Partido Comunista. Ceaușescu apareceu no famoso balcão e começou a discursar como sempre fazia, anunciou um aumento mixuruca do salário-mínimo, agradeceu aos organizadores, prometeu benefícios pras crianças. Tudo dentro do figurino. (fonte)
Uns oito minutos depois do início, alguém no fundo da praça vaiou. Outros começaram a gritar “Timișoara! Timișoara!”. Ceaușescu travou. Tem imagem em que ele bate no microfone e grita “alô, alô?”, como se o problema fosse técnico. Elena, do lado dele, tenta mandar a multidão calar a boca, e ele inclusive responde pra própria esposa parar de falar, ao vivo, na televisão nacional. A transmissão foi cortada de repente, mas tarde demais. Aquele momento de hesitação foi visto em casa por todo mundo que tava com a TV ligada, e isso era praticamente o país inteiro porque assistir aos discursos do líder era quase obrigatório. (fonte)

Pra ele, aquele balcão era um símbolo do poder absoluto. A vaia paralisou o ditador justamente porque rompeu a ficção que sustentava o regime, aquela ideia de que o povo realmente amava o presidente. No instante em que a multidão percebeu que podia vaiar e que nada acontecia em seguida, a porta tava aberta.
Fuga
No dia 22, protestos explodiram em Bucareste. Frações do exército começaram a passar pro lado dos manifestantes. O ministro da Defesa, Vasile Milea, apareceu morto naquela manhã, oficialmente suicídio, e ainda hoje rola debate entre historiadores sobre essa morte. Sem o exército do lado dele, Ceaușescu tentou discursar de novo do balcão, dessa vez sem conseguir nem completar uma frase. Por volta das 12h06 ele e Elena entraram num helicóptero no telhado do Comitê Central e fugiram. (fonte)
A fuga foi um desastre. O piloto acabou pousando o helicóptero no meio do nada por medo de ser abatido. O casal seguiu em carros tomados na rua, gente que foi parada por agentes da Securitate e teve o veículo confiscado na hora. No fim do dia, os dois acabaram presos por revolucionários que tinham tomado a sede da Milícia local em Târgoviște, uma cidade a uns 80 km da capital. (fonte)
Julgamento
Entre os dias 22 e 24, a Romênia virou um cenário de guerra. Securitate atirando em civis, exército lutando contra a Securitate, uma confusão que matou mais de mil pessoas em Bucareste e outras cidades. Foi nesse contexto que a nova Frente de Salvação Nacional, formada por antigos quadros do Partido Comunista que tinham caído em desgraça e por dissidentes, decidiu na noite de 24 que precisava acabar logo com o Ceaușescu. O argumento era prático e cínico, que enquanto ele estivesse vivo ia ser usado como bandeira pelas forças leais à Securitate. (fonte)
O encarregado de organizar o tribunal foi o general Victor Stănculescu, que tinha sido o último ministro da Defesa do regime e mudou de lado durante a revolução. Foi ele quem escolheu os paraquedistas que serviriam de pelotão de fuzilamento, e até escolheu o paredão antes do julgamento começar. A coisa toda foi pensada como ritual militar rápido, sem espaço pra apelo nem recurso. (fonte)
O tribunal militar excepcional se reuniu na manhã de 25 de dezembro, dia de Natal, dentro de um quartel em Târgoviște. Durou cerca de uma hora. As acusações foram quatro… genocídio com mais de 60 mil vítimas atribuídas ao regime, subversão do poder do Estado por organizar ações armadas contra o povo, destruição do patrimônio público com explosões e demolições de edifícios, sabotagem da economia nacional, e tentativa de fuga com mais de 1 bilhão de dólares depositados em bancos estrangeiros. Nicolae se recusou a reconhecer o tribunal, disse que só respondia perante a Grande Assembleia Nacional, e gritou que aquilo era um golpe da União Soviética. Elena ficou em silêncio na maior parte do tempo e respondeu de forma agressiva quando provocada. (fonte)
A sentença saiu junto com o veredicto, morte por fuzilamento sem direito a apelação e confiscação de todos os bens. O advogado que era pra ser de defesa, Nicolae Teodorescu, basicamente pediu pra que os clientes dele fossem condenados à morte. Foi tudo no mesmo dia. Os dois foram tirados da sala com as mãos amarradas pras costas e levados ao paredão do pátio. O fuzilamento foi tão rápido que o câmera militar que tava filmando só pegou o final, a última rajada e os corpos no chão. (fonte)
A TV romena não exibiu o momento do fuzilamento. Mas nos dias seguintes transmitiu o julgamento inteiro mais o plano aberto dos corpos no chão, com close no rosto do Ceaușescu morto, os olhos abertos e a cabeça em uma poça de sangue. A imagem correu o mundo. (fonte)
A economia
Pra entender por que a coisa explodiu daquele jeito, é importante olhar pra dois pontos centrais. Primeiro a economia. Nos anos 70, Ceaușescu pegou empréstimos pesados com bancos ocidentais pra industrializar o país, principalmente refinarias de petróleo. O endividamento externo saiu de 1,2 bilhão de dólares em 1971 pra 13 bilhões em 1982. Quando os juros internacionais explodiram em 1979 e as refinarias não deram o retorno esperado, o regime virou refém da dívida. (fonte)
A decisão dele foi quitar tudo, mesmo que isso esmagasse a população. Outros países endividados negociaram com o FMI e conseguiram alongar os prazos. Ceaușescu não quis. Preferiu cortar importações, exportar comida e combustível, racionar pão, carne, manteiga, óleo, açúcar e gasolina dentro do próprio país. As casas ficavam sem aquecimento no inverno romeno, hospitais funcionavam no escuro, padarias com filas de horas. Em março de 1989 ele anunciou que a dívida tinha sido quitada por inteiro. O preço foi uma década inteira de fome controlada, com o PIB caindo 5,8% só em 1989. (fonte)
Pesquisadores como o cientista político Cornel Ban, da Copenhagen Business School, defendem que essa decisão de pagar a dívida acelerada acabou minando a base econômica do próprio regime. Quando a austeridade chegou no fundo do poço, a legitimidade que o Ceaușescu construiu na década anterior, baseada justamente em prosperidade e independência nacional, evaporou. (fonte)
Casa do Povo

E enquanto a população passava aperto desse jeito, Ceaușescu tocou um dos projetos mais caros e simbólicos da história do socialismo de estado, a Casa do Povo, hoje chamada de Palácio do Parlamento. A inspiração veio de uma viagem que ele fez à Coreia do Norte em 1971, em que ficou impressionado com o culto à personalidade de Kim Il-sung e com as obras monumentais de Pyongyang. Voltou querendo isso pra Romênia, e adotou pra si próprio o título “Gênio dos Cárpatos”. (fonte)
A construção começou em 1984 e foi um massacre urbanístico. Pra abrir caminho pro prédio e pra avenida que ia levar até ele, foram demolidos cerca de 7 mil casas, 19 igrejas ortodoxas, 6 sinagogas e 3 templos protestantes, em torno de um quinto do centro histórico de Bucareste. Mais de 40 mil pessoas foram despejadas. As estimativas de custo variam, mas o projeto consumiu o equivalente a um terço do orçamento do país durante 5 anos, e o valor final, contando a finalização que só ocorreu em 1997, ficou entre 3 e 4 bilhões de dólares. (fonte)

O resultado é o segundo maior prédio administrativo do mundo, atrás só do Pentágono, e o mais pesado do planeta, com mais de 4 milhões de toneladas. Tem 1.100 cômodos e afunda no solo cerca de 6 milímetros por ano. Pro povo romeno, virou o símbolo perfeito da loucura do regime, porque as pessoas literalmente passavam fome em fila pra comprar pão enquanto viam de longe um palácio gigantesco sendo erguido com mármore romeno em pleno racionamento. (fonte)
Vale lembrar que durante boa parte da Guerra Fria, Ceaușescu era visto pelo Ocidente como um aliado útil dentro do bloco soviético. Ele tinha condenado a invasão da Tchecoslováquia em 1968, mantinha distância do Kremlin, fazia política externa independente. Nixon visitou Bucareste em 1969, e o Ceaușescu foi recebido na Casa Branca por Nixon, Ford e Carter. A rainha Elizabeth II chegou a honrá-lo com uma comenda britânica em 1978, que mais tarde foi cassada poucos dias antes da execução. (fonte)
Era um ditador “civilizado” aos olhos do Ocidente nos padrões da época, ao menos enquanto incomodasse Moscou. Esse retrato começou a desabar nos anos 80, quando o programa de austeridade ficou conhecido no exterior e a campanha de “sistematização” das aldeias (que previa apagar metade dos 13 mil vilarejos da Romênia) virou objeto de protesto internacional. Em 1989, a ONU chegou a nomear um relator especial pra investigar os direitos humanos no país, coisa que o regime rejeitou como interferência. (fonte)
O número de 60 mil vítimas da acusação formal de genocídio já foi questionado várias vezes. Foi uma estimativa que circulava em Bucareste naqueles dias, mas pesquisas posteriores mostraram que os mortos diretos na revolução de dezembro de 1989 foram cerca de 1.100. (fonte)
Resumindo
A Romênia de 1989 funcionou como um caso fora da curva entre as revoluções do Leste Europeu. Polônia, Hungria, Tchecoslováquia, Alemanha Oriental e Bulgária derrubaram seus governos comunistas de forma mais ou menos pacífica naquele ano. A Romênia foi a única em que o líder máximo foi fuzilado, e ainda por cima com transmissão televisiva. Leituras acadêmicas defendem que isso teve a ver com o tipo específico de regime que o Ceaușescu construiu, mais centralizado, mais isolado, e sem nenhum tipo de oposição organizada que pudesse mediar a transição. Sem ninguém pra negociar quando o regime caiu, a saída foi essa. (fonte)
O Palácio do Parlamento ainda tá lá, ocupado oficialmente desde a metade dos anos 90, com cerca de 70% do espaço vazio até hoje porque manter o prédio sai caríssimo. Virou a atração turística mais visitada de Bucareste, ironicamente. A Casa do Povo, que era pra ser o monumento ao culto a Ceaușescu, sobreviveu a ele, e funciona hoje como uma espécie de lembrança permanente de como uma economia em ruínas pode coexistir com um palácio de mármore. (fonte)
Fotos: https://rarehistoricalphotos.com/romanian-revolution-pictures-1989/ – https://www.rferl.org/a/mystery-photos-romanian-revolution-1989/33248881.html