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China e a reforma das universidades na era da IA

Vocês conseguem acompanhar o que está acontecendo na China com as graduações e as universidades? É um caso que eu acredito que vai ser mundial e irreversível. A inteligência artificial está evoluindo muito rápido, e é espantoso ver todo esse processo de evolução acontecendo. É algo tão grandioso que já se tornou questão de governo e geopolítico.

Basta acompanhar o caso da Anthropic, que teve seu novo lançamento suspenso pelo governo. A Anthropic lançou dois modelos novos, o Fable 5 e o Mythos 5. Três dias depois, no dia 12, quem suspendeu o acesso a esses dois modelos foi o governo dos Estados Unidos, citando questões de segurança nacional ligadas a uma falha que, segundo o governo, permitiria contornar algumas das proteções do sistema (fonte). A própria Anthropic disse que está cumprindo a ordem, mas que considera isso um mal entendido, porque a falha identificada também existe em outros modelos que estão no mercado funcionando normalmente (fonte).

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A China fez um movimento de tamanho parecido, só que em vez de mexer nos modelos de IA, mexeu direto na estrutura das universidades. Pequim reformulou boa parte dos cursos de graduação do país pra se adaptar a essa mesma revolução, e a escala dessa mudança é gigantesca.

De acordo com uma reportagem publicada hoje pelo South China Morning Post, com base em dados do Ministério da Educação da China divulgados pela agência estatal Xinhua, entre 2021 e 2025 as universidades chinesas revogaram ou suspenderam 12.200 cursos de graduação. Os principais foram artes, humanidades e administração. No mesmo período, foram criados 10.200 cursos novos. Entre eles, o foco será em inteligência artificial e robótica. Somando as duas pontas, mais de 30% de todos os cursos de graduação do país passaram por algum tipo de ajuste nesses cinco anos (fonte / fonte).

O que saiu

Os cortes se concentraram principalmente em artes, humanidades, idiomas estrangeiros e administração, áreas que o governo chinês considera saturadas ou que já não respondem ao que o mercado de trabalho está pedindo (fonte).

Um exemplo concreto disso é o que aconteceu no Instituto de Belas Artes de Sichuan (四川美术学院), uma das principais escolas de arte do país. Em julho de 2025, a instituição anunciou o fechamento de três cursos de graduação, publicidade (广告学), tecnologia educacional (教育技术学) e direção de rádio e TV (广播电视编导), depois de uma avaliação interna sobre quais cursos ainda faziam sentido diante da demanda real do mercado (fonte). É esse tipo de decisão, multiplicada por centenas de universidades pelo país inteiro, que vai compondo o número de 12.200 cursos cortados.

O que entrou

Do outro lado, os cursos novos seguem uma lógica bem definida, são áreas ligadas à inteligência artificial, à robótica e a outras tecnologias que o governo chinês colocou no centro do seu plano de desenvolvimento (fonte).

O exemplo mais citado é o de embodied intelligence (inteligência incorporada, ou seja, sistemas de inteligência artificial que controlam corpos físicos, como robôs humanoides). Pelo menos nove universidades chinesas já criaram cursos de graduação voltados especificamente pra essa área.

Outro exemplo de como esse processo funciona na prática é o curso de tecnologia e engenharia de baixa altitude (低空技术与工程), ligado à chamada economia de baixa altitude, que envolve coisas como drones de entrega e taxis aéreos. O Ministério da Educação criou um mecanismo de aprovação acelerada pra cursos considerados estratégicos, fora do calendário normal de pedidos, e a Universidade Beihang (北京航空航天大学), junto com outras cinco universidades, já incluiu essa graduação no catálogo por esse caminho (fonte).

No catálogo de cursos de graduação atualizado em 2025, o Ministério da Educação incluiu 29 cursos completamente novos, que vão de educação em inteligência artificial (人工智能教育) e engenharia molecular inteligente (智能分子工程) até estudos regionais e de países (区域国别学), pensados pra formar gente capaz de lidar com a nova geopolítica que a própria China está ajudando a desenhar (fonte).

Esse processo de corte e criação de cursos está diretamente ligado a um problema que a China vem enfrentando há alguns anos, que é o desemprego entre os jovens recém formados (fonte).

Em 2026, a China deve formar 12,7 milhões de novos universitários, um recorde histórico e um aumento de cerca de 4% em relação aos 12,22 milhões formados em 2025. A taxa de desemprego entre jovens de 16 a 24 anos que não estão mais estudando ficou na faixa de 16% a 19% ao longo de 2025 e 2026, com pico de 18,9% em agosto de 2025, justamente quando a turma recorde daquele ano entrou no mercado (fonte).

O problema de fundo é que boa parte desses formados sai da faculdade com um diploma que não casa com o que o mercado está pedindo. Cursos de administração, idiomas estrangeiros e algumas áreas de humanidades, justamente os que mais perderam vagas nessa reforma, também são os que mais sofrem com a chegada da inteligência artificial, porque tarefas de tradução, redação e gestão administrativa básica já estão sendo automatizadas em boa parte das empresas chinesas.

Pra entender o tamanho da aposta que Pequim está fazendo aqui, vale olhar o 15º Plano Quinquenal (2026-2030), que é o principal documento de planejamento econômico do país pros próximos cinco anos. Dentro desse plano existe um capítulo dedicado ao que o governo chama de indústrias do futuro (未来产业), e a inteligência incorporada está nessa lista, ao lado de tecnologia quântica, biomanufatura, energia de hidrogênio e fusão nuclear, interfaces cérebro-computador e redes 6G (fonte).

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O fato de a inteligência incorporada estar dentro do plano quinquenal principal, e não em algum documento secundário de ministério, muda a forma como o dinheiro e a coordenação entre o governo central e os governos provinciais funcionam na prática. Existe inclusive um fundo nacional de investimento em IA de 60 bilhões de yuans, algo em torno de 8,2 bilhões de dólares, que passa a ter esse setor como uma das prioridades de aplicação (fonte).

Esse plano já está saindo do papel. O Ministério da Indústria e Tecnologia da Informação, junto com a comissão que supervisiona as estatais chinesas, lançou um programa pra colocar 10 mil robôs humanoides funcionando de verdade até o final de 2026, em fábricas, armazéns, hospitais e até em operações de resgate, saindo da fase de demonstração pra entrar, como eles mesmos chamam, em modo de trabalho (fonte). As universidades que estão criando cursos de inteligência incorporada agora são justamente as que vão formar gente pra operar, manter e desenvolver esses robôs.

Voltando pro ponto que eu fiz lá no começo, esse tipo de ajuste não fica restrito à China. Os Estados Unidos também estão passando por discussões parecidas dentro das universidades, embora por um caminho bem diferente. Em Indiana, por exemplo, seis instituições públicas decidiram eliminar, suspender ou fundir mais de 400 cursos de graduação e pós-graduação, depois que uma lei estadual de 2025 estabeleceu um número mínimo de formados por curso pra que ele continue existindo (fonte).

A diferença é que, na China, a reforma é centralizada e vem acompanhada de uma lista clara do que precisa crescer no lugar do que está sendo cortado. Nos Estados Unidos, o corte aparece primeiro, e a reposição por cursos ligados à nova economia ainda está sendo desenhada caso a caso, sem um plano nacional único.

De um jeito ou de outro, o modelo de universidade que a gente conhece, organizado em torno de cursos fixos de quatro anos que preparam pra uma profissão específica, está sendo empurrado pra um formato bem mais fluido, em que o currículo muda quase todo ano pra acompanhar o que a IA está fazendo com o mercado de trabalho. Vale acompanhar como isso vai se desenrolar nos próximos anos, porque o Brasil também vai sentir essa pressão, só que com um sistema de ensino superior bem mais lento pra se mover do que o chinês ou o americano.

Leitura aprofundada

Pra quem quiser entender melhor o pano de fundo da política de robótica chinesa, o relatório do Merics sobre a inteligência incorporada traz um mapeamento bem completo das políticas públicas envolvidas (Merics), e o relatório do Jamestown Foundation detalha como o esforço de robótica humanoide se conecta com a estratégia industrial chinesa de forma mais ampla (Jamestown).

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