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A história do desenvolvimento de Singapura

Tem poucas histórias econômicas mais malucas que a de Singapura. Em 1965, quando o país virou independente meio que sem querer, era basicamente uma ilha pantanosa, sem recursos naturais, sem água potável suficiente nem pra própria população, com uma maioria de gente morando em favelas e barracos. Sessenta anos depois, virou um dos países mais ricos do mundo, com renda per capita maior que a dos Estados Unidos e infraestrutura invejável. O PIB per capita de Singapura saiu de cerca de 500 dólares em 1965 pra mais de 90 mil em 2024, o que é provavelmente um dos saltos mais rápidos da história econômica moderna (fonte).

O ponto de partida

A ilha foi colônia britânica desde 1819, quando um sujeito chamado Stamford Raffles transformou aquilo num porto comercial estratégico, justamente porque a localização era extremamente privilegiada, no meio da rota que liga a Ásia à Europa. Esse DNA de entreposto comercial fica importante depois. Durante a Segunda Guerra, os japoneses ocuparam a ilha de 1942 a 1945 num episódio bem violento, e depois os britânicos voltaram. Em 1959, Singapura ganhou autonomia interna ainda dentro do império, e foi nessa eleição que Lee Kuan Yew, um advogado formado em Cambridge, líder do PAP (People’s Action Party), assumiu como primeiro-ministro. Em 1963, a ilha se uniu à Federação da Malásia, mas a união durou só dois anos, porque as tensões étnicas e políticas entre a maioria chinesa de Singapura e a maioria malaia da Malásia ficaram insustentáveis. Em 9 de agosto de 1965, o parlamento malaio votou unanimemente pela expulsão de Singapura (fonte).

Estátua de Sir Stamford Raffles em frente ao Victoria Theatre and Concert Hall, Singapura.

1965

Esse momento é importante porque Lee Kuan Yew chorou em rede nacional anunciando a separação. Não foi escolha dele, foi uma expulsão literalmente. Singapura ficou sem o mercado consumidor de 12 milhões de pessoas que a Malásia oferecia, sem garantia de água (que vinha em grande parte da península malaia), sem capacidade militar nenhuma e com uma economia minúscula que dependia basicamente do porto. O desemprego rondava os 9% e a população vivia majoritariamente em barracos. Todos se perguntavam como uma cidade-estado sem nada ia sobreviver num Sudeste Asiático cheio de tensões da Guerra Fria, com a Indonésia do Sukarno hostil bem ali do lado, e com a Guerra do Vietnã esquentando. A resposta que o governo encontrou foi pular o estágio regional e mirar direto no mercado global, atraindo capital estrangeiro (fonte).

Goh Keng Swee e Winsemius

Tem dois nomes que precisam aparecer aqui antes de continuar. O primeiro é Goh Keng Swee, ministro das Finanças e depois vice primeiro-ministro, que basicamente foi o cérebro econômico do regime. Lee Kuan Yew dava a visão política, Goh fazia a engenharia das políticas. O segundo é Albert Winsemius, um economista holandês que veio em 1961 a pedido das Nações Unidas pra fazer um diagnóstico da economia de Singapura. Winsemius acabou ficando como consultor econômico do governo por 25 anos, até 1984, viajando pra ilha duas ou três vezes por ano. Foi ele quem desenhou o plano de dez anos que tirou Singapura da lógica de entreposto comercial e a transformou num centro industrial. E foi ele também quem deu o conselho mais simbólico de todos, falando pra Lee não derrubar a estátua de Raffles, porque manter o símbolo da herança britânica passava confiança pros investidores estrangeiros que ficavam meio receosos com um governo de origem social-democrata (fonte).

Goh Keng Swee (o principal estrategista econômico)
Albert Winsemius (consultor holandês fundamental)

o plano

O relatório Winsemius tinha duas observações que mudaram tudo. A primeira é que Singapura não tinha falta de empresários, só que os empresários locais estavam todos no comércio, ninguém na indústria. A segunda é que o caminho era atrair capital estrangeiro pra criar a base industrial, em vez de tentar fazer tudo com capital local ou estatal. Isso era completamente fora do padrão pra época, porque nos anos 60 a moda do “terceiro mundo” era nacionalismo econômico, substituição de importações, estatização de indústrias. O Brasil tava fazendo isso, a Índia tava fazendo isso, quase todo mundo tava fazendo isso. Singapura fez o oposto e abriu as portas pras multinacionais. James Puthucheary, que era da ala esquerda do governo e presidente do antigo board de promoção industrial, foi contra, mas Goh Keng Swee comprou a ideia de Winsemius (fonte).

EDB

Pra executar tudo isso, o governo criou em 1961 o Economic Development Board, que virou a peça central da máquina de atrair investimento estrangeiro. O EDB oferecia incentivos fiscais bem agressivos, fazia a ponte com agências de governo, simplificava licenças e montava parques industriais. Tinha gente do EDB viajando pelos Estados Unidos e Japão batendo de porta em porta de multinacional, oferecendo Singapura como destino. Tem um caso famoso da National Semiconductor, que em 1968 chegou em Singapura precisando começar a produção em dois meses, e o EDB conseguiu colocar a empresa operando em duas semanas. Coisas assim corriam de boca em boca no mundo corporativo americano. Texas Instruments, Hewlett-Packard, Fairchild, General Electric, todas chegaram. Shell e Esso instalaram refinarias e Singapura virou um dos maiores polos de refino do mundo. O Economic Expansion Incentives Act de 1967 deu isenções fiscais de até 90% por até 15 anos pras empresas aprovadas (fonte).

HDB

Enquanto isso, do lado social, o problema da moradia era bem diferente. Em 1960, só 9% da população morava em casas decentes, o resto vivia em favelas e barracos chamados de kampong. Aí foi criado o Housing and Development Board, o HDB, com Lim Kim San na presidência. Em três anos eles construíram 21 mil apartamentos, em mais cinco anos chegaram a 54 mil. Em 1964 o governo lançou o programa de Home Ownership for the People, que basicamente vendia esses apartamentos pros próprios moradores por preços muito subsidiados, com a ideia de que a pessoa que é dona do imóvel cuida mais do bairro e fica mais comprometida com o país. Hoje, quase 80% dos cingapurianos moram em apartamentos do HDB, e a maioria é dona (fonte).

CPF

Uma pergunta comum sobre esse período é como uma família pobre conseguia comprar um apartamento desses. A resposta é o Central Provident Fund, o CPF, que tinha sido criado em 1955 pelos britânicos como um fundo de poupança compulsória pra aposentadoria. O governo de Lee pegou esse instrumento e mudou completamente o uso. Em 1968, abriu a possibilidade de usar o dinheiro do CPF pra comprar moradia do HDB, o que conectou diretamente a poupança forçada ao programa habitacional. Empregadores e empregados contribuíam mensalmente com um percentual do salário, que chegou a 25% em 1984. Depois, ainda nos anos 80, o CPF foi expandido pra cobrir saúde, com a criação do Medisave em 1984 e do MediShield em 1990, e também pra investimentos. É um sistema bem diferente do modelo de bem-estar social europeu, porque não é o Estado pagando aposentadoria de quem trabalhou, é a pessoa juntando o próprio dinheiro num esquema obrigatório administrado pelo governo (fonte).

a virada dos anos 70

A estratégia industrial deu certo rápido demais. Entre 1966 e 1973, a economia cresceu em média 13% ao ano, o desemprego caiu de 8,9% pra 4,5%, e o emprego industrial mais que dobrou. Aí em 1973 veio o choque do petróleo e Lee Kuan Yew cometeu um erro famoso, anunciando aumento do salário mínimo justamente quando a competitividade tava em xeque. Isso gerou uma recessão e o governo aprendeu a lição. Ainda nos anos 70, Hon Sui Sen, que tinha sido o primeiro presidente do EDB e depois virou ministro das Finanças, anunciou uma virada estratégica. Singapura ia parar de competir por mão de obra barata e ia subir na cadeia de valor, focando em eletrônica avançada, petroquímica, engenharia de precisão. Foi também nessa época que o governo começou a montar Singapura como centro financeiro, autorizando em 1968 a criação do Asian Dollar Market, que era basicamente um mercado offshore em dólar pros bancos estrangeiros operarem (fonte).

eletrônica e finanças

Nos anos 80, Singapura se tornou a maior produtora mundial de discos rígidos pra computadores. A aposta na eletrônica avançada se consolidou como o motor da economia. Em paralelo, o setor financeiro foi crescendo até virar um dos hubs globais, junto com Hong Kong, no Sudeste Asiático. A diplomacia ajudou bastante, porque Singapura adotou uma política externa de neutralidade pragmática, que mantém o país como aliado próximo dos Estados Unidos no campo militar, mas também como parceiro econômico fundamental da China. Essa equação geopolítica é o que permite Singapura ser sede regional de empresas americanas, europeias, japonesas e chinesas ao mesmo tempo. Ajuda também ter aderido em 1967 à ASEAN, a Associação das Nações do Sudeste Asiático, que deu estabilidade regional (fonte).

educação e burocracia

Tem dois pontos que costumam ficar por baixo nesse tipo de história mas que são fundamentais e bem conhecido pelos estudiosos do tema. O primeiro é educação. Lee Kuan Yew adotou o inglês como língua principal de ensino, mantendo o mandarim, malaio e tâmil como línguas paralelas. Isso integrou as três comunidades étnicas e conectou Singapura ao mundo. O ensino técnico foi prioridade, com institutos como o ITE (Institute of Technical Education) e politécnicos formando mão de obra qualificada pra indústria. O segundo ponto é o serviço público. Singapura pagou salários altíssimos pra atrair gente boa pra burocracia (ministros chegaram a ganhar milhões de dólares por ano) e ao mesmo tempo combateu a corrupção com mão pesada. Hoje o país aparece consistentemente entre os menos corruptos do mundo no índice da Transparência Internacional, e isso foi um diferencial enorme pra atrair investimento estrangeiro num continente onde corrupção era padrão (fonte).

o lado escuro

Esse modelo não veio de graça. Lee Kuan Yew governou com mão muito pesada, restringindo imprensa, processando opositores políticos em ações de difamação que normalmente quebravam financeiramente os adversários, mantendo o seu partido politico, PAP, no poder ininterruptamente desde 1959 (até hoje). Greves foram praticamente eliminadas. Sindicatos foram cooptados pelo governo via NTUC, criado em 1972. Manifestações políticas precisam de autorização e os limites são rigorosos. A pena de morte continua sendo aplicada, inclusive pra crimes ligados a drogas. Tem também as políticas de integração étnica do HDB, criadas em 1989, que obrigam uma mistura proporcional de chineses, malaios e indianos em cada conjunto habitacional, o que evita guetos mas também limita a escolha individual sobre onde morar (fonte).

hoje

A foto atual de Singapura é a seguinte: O PIB per capita em paridade de poder de compra atingiu cerca de 132 mil dólares em 2024, mais de cinco vezes a média mundial. A economia cresceu 5% em 2025. Quase 80% da população é dona da casa onde mora. O porto continua sendo um dos maiores do mundo, o aeroporto de Changi ganha prêmio de melhor do mundo quase todo ano, e o setor financeiro disputa com Hong Kong a liderança regional. Da população de pouco mais de 5 milhões, cerca de um terço é de estrangeiros, o que reflete a aposta deliberada de Lee em atrair talentos. Apesar de que ainda existem muitos desafios. A desigualdade aumentou nas últimas décadas, o custo de vida é altíssimo, a taxa de natalidade despencou e o envelhecimento populacional vai pressionar o sistema do CPF (fonte).

O país combinou abertura econômica radical com controle político autoritário, capital estrangeiro com poupança forçada interna, livre mercado com planejamento estatal intenso, multiculturalismo com engenharia social pesada. É um modelo construído sob medida em condições muito específicas de uma cidade-estado pequena, etnicamente diversa, sem recursos naturais e numa localização geográfica privilegiada. Foi um mix de obsessão com educação técnica, combate à corrupção, burocracia bem paga e a clareza estratégica sobre que setores priorizar.

Leitura aprofundada

  • Ravi Menon, ex-presidente do Banco Central de Singapura, fez uma palestra completa sobre os 50 anos de história econômica do país, disponível no site do BIS
  • O Asian Development Bank tem um paper detalhado sobre as políticas habitacionais
  • O IADB publicou um estudo sobre o modelo de política industrial de Singapura
  • O livro de memórias de Lee Kuan Yew, “From Third World to First”, é a fonte primária mais conhecida sobre a visão do próprio arquiteto político do país

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