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Como o Mossad enganou o Hezbollah e transformou 5 mil pagers em bombas

Na semana passada escrevemos sobre o roubo de um caça MiG-21 do Iraque pelo Mossad (aqui), e agora o assunto voltou por um caminho bem brasileiro. No domingo, 1º de novembro, o Fantástico mostrou que um ex-agente do Mossad aparece nas investigações da saída do senador Flávio Bolsonaro do Brasil para os Estados Unidos, passando pela Argentina. Há indícios de que esse ex-agente participou do trajeto, mas não existe comprovação de que o Mossad, como instituição, tenha tido algum papel, e o caso segue em apuração.

De qualquer forma, esse episódio no Brasil me leva a analisar uma das operações do Mossad mais impactantes dos últimos anos, pela forma como atingiu o alvo, a dos pagers que explodiram nos bolsos de integrantes do Hezbollah (em árabe, حزب الله, Ḥizb Allāh, que significa Partido de Deus), no Líbano, em setembro de 2024 (já escrevemos sobre o grupo aqui). É isso que eu quero explicar aqui, desde como a operação foi montada, passando pelas empresas de fachada que apareceram no caminho, até o que aconteceu nos dois dias de explosões.

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Vale deixar claro quem foi o alvo, que foi o Hezbollah e não o Hamas, porque os dois costumam se misturar na cabeça de muita gente. O Hezbollah é uma organização xiita do Líbano, ou seja, ligada à corrente do islã que predomina no Irã (já escrevemos sobre a divisão entre xiitas e sunitas aqui), e é apoiado justamente pelo Irã (já escrevemos sobre a história do país aqui). Já o Hamas é palestino e atua em Gaza (já escrevemos sobre ele aqui). A confusão tem uma razão, porque depois do ataque do Hamas de 7 de outubro de 2023 o Hezbollah passou a atacar Israel quase todo dia em apoio ao aliado palestino, e esses ataques deixaram cerca de 60 mil israelenses fora de casa, no norte do país, segundo o embaixador de Israel na ONU. Foi nesse cenário que a operação foi usada (fonte).

Falando sobre os pagers, eles entraram na história por decisão do próprio Hezbollah. Pager é um aparelho antigo que só recebe mensagens curtas e não faz ligação, e por isso o grupo o via como mais difícil de rastrear do que um celular. Israel vinha matando comandantes do Hezbollah, como Fuad Shukr, um dos principais chefes militares do grupo, morto em Beirute em julho de 2024, e o grupo temia que os celulares entregassem a localização deles. Em 13 de fevereiro de 2024, o líder Hassan Nasrallah disse num discurso que os celulares eram mais perigosos do que os espiões israelenses e mandou os integrantes se livrarem dos aparelhos, de preferência enterrando ou trancando tudo numa caixa de ferro. Com isso o grupo passou a apostar nos pagers, e a inteligência israelense viu nessa mudança uma oportunidade, segundo o jornal americano New York Times (fonte) (fonte) (fonte).

A ideia de plantar bombas em aparelhos que o Hezbollah usaria, porém, vinha de bem antes. Dois ex-agentes aposentados do Mossad contaram a história ao programa 60 Minutes, da rede americana CBS, e se identificaram só pelos nomes fictícios Michael e Gabriel. Michael diz que o Mossad começou a pensar nisso há cerca de dez anos, com walkie-talkies que teriam uma bomba escondida na bateria, e que o Hezbollah comprou mais de 16 mil deles sem saber que vinham de Israel. O problema é que walkie-talkie só é usado em combate, no colete do soldado, e o Mossad queria um aparelho que ficasse com o integrante o tempo todo, e por isso esses rádios ficaram guardados por anos. Já Gabriel diz que a equipe dele começou a desenvolver o pager em 2022, depois de descobrir que o Hezbollah comprava pagers de uma empresa de Taiwan conhecida pelo produto, a Gold Apollo (金阿波羅, Jīn Ābōluó) (fonte).

Para vender o aparelho sob essa marca, o Mossad criou empresas de fachada, que são empresas montadas só para esconder quem está por trás de uma operação, entre elas a BAC Consulting, em Budapeste, na Hungria. A BAC fechou com a Gold Apollo um acordo de licença, que é quando uma companhia autoriza outra a vender produtos com a sua marca, e segundo os ex-agentes a Gold Apollo não sabia de nada. Em vez de interceptar um produto no meio do caminho, o Mossad criou o próprio caminho que o produto percorre da fábrica até o cliente, o que na área de segurança se chama ataque à cadeia de suprimentos (sobre como um produto eletrônico passa por vários países até chegar a quem compra, já escrevemos aqui) (fonte) (fonte) (fonte).

O difícil era que o modelo escolhido, o AR-924, era mais grosso e pesado do que o pager fino que o Hezbollah já usava, tanto que o próprio chefe de Gabriel rejeitou a ideia no começo. A saída foi vender o aparelho como um pager resistente, à prova de poeira e de água, com vídeos e folhetos na internet, e dar ao produto um passado de mentira. A agência de notícias Reuters, ao revisar arquivos da internet, encontrou o site de uma suposta distribuidora licenciada da Gold Apollo em Hong Kong, a Apollo Systems HK, e não achou nenhuma empresa com esse nome nos registros da cidade, além de comentários em fóruns de gente dizendo que conhecia a bateria do pager. É realmente muito curioso perceber que o Mossad cuidou até de fórum de discussão, e um ex-oficial israelense que não participou da operação resumiu a lógica à Reuters dizendo “você quer ter certeza de que, se eles procurarem, vão encontrar alguma coisa” (fonte) (fonte).

Faltava garantir que o Hezbollah escolhesse justamente esse modelo. Segundo os ex-agentes, clientes comuns que pediam o AR-924 recebiam preços altos, e o Mossad contratou a vendedora da Gold Apollo com quem o Hezbollah já estava acostumado a negociar, sem que ela soubesse para quem trabalhava de verdade. O primeiro lote foi oferecido como uma troca gratuita por um modelo melhor, e, segundo a Reuters, o responsável pelas compras do grupo acabou aceitando depois de ouvir ofertas cada vez mais baratas, e foi assim que o Hezbollah chegou a 5 mil pagers AR-924 nas mãos dos integrantes (fonte) (fonte).

A bomba estava escondida dentro da bateria do aparelho. A Reuters examinou fotos da bateria desmontada, vindas de uma fonte libanesa com acesso direto aos pagers, e viu uma folha fina com 6 gramas de PETN (pentaerythritol tetranitrate, ou tetranitrato de pentaeritritol, um explosivo plástico muito potente) prensada entre duas células, com uma tira de material inflamável no espaço que sobrava fazendo o papel de detonador. Sem nenhuma peça de metal, esse detonador, como o próprio explosivo plástico, não foi detectado pelo raio X, segundo a Reuters (fonte).

Quando os pagers chegaram, o Hezbollah os passou por scanners de aeroportos, e nada soou. O único sinal estranho foi a bateria descarregar mais rápido do que o esperado, e isso não bastou para parar a distribuição, tanto que integrantes ainda recebiam pagers novos poucas horas antes das explosões. Do lado do Mossad, Gabriel conta que tudo foi testado com bonecos, para tentar limitar o ferimento a quem estivesse com o aparelho (fonte) (fonte).

O plano original, segundo autoridades americanas e israelenses ouvidas pelo site americano Axios, era usar os pagers como golpe de abertura numa guerra total contra o Hezbollah, e isso mudou quando surgiram sinais de que o esquema podia ser descoberto. O então ministro da Defesa, Yoav Gallant, contou à emissora israelense Channel 12 que, na primeira semana de agosto de 2024, Israel descobriu que alguém desconfiava dos pagers e que, daí em diante, a escolha era agir ou arriscar ser exposto. O primeiro-ministro Benjamin Netanyahu disse que, na terceira semana de setembro, soube que o Hezbollah tinha mandado três pagers ao Irã para escaneamento, e essa é a versão do próprio governo israelense, sem confirmação independente. A decisão veio na terça-feira, 17 de setembro, o mesmo dia em que Israel incluiu o retorno dos moradores do norte entre os objetivos oficiais da guerra (fonte) (fonte) (fonte).

Em 17 de setembro de 2024, por volta das 15h30, os pagers começaram a apitar em várias cidades do Líbano. O aparelho avisava que havia uma mensagem criptografada e, para abrir, a pessoa precisava apertar os dois botões, e segundo Gabriel o resultado era o mesmo se ninguém apertasse nada, porque a detonação partia de Israel. Segundo o balanço que o ministro da Saúde do Líbano, Firass Abiad, divulgou no dia seguinte, foram 12 mortos, entre eles duas crianças, e 2.750 feridos, a maioria com lesões no rosto, nas mãos ou perto do abdome. Os ex-agentes dizem que os testes tinham o objetivo de poupar quem estava ao redor, mas as explosões aconteceram onde a pessoa estivesse, em lugares públicos como supermercados, e entre os feridos havia civis e até o embaixador do Irã no Líbano (fonte) (fonte).

No dia seguinte, 18 de setembro, foi a vez dos walkie-talkies, os mesmos rádios que, segundo Michael, o Hezbollah tinha comprado dez anos antes. As explosões aconteceram de novo em vários pontos do Líbano, inclusive durante os funerais dos mortos pelos pagers, e o Ministério da Saúde falou em pelo menos 20 mortos e centenas de feridos no primeiro balanço do dia. Os rádios eram do modelo IC-V82, da empresa japonesa Icom (アイコム), que parou de fabricá-lo em 2014 e disse não poder confirmar que os rádios que explodiram saíram da fábrica dela, porque não tinham o selo holográfico que distingue os originais. Também não há acordo sobre quando o Hezbollah os comprou, porque uma fonte de segurança libanesa disse à Reuters que foi cerca de cinco meses antes, mais ou menos na mesma época dos pagers, e nenhuma das duas versões foi confirmada de forma independente (fonte) (fonte) (fonte).

Depois das explosões, a investigação tentou seguir o rastro das empresas, e cada ponta negou ter fabricado os aparelhos. A Gold Apollo disse que o AR-924 era projetado e fabricado pela BAC, e a dona da BAC, Cristiana Barsony-Arcidiacono, que aparecia como responsável pela empresa que licenciou a marca, disse à rede americana NBC que era só uma intermediária. O New York Times informou que a BAC era uma fachada montada por integrantes da inteligência israelense, com ao menos duas outras empresas de fachada ajudando a esconder o vínculo, e a Reuters disse não ter conseguido estabelecer onde os pagers foram de fato fabricados (fonte) (fonte) (fonte).

A ideia de transformar um aparelho de comunicação em bomba, vale lembrar, não era nova. Em 1996, o Shin Bet (em hebraico, שב״כ, o serviço de segurança interna de Israel) matou o fabricante de bombas do Hamas Yahya Ayyash (em árabe, يحيى عياش) com um celular carregado de explosivo, detonado por controle remoto durante a ligação semanal que ele fazia ao pai. O que mudou em 2024 foi a escala, e a análise do centro de estudos britânico RUSI classificou o ataque como inédito em tamanho e alcance (fonte) (fonte).

Em 19 de setembro, Nasrallah reconheceu em discurso que o grupo sofreu um golpe sem precedentes, chamou os ataques de declaração de guerra e prometeu punição a Israel. Na ONU, o alto comissário de direitos humanos, Volker Türk, disse em 18 de setembro que os ataques violavam o direito internacional dos direitos humanos e, no que fosse aplicável, o direito humanitário, e em 20 de setembro, no Conselho de Segurança (sobre como a ONU surgiu, já escrevemos aqui), que eles pareciam violar princípios como a distinção entre civis e combatentes, a proporcionalidade e as precauções, e que usar violência para espalhar terror entre civis é crime de guerra (fonte) (fonte) (fonte).

Um tratado da ONU de que Israel e Líbano fazem parte proíbe armadilhas na forma de objetos de aparência inofensiva feitos de propósito para conter explosivo, e a divergência entre os juristas é se os pagers se encaixam nessa regra, porque os Estados Unidos, por exemplo, leem o texto como uma proibição da produção em massa de objetos assim, e não de adaptações. Uma análise do Just Security viu base forte para concluir que Israel violou essa regra, enquanto outros estudiosos ouvidos pela NPR consideram o ataque defensável, e a aplicação dessas normas costuma ser fraca (já escrevemos sobre isso aqui) (fonte) (fonte) (fonte).

Os números de vítimas foram sendo atualizados, e em outubro de 2024 a Reuters falava em 39 mortos e mais de 3.400 feridos nos dois dias. O ex-agente Michael contou ao 60 Minutes que no dia seguinte as pessoas no Líbano tinham medo até de ligar o ar-condicionado, e que fazer o inimigo se sentir vulnerável fazia parte do objetivo. Dez dias depois dos pagers, Nasrallah foi morto num bombardeio israelense em Beirute, em 27 de setembro, Israel passou a invadir o sul do Líbano por terra, e um cessar-fogo entrou em vigor em 27 de novembro de 2024 (fonte) (fonte) (fonte).

Israel passou semanas sem comentar oficialmente a operação. Em 10 de novembro de 2024, segundo o porta-voz de Netanyahu, o primeiro-ministro disse a seus ministros que tinha autorizado a ação, apesar da oposição de autoridades de segurança. Fora isso, quase tudo vem de ex-agentes israelenses, de autoridades que pediram anonimato e de fontes libanesas, e não encontramos nenhum documento oficial que detalhe como a operação foi montada. O caso brasileiro do começo do texto segue em apuração, com as informações da reportagem do Fantástico e das investigações brasileiras (fonte) (fonte).

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