| |

Joshua Wong e a autonomia de Hong Kong

Nesta quarta-feira, 2 de setembro, Joshua Wong voltou à Alta Corte de Hong Kong e se declarou culpado de conspirar com forças estrangeiras contra a segurança nacional. Lembro de ter visto vários vídeos dele circulando no X naquela época, ainda antes da primeira prisão: um rapaz magro, de óculos, discursando em cima de grades no meio de multidões em Hong Kong. Se você não conhece a história de Wong, vou contar os detalhes aqui e aproveitar para revisitar como uma ex-colônia britânica que vivia do comércio livre se tornou o quinto maior mercado de ações do mundo, e como o mesmo governo que prometeu cinquenta anos de manutenção do sistema econômico, jurídico e social, sob um alto grau de autonomia para a cidade acabou processando, duas vezes, o rosto mais conhecido do movimento que nasceu justamente para cobrar essa promessa.

Wong tem 29 anos e é praticamente um símbolo do que aconteceu com Hong Kong nos últimos doze anos. Ele apareceu pela primeira vez em 2012, ainda estudante de colégio, liderando protestos contra um programa de educação nacional que o governo queria colocar nas escolas, e que boa parte dos pais via como doutrinação política vinda de Pequim. Em 2014 foi alçado a lider do Movimento dos Guarda-Chuvas, ocupação de mais de dois meses nas ruas centrais de Hong Kong pedindo eleição direta pro cargo de chefe do executivo da cidade. (fonte)

📲 Receba as próximas análises direto do nosso novo Canal no WhatsApp. Guerras, comércio, energia, tecnologia e poder. Novos artigos, gráficos e reflexões diretamente no canal CAVALÉRO LETTER. [Seguir no WhatsApp]

 

Dois anos depois ele fundou o partido Demosisto junto com Nathan Law, que se tornou o mais jovem legislador da história de Hong Kong. Wong passou boa parte da década seguinte entrando e saindo de prisão por causa do papel dele nesses protestos, sempre voltando às ruas assim que soltava. O jogo mudou de vez em 2019, quando o governo de Hong Kong propôs um projeto de lei permitindo extradição de suspeitos pra jurisdições sem acordo formal com a cidade, incluindo a China continental. A proposta surgiu depois que um rapaz de Hong Kong matou a namorada grávida em Taiwan e voltou pra casa, e a polícia local não tinha como extraditá-lo por falta de acordo entre os dois territórios. (fonte)

O detalhe é que a população não viu ali uma solução técnica pontual. Viu uma porta aberta pra qualquer morador ou visitante de Hong Kong acabar mandado pro sistema judicial da China continental, que não segue as mesmas garantias processuais da cidade. Em junho daquele ano cerca de um milhão de pessoas foram às ruas pedir a retirada do projeto, e a coisa só escalou dali. O governo suspendeu a proposta em poucos dias, mas os protestos não pararam, porque a pauta virou mais ampla e passou a incluir uma investigação independente sobre o uso de força pela polícia. A extradição só foi formalmente retirada em outubro, quatro meses depois do início de tudo. (fonte)

Beijing respondeu no ano seguinte impondo uma lei de segurança nacional direto de Pequim, sem passar pelo parlamento local de Hong Kong. A lei criminaliza secessão, subversão, terrorismo e conspiração com forças estrangeiras, com penas que vão de três anos até prisão perpétua. Foi essa lei que forçou o Demosisto a se dissolver no mesmo dia em que ela entrou em vigor. Em março de 2024 o parlamento local aprovou uma segunda camada de restrições, conhecida como Artigo 23, ampliando ainda mais a definição de crimes como interferência externa e espionagem. (fonte)

Nathan Law fugiu pro Reino Unido pouco depois, e a polícia de Hong Kong hoje oferece uma recompensa de um milhão de dólares de Hong Kong, o equivalente a pouco mais de 128 mil dólares americanos, pra quem der informação que leve à prisão dele. Wong ficou, e pagou o preço por isso. No primeiro dos dois processos que ele enfrentou sob essa lei, conhecido como o caso dos “47 de Hong Kong”, ele foi um dos 45 ativistas condenados por participar de uma eleição prévia não oficial em 2020, que o governo classificou como tentativa de tomar a maioria do parlamento local pra vetar orçamentos e forçar a renúncia do chefe do executivo. Wong pegou quatro anos e oito meses. (fonte)

Agora, com esse segundo processo, ele corre o risco de perder mais alguns anos de liberdade. A promotoria disse que Wong e Nathan Law combinaram, já em 2016, fazer campanha internacional pedindo sanções e outras medidas hostis contra Hong Kong e a China, incluindo um depoimento de Wong numa comissão do Congresso americano em 2019 defendendo a revisão do status especial que Washington dava à cidade. O crime prevê pena de três a dez anos, podendo chegar a prisão perpétua se for considerado de “natureza grave”, e a sentença de Wong ainda vai ser definida pelo juiz. (fonte)

Wong não é o único símbolo dessa perseguição. Jimmy Lai, fundador do jornal Apple Daily, um dos veículos mais críticos ao governo chinês na cidade, foi condenado em fevereiro desse ano a vinte anos de prisão por colusão com forças estrangeiras e publicação sediciosa, a pena mais dura já aplicada sob essa lei. Lai tem 78 anos, é cidadão britânico, e a Casa Branca já pediu formalmente a soltura dele. O Apple Daily fechou as portas em 2021, depois que o governo congelou os ativos da empresa. (fonte)

O efeito dessa lei sobre a imprensa de Hong Kong foi muito rápido. A cidade caiu de 73º lugar em 2019 pra 140º lugar no ranking de liberdade de imprensa da Repórteres Sem Fronteiras, e pelo menos oito veículos fecharam desde 2020, incluindo o próprio Apple Daily e o site Stand News. (fonte)

Hong Kong virou colônia britânica em 1842, resultado do Tratado de Nanquim que encerrou a Primeira Guerra do Ópio. A coroa foi ampliando o território aos poucos depois disso, e em 1898 arrendou os chamados Novos Territórios por 99 anos. Foi justamente a proximidade do vencimento desse arrendamento, lá pelos anos 1980, que empurrou Londres e Pequim pra mesa de negociação sobre o futuro da cidade inteira. Margaret Thatcher e o governo chinês assinaram a Declaração Conjunta Sino-Britânica em dezembro de 1984, estabelecendo que Hong Kong voltaria pra soberania chinesa em primeiro de julho de 1997, mas manteria seu próprio sistema econômico e jurídico por cinquenta anos, até 2047. Esse arranjo ficou conhecido como one country, two systems (um país, dois sistemas), e o Reino Unido assumiu o compromisso de monitorar a implementação dele através de relatórios semestrais entregues ao parlamento britânico. (fonte)

O mesmo modelo, aliás, se repetiu dois anos depois com Macau, a ex-colônia portuguesa que também virou região administrativa especial da China (já contamos essa história aqui). A diferença é que Macau nunca desenvolveu o mesmo tipo de oposição política organizada que Hong Kong teve, e hoje segue um caminho bem mais alinhado com Pequim.

Enquanto isso, a economia de Hong Kong ia se consolidando na direção oposta. A cidade virou um dos chamados Tigres Asiáticos (já explicamos essa história aqui), ao lado de Singapura, Coreia do Sul e Taiwan, um grupo de economias que saiu da pobreza pra virar potência de renda alta em poucas décadas usando abertura ao capital estrangeiro e baixa carga tributária como estratégia central. Um marco importante nessa trajetória foi 1983, ano em que o governo de Hong Kong atrelou o dólar local ao dólar americano numa taxa fixa de 7,8 pra 1, hoje flutuando numa banda entre 7,75 e 7,85. Esse sistema de câmbio vinculado segue firme até hoje e é considerado a pedra angular da estabilidade financeira da cidade, tendo resistido a crises regionais, à crise de 2008 e até aos protestos de 2019. (fonte)

Hoje Hong Kong tem um PIB de cerca de 427 bilhões de dólares, uma renda per capita entre as vinte maiores do mundo, e uma bolsa de valores que ocupa a quinta posição global em valor de mercado, sendo a primeira do mundo em captação de recursos via abertura de capital no primeiro semestre de 2025. Muita empresa chinesa de grande porte, aliás, opta por listar ações justamente em Hong Kong ao invés de Xangai ou Shenzhen, caso conhecido da BYD (já falamos sobre a empresa aqui), fabricante chinesa de carros elétricos. (fonte)

Hong Kong faz parte de uma rede bem mais ampla de praças financeiras que o Império Britânico deixou espalhadas pelo mundo depois que perdeu o controle territorial direto sobre suas colônias, rede que incluiu também as Ilhas Cayman e outros paraísos fiscais que já detalhei em outro texto aqui. Foi dentro dessa lógica de porto livre, com pouca regulação e baixa tributação, que Hong Kong construiu a reputação que carrega até hoje.

Vale perguntar, então, como o próprio morador de Hong Kong enxerga tudo isso. Uma pesquisa do Pew Research Center feita em 2023, com mais de dois mil adultos entrevistados por telefone na cidade, mostrou que 74% da população sente algum grau de apego emocional à China, e que a maioria, 53%, se identifica ao mesmo tempo como chinesa e como hongkonguesa. Só 36% se veem primariamente como hongkonguês, e essa proporção é bem mais alta entre os mais jovens e mais escolarizados. (fonte)

Também é curioso notar como Hong Kong enxerga as potências que disputam influência sobre a cidade. Na mesma pesquisa, 48% dos entrevistados veem o poder da China como uma ameaça relevante pra Hong Kong, contra 37% que dizem o mesmo dos Estados Unidos e só 17% que apontam a Rússia. Quem sente menos apego emocional à China tende a enxergar o poder chinês como ameaça bem mais que quem se identifica como chinês, o que mostra o quanto identidade e percepção de ameaça caminham juntas nessa cidade dividida. (fonte)

Outra observação que podemos fazer aqui é que até medir essa opinião pública virou um problema em Hong Kong. O Instituto de Pesquisa de Opinião Pública de Hong Kong, responsável por boa parte das pesquisas de identidade feitas na cidade desde 2019, teve a residência e o local de trabalho revistados pela polícia de segurança nacional em janeiro de 2025, e o presidente da entidade, Robert Chung, foi interrogado duas vezes sob suspeita de ajudar um ex-funcionário foragido no exterior. Semanas depois o próprio instituto anunciou que ia suspender toda pesquisa autofinanciada e cogitava até fechar as portas. (fonte)

Do lado americano, a resposta veio rápido depois da lei de 2020. Ainda em maio daquele ano o governo Trump determinou que Hong Kong não tinha mais autonomia suficiente pra justificar o tratamento diferenciado que recebia dos Estados Unidos havia décadas, e em julho assinou a Lei de Autonomia de Hong Kong, autorizando sanções contra autoridades chinesas e de Hong Kong responsáveis por minar essa autonomia. Na prática, produtos de Hong Kong deixaram de poder usar o selo Made in Hong Kong nas exportações pros Estados Unidos, tendo que adotar o mesmo Made in China usado pelo resto do país. (fonte)

Já o Reino Unido escolheu outro caminho. Em janeiro de 2021 o governo britânico lançou um visto específico pra quem tem o status de British National Overseas (nacional britânico no exterior), conhecido como visto BNO, abrindo caminho pra cidadania britânica pra um universo estimado de 5,4 milhões de pessoas em Hong Kong, entre portadores do status e seus familiares diretos. Entre 2021 e 2025 cerca de 160 mil hongkongueses efetivamente se mudaram pro Reino Unido usando essa rota, e pesquisas do próprio governo britânico mostram que dois terços deles vieram porque não se sentiam mais seguros em Hong Kong. (fonte)

Pequim e o próprio governo de Hong Kong não reconhecem esse passaporte como documento válido, e chamam o programa britânico de armadilha migratória, dizendo que quem aceitar vai virar cidadão de segunda categoria dentro do Reino Unido. Do outro lado, Washington e Londres seguem cobrando publicamente a soltura de Jimmy Lai e de outros presos políticos, sem que isso tenha mudado nada na condução dos processos até agora.

A sentença de Wong ainda não saiu, mas o histórico recente não deixa muita dúvida sobre a direção. Na minha opinião, o que mais chama atenção nessa história toda não é o quanto Hong Kong mudou desde 2019, mas o quanto ela segue sendo, ao mesmo tempo, uma das economias mais abertas do planeta e uma das cidades com menos espaço político pra discordar do governo. São as duas coisas ao mesmo tempo, e é isso que torna Hong Kong um caso tão particular dentro da geopolítica asiática.

Continue acompanhando

Se esta análise foi útil para você, receba gratuitamente novos conteúdos sobre geopolítica, economia e relações internacionais.

✓ Novos artigos publicados no blog

✓ Gráficos e infográficos

✓ Curiosidades históricas

✓ Análises sobre os principais acontecimentos internacionais

📲 Seguir CAVALÉRO LETTER

Posts Similares