Juros altos, risco “zero”, quem perde é a economia real
O Copom, comitê do Banco Central que define a taxa básica de juros da economia, cortou a Selic pela quarta vez consecutiva em agosto, levando a taxa para 14% ao ano. É uma redução, claro, mas ainda estamos falando de um nível de juros bastante elevado e considerado restritivo pelo próprio Banco Central. (fonte)
E o que isso tem a ver com a vida real? Muito. Para entender melhor como esse ambiente de juros afeta a economia, vale olhar para os dados mais recentes da Anbima e observar onde está o dinheiro dos brasileiros, especialmente dos que têm maior renda, e o que essa alocação de patrimônio mostra sobre as escolhas que o investidor está fazendo.
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A Anbima é a associação que representa as instituições do mercado financeiro e de capitais no Brasil e também atua na autorregulação de diversos segmentos. Então, quando ela fala de alocação de patrimônio, estamos falando de dados de uma parcela muito relevante da indústria de investimentos. Segundo o levantamento mais recente, o segmento de alta renda concentrou R$ 3,13 trilhões em investimentos em 2025, um crescimento de 21,2% sobre o ano anterior. No conjunto das pessoas físicas, 59% do patrimônio investido estava em renda fixa, o equivalente a R$ 5,14 trilhões. (fonte)
Um CDB pós-fixado, que é um título emitido por banco cuja remuneração acompanha um percentual do CDI, uma das principais taxas de referência do mercado financeiro e que costuma ficar muito próxima da Selic, pode oferecer hoje uma remuneração próxima dos 14% ao ano quando paga 100% do CDI. Pra entender o tamanho disso, vale comparar com a alternativa mais óbvia de quem tem dinheiro grande sobrando, que é montar um negócio. Abrir uma empresa significa apostar que vai ter demanda suficiente pro produto, pagar impostos e encargos sobre cada funcionário contratado, correr risco de ser processado por cliente, fornecedor ou ex-empregado, e ainda cobrir aluguel, fornecedor, energia e uma série de outras despesas todo mês antes de ver a primeira nota de lucro. Tudo isso pra tentar conseguir um retorno que, depois de impostos, custos e riscos, precisa superar com folga aquilo que uma aplicação financeira relativamente simples pode oferecer.
Quando os juros estão muito altos, não é só o crédito que fica mais caro. O dinheiro aplicado também passa a exigir menos esforço para gerar retorno. Se você consegue uma remuneração elevada em uma aplicação de risco relativamente baixo, qualquer investimento produtivo passa a ter uma concorrência difícil de ignorar. O empresário precisa assumir muito mais risco para tentar conseguir um retorno que seja realmente superior ao que o dinheiro poderia render aplicado.
O Banco Central liquidou o Banco Master em novembro de 2025, e o FGC, o Fundo Garantidor de Créditos que protege determinados depósitos e investimentos dentro dos limites estabelecidos, teve que honrar cerca de R$ 40,6 bilhões para aproximadamente 800 mil credores. O próprio FGC informou que esse era o valor total estimado para as garantias do conglomerado Master. Em 6 de fevereiro, já haviam sido pagos R$ 36 bilhões, o equivalente a 89% do valor total, para cerca de 628 mil credores (fonte). Já falamos do desastre do Master em detalhe aqui.
Uma observação que podemos fazer é que essa lição foi aprendida de um jeito meio enviesado. O limite de R$ 250 mil por CPF e por instituição é pequeno perto de um patrimônio de milhões, então quem tem muito dinheiro não estava de fato protegido na maior parte dele. O que ficou na cabeça do investidor não foi necessariamente o risco de crédito, mas a imagem do dinheiro voltando. A percepção de que determinados produtos de renda fixa privada eram seguros acabou saindo mais forte de um episódio que, tecnicamente, deveria ter ensinado justamente o contrário. Renda fixa não significa ausência de risco, porque existe o risco de crédito de quem emitiu aquele título. E a garantia do FGC também possui limites e regras próprias.
Com juros de 14% ao ano disponíveis em aplicações de risco relativamente baixo, o custo de ficar de fora do risco aumenta bastante. Pra que assumir o risco de uma empresa individual, com toda a volatilidade e incerteza envolvidas, se você pode deixar o dinheiro aplicado e receber uma remuneração elevada sem precisar administrar uma empresa, contratar funcionário ou descobrir se o produto que você está tentando vender vai funcionar.
O investidor pessoa física está voltando pra bolsa em número. A B3 registrou 6,45 milhões de contas de varejo em junho, o maior patamar em cinco anos, com entrada líquida de R$ 2,8 bilhões no primeiro semestre (fonte). Só que ele volta comprando uma cesta pronta, não necessariamente uma empresa escolhida a dedo. É uma mudança importante. O investidor aceita assumir algum risco, mas parece cada vez menos disposto a assumir o risco específico de uma única empresa.
Os números de longo prazo ajudam a entender por que essa cautela não é irracional. Em um estudo da Economatica que analisou os dez anos entre 2013 e 2022, o CDI acumulou 131,1% de rentabilidade, contra 80% do Ibovespa. É claro que essa comparação não representa o desempenho dos dez anos mais recentes até 2025, e também não significa que renda fixa seja melhor que ações, porque estamos falando de ativos com riscos, objetivos e características diferentes. Mas ela mostra como um ambiente de juros elevados pode criar uma competição muito forte entre o mercado financeiro e os ativos de risco. (fonte)
Na minha visão, o retrato completo é um diagnóstico do país. Quando a economia oferece ao capital financeiro uma remuneração próxima de 14% ao ano com risco relativamente baixo, a régua para qualquer investimento produtivo sobe. O empresário não precisa apenas ganhar dinheiro. Precisa ganhar mais do que poderia obter simplesmente deixando o capital aplicado.
E quando o mercado local passou por Americanas, Master e uma sequência de sustos no crédito privado, a conclusão racional de quem tem patrimônio é não tentar ser esperto.
Escolher uma ação individual exige acreditar que você entende aquela empresa melhor que o mercado. Comprar um índice é outra coisa. Você aceita o risco da bolsa, mas reduz o risco de escolher a empresa errada. E, num ambiente de juros altos, essa comodidade ganha ainda mais valor.
Se a Selic continuar caindo, esse arranjo tende a mudar aos poucos. Quando o CDB parar de pagar dois dígitos com tanta facilidade, o custo de ficar de fora do risco também cai. A dúvida real é se esse dinheiro volta pra escolha individual de ações, para empresas e novos negócios, ou se o investidor brasileiro já se acostumou com a comodidade do índice e prefere continuar deixando o mercado fazer o trabalho.
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