A Eurásia e sua geopolítica
Quem estuda relações internacionais, cedo ou tarde, esbarra numa região muito conhecida no mapa. É um bloco de terra gigantesco que vai de Portugal até o Estreito de Bering, descendo pelo Oriente Médio, passando pela Índia e terminando lá na Indonésia. Esse bloco tem nome, Eurásia, e ele é o protagonista de praticamente toda disputa de poder que move o mundo desde os impérios nômades da Antiguidade até a guerra que a Rússia trava na Ucrânia hoje.
Quem dominava esse pedaço de terra dominava o mundo conhecido, e quem ficava de fora, numa ilha ou península isolada, vivia tentando entrar nesse jogo ou se proteger dele. Essa lógica atravessou impérios mongóis, geógrafos britânicos do início do século XX, estrategistas americanos da Guerra Fria e, mais recentemente, o governo chinês construindo ferrovia atrás de ferrovia pela Ásia Central.
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As estepes
A Eurásia tem características geográficas bem interessantes. O centro do continente, da Mongólia até a Hungria, é uma faixa de pradaria aberta, sem grandes cadeias de montanhas cortando o caminho. Isso significa que, durante séculos, um cavaleiro conseguia atravessar boa parte do continente sem encontrar uma barreira natural significativa. Foi justamente essa planície que permitiu o surgimento dos impérios nômades, povos que viviam da pecuária e da guerra montada e que, de tempos em tempos, se organizavam e varriam regiões inteiras.
O caso mais espetacular é o dos mongóis. Sob Gêngis Khan e seus descendentes, eles construíram o maior império contíguo da história, algo entre 23 e 24 milhões de quilômetros quadrados, esticando do Mar do Japão até o rio Danúbio. O motor por trás dessa expansão não foi só ambição ou crueldade pura, os mongóis dependiam do controle das rotas comerciais que cruzavam a Ásia Central, e boa parte das primeiras campanhas militares teve como alvo justamente os reinos que lucravam com esse comércio (fonte).
A rota
Esse comércio tem um nome bem conhecido, a Rota da Seda. Não era uma estrada única, mas uma rede de caminhos que ligava a China à Europa desde o século II antes de Cristo, quando a dinastia Han abriu relações comerciais com o ocidente, até o século XV, quando o Império Otomano passou a boicotar o tráfego e fechar as passagens. Seda, porcelana, chá e pedras preciosas iam pro ocidente, vidro e tecidos manufaturados voltavam pro oriente, e junto com a mercadoria viajavam ideias, religiões e doenças (fonte).
Foi sob o domínio mongol, no período conhecido como Pax Mongolica (paz mongol, fase em que um único poder controlava praticamente toda a extensão da rota e garantia segurança pra quem viajava por ela), que essas rotas tiveram seu momento de maior fluidez. A questão de fundo aqui é que controlar o centro da Eurásia sempre significou controlar o fluxo de mercadoria e gente entre o ocidente e o oriente, e essa lógica vai aparecer de novo daqui a pouco, só que reformulada por geógrafos e estrategistas.
Mackinder
Em janeiro de 1904, um geógrafo britânico chamado Halford Mackinder apresentou um estudo na Royal Geographical Society de Londres que se tornaria a base da geopolítica moderna como disciplina. No texto, batizado de “The Geographical Pivot of History”, ele argumentava que o interior da Ásia e o leste europeu, justamente aquela faixa de estepe que os mongóis usaram pra cavalgar continente afora, tinham virado o centro estratégico do que ele chamou de “Ilha Mundo” (já falamos sobre isso aqui), por causa do declínio relativo do poder naval frente ao poder terrestre e do desenvolvimento econômico e industrial do sul da Sibéria (fonte).
Mackinder chamou essa região central de Heartland (coração territorial, o núcleo continental praticamente inacessível às potências marítimas) e listou cinco razões pra explicar por que quem controlasse esse núcleo controlaria o mundo. O Heartland era praticamente impossível de invadir vindo do mar, as mudanças tecnológicas estavam dando mais mobilidade às forças terrestres, a posição central garantia linhas internas de transporte mais curtas do que as de qualquer potência tentando cercar a região pela costa, os recursos naturais ali eram abundantes o suficiente pra sustentar uma das maiores produtividades do mundo, e a Eurásia, sendo o lar da maior parte da terra, da população e dos recursos do planeta, virava a plataforma natural pra qualquer projeto de hegemonia global (fonte).
A teoria foi usada e abusada ao longo do século XX. No Império Russo foi usada para expansão territorial (já falamos sobre isso aqui). Geopolíticos alemães, principalmente Karl Haushofer, pegaram essas ideias e as transformaram em justificativa pra expansão territorial alemã rumo ao leste, batizando o conceito de Lebensraum (espaço vital, o território que um povo precisaria conquistar pra garantir sua sobrevivência e seu crescimento). Esse conceito virou peça central na visão de mundo nazista e ajudou a justificar tanto a expansão militar alemã quanto a política racial do regime (fonte).
Spykman
Quase quarenta anos depois, em 1942, um cientista político holandês radicado nos Estados Unidos, Nicholas Spykman, decidiu discordar de Mackinder num ponto crucial. Pra ele, o que importava não era o núcleo continental, mas a faixa costeira que cercava esse núcleo, indo da Europa Ocidental até o Sudeste Asiático, passando pelo Oriente Médio e pela Índia. Spykman chamou essa faixa de Rimland (margem continental, a borda costeira que liga o interior eurasiano aos mares) e considerava essa região mais decisiva do que o Heartland justamente porque concentrava população densa, economia dinâmica e acesso direto às rotas marítimas (já falamos sobre o tema aqui).
Spykman morreu em 1943, antes de ver sua ideia virar política de Estado, mas foi exatamente isso que aconteceu. A doutrina de contenção que os Estados Unidos adotaram contra a União Soviética durante a Guerra Fria foi montada em cima dessa lógica, em vez de tentar dominar o Heartland soviético, que era praticamente inexpugnável, os americanos passaram a construir uma cadeia de alianças ao longo do Rimland, pra impedir que o poder soviético chegasse ao mar e ganhasse acesso às rotas globais. Boa parte dos conflitos por procuração da Guerra Fria aconteceu dentro dessa faixa costeira que Spykman tinha desenhado décadas antes, da Coreia ao Vietnã, ainda que cada um desses conflitos tivesse sua própria lógica interna além da disputa global (fonte).
Brzezinski
A Guerra Fria acabou e a União Soviética desmoronou (já falamos sobre o tema aqui), mas a lógica geográfica não foi embora junto. Em 1997, Zbigniew Brzezinski, que tinha sido conselheiro de segurança nacional do presidente Jimmy Carter, publicou um livro chamado “O Grande Tabuleiro de Xadrez” tratando a Eurásia como o tabuleiro onde se decidiria a primazia americana no século seguinte. Segundo ele, a Eurásia concentrava a maior parte da população do planeta, a maior fatia da produção econômica mundial e a maior parte das reservas conhecidas de energia, e quase todas as potências nucleares do mundo, com exceção dos Estados Unidos, estavam dentro desse território.
O argumento central era que, pela primeira vez na história, uma potência não eurasiana tinha se tornado a força dominante dentro da própria Eurásia, e essa condição era temporária por natureza, porque o peso demográfico e econômico do continente sempre acabaria superando o de qualquer potência de fora dele. Brzezinski dividia o tabuleiro em quatro regiões críticas, Europa, Rússia, Ásia Central e Leste Asiático, e defendia que a tarefa americana era impedir que qualquer uma dessas peças se unisse contra os interesses dos Estados Unidos, seja formando um bloco rival sozinha, seja se aliando a outra peça do tabuleiro (fonte).
Ucrânia
Quem quiser ver essa teoria de mais de cem anos atrás funcionando ao vivo, é só olhar pro mapa da Europa Oriental hoje. Mackinder considerava a Europa do Leste a peça chave pra quem quisesse expandir o controle sobre o Heartland, porque era ali que ficava a porta de entrada terrestre entre o núcleo eurasiano e o resto do continente. A reivindicação russa sobre o território ucraniano pode ser lida dentro dessa lógica, como tentativa de ampliar a fachada marítima e a profundidade estratégica do poder continental russo (fonte).
E o resto do tabuleiro reagiu junto. A Finlândia e a Suécia abandonaram décadas de não alinhamento militar e entraram pra OTAN depois da invasão de 2022, e quando a Finlândia se juntou à aliança, a fronteira terrestre da OTAN com a Rússia mais do que dobrou de tamanho (fonte). É a faixa costeira se fechando contra o avanço do poder continental, tal qual a teoria de Spykman já previa décadas antes.
O Cinturão e Rota
Enquanto a Rússia tenta segurar sua fatia do Heartland pela força, a China construiu sua própria versão da estratégia, só que com dinheiro e infraestrutura em vez de tanque. Em 2013, Xi Jinping lançou a Iniciativa Cinturão e Rota (Belt and Road Initiative, o pacote chinês de investimento em portos, ferrovias, rodovias, usinas de energia e telecomunicações espalhado por mais de 150 países) durante uma visita ao Cazaquistão, e o nome já entrega a inspiração, é uma referência direta às antigas rotas da seda (fonte).
Os números recentes mostram que esse projeto está longe de perder fôlego. Em 2025, o engajamento chinês através de contratos de construção e investimentos nos países do Cinturão e Rota somou 213,5 bilhões de dólares, batendo recorde histórico desde o início da iniciativa em 2013, quando o total acumulado chegou a 1,4 trilhão de dólares. A Ásia Central, justamente o velho Heartland de Mackinder, foi uma das regiões que mais cresceu em investimento chinês nesse período, com um salto de quase 375% em relação ao ano anterior (fonte).
Cada nova ferrovia que a China constrói pela Ásia Central, cada novo porto que financia no Sri Lanka ou no Paquistão, segue basicamente a mesma lógica territorial que Mackinder descreveu mais de cem anos atrás. Só os instrumentos usados pra disputar esse controle mudaram, de cavalaria pra ferrovia, e de exército pra contrato de construção.
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