GUIANA E O ESTREITO DE ORMUZ

O petróleo da Guiana e a crise no Estreito de Ormuz

A Guiana é um daqueles países que a maioria das pessoas não conseguiria localizar no mapa. Fica na costa norte da América do Sul, espremida entre a Venezuela, o Brasil e o Suriname, com menos de 800 mil habitantes e uma faixa costeira onde se concentra quase toda a população. O restante é floresta tropical densa, montanhas e comunidades indígenas espalhadas por um interior de difícil acesso. Até poucos anos atrás, era o quarto país mais pobre das Américas, atrás apenas do Haiti, do Suriname e da Nicarágua. E agora, de repente, é o país que mais cresce no planeta.

Colônia, independência e divisão

A história da Guiana é uma história colonial clássica. O território passou pelas mãos dos holandeses, dos franceses e finalmente dos britânicos, que unificaram a colônia em 1831 como Guiana Britânica. A economia durante todo o período colonial girou em torno de plantações que dependiam de trabalho escravo. Depois da abolição em 1833, as plantações passaram a importar trabalhadores contratados da Índia, que foram substituindo a mão de obra africana. Essa dinâmica criou a divisão étnica que marca o país até hoje, com cerca de 40% da população de descendência indiana e 30% de descendência africana.

A independência veio em maio de 1966, com Forbes Burnham no comando. Burnham era um advogado formado em Londres que tinha cofundado o Partido Progressista do Povo junto com Cheddi Jagan nos anos 1950, mas os dois romperam rapidamente. Jagan puxava o voto indo-guianense, Burnham puxava o voto afro-guianense, e a política guianense se cristalizou nessa divisão.

Burnham governou por duas décadas. Nos anos 1970, virou à esquerda, declarou a Guiana uma “república cooperativa”, nacionalizou minas de bauxita e plantações de açúcar, e se aproximou de Cuba e da União Soviética. O resultado foi previsível. As políticas de nacionalização levaram à estagnação nos anos 1980, com o país incapaz de exportar açúcar, bauxita e arroz em quantidades suficientes pra gerar as divisas necessárias. Burnham morreu em 1985, no cargo, durante uma cirurgia. A Guiana ficou pobre, dividida e sem perspectiva clara de futuro.

No final dos anos 1980, seu sucessor Hugh Desmond Hoyte começou a liberalizar a economia. Em 1992, o PPP de Jagan venceu as primeiras eleições livres e justas desde a independência. A democracia voltou, mas a economia continuava frágil, baseada em açúcar, arroz, mineração de ouro e pouca coisa mais. Quase metade da população vivia abaixo da linha de pobreza, e uma parcela significativa dos guianenses com diploma simplesmente emigrava.

A descoberta

Em 2008, a ExxonMobil iniciou atividades de exploração na costa guianense, coletando dados sísmicos. Um detalhe curioso é que a Shell, parceira original da Exxon no bloco Stabroek, vendeu sua participação de 50% para a Exxon por apenas um dólar em 2014. A Shell achou que não valia o risco. A Exxon precisou de novos sócios e encontrou a Hess Corporation e a CNOOC, da China. Os três apostaram juntos.

Em maio de 2015, a ExxonMobil anunciou a descoberta do poço Liza-1, com mais de 90 metros de reservatórios de arenito de alta qualidade, a cerca de 200 quilômetros da costa. Foi considerada uma das maiores descobertas de petróleo da década. As estimativas iniciais falavam em 700 milhões de barris. Parecia muito. Acabou sendo só o começo.

Depois de Liza vieram Payara, Snoek, Turbot, Ranger, e a lista foi crescendo. Até o final de 2025, o bloco Stabroek acumulava 51 notificações de descoberta, com reservas recuperáveis estimadas em 11,6 bilhões de barris. Pra dar uma dimensão, isso é mais do que as reservas do Kuwait ou dos Emirados Árabes.

A produção comercial começou em dezembro de 2019 com o primeiro navio-plataforma, o Liza Destiny. De 120 mil barris por dia em 2020, a produção saltou para cerca de 900 mil barris por dia no final de 2025, com a entrada do quarto navio-plataforma, o One Guyana. A projeção é chegar a 1,7 milhão de barris por dia até 2030. Se isso se confirmar, a Guiana será o segundo maior produtor de petróleo da América do Sul, atrás apenas do Brasil.

Aqui a gente precisa entender um ponto que gera muita polêmica dentro e fora da Guiana. O contrato assinado com a ExxonMobil em 2016 é amplamente considerado desfavorável ao país.

A Guiana recebeu apenas US$ 18 milhões como bônus de assinatura, enquanto o Brasil, pra reservas de menor porte, recebeu US$ 2,1 bilhões. O royalty ficou em 2%, contra uma média de 12,5% na indústria global. A mecânica funciona assim. A operadora pode recuperar até 75% das receitas mensais com custos de operação e investimento. O que sobra, que é o chamado “profit oil”, é dividido 50/50 entre a empresa e o governo. Na prática, o governo fica com 12,5% do total mais o royalty de 2%.

O contrato foi assinado em sigilo pelo então ministro Raphael Trotman, num contexto em que a Guiana não tinha praticamente nenhuma experiência com petróleo e vivia sob pressão territorial da Venezuela. O documento só veio a público no final de 2017, depois de meses de pressão da sociedade civil e da imprensa. O IEEFA classificou o contrato como unilateral, argumentando que o país fica exposto tanto a riscos financeiros quanto ambientais por causa de cláusulas fracas de fiscalização.

Pra se ter uma noção concreta do que isso significa em dinheiro, com um royalty de 10% em 2023, a Guiana teria recebido US$ 1,1 bilhão. Com os 2% do contrato atual, recebeu US$ 228 milhões. O governo já elaborou um novo modelo de contrato com royalty de 10% e tributação corporativa, mas esses novos termos não se aplicam ao bloco Stabroek, onde acontece toda a produção atual. A cláusula de estabilidade do contrato de 2016 impede qualquer alteração unilateral.

O paradoxo socioeconômico

Agora, os números. É aqui que a história da Guiana fica realmente intrigante, porque os indicadores macro e a vida real da população parecem contar histórias diferentes.

Segundo o FMI, a Guiana registrou o maior crescimento real de PIB do mundo, com média de 47% ao ano desde 2022. O PIB per capita saiu de cerca de US$ 7.000 em 2020 para algo próximo de US$ 30.000 em 2024. Em termos per capita, a Guiana ultrapassou o Uruguai e se tornou o país mais rico da América do Sul por essa métrica. As receitas de petróleo saltaram de US$ 1,62 bilhão em 2023 para US$ 2,57 bilhões em 2024. O Fundo de Recursos Naturais acumulou mais de US$ 3,1 bilhões até o final de 2024.

O crescimento não ficou restrito ao petróleo. O PIB não-petrolífero cresceu mais de 13% em 2024, puxado por construção, varejo, serviços e agricultura. A inflação ficou em 2,9%. O IDH subiu de 0,742 em 2022 para 0,776 em 2023, ficando acima da média mundial. No relatório de 2025 do PNUD, a Guiana saltou 33 posições no ranking global, o maior avanço entre todos os países.

Só que a outra face dos dados é bem menos animadora. Segundo o Banco Interamericano de Desenvolvimento, cerca de 58% dos guianenses vivem em situação de pobreza, com renda inferior a US$ 6,85 por dia, e 32% vivem em pobreza extrema. Esse número é contestado por alguns economistas, que argumentam que se baseia em modelos regionais com dados defasados. O problema é que os dados oficiais de pesquisa domiciliar da Guiana não são atualizados desde 2021, então o impacto real do petróleo sobre o padrão de vida simplesmente não é mensurável com precisão.

O que ninguém contesta é que a distribuição é muito desigual. Mais de dois terços dos extremamente pobres vivem em áreas rurais, longe da atividade econômica concentrada em Georgetown e ao longo da costa. O interior do país continua com acesso limitado a saúde, educação e serviços essenciais. A pobreza se concentra especialmente entre as comunidades indígenas do interior, que têm acesso restrito a oportunidades econômicas e serviços públicos.

Essa situação alimenta o debate sobre a chamada “maldição dos recursos”, um conceito que surgiu quando a Holanda descobriu gás natural nos anos 1950 e viu outros setores da economia encolherem por causa da valorização da moeda. Analistas apontam a Venezuela vizinha como o exemplo mais extremo desse problema, e observam que a Guiana ainda não tem capacidade institucional pra replicar o modelo norueguês, que é sempre citado como caso de sucesso. A própria Venezuela, com as maiores reservas de petróleo do mundo, é uma história de como riqueza natural pode se transformar em colapso quando as instituições falham.

O Estreito de Ormuz

E aí a gente chega ao momento atual. Em 28 de fevereiro de 2026, os Estados Unidos e Israel lançaram ataques aéreos contra o Irã, atingindo alvos militares e governamentais. O Irã retaliou com ataques a bases americanas no Golfo e, de forma crítica, fechou o Estreito de Ormuz ao tráfego comercial.

Pra quem não acompanha geopolítica energética, o Estreito de Ormuz é provavelmente o ponto mais sensível do mapa do petróleo mundial. Cerca de 20 milhões de barris de petróleo por dia e um quinto do comércio global de gás natural liquefeito passavam por esse canal estreito entre o Irã e a Península Arábica. O fechamento é o tipo de cenário que analistas de energia consideravam catastrófico há décadas, e que finalmente aconteceu.

O Brent subiu de pouco mais de US$ 60 para acima de US$ 70 na semana anterior ao ataque, e depois disparou quando o Irã ameaçou o tráfego naval. O petróleo chegou a US$ 120 o barril nos primeiros dias e alguns analistas previram que poderia alcançar US$ 150 se a interrupção se prolongasse.

E é exatamente nesse cenário que a Guiana emerge como peça estratégica. Segundo o Atlantic Council, a crise está criando novas oportunidades para produtores de energia no Hemisfério Ocidental, incluindo Estados Unidos, Canadá, Brasil e Guiana, para expandir produção e atrair investimentos. A América Latina já era projetada como a principal fonte de crescimento da oferta não-OPEP em 2026, com potencial de 700 a 800 mil barris adicionais por dia, vindos principalmente de Brasil, Guiana e Argentina.

O petróleo guianense tem uma combinação de vantagens que poucos produtores conseguem oferecer neste momento. O custo de equilíbrio médio é de US$ 36 por barril, com projetos como o Liza 2 chegando a apenas US$ 25. Isso significa que a operação continua lucrativa mesmo em cenários de queda de preço. E talvez o mais importante agora. A produção fica no Atlântico, longe de qualquer instabilidade no Oriente Médio, que é exatamente o que os compradores europeus buscaram depois da invasão da Ucrânia e que agora buscam novamente.

O CSIS observou que o mercado já antecipava um excedente global de oferta em 2026, sustentado pela produção segura das Américas, incluindo a Guiana. Com o Ormuz comprometido, essa oferta do Atlântico deixa de ser apenas uma alternativa e passa a ser essencial.


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