Trotsky

Afinal, quem foi Trotsky?

Sempre me intrigou como um homem nascido numa pequena fazenda ucraniana em 1879 conseguiu deixar um legado tão controverso e durável que, mais de oitenta anos após seu assassinato, ainda provoca debates acalorados na esquerda mundial. Leon Trotsky — ou Lev Davidovich Bronstein, seu nome verdadeiro — foi muitas coisas: revolucionário, teórico marxista, escritor brilhante, organizador militar, perseguido político. Mas acima de tudo, foi um homem que acreditou até o fim que a revolução não conhece fronteiras.

Trotsky tinha apenas 26 anos quando formulou sua teoria mais ousada: a revolução permanente. Depois de participar da malograda revolução russa de 1905 (ja escrevemos sobre aqui), ele chegou a uma conclusão que contrariava a ortodoxia marxista da época. Países atrasados como a Rússia não precisariam esperar o desenvolvimento completo do capitalismo para fazer a revolução socialista. A burguesia desses países era historicamente fraca, incapaz de completar suas próprias tarefas democráticas. Caberia ao proletariado, aliado ao campesinato, tomar o poder e conduzir tanto a revolução democrática quanto a socialista num processo ininterrupto — permanente.

Em 1917, essa teoria deixou de ser especulação. Trotsky retornou à Rússia em meio ao caos revolucionário e rapidamente se tornou presidente do Soviete de Petrogrado. Ao lado de Lenin — com quem havia tido divergências no passado —, planejou e executou a tomada do Palácio de Inverno em outubro. Não foi um golpe conspiratório, mas uma insurreição meticulosamente organizada que transferiu o poder aos sovietes.

O que veio depois testaria sua capacidade de passar da teoria à ação. Como Comissário de Guerra, Trotsky criou o Exército Vermelho praticamente do zero. Percorria o país num trem blindado legendário, equipado com tipografia, biblioteca e até uma banda musical. Dali, coordenava operações militares, resolvia problemas logísticos e usava seu talento oratório para elevar o moral das tropas. Sob sua liderança, o Exército Vermelho derrotou os brancos na brutal guerra civil que durou até 1921.

A disputa que mudou o socialismo

Joseph Stalin e Leon Trotsky carregam o caixão de Felix Dzerzhinsky. 22 de julho de 1926

A morte de Lenin em 1924 marcou o início do fim para Trotsky. Stalin, que ele subestimara como um burocrata medíocre, consolidou o poder através do controle do aparato partidário. A disputa entre os dois não era apenas pessoal — representava visões opostas sobre o futuro da revolução.

Trotsky defendia o internacionalismo revolucionário. Para ele, a revolução russa só sobreviveria se se espalhasse pela Europa, especialmente pela Alemanha industrializada. Um país socialista isolado estaria vulnerável ao cerco capitalista e à degeneração interna. Stalin, mais pragmático ou oportunista (dependendo da perspectiva), proclamou a doutrina do “socialismo num só país”. A União Soviética deveria se fortalecer internamente antes de exportar a revolução.

Era também um embate entre democratização e burocratização. Trotsky criticava violentamente o stalinismo em obras como “A Revolução Traída” (1936), descrevendo a União Soviética como um Estado operário degenerado, onde uma camada burocrática havia usurpado o poder da classe trabalhadora. Stalin respondia com purgas, calúnias e, eventualmente, assassinatos.

A derrota foi esmagadora. Expulso do partido em 1927, deportado da União Soviética em 1929, Trotsky iniciou uma década de exílio que o levou pela Turquia, França, Noruega, até encontrar refúgio no México em 1937, hospedado inicialmente por Diego Rivera e Frida Kahlo. Mas o braço de Stalin era longo.

Em 20 de agosto de 1940, Ramon Mercader — um agente espanhol da polícia secreta soviética que havia se infiltrado no círculo de Trotsky através de uma relação amorosa com uma de suas colaboradoras — cravou uma picareta de gelo na cabeça do revolucionário. O golpe não o matou instantaneamente. Trotsky ainda teve forças para lutar com seu assassino antes que seus seguranças interviessem. Morreu no dia seguinte, aos 60 anos, após dizer que Stalin havia finalmente conseguido o que tentara várias vezes.

Mas Trotsky deixou mais que memórias. Deixou uma obra intelectual formidável. “A História da Revolução Russa” permanece como um dos grandes clássicos da historiografia marxista — uma narrativa épica escrita por alguém que foi protagonista dos eventos que narra. “Minha Vida”, sua autobiografia, é simultaneamente documento histórico e reflexão política. “Literatura e Revolução” mostra sua sofisticação como crítico cultural.

O trotskismo no Brasil

1918: Leon Trotsky participa de um desfile na Praça Vermelha, em Moscou, enquanto Lênin revisa suas tropas.

Tem algo curioso nisso tudo: como essas ideias atravessaram o oceano e fincaram raízes no Brasil. O trotskismo brasileiro tem uma tradição que remonta aos anos finais da década de 1920, passando por cinco gerações distintas.

A primeira geração incluiu Mário Pedrosa — que fundou a Liga Comunista Internacionalista em 1931 após ser expulso do PCB — junto com Aristides Lobo e Livio Xavier. Pedrosa participou da fundação da Quarta Internacional em 1938, a organização que Trotsky criou para se contrapor à Internacional Comunista stalinizada.

A segunda geração, nos anos 1940, foi a de Hermínio Sacchetta, que rompeu com o PCB e fundou o Partido Socialista Revolucionário. E foi Sacchetta quem ajudou a formar o jovem Florestan Fernandes, que militou no PSR e traduziu textos de Marx a pedido da organização. A influência trotskista em Florestan é profunda, mesmo que nem sempre explícita. Sua análise do desenvolvimento capitalista brasileiro — com suas contradições entre arcaico e moderno, sua dependência do imperialismo — bebeu diretamente na teoria do desenvolvimento desigual e combinado de Trotsky.

A quarta geração, no final dos anos 1960, foi crucial: gerou as maiores organizações trotskistas do país e teve papel importante na fundação da CUT e do PT. Correntes como Convergência Socialista, O Trabalho e Democracia Socialista entraram no PT praticando o “entrismo” — a tática de trabalhar dentro de partidos de massas para disputar sua orientação política.

O trotskismo na esquerda brasileira atual é um fenômeno ao mesmo tempo vigoroso e fragmentado. O PSTU, fundado em 1994 após a ruptura da Convergência Socialista com o PT, é a maior seção da Liga Internacional dos Trabalhadores – Quarta Internacional. Reivindica explicitamente o legado de Trotsky e de Nahuel Moreno, dirigente argentino que atualizou o trotskismo para a América Latina.

O PSOL, criado em 2004 por dissidentes petistas, abriga várias correntes trotskistas com diferentes interpretações e estratégias. O Movimento Esquerda Socialista, a Resistência (fusão do MAIS com a Nova Organização Socialista), entre outros, debatem ferozmente entre si sobre qual seria a aplicação correta do trotskismo no século XXI.

A ironia aqui é gritante: essas organizações defendem a unidade da classe trabalhadora mas são incapazes de unificar-se entre si. Divergem sobre tudo — desde a caracterização da natureza de classe do PT até a tática eleitoral correta, passando pela avaliação do governo Lula. Alguns chamam isso de sectarismo; outros defendem como necessária clareza programática.

O que une todos esses grupos? A crença de que a revolução democrática nos países dependentes não pode ser completada pela burguesia nacional. Que o capitalismo periférico é estruturalmente incapaz de resolver as questões nacionais básicas. Que apenas a classe trabalhadora, aliada ao campesinato e setores populares urbanos, pode levar adiante tanto as tarefas democráticas quanto as socialistas. É a revolução permanente aplicada ao Brasil do século XXI.

No fim das contas, vejo em Trotsky um pensador que se recusou a aceitar que a história tivesse terminado — nem com a vitória da revolução russa, nem com sua derrota sob Stalin. Sua insistência de que a revolução precisava ser permanente não era otimismo ingênuo, mas compreensão materialista de que numa economia mundial integrada, o socialismo não poderia sobreviver isolado em fronteiras nacionais.

Seu legado na esquerda brasileira é contraditório. Por um lado, influenciou alguns dos nossos maiores intelectuais — de Florestan Fernandes a Michael Löwy — e mantém organizações ativas na base do movimento sindical e estudantil. Por outro, a fragmentação do trotskismo em múltiplas seitas que mal se falam entre si levanta questões sobre se o problema está na aplicação das ideias ou nas próprias ideias.

Mas talvez essa seja justamente a essência do trotskismo: a recusa em acomodar-se, em fazer as pazes com o mundo como ele é. Para o bem e para o mal, os trotskistas brasileiros carregam essa herança de inconformismo permanente. Continuam sendo a mosca no ouvido da esquerda, lembrando que reformas não bastam, que a revolução não se completa em meias medidas, que o internacionalismo não é slogan vazio.

Oitenta e cinco anos depois de seu assassinato, Trotsky permanece uma figura inquietante. Nem santo revolucionário, nem vilão sectário — um homem brilhante e falível que tentou impedir que uma revolução fosse enterrada junto com seus erros. Sua picareta de gelo está num museu de espionagem em Washington, mas o debate sobre suas ideias segue vivo na esquerda mundial, inclusive aqui, nos nossos trópicos periféricos.

Mais detalhes: Leon Trótski – Wikipédia / Leon Trótski / Teoria da revolução permanente – Wikipédia / A Revolução Permanente (Editora Expressão Popular, 2007) / Trotsky e a revolução permanente – Organização Comunista Internacionalista / Trotskismo no Brasil – Wikipédia / PSOL, PSTU, PCO e MRT: Expressões Decadentes do Revisionismo Trotskista / Florestan Fernandes e o trotskismo – Blog da Boitempo / 75 anos depois, Trotsky vive no Brasil – IHU / DO MOVIMENTO OPERÁRIO PARA A UNIVERSIDADE: León Trotsky e os estudos sobre o populismo brasileiro / O materialismo histórico como ciência revolucionária: Florestan Fernandes e o marxismo no pós-Revolução burguesa no Brasil / Sylvia Ageloff e o Assassinato de Leon Trotsky – Site do World Socialist / January 11, 1928: Joseph Stalin Exiles Leon Trotsky to Siberia | The Nation